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O Bairro teatral continuava a expandir-se do ponto de vista urbano e a sua consolidação era agora mais evidente. Havia mais oferta e mais espaços teatrais especializados em determinadas tipologias de espectáculos. Observando a actividade de cada teatro e o timing na estreia de determinada companhia ou das peças de maior sucesso, dá-nos a entender que os agentes do Bairro teatral (sobretudo os empresários) haviam chegado a um saudável acordo de não prejudicar a actividade de terceiros, deixando transparecer a ideia de que cada teatro tinha o seu papel de acção muito bem definido. E com este pacto de “não-agressão”, florescia e crescia o todo que era o Bairro.

Para retratar a sua expansão em termos urbanos, não é demais sublinhar a importância fulcral dos desenvolvimentos tecnológicos na urbe, os quais trouxeram a modernização aos transportes e comunicações no virar do século XIX. Dos periódicos

65 Algumas peças careciam de tradução e eram representadas, sobretudo no que toca às zarzuelas, na sua língua de origem. Daí a razão de surgirem títulos ora em português, ora em castelhano.

66 Apresentava-se novamente neste teatro a 5 de Maio de 1877, com o drama Maria Stuart. (O Comércio

155 da época retiramos as novas designações dos arruamentos levados a cabo e o ponto da situação em finais da década de 70 do século XIX:

A nova rua desde o Bomjardim á rua Formoza – Rua do Sá da Bandeira – por ser continuação d’esta. A rua transversal que deve entroncar com a Sá da Bandeira, communicando com a de Santa Catharina – Rua de Passos Manoel [esta última que albergará, na primeira metade do século XX, o Teatro-Cinema Olímpia e o Salão- Jardim Passos Manuel, futuro Coliseu do Porto]. (O Comércio do Porto, 7.04.1877, p. 2)

Proseguem, ainda que morosamente, os trabalhos para a abertura das novas ruas Mouzinho da Silveira e Sá da Bandeira. (…) Na rua de Sá da Bandeira já se construem predios. (…) Na rua que dá do Sá da Bandeira segue para a de Santa Catharina e que tem de denominar-se de Passos Manoel, ainda se não encetaram os trabalhos. (O Comércio do Porto, 18.08.1877, p. 2)

O Teatro do Príncipe Real adquire uma nova presença no seio do Bairro teatral, através da sua nova fachada virada para a Rua Sá da Bandeira. O Teatro Baquet apresenta igualmente uma fachada virada para a citada rua, apesar de o seu cartão-de- visita continuar a ser a que deita para a Rua de Santo António.

É com esta nova definição espacial que arranca a temporada teatral 1877-1878. O Teatro Baquet é a primeira casa de espectáculos a fazê-lo, apresentando, como o havia feito em anos anteriores, mais zarzuelas, sendo agora explorado pela empresa de A. Portugal & C.ª (O Comércio do Porto, 9.09.1877, p. 3). Seria esta empresa a trazer, em inícios de Novembro, a companhia italiana «da célebre actriz» Giacintha Pezzana, que faria o seu debute no dia 6 com o drama A Dama das Camélias (O Comércio do

Porto, 6.11.1877, p. 3) e ofuscaria por completo, no decorrer da sua carreira, a

reabertura do Teatro de S. João.

Reabria o Teatro do Príncipe Real com a Companhia Dramática Espanhola de Carolina Civili, «que se acha n’esta cidade de passagem para Valencia». (O Comércio

do Porto, 11.09.1877, p. 2) Da récita inaugural, a 13 de Setembro, constava a tragédia Pia de Tolomey ou a castidade de uma esposa, demorando-se a companhia pouco

tempo pelo Bairro teatral. Daria sequência programática a esta casa de espectáculos a «companhia italiana de opera comica» (O Comércio do Porto, 27.10.1877, p. 3) de Maurice Pucinini, estreando-se a 3 de Novembro com a comédia Um tigre de bengala (O Comércio do Porto, 5.11.1877, p. 2). No final de 1877, regressam os habituais espectáculos equestres, pela mão do empresário Rafael Diaz:

156 Para o bojo do circo [Teatro do Príncipe Real], enorme como um amphiteatro romano, precipitam-se successivas caudaes de espectadores ruidosos e pullulantes de alegria e animação, como se as gentilezas acrobaticas, a plastica das amazonas e o – Horn pipe – sapateado pela bem contornada Ida resumissem para os portuenses a suprema expressão do ideal artistico. (O Comércio do Porto, 8.01.1878, p. 1)

Por fim, inaugurava-se a temporada lírica de 1877-1878 no Teatro de S. João, através da nova empresa subsidiada A. Lana e Cª., da qual era gerente Eduardo Viana. A nova companhia estreava-se no palco do primeiro teatro da cidade a 10 de Novembro, com a ópera Fausto de Gounod. O seu arranque traduziu-se em concorrências diminutas e demonstrações tempestivas por parte do público que oscilavam entre o desagrado e a frieza, segundo consta, devido à mediocridade do elenco e ao sucesso obtido pela companhia italiana da artista Pezzana, que se encontrava a representar no Teatro do Príncipe Real. Este desagrado por parte do público levava a que a empresa mudasse constantemente a ópera em cartaz, numa autêntica roleta russa até que surgisse alguma que apaziguasse os seus habituées:

Na scena lyrica succedem-se as operas com phrenesi; o theatro de S. João está sendo uma especie de Saturno, que devora os filhos logo à nascença; a assignatura voa com rapidez vertiginosa, de modo que n’este andamento estará terminada antes do fim de Janeiro. (…) Praza aos céus que este movimento precipitoso não se accelere em progressivo crescendo e vá também invadir os dominios sagrados da musica, transformando os andantes em allegros e os allegros en vivace. (O Comércio do Porto, 8.01.1878, p. 1)

O ambiente no Teatro de S. João, nos inícios de 1878, continuaria igualmente tempestuoso, sendo a sua empresária, Lana, altamente contestada:

Contra toda a espectativa a empreza d’este theatro resolveu e a authoridade consentiu que fosse novamente posta em scena a opera «Somnambula», que (…) tivera na primeira noute (…) desempenho igual, senão inferior ao que lhe poderia dar a somenos companhia de zarzuela, fazendo por isso fiasco. O resultado d’isto foi levantar-se toda a plateia (…) protestando energica mas dignamente contra esta desarrozada imposição (…).» (O Comércio do Porto, 25.01.1878, p. 2)

A plateia do teatro terminaria por ser invadida «por uma força de municipaes com ordem de fazer uma razzia completa nos descontentes (…).» De forma a serenar os ânimos, um representante da empresa viria a palco anunciar que a récita não seria «deduzida» da assinatura e que aquelles que «tivessem pago á porta a sua entrada», ser- lhes-ia restituída a quantia do bilhete (O Comércio do Porto, 25.01.1878, p. 2).

As relações entre empresários, público e companhias são complexas e assentam numa permanente negociação. No caso do Teatro de S. João as fontes dão conta de um grau de exigência por parte do público que se explica pelo valor simbólico deste Teatro,

157 pela sua missão e obrigações. Como já atrás referido, mesmo carecendo o Teatro de condições económicas para se assumir plenamente como uma casa de ópera por excelência, à imagem do Teatro S. Carlos de Lisboa, o público não deixaria de exigir um teatro capaz de acompanhar o crescimento e o progresso da cidade. Vivia-se num tempo em que havia um crescente acesso à informação e os habituées do Teatro de S. João tinham conhecimento do que se passava por essa europa fora, nos grandes templos líricos, por onde circulavam as grandes companhias e as vedetas que todos queriam ver e ouvir. E é claro que desejavam essa ambiência ao seu teatro. É também óbvio que a falta de qualidade e a mediocridade recorrentemente oriunda das vozes que vinham do palco, motivava a revolta, por muito que se tentasse justificar a extrema dificuldade que era explorar o Teatro sem que o empresário arrendatário tivesse alguma riqueza para investir. E mais depois de vividas gloriosas noites na companhia de artistas como Ristori que, sem dúvida, elevaram a fasquia e mostraram ser possível grandes noites de ópera ao Teatro de S. João.

Se nos deslocarmos agora para o eixo da Rua de Santo António vemos que a realidade era outra. Para além do sucesso já mencionado arrecadado pelo Teatro do Príncipe Real, a companhia do Teatro Baquet continuava na sua senda de êxitos, desta vez graças ao apreciado drama O obstáculo, traduzida do francês por Borges de Avellar, que, segundo os cronistas, agradou por se tratar de uma peça ligada à «eschola realista», sendo mais um drama «que se propõe combater esse cancro, chamado adulterio, que tão fundo tem lavrado no corpo social» (O Comércio do Porto, 29.01.1878, p. 1). Encontramos desta forma expressa a vontade de que o teatro fosse uma força moralizadora no seio da sociedade. Apelavam ainda estes cronistas a uma maior formação dos principais agentes da cena dramática: os actores. Apesar do êxito do drama, consideravam o elenco da companhia do Teatro Baquet incapaz de desempenhos ao mesmo nível dos «titans da scena», sugerindo que era preferível «que as composições dramaticas exhibidas na scena portuense se amoldassem aos recursos dos nossos actores». Não ficando por aqui, ainda lançam uns galhardetes, referindo que «para fitar o sol é preciso ter o olhar penetrante da aguia, e mais vale pisar a terra com passo seguro do que remontar ás regiões ethereas da arte em azar de Icaro, que se derretem aos raios solares» (O Comércio do Porto, 29.01.1878, p. 1). De novo se percebe a enorme importância do discurso dos críticos e cronistas neste final do século que vão ao ponto de fazer o diagnóstico e sugerir o remédio para a reforma do nosso

158 teatro. Esta companhia, sob alçada do empresário e actor António Portugal, terminaria a partilhar o palco do Teatro Baquet com a companhia de opereta dirigida por G. Marchand.

Após descermos, voltamos a subir a Rua de Santo António para desembocarmos novamente na Praça da Batalha, regressando ao S. João. Como recompensa pela pobre temporada lírica, anunciava-se para o Teatro de S. João a vinda da companhia de opereta italiana da primeira-dama Maria Frigerio, proveniente de uma série de representações auspiciosas dadas nos teatros de Lisboa (O Comércio do Porto, 20.02.1878, p. 2). Porém, acabou por se estrear a 10 de Março no Teatro do Príncipe Real. Foi, de facto, nesta casa de espectáculos que encetou uma longa carreira, graças à soberba direcção de Achille Lupi. No primeiro espectáculo foi a cena a «opera buffa»

Madame L’arciduc, com música de Offenbach e libretto do francês Albert Millaud (O Comércio do Porto, 9.03.1878, p. 3).

Viajando para o outro lado da cidade (Ocidental), e de forma a ter também uma percepção do que acontecia fora do Bairro teatral, no Teatro das Variedades gerava-se grande expectativa à medida que se prolongavam os dias dedicados à montagem da maquinaria e cenografia da mágica a estrear nesta sala de espectáculos – tipologia cada vez mais apreciada pelo público popular – intitulada O rapé da bruxa Marta, adaptada à cena portuguesa por Augusto Garraio e ornada com música do já nosso conhecido Alves Rente. Apesar das expectativas, a sua estreia, a 11 de Abril de 1878, ficaria marcada por uma série de acontecimentos infelizes:

Não ha perigo maior para o bom acolhimento de uma peça do que um desempenho incerto e irregular e esse perigo duplica ainda mais quando o mise-en-scène, dependendo do melhor effeito de visualidades e transformações, ou está incompleto ou corre de um modo pouco preciso.» (O Comércio do Porto, 13.04.1878, p. 1)

Falava-se em precipitação em relação ao momento da estreia da mágica, visto que a empresa, na vontade de estrear a peça o mais cedo possível, numa clara intenção de começar a gerar lucros, poupou-se a ensaios, originando uma total «atrapalhação» na condução do maquinismo, fulcral neste tipo de espectáculos. Apesar deste episódio menos feliz (e da enchente que se verificou), augurava-se que quando «o mise-en-scène esteja completo e que o machinismo e o desempenho corram com a regularidade necessaria, a magica compense por meio da concorrencia do publico os sacrificios feitos pela empreza para a pôr em scena» (O Comércio do Porto, 13.04.1878, p. 1) E assim se

159 verificou, poucos dias mais tarde, a boa aceitação por parte do seu público-alvo, «sendo por isso applaudidos os artistas e algumas das principaes transformações» (O Comércio

do Porto, 16.04.1878, p. 2).

Continuando o nosso périplo de espectadores virtuais e descendo a Rua dos Clérigos até à Praça D. Pedro e subindo novamente a Rua de Santo António até à Praça da Batalha, eis que nos deparamos com a inactividade ao Teatro de S. João em plena época de Verão, quando era habitual esta casa de espectáculos receber companhias lisboetas em itinerância. A razão, que também havia arredado a companhia de Maria Frigerio para o Teatro do Príncipe Real, prendia-se com a execução de alguns restauros neste teatro, já que se considerava que o mesmo apresentava condições cénicas “decadentes” que prejudicavam o desempenho e atractivo das peças ali representadas (O

Comércio do Porto, 11.09.1878, p. 1).

Mas nem tudo eram más notícias no coração do Bairro teatral. Anunciava-se a vinda da conhecida trágica Adelaide Ristori, trazendo a companhia na sua bagagem, além de um repertório já festejado no Porto, «scenas pintadas por eximios scenographos, bem como um excellente guarda-roupa e costumieri de Roma, Florença, Napoles, Veneza e Pariz» (O Comércio do Porto, 20.09.1878, p. 2). Por outro lado, a agora sempre imprevisível temporada lírica mostrava sinais de vida, quando se constata que alguns «cavalheiros d’esta cidade trabalham activamente para que se não passe a presente epocha sem haver companhia lyrica» (O Comércio do Porto, 21.09.1878, p. 2). Obras terminadas, o Teatro parecia pronto para um novo fôlego, ainda que ele se devesse à intervenção da própria sociedade selecta que o frequentava.

De facto, chegara-se à frente como empresário da companhia António Reparaz. Mas entre o avanço e o retrocesso da organização da companhia lírica neste ano de 1878-1879, o Teatro do Príncipe Real não perde tempo em lançar a nova época de Inverno, passando a ser a casa de espectáculos que maior dinâmica apresentará no Bairro teatral. A companhia de Polla & C.ª mostrava-se no seu palco, apresentando comédias e dramas que atraíam grande afluência a esta casa de espectáculos, destacando-se, no seu repertório, o drama de Pinheiro Chagas, Os dramas do povo. Joaquim de Almeida, Luísa Mendes, Galvão (contratado à companhia do Teatro da Trindade de Lisboa) ou o próprio César Polla proporcionavam brilhantismo ao

160 desempenho das peças levadas a cena, para regozijo do público (ainda mais) ávido de teatro, por tê-lo o Teatro de S. João privado de espectáculos na época de Verão.

Na mesma artéria afluente à Praça da Batalha, na Rua de Santo António, reabria e iniciava a sua temporada teatral o Teatro Baquet. A peça escolhida viria a colher frutos e seria incansavelmente repetida ao longo do presente ano (e seguintes), por “ordem” do público que dela disfrutava. Era a mágica O espelho da verdade, adaptação67 do então também ensaiador da companhia que a apresentou (Empresa Dramática Portuense), Augusto Garraio, com cenografia de Guilherme de Lima e guarda-roupa de Freitas & Azevedo. A primeira representação foi a 13 de Outubro de 1878 e, no que toca à afluência, nem ficaram vagos «os recantos da orchestra» (O

Comércio do Porto, 15.10.1878, p. 1). Quer o drama do Teatro Príncipe Real, quer a

mágica do Teatro Baquet, captariam as atenções do público portuense.

A actual ephoca theatral auspicia-se afortunadamente para as emprezas dos theatros do Porto. Todas tem tido concorrencia e conseguintemente boas receitas. (O Comércio do Porto, 5.11.1878, p. 1)

Tanto o Teatro Baquet como o Teatro do Príncipe Real começariam a apresentar mais mágicas em cartaz, visto esta tipologia de espectáculos – pelo seu deslumbre visual – ajudar a captar (ainda mais) um público popular cada vez mais numeroso e, por consequência, rentável do ponto de vista económico. A forma descomplexada como ambos teatros assumiam uma programação eclética (e juntando tal facto ao manifesto espírito de concorrência saudável entre os dois), fazia com que a sua sobrevivência ao seio do Bairro teatral fosse dada como adquirida.

Só faltava o Teatro de S. João juntar-se ao fervilhar teatral de finais de 1878. A responsabilidade do atraso devia-se à abertura tardia do concurso de atribuição de subsídio à companhia lírica, e consequente atribuição. Na ausência da companhia lírica apresentava-se, conforme anunciado, a Companhia Dramática de Adelaide Ristori, estreando-se com a tragédia Medeia a 16 de Novembro, na primeira de oito récitas (O

Comércio do Porto, 17.11.1878, p. 1). Apesar de celebrada e tendo convocado ao

Teatro de S. João saudosas enchentes, tal como na última vez que esteve no Porto, «há dezoito annos», era consensual que «os annos não teem passado incolumes» para Ristori e que apesar de se tratar de uma, digamos, “estrela em declínio”, não era razão para deixar de dizer que «o seu brilho ainda ofusca e seduz» (O Comércio do Porto,

67

161 19.11.1878, p. 1). Boa aceitação mas sem o impacto que presenciáramos outrora. A companhia haveria de seguir para Coimbra onde apresentaria algumas récitas. Mas, a título de conclusão, devemos mencionar que este leve desinteresse na presença de Ristori no Porto se devia ao proclamado “carácter convencional” da própria tragédia. O comentário seguinte espelha bem o conhecimento das modernas tendências do drama moderno, com o realismo-naturalismo a invadir os palcos europeus e a criar expectativas, se não no público portuense, pelo menos no cronista informado:

A litteratura, o theatro moderno transformam-se, estão passando por uma phase de evolução, e a arte scenica ha-de necessariamente acompanhar este movimento evolucionario. A tragedia já se não accomoda ao gosto litterario moderno; vasando-se em moldes especiaes, aspira ao sobrenatural, tende a agigantar a estatura humana, a endeusar os simples mortaes: o ideal moderno, pelo contrário, é a interpretação da verdade natural. Por isso a tragedia é um genero gasto, que tende a desapparecer do theatro moderno e da esphera da intellectualidade contemporanea. (O Comércio do Porto, 24.11.1878, p. 1)

Subsequentemente, estreava-se no palco do Teatro de S. João, a 21 de Dezembro, a companhia lírica anunciada, com a ópera de Meyerbeer Roberto do Diabo. Porém, e já entrados no ano de 1879, as atenções do espectador encontravam-se ainda viradas para os teatros da rua de Santo António. No Teatro Baquet, após o êxito obtido com a peça O espelho da verdade, que viria, mais tarde, a ser reposta, dá seguimento a mágica O gato preto68. As enchentes seriam completas, frequentando o teatro sobretudo um público mais popular, que se deliciava com esta tipologia de espectáculos, onde despontavam actores como Gama, Firmino, Emília Eduarda ou Amélia Garraio:

Ha vistosa mise-en-scene, transformações agradaveis, ditos picarescos que provocam constante hilaridade, typos burlescos que alegram, musica constante, trocadilhos bem feitos, elegancia e apparato de vestuários, emfim tudo o que necessita uma magica para attrahir a attenção e regosijar os espectadores. (…) a magica (…) mostra tornar-se uma mina inexhaurivel de interesses para a empreza, que bem digna é do favor do publico (…). (O Comércio do Porto, 25.01.1879, p. 2)

No Teatro do Príncipe Real, repetia-se noites a fio o drama de César de Lacerda O

botão de âncora. Esta aparente estabilidade teatral vê-se, subitamente, abalada devido a

vários factores, como veremos no ponto seguinte.

68 Tradução de Augusto Garraio e Borges de Avellar, com música do ensaiador da peça António Canedo e guarda-roupa de José Pinto dos Santos.

162 3. A crise teatral de 1879

A crise que se abateu sobre os teatros do Porto era uma realidade que já vinha desde a extinção do primitivo Teatro da Trindade (e que nela teve, porventura, a sua máxima expressão). O problema era recorrente: a dificuldade de autofinanciamento dos proprietários dos teatros e das empresas que os arrendavam. As dificuldades alastravam- se a todos os teatros, num ritmo de contágio que até aqui não se havia verificado. Apesar de se observarem alguns sinais já antes de 1879, como a dificuldade do Teatro de S. João, mesmo subsidiado, em contratar uma companhia lírica capaz de assegurar uma (decente) temporada lírica ou a interrupção na actividade do tão prometedor Teatro das Variedades, a verdade é que a crise teatral, ou seja, dos teatros, começa a atingir picos preocupantes para a dinâmica cultural da cidade no ano com que intitulamos este ponto.

Assim, e apesar do êxito de bilheteira que se observava no Teatro Baquet, a sua empresa arrendatária, Polla & C.ª, declara falência a meados de Fevereiro de 1879 (O

Comércio do Porto, 20.02.1879, p. 2). As razões para tal não são claras. Vinham-se

apresentando mágicas, mas essas não podiam certamente ter a mesma qualidade das que eram apresentadas, por exemplo, no Teatro das Variedades. O custo derivado do maquinismo ou dos cenários para ditas peças pode ter afectado fatalmente o orçamento da empresa. Por outro lado, para apresentar operetas de sucesso como a empresa vinha fazendo, é preciso investir em músicos e cantores de renome. Tudo junto pode ter provocado a falência da empresa. São questões muito pertinentes que se levantam e certamente que a contabilidade das empresas é um estudo que deve ser feito num futuro, que em muito irá clarificar este e outros casos, no que toca à sua gestão financeira.