5.2 Intervjuer med politikere og uttalelser i media
5.2.1 Det sekulære fellesrom versus kristen kulturarv
Antes de narrar e analisar a vinda da afamada artista Sarah Bernhardt ao Porto, convém contextualizá-la, percebendo o que ia acontecendo pelo Bairro teatral.
No Teatro do Príncipe Real começara a triunfar a opereta A mascote74, com sucessivas enchentes, graças ao trabalho desenvolvido pelo seu ensaiador musical e director de orquestra Alves Rente, e ao primoroso desempenho do seu elenco de artistas, que contava nas suas fileiras com nomes como Gama, Foito, Tomásia Veloso, Firmino, Amélia Garraio e Aurélia Santos. Destaque ainda para o belíssimo guarda-roupa, que fez suspirar as damas presentes, da autoria de José Pinto dos Santos, «cuja pericia foi mais uma vez provada» (O Comércio do Porto, 30.10.1881, p. 2). De facto, este triunfo seria o espelho da temporada teatral desta casa de espectáculos: repleta de deliciosas operetas traduzidas em contínuas enchentes.
Encontravam-se fortemente activos, na temporada de 1881-1882, o Teatro das Variedades, o Teatro do Príncipe Real e, ainda que com pouco destaque por parte da imprensa, o popular Teatro da Trindade, que juntamente com o das Variedades, gastavam os últimos cartuchos antes do seu eminente desaparecimento. Apenas o Teatro Baquet se encontrava fechado devido a um «crescido numero de importantes melhoramentos» que se encontrava em curso, apresentando-se brevemente «ao publico quasi completamente transformado» (O Comércio do Porto, 15.11.1881, p. 2). A estreia deste teria lugar a 19 de Novembro com a companhia dramática sob a direcção da actriz Emília Adelaide Pimentel, levando a cena o drama O vida de um rapaz pobre75.
Resultou destes melhoramentos ao Teatro Baquet a inauguração da nova entrada que dava para a Rua Sá da Bandeira, obra sob a direcção de Vaz de Lima. Ainda que devendo-se a um requisito das vistorias feitas ao teatro, servindo sobretudo de prevenção em caso de incêndio, o facto de se ter inaugurado a nova fachada para a Rua
74 Letra de Henri Chivot e Alfred Duru; música de Edmond Audran; tradução de Borges de Avellar. 75 A partir da obra Le roman d'un jeune homme pauvre de Octave Feuillet, tradução de Joaquim José Anaia.
179 Sá da Bandeira quase ao mesmo tempo que o Teatro do Príncipe Real o fez, demonstra igualmente uma clara resposta ao melhoramento imposto por este último, de forma a captar, da mesma forma, o movimento de pessoas que se fazia notar nesta artéria cada vez mais importante no tecido urbano do Bairro teatral. O embelezamento interior por parte do já citado Vaz de Lima e dos cenógrafos Lambertini e Lima, também terá sido uma tentativa de ombrear com o seu teatro vizinho (O Comércio do Porto, 15.11.1881, p. 2).
No Teatro de S. João, pouco mais do que esporádicos concertos musicais. Completamente desprovido do lírico na presente temporada, o destaque foi para a presença de personalidades como os pianistas Alexandre Rey Colaço e a alemã Sophie Menter, a virtuosa aluna de Franz Liszt. O fim do interregno lírico-teatral parecia dar-se no mês de Abril de 1882, altura em que a companhia lírica de D. Juan Molina se propunha a apresentar, no Teatro de S. João, um total de 20 récitas (O Comércio do
Porto, 29.03.1882, p. 3):
Parece achar-se resolvida a vinda a esta cidade de uma companhia lyrica italiana, que actualmente funcciona na Corunha (…). Esta noticia deve encher de satisfação todos aquelles que amando a boa musica, se viram privados esta epocha de tão distincto passatempo. (O Comércio do Porto, 1.04.1882, p. 2)
Porém, e tendo como possível base de justificação a experiência do passado, o conselho fiscal e a empresa não chegariam a um acordo sobre a apresentação da dita companhia, «visto que [esta] não offerecia perspectiva de resultado compensador» (O Comércio do
Porto, 16.04.1882, p. 1). E assim, uma vez mais, o Teatro de S. João ficou de portas
fechadas.
O ano de 1882, que ficou marcado pela presença de Sarah Bernhardt no Porto, ficaria igualmente pela já citada extinção dos teatros populares da cidade, nomeadamente, Trindade e Variedades, no mês de Março, «por não apresentarem as condições de solidez necessarias para casas d’aquella ordem» (O Comércio do Porto, 1.04.1882, p. 2).
E é neste quadro que se anuncia a vinda ao Porto da célebre actriz Sarah Bernhardt, que constituiria um dos maiores acontecimentos teatrais até a época. A sua passagem por esta cidade limitar-se-ia a duas récitas, partindo a artista de imediato para Lisboa. Notícias desse tempo relatavam que cobraria por esta fugaz estadia «3:450$000
180 réis, dando-se-lhe passagem e hospedagem em hoteis de primeira ordem, bem como a quanto pessoal a acompanha» (O Comércio do Porto, 18.04.1882, p. 1).
O entusiasmo pela vinda da distinta artista transborda dos relatos dos cronistas da época e a sua chegada ao Porto só poderia ser comparada à entrada triunfal de um rei que, em vez de arcos triunfais ou estruturas de arte efémera, mobilizou uma multidão de admiradores. Foi o seu percurso marcado pelo frenesim e curiosidade da multidão que a ela se juntou e a acompanhou desde a chegada a esta cidade até onde ficaria hospedada. E como qualquer entrada triunfal, não podemos esquecer os figurinos. A «grande heroina da scena» trazia consigo uma reputação, arrojo e pomposidade que a caracterizava, sobretudo no que respeita as suas sedutoras toilettes, «cada qual mais rica», «verdadeiras obras primas (…) que causaram grande admiração nas damas» que frequentaram as suas récitas em Madrid (O Comércio do Porto, 19.04.1882, p. 2) e que aguçavam ainda mais a curiosidade enquanto a actriz se demorava no Teatro do Ginásio (O Comércio do Porto, 20.04.1882, p. 2).
Sarah Bernhardt chegaria ao Porto no dia 22 de Abril de 1882, encontrando-se à sua espera, na gare de Campanhã, o ensaiador e director de cena da companhia dramática do Teatro do Príncipe Real, Augusto Garraio. A actriz, sem grande perda de tempo, representaria no mesmo dia da sua chegada, encontrando-se já preparado um forte dispositivo policial disposto pelas ruas que afluíam ao teatro com o intuito de evitar a «agglomeração de povo e conservar livre o transito». No que respeita ao teatro, os cuidados foram outros: o camarim de Sarah Bernhardt, bem como todo o teatro, encontravam-se já profusamente decorados com o máximo cuidado e elegância, em honra da virtuosa artista. Por outro lado, no dia anterior, à porta da tabacaria Freitas & Azevedo (à rua dos Clérigos), onde regularmente se vendiam bilhetes para os espectáculos do Teatro do Príncipe Real, «houve (…) um formigueiro de contractadores offerecendo bilhetes», assemelhando-se o estabelecimento à «porta d’um theatro em dia de beneficio» (O Comércio do Porto, 22.04.1882, p. 2).
Voltando atrás, aquando da chegada da actriz ao Porto, esperava-a na gare de Campanhã Augusto Garraio, como já foi anteriormente referido, bem como toda a companhia dramática do Teatro do Príncipe Real e um «grandíssimo numero de pessoas, entre as quaes se viam alguns homens de lettras, professores de musica e pintura, estudantes dos cursos superiores, a comissão dos festejos do centenario do
181 marquez de Pombal, Real Sociedade de Amadores Luz e Caridade, representantes de todos os jornaes, etc.». Sarah Bernhardt deslocar-se-ia até ao Grande Hotel do Porto num landeau, seguido pelo elenco da companhia dramática em outros trens. Pelas ruas «a multidão acotovellava-se, curiosa de vêr de perto a artista» e «em quasi todas as janellas dos predios (…) viam-se muitas senhoras» imbuídas num legítimo fascínio por toda a beleza e pomposidade que envolvia a figura da célebre actriz (O Comércio do
Porto, 23.04.1882, p. 1).
À noite, num Teatro do Príncipe Real em plena erupção, os lugares foram preenchidos por completo quando ainda faltavam algumas horas para o início do espectáculo. Perante um público “distinto” e não propriamente aquele que «mais frequenta os nossos theatros habituados á declamação franceza», a actriz impressionou na peça A Dama das Camélias, pela sua «esplendida voz harmoniosa que percorre todas as gradações», pelo «olhar vivíssimo» e «jogo de phisionomias com que prende quem a contempla». Obviamente, ao longo do desempenho da peça, as toilettes causaram grande assombro e deleite sobretudo nas damas que suspiravam desde os camarotes. O seu desempenho em palco foi estrondoso, ofuscando o resto da companhia sobre a qual, consideravam os relatos da época, «não há [nada] que mencionar» (O Comércio do
Porto, 23.04.1882, p. 1). A noite era de Sarah Bernhardt e podemos considerar que o dia
22 de Abril de 1882 foi um marco não só no panorama teatral portuense, mas igualmente memorável na história da cidade, pela forma como a presença da artista se transformou num verdadeiro movimento cívico em torno da mesma, onde, em autêntica procissão, todas as classes sociais participaram. Pessoas de todo o lado, inclusive da “província”, estiveram presentes no Porto «para assistirem ao espectaculo, ou para verem simplesmente a artista, que ha-de ser a sorte de muitos» (O Comércio do Porto, 22.04.1882, p. 2).
Na noite seguinte, em segunda e última récita, representou-se a comédia (ou ”peça familiar”, como foi designada pela imprensa da época) de Meilhac e Ludovic Halévy intitulada Frou-Frou que, apesar de não ter tido a mesma recepção «intensa» da primeira récita (porventura porque «a acção não tenha o poder de profunda impressionalidade» como a peça de Dumas), ditou uma majestosa afluência do público, celebrando a actriz e tendo-a chamado «cinco vezes no terceiro acto, tres no quarto e para cima de dez (…) no fim da peça.» Partiria no dia seguinte, na tarde de 24 de Abril, no expresso que partia da gare de Campanhã, tendo sido acompanhada, desde o hotel até
182 esta estação, por «alguns cavalheiros e representantes da empreza do [teatro] Príncipe Real» (O Comércio do Porto, 25.04.1882, p. 1).
Arriscaríamos dizer que, por esta altura, nem uma visita da família real a esta cidade arrastaria a multidão que a artista atraiu dentro e fora do teatro. E isso representa bem a importância que o teatro tinha na vida da população portuense, transversal a todas as camadas sociais. Por outro lado, a vinda de Sarah Bernhardt ao Porto simbolizava a inclusão da cidade na rota das grandes companhias (e vedetas) internacionais – a diva era, metaforicamente, a modernidade que chegava à cidade, colocando esta a par do que acontecia por esse mundo fora. Havia, de facto, uma sensação de globalidade. Havia também de fazer crer à artista em causa que valia a pena, do ponto de vista financeiro, colocar o Porto como uma das paragens no plano da sua digressão internacional. Devia de ser, portanto, uma cidade de tradições teatrais. Essa reputação foi sendo ganha com o passar dos anos mas é claro que se incrementou com a construção da rede que era o Bairro teatral. A forma como as instituições teatrais do Bairro se uniram, fez com que se desse origem a uma conjuntura propícia para o desenvolvimento do gosto pela arte do teatro e, como tal, fazendo com que o Porto se tornasse numa cidade muito teatreira.