Essa empresa desenvolve um sistema de treinamento permanente, condenando os seus adeptos à visibilidade intensa, exigindo deles uma presença constante aos seus eventos. Aqueles que não acompanham os seus shows são marginalizados, e essa exclusão é uma das suas formas de punição que a necessidade de valorização e reconhecimento
humano não suporta. Ciente disso, a empresa a utiliza com freqüência, e abusa de premiação e punição pública. Premia os que batem as metas ou cumprem as retiradas obrigatórias que desovam os produtos da distribuidora e recheiam o bolso dos presidentes, os seus proprietários. Para que todos possam alcançar as metas a empresa utiliza-se de treinamentos diferenciados por “status”, fechados para os profissionais dos “status” inferiores. Cada “status” exige uma meta a ser cumprida e de acordo com os valores que excedem a meta, ocorrem as premiações, e os bônus com exaltação pública nos eventos. Os que não atingem a meta perdem o status adquirido, caem para o status anterior e são apontados publicamente como punição, mecanismo já estudado por PROSS (1980:84).
Essa estratégia não ignora que os adeptos na tentativa de atender as suas necessidades, e as expectativas da empresa confundem os seus valores com os corporativos. Nesse processo de adaptação sofrem muitas modificações físicas e mentais, e transformados para atendê-la, e o que sobra deles mesmos nem sempre é a sanidade. A ausência de sanidade é observada nas representações dos papéis dos vendedores e na forma como abordam os clientes. Analisando essa abordagem pode-se lembrar de BAUDRILLARD (2002) quando diz que “toda comunicação humana denuncia o seu autor”. Essa denúncia é onto e filogenética, e disso não há como fugir. De acordo com o autor: “o humano é prisioneiro da espiral comunicativa; pois essa é uma armadilha que denuncia a todos, sem dela ter como escapar” (BAUDRILLARD apud SFEZ, 1994: 13-75). Ele afirma ainda que as ações humanas reforçam essa armadilha de tal maneira que “quando os homens comunicam é como se eles se afundassem em areia movediça, pois, nessa comunicação reinam representações ou delírios”. Essas manifestações estão presentes na comunicação dos vendedores da empresa analisada que ao tentarem vender um produto para emagrecer, querem fazer crer ao seu interlocutor que ele não está comprando apenas um corpo magro e saudável, e sim a felicidade e a riqueza, pois através do programa é isso que alcançarão. Eles se consideram enviados para solucionar os problemas das pessoas que abordam levando-lhes a auto-estima. Acreditam que a sua missão não é vender, mas levar saúde, felicidade e riqueza para as pessoas através dos produtos.
Esse delírio que reina na comunicação toma conta dos vendedores que são vítimas cerceadas pela espiral de Ananke25 e Cronos26 que espremem os seus corpos nas angústias e necessidades do tempo organizacional. Esse tempo determina as urgências das atividades a serem cumpridas, e na empresa analisada são os prazos para se alcançar as metas exorbitantes. Nela todos são ameaçados pela foice do tempo27 do destino e da morte de Cronos. Ao adentrar o espaço corporativo - panóptica estratégia arquitetônica - as pessoas são jogadas sob holofotes e são vistas, vigiadas e cobradas dia e noite. Essa empresa exige dos adeptos a visibilidade dos seus corpos imagéticos, considerados ideais, e os condena a representarem e a cumprirem indefinidamente o cronograma corporativo enquanto vão perdendo os seus corpos para a corporação. Como afirma Kamper, quanto mais visibilidade menos propriocepção, e sem os corpos nada mais lhes resta senão a loucura.
Esse estado de loucura pode ser observado na atitude entusiasmada durante a abordagem dos vendedores. Quando eles abordam os custos do programa emagrecedor eles desconsideram que muitas vezes o seu valor ultrapassa o valor dos salários de muitos dos abordados, e fazem-no como se isso fosse irrelevante. Eles insistem valendo-se de um discurso que faz parecer fácil e natural conseguir mais dinheiro. Quando se deparam com maiores resistências apresentam para os abordados todas as soluções para resolver os problemas de suas vidas. A primeira delas é que podem rapidamente, não apenas perder peso, mas também enriquecer tornando-se um consumidor adepto ao sistema. E essa sugestão é feita com a mesma naturalidade que usam quando abordam a mudança de hábitos. A mudança radical dos hábitos alimentares é a arma do programa para que as pessoas consigam emagrecer rapidamente podendo perder até três quilos por semana. Para isso as pessoas devem usar os produtos e se absterem de duas refeições regulares durante o dia, o café da manhã e o jantar. Eles discursam possuídos de tamanha convicção que fazem parecer fácil a mudança de hábitos através de um passe de mágica do dia para a noite.
25 Ananke é a deusa da obrigação, aquela que governa o ser e cria para ele a necessidade. Ela era casada com Cronos, uma grande
serpente, e com ele formava uma grande e inseparável espiral que envolvia todo o universo segundo a mitologia grega (HILMAN, 1997).
26 O Deus grego Cronos, é conhecido como o senhor do tempo, da morte e do destino. Cronos é pai de Zeus e filho de Urano e Gea. E
segundo a mitologia grega ela presenteou o filho com uma foice para castrar o pai (HILMAN, 1997).
A atitude e o discurso dos vendedores denunciam que a empresa, também pressionada pela velocidade do avanço da modernidade atual, vem imprimindo em seus adeptos pressões cada vez maiores. E essas não incidem somente sobre os corpos corporativos que se submetem, mas também sobre a sua forma de ver o mundo e nele atuar. Essa submissão provoca desgastes físicos e desajustes mentais. No entanto essa situação não é recente, ela remonta a um passado remoto. Desde a origem do trabalho os antigos residentes do panopticon28 sempre foram vítimas de Ananke. Ao longo da história da
humanidade os filhos de Ananke vêem sendo apontados nos relatos da loucura. Esses são compostos dos mais diversos casos de corpos que se perderam submetidas aos padrões e as pressões tanto corporativas quanto sociais.