3.2 Data collection
3.2.1 Participant observation
Euclides construiu seu cabedal de conhecimentos com a indisciplina e a voracidade dos autodidatas, e nunca soube estabelecer critérios razoáveis para julgar a qualidade dos diferentes autores com os quais entrou em contato Desta forma, enquanto enaltece um secundário e hoje esquecido Mach, chamando-o de lúcido e genial define Kant, já no final de sua vida, como um Aristóteles estragado e Espinosa como um sujeito que arranjou artes
de ser doido com regra e método, pondo a alucinação em silogismos170. As influências sofridas por Euclides são de diversas procedências, indo das mais
evidentes, como Gumplowicz e Ratzel, a literatos como Renan, de quem Carelli salienta citações quase textuais, comparando um trecho do Marco Aurélio onde se lê: O assunto
único das profecias frigianas era o próximo julgamento de deus, a punição dos perseguidores, a destruição do mundo profano, o reino dos mil anos e suas delícias a um
trecho de Os Sertões no qual, referindo-se ao Conselheiro, Euclides escreve: Como vemos,
as profecias tinham, na boca do sertanejo, o mesmo tom daquelas que, nascidas na Frígia, iam para o Ocidente. Elas anunciavam todos os julgamentos de Deus, a infelicidade dos poderosos, o esmagamento do mundo profano, o reino de mil anos de delícias171. Trata-se _____________________________________________________________________ 170- CUNHA, Euclides da. Correspondência Op. Cit., p.406
171- CARELLI, Mário. Culturas cruzadas: intercâmbios culturais entre França e Brasil. Campinas, Papirus, 1994, p.157.8
de uma influência percebida, ainda, por Mercadante, para quem Euclides aproxima-se de
Renan, com quem aprenderia a não tornar-se dogmático, abolindo as determinantes constantes no processo histórico e percebendo a atuação dos líderes nos acontecimentos172.
A importância do herói no desenvolvimento histórico- da personalidade carismática, enfim- segue uma linha contrária ao determinismo oriundo de Buckle- das extravagâncias
geniais de Buckle173 - e baseia-se em Renan, mas, também, em Carlyle, criando uma linha de pensamento que torna-se contraditória no conjunto de sua obra. Como assinala Galvão, mencionando as linhas básicas que fundamentam o referencial teórico de Os sertões:
A primeira linha é nitidamente determinista, vinda da Inglaterra com Buckle e da
França com Taine, ambos de extraordinária influência no Brasil da passagem do século...A segunda linha vem da visão dos heróis segundo Carlyle, justificados por este autor enquanto encarnações do espírito divino que levam a história avante: o que se acomoda mal com o ideário positivista, anticlerical e até anti-religioso de Euclides174.
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172- MERCADANTE, Paulo. Militares e civis: a ética e o compromisso. Rio de Janeiro, Zahar, 1978, p.183 173- CUNHA, Euclides da. Os sertões. Op. Cit., p.5
174- GALVÃO, Walnice Nogueira. Euclides, elite modernizadora e enquadramento. In: CUNHA, Euclides da- Textos escolhidos- ( Org. ) Walnice Nogueira Galvão. São Paulo, Ática, 1984, p.36
Outros comentaristas sublinham outras influências, definindo-as como determinantes: segundo Moura, por exemplo, a obra de Euclides da Cunha reflete nos na sua construção e nas suas conclusões a influência do evolucionismo spenceriano175.
Seu ponto de partida na análise da questão racial é o pensamento de Gumplowicz, e daí deriva seu pessimismo perante o impacto da mestiçagem sobre o brasileiro. Euclides menciona-o, ressaltando sua lucidez surpreendedora, e conclui:
Seguindo paralelamente o pensamento do escritor germânico, que entretanto, ao
delineá-lo, não cogitava do Brasil, podemos caracterizar o nosso movimento evolutivo como um resultado de raças heterogêneas que se acham num equilíbrio mais um menos estável, obtido de compromissos políticos, determinando uma superposição de classes que se erige na ordem política como- a seleção natural de raças176 .
E o próprio Euclides assume enfaticamente a influência de Gumplowicz:
Sou um discípulo de Gumplowicz, aparadas todas as arestas duras daquele
ferocíssimo gênio saxônico. E admitindo com ele a expansão irresistível do círculo singenético dos povos, é bastante consoladora a idéia de que a absorção final se
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175- Cf. MOURA, Clóvis. Introdução ao pensamento de Euclides da Cunha. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1964, p.32
realize menos à custa da brutalidade guerreira do “Centauro que com as patas escarvou o chão medieval” do que à custa da energia acumulada e do excesso de vida do povo destinado à conquista democrática da terra177 .
Esta é, de fato, uma influência decisiva, e buscarmos uma compreensão, mesmo que sumária, do pensamento de Gumplowicz ajuda-nos a entendermos melhor o próprio Euclides; para entender aquele, contudo, é necessário contextualizá-lo.
Hannah Arendt define o racismo como a fuga para a irresponsabilidade desprovida de
qualquer aspecto humano178. O racismo não pode, contudo, ser definido, como o fez a autora, como uma corrente subterrânea. Tem uma longa história da qual o anti-semitismo, quer como sentimento, quer como concepção, é uma ilustração precisa e está presente em diversos autores e épocas.
Longe, assim, de ser meramente uma corrente subterrânea, o racismo está presente, também, em autores canônicos como Montesquieu, Hegel e Comte. Hegel, acentua White, via na miscigenação uma degeneração e uma corrupção das espécies179 e, para ele, o negro
representa o homem natural em toda a sua selvageria...cumpre fazer abstração de todo o respeito e de toda moralidade se quisermos compreendê-lo; não se pode encontrar nada em seu caráter que lembre o homem180.
_____________________________________________________________________ 177- CUNHA, Euclides da. Correspondência Op. Cit., p.151
178- ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo, Companhia das Letras, 1990, p.238
179- WHITE, Hayden. Meta-História: a imaginação histórica do século XIX. São Paulo, EDUSP, 1992, p.96 180- HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio: 1830. São Paulo, Loyola, 1997, v.III, p.55
Schopenhauer define a qualidade moral de um povo primitivo como sendo resultante da ausência de miscigenação. Para ele, um tal povo isolado surgiu de uma única família, e
assim tem o mesmo ancestral, que era justamente um homem bom, e não se miscigenou181. Nietzsche sugere serem os negros menos sensíveis à dor182 e define a feiura como sendo muitas vezes o sinal duma evolução entravada, pelo cruzamento, ou então o sinal duma
evolução descendente183.
Em Stuart Mill, o racismo surge como justificativa do imperialismo. Segundo ele, para
tratar com bárbaros o despotismo constitui forma legítima de governo, contanto que a meta seja melhorá-los e os meios justificados pela real efetivação daquele objetivo184. Para Comte, mesmo a elite da raça negra e a parte menos avançada da raça branca ainda permanecem imersas no estado teológico185. Montesquieu recusa a possibilidade de Deus ter introduzido uma alma boa em um corpo completamente negro186 e, em nosso século, Mauss opera uma perigosa aproximação entre eugenia e sociologia ao colocar que nesta
não só o problema da confecção de uma raça, mas o problema mais nobre da formação de uma nação, de sua constituição moral e física, se colocam lá de maneira consciente e são tratados de um modo que se pretende racional 187, assim como Max Scheler caminha na mesma direção ao alertar para os riscos da mestiçagem: Uma conciliação entre os povos _____________________________________________________________________ 181- SCHOPENHAUER, Arthur. Parerga e paralipomena. São Paulo, Abril Cultural, 1988, p.208 182- NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A genealogia da moral. Moraes, São Paulo, 1985, p.37 183- NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Crepúsculo dos ídolos. São Paulo, Ediouro, s.d., p.32 184- MILL, John Stuart. Da liberdade. São Paulo, IBRASA, 1963, p.13
185- COMTE, Auguste. Discurso sobre o espírito positivo. São Paulo, Abril Cultural, 1983, p.44 186- MONTESQUIEU. Do espírito das leis. São Paulo, Abril Cultural, 1973, p.223
brancos e os de cor virá necessariamente. Mas ela pode realizar-se de uma forma boa ou ruim: com a mistura de sangue adequado, que se complementa produzindo valores superiores de acordo com experiências científicas, ou então com a mistura de sangue inadequado, que leva à diminuição do valor da espécie188.
Um autor como Marx recusa qualquer alteridade colocada em termos biológicos e transforma o outro configurado na figura do selvagem no outro encarnado na figura do proletário, um outro imbuído agora de uma missão revolucionária189. A dualidade civilizado- selvagem com a condenação pesando sobre o segundo e a função transformadora sendo desempenhada pelo primeiro é substituída pela dualidade burguês- operário, sendo que o primeiro passa a ser o elemento fadado ao desaparecimento, embora ainda tenha uma função civilizadora a cumprir em sociedades como, por exemplo, a hindu, onde Marx a define como indispensável190.
O inegável eurocentrismo de Marx não é, contudo, de fundo racial, decorrendo, antes, de sua concepção histórica. Para ele, a indústria moderna nunca encara nem trata a forma
existente de um processo de produção como definitiva. Sua base técnica é, por isso, revolucionária, enquanto a de todos os modos de produção anteriores era essencialmente conservadora191. Agente da revolução, ela torna-se indispensável instrumento civilizador. É _____________________________________________________________________ 188- SCHELER, Max. Visão filosófica do mundo. São Paulo, Perspectiva, 1971, p.111
189- MAZZOLENI, Gilberto. O planeta cultural: para uma ideologia histórica. São Paulo, EDUSP, 1992, p.55
190- MARX, Karl. O Capital. São Paulo, Abril Cultural, 1984, v. I, t. II, p.89
191- MARX, Karl. Futuros resultados do domínio britânico na India. In: MARX, Karl &ENGELS, Friedrich. Obras escolhidas. São Paulo, Alfa-Ômega, s.d., v. II, p.292.7
neste contexto que Engels coloca a questão: Acaso o troglodita com a sua caverna, o
australiano com o seu casebre de adobe ou o índio com a sua casa própria farão jamais uma Insurreição de Junho ou uma Comuna de Paris? 192 E é o próprio Engels responde, ao analisar a ação dos anarquistas na Espanha: A Espanha é um país tão atrasado quem do
ponto de vista industrial que nem sequer é possível falar de uma emancipação imediata da classe operária. Antes de se poder chegar a isso, a Espanha tem que atravessar um desenvolvimento de várias fases e que superar uma série de obstáculos193.
Evans- Pritchard lembra a tendência dos viajantes europeus em contato com as nações africanas em anotar preferencialmente o que seria capaz de criar impacto enquanto curioso, rude e sensacional194. Trata-se de usar o que é excêntrico como justificativa para o exercício do domínio paternal. Trata-se, também, da incapacidade de apreender concepções diferentes a partir de sua mera tradução para concepções já estabelecidas: para os missionários europeus no Brasil, os indígenas estavam situados aquém do paganismo, na medida em que a dimensão religiosa parecia faltar completamente à sua cultura195. Mesmo o relativismo cultural, quando conduzido de forma acrítica, torna-se uma forma de paternalismo: por serem diferentes ( inferiores ? ), as sociedades primitivas podem adotar qualquer tipo de comportamento.
_____________________________________________________________________ 192- ENGELS, Friedrich. Contribuição ao problema da habitação. In: MARX, Karl & ENGELS, Friedrich.
Obras escolhidas. São Paulo, Alfa-Ômega, s.d. , v. II, p.122
193- ENGELS, Friedrich. Os bakuninistas em ação. In: MARX/ENGELS/LENIN. Escritos militares. São Paulo, Global, 1981, p.131
194- EVANS- PRITCHARD, E.E.. Antropologia social da religião. Rio de Janeiro, Campus, 1978, p.20 195- CLASTRES, Hélène. Terra sem mal. São Paulo, Brasiliense, 1978, p.21
As concepções racistas apresentam uma circularidade que Lévi- Strauss soube apontar. O pecado original da antropologia, para Lévi- Straus foi confundir a noção puramente biológica de raça ( e mesmo a este conceito ele nega qualquer objetividade ) com as
produções sociológicas e psicológicas das culturas humanas196. Desta forma, características biológicas passam a determinar características sociológicas e psicológicas que passam, por sua vez, a determinar a própria raça.
O próprio pensamento do autor ressente-se desta circularidade, contudo, quando este acentua mais à frente: Recusando a humanidade àqueles que surgem como os mais
“selvagens” ou “bárbaros” dos seus representantes, mais não fazemos que copiar-lhes as suas atitudes típicas. O bárbaro é em primeiro lugar o homem que crê na barbárie197. Neste ponto, o pensamento de Lévi- Strauss também é circular. Por acreditar na barbárie, o bárbaro termina sendo reinvestido da barbárie com a qual o homem branco o catalogou, e este termina sendo o único não bárbaro justamente por reconhecer a diversidade cultural. E é, finalmente, em A luta de raças, livro publicado por Gumplowicz em 1882, que encontra-se uma síntese das teorias raciais bastante representativa de sua época e bastante influente: uma influência, esta sim, subterrânea no sentido proposto por Hannah Arendt. Gumplowicz postula um método que pressupõe a existência de leis eternas e necessárias, assim como o racismo pressupõe a existência de leis eternas e necessárias que determinam as características de cada raça198. Tais leis baseiam-se, para ele, na existência de diversos grupos étnicos e sociais que constituiriam elementos estáveis e passíveis de serem tomados _____________________________________________________________________ 196- LÉVI- STRAUSS, Claude. Raça e história. Lisboa, Presença, s.d., p.8
197- LÉVI- STRAUSS, Claude. Raça e história. Op. Cit., p.22
como objetos de investigação regular199. O desenvolvimento étnico da humanidade caminha, para o autor, rumo à homogeneidade, partindo de uma diversidade étnica infinitamente grande para a criação de grupos étnicos cada vez mais amplos e em número cada vez mais reduzido200. A miscigenação ganha, assim, um sentido de conquista e absorção. Toda relação étnica é, para ele, uma relação de força e dominação, com o elemento étnico mais forte buscando dominar e utilizar o elemento étnico mais débil para a realização de seus objetivos201, e é esta luta racial que constituiria o que ele chama de essência do processo histórico202.
Cria-se, assim, uma divisão de trabalho considerada por Gumplowicz como necessária, na qual os esforços das raças inferiores permitem aos elementos étnicos superiores criarem sua civilização, com o próprio desenvolvimento da civilização humana passando a depender- na perspectiva do autor- deste processo203. Neste contexto, a teoria racial euclideana condenaria irremediavelmente o mestiço, mas não é bem isto o que acontece.