4.1 Casa Mía’s affectionate approach to peace
4.1.2 How does Casa Mía imagine peace?
Euclides retoma a questão da mestiçagem e, assim como Romero e Freyre, define-a como central na formação brasileira. Mas o faz de uma perspectiva crítica, bem distante do que seria a apologia freyreana. Tão preocupado com esta questão quanto Romero, Euclides atribui à mestiçagem papel fundador no processo de formação nacional e preocupa-se em _____________________________________________________________________ 199- Cf. GUMPLOWICZ, Luis. La lucha de razas. Op. Cit.p.47
200- Cf. GUMPLOWICZ, Luis. La lucha de razas. Op. Cit.p.71 201- Cf. GUMPLOWICZ, Luis. La lucha de razas. Op. Cit.p.157 202- Cf. GUMPLOWICZ, Luis. La lucha de razas. Op. Cit.p.189 203- Cf. GUMPLOWICZ, Luis. La lucha de razas. Op. Cit.p.227.9
estudar as sub-raças por ela geradas. Ambos, contudo, buscam decifrar a síntese que seria o ponto de chegada do processo, sendo tal síntese, para Euclides, a única solução possível para os problemas gerados pelo processo de formação nacional; uma solução que atuaria como antítese em relação a tal processo, marcado pela mestiçagem.
Atuaria porque a unidade racial é, para ele, a antítese da mestiçagem e, ao mesmo tempo, o único caminho para o Brasil definir-se como uma nação original. Nas palavras do autor, e quando uma raça se unifica- autônoma, forte, original- o que se observa, de
golpe, é um complexo de idéias firmando um modo de agir, patenteando pelas criações intelectuais as qualidades que a aparelham para adaptar-se ao ambiente da civilização geral204.
País composto por raças heterogêneas, o Brasil estaria, na perspectiva do autor, singularmente despreparado para levar adiante tal processo de adaptação, com a criação de uma raça original sendo a única saída para o Brasil enquadrar-se no contexto civilizacional. E o próprio isolamento no qual o sertanejo vive torna-se o pressuposto que o transforma no eixo da raça a ser criada, gerando, assim, o núcleo da nacionalidade. Euclides chega à conclusão oposta a que deveria chegar a partir das teorias raciais por ele adotadas.
E tal oposição fundamenta sua denúncia. Em nota preliminar a Os Sertões, ele afirma sua crença na teoria como que a justificar a campanha de Canudos: A civilização avançará nos
sertões impelida por essa implacável “força motriz da História” que Gumplowicz, maior do que Hobbes, lobrigou, num lance genial, no esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes205. Na mesma página, contudo, a justificativa transforma-se em denúncia _____________________________________________________________________
204- CUNHA, Euclides da. Obra completa. Op. Cit., p.442 205- CUNHA, Euclides da. Os sertões. Op. Cit., p.xxix
e o esmagamento inevitável transforma-se em crime a ser denunciado: Aquela campanha
lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo206. A oposição se define com toda a nitidez.
Apesar disto, a escolha feita por Euclides também é clara, e daí a famosa assertiva:
Estamos condenados à civilização207. Tal escolha é feita, porém, a partir do termo condenação, que dá à frase um conteúdo de perda e desolação. A escolha feita pelo autor não é pacífica, nem é feita de forma tranquila, lembrando, antes, uma dolorosa constatação. O mestiço, ainda, se é a raça inferior e se o português é o fator aristocrático de nossa
gens208, este, em condições adversas, simplesmente não sobrevive e é inteiramente suplantado pelas raças que, mesmo sendo reputadas inferiores na hierarquia racial euclideana, triunfam. O que acontece com o português na Amazônia, por exemplo ?
A aclimação traduz uma evolução regressiva. O tipo deperece num esvaecimento contínuo, que se lhe transmite à descendência até a extinção total...A raça inferior, o selvagem bronco, domina-o; aliado ao meio vence-o, esmaga-o, anula-o na concorrência formidável ao impaludismo, ao hepatismo, às pirexias esgotantes, às canículas abrasadoras, e aos alagadiços maleitosos209.
A teoria racial euclideana é, aqui, simplesmente invertida pelo natureza, mas em _____________________________________________________________________ 206- CUNHA, Euclides da. Os sertões. Op. Cit., p.xxix
207- CUNHA, Euclides da. Os sertões. Op. Cit., p.52 208- CUNHA, Euclides da. Os sertões. Op. Cit., p.59 209- CUNHA, Euclides da. Os sertões. Op. Cit., p.59
momento algum é abandonada. Ao descrever Canudos, por exemplo, o autor conclui: O
mesmo desconforto e, sobretudo, a mesma pobreza repugnante, traduzindo de certo modo, mais do que a miséria do homem, a decrepitude da raça210. Se no trecho anterior a hierarquia racial é invertida pelo natureza, aqui o determinismo racial sobrepuja a análise sócio-econômica e afirma-se como determinante.
Se o brasileiro é um tipo abstrato que se procura211, é porque a unidade étnica e nacional do Brasil é artificial, tendo sido criada politicamente a partir do Império. Até então
Os vários agrupamentos em que se repartia o povoamento rarefeito, evolvendo
emperradamente sob o influxo tardo e longínquo dos alvarás da Metrópole, e de todos desquitados entre si, não tinham uniformidade de sentimentos e ideais que os impelissem a procurar na continuidade da terra a base física de uma pátria212.
Euclides conclui a partir daí: Somos o único caso histórico de uma nacionalidade feita por
uma teoria política213.
E é a unidade política que torna-se o pressuposto para o surgimento de uma unidade racial ainda por surgir: daí estarmos condenados à civilização, daí a promessa republicana. É a única maneira de diferenciarmo-nos do retrato que o autor faz do Peru. Definindo como inevitável a guerra a ser travada contra este país por questões fronteiriças, o autor busca _____________________________________________________________________ 210- CUNHA, Euclides da. Os sertões. Op. Cit., p.123
211- CUNHA, Euclides da. Os sertões. Op. Cit., p.50
212- CUNHA, Euclides da. À margem da história. Op. Cit., p.157 213- CUNHA, Euclides da. À margem da história. Op. Cit., p.170
compreendê-lo, e nesta busca, conclui: Ninguém lhe lobrigou ainda um aspecto estável, um
caráter predominante, um traço nacional incisivo214. Isto porque, semelhantemente ao que ocorre no Brasil, não é possível falarmos em um tipo étnico peruano, predominando a
aglomeração irrequieta em que há todas as raças e não há um povo215. E a construção de uma nacionalidade- indissociável da criação de um tipo étnico definido- é vista por ele, retomando-se a teoria racial no aspecto competitivo em que ele sempre a utiliza, como uma questão de sobrevivência; Na pressão atual da vida contemporânea, a expansão irresistível
das nacionalidades deriva-se, como a de todas as forças naturais, segundo as linhas de menor resistência...É o darwinismo social rudemente aplicado à vida das nações216.
Aqui, a análise de Euclides sobre o tema surge invertida em relação à defesa da imigração majoritariamente feita no período, análise onde modernidade e raça são questões que se cruzam217.
Euclides problematiza a mestiçagem e define o mestiço como racialmente inferior; em momento algum de sua obra este pressuposto é abandonado. Ora, geograficamente isolado, o sertanejo manteve-se à margem do processo de miscigenação que moldou a nacionalidade e, no litoral, gerou mestiços neurastênicos. Daí suas qualidades, daí ele ser o cerne da nacionalidade. E quanto à formação racial do brasileiro, ele oscila claramente entre a inexistência de uma unidade racial e a possibilidade de formação de uma raça histórica. Tal ambiguidade surge sem solução em Os Sertões e permanece sem solução ao longo da obra _____________________________________________________________________
214- CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos, Op. Cit., p.94 215- CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos, Op. Cit., p.95 216- CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos, Op. Cit., p.114.5 217- Cf. CUNHA, Euclides da. À margem da história. Op. Cit., p.135.9
do autor.
Tal unidade racial, assinalaria ele anos depois, ao traçar um esboço da trajetória política brasileira, inexistia, ainda, por volta de 1800, como tampouco inexistia o próprio sentimento de nacionalidade, a ponto de o drama da Inconfidência manter indiferentes os moradores do Norte, e os moradores do Sul permanecerem divorciados dos destinos do Norte perante a invasão holandesa. Naquele período
Formações mestiças, surgindo de uma dosagem variável de três raças divergentes
em todos os caracteres, em que as combinações díspares e múltiplas se engravesciam com o influxo diferenciador do meio físico, de par com as mais opostas condições geográficas num desdobramento de 35 graus de latitude- chegavam ao alvorar da nossa idade com os traços denunciadores de nacionalidades distintas218.
O ponto de partida para a superação da inferioridade racial não deve ser o branqueamento e, sim, a manutenção de características próprias ao brasileiro. Só abrasileirando-se cada vez mais o brasileiro iria conseguir superar defeitos de sua formação racial.
Nem só o mestiço litorâneo funciona como contraponto ao sertanejo. O caipira- abrindo uma vertente que seria estruturante na obra de Monteiro Lobato- surge como o contraponto rural do sertanejo, sem as virtudes deste. Euclides descreve-o, ao cruzar com ele pelas estradas paulistas: O caipira desfibrado, sem o desempeno dos titã bronzeados que lhe
formam a linha obscura e heróica, saúda-nos com uma humildade revoltante, esboçando o
momo de um sorriso, deplorável, e deixa-nos mais apreensivos, como se víssemos uma ruína maior por cima daquela enorme ruinaria de terra219.
A fórmula clássica esconde, contudo, um significado que tende a passar desapercebido: o mestiço e o sertanejo são, para Euclides, seres distintos e, a partir daí, as teorias que condenam o mestiço como ser inferior e degradado não valem para o sertanejo. Aplicam-se ao litoral, mas perdem sua validade no sertão.
CONCLUSÃO
Euclides legou, enfim, mais perguntas que respostas: quem somos, como surgimos, se temos uma identidade, como defini-la, como consolidarmos o caminho da modernidade sem nos desfigurarmos enquanto povo; questões que os pensadores brasileiros do século XX buscaram responder. As respostas dadas pelo autor são contraditórias, mas este não é um defeito que se possa imputar à sua obra, já que a contradição euclideana é um dos fatores que conferem grandeza à mesma.
_____________________________________________________________________ 219- CUNHA, Euclides da. À margem da história. Op. Cit., p.132