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14 Many parents wanted more individ- individ-ual follow up and specific, concrete,
Como se tem vindo a retratar, a Setúbal da Grande Guerra é uma cidade marcada pela «febre» da indústria de conservas de peixe, por um mercado consumidor beligerante constante e um agravamento das dificuldades da «questão das subsistências» que provocou os mais diversos tipos de revoltas e dificuldades sociais. Seguindo a linha de raciocínio de Maria Rita Garnel, “O crescimento e intensificação do comércio
internacional, o aumento demográfico, a industrialização e o rápido crescimento das urbes agravavam as consequências de epidemias importadas, como as de cólera, febre- amarela e peste bubónica”525, compreendemos como uma cidade profundamente
dependente de um mercado exportador e com intensas relações internacionais comerciais, gerou um espaço mais propício à penetração da enfermidade em estudo. Uma das particularidades de Setúbal surge no âmbito do progressivo desordenamento urbano, provocado pela construção de fábricas de conservas, que deteriorou as condições higiénico-sanitárias e promoveu a propagação da doença. Um dos cidadãos honorários da cidade de Setúbal, o médico Fernando Garcia526, já relatara alguns conjuntos de
enfermidades no período da beligerância, nomeadamente a febre-amarela ou a meningite527, demonstrando a predisposição para a disseminação de enfermidades, onde
vários foram os casos de «septicemia» aliados às agruras pneumónicas nos finais do ano de 1918.528 João Frada, na sua investigação, inclui Setúbal - nos anos de 1916 e 1917 –
no grupo com uma taxa superior à média nacional na mortalidade por gripe, salientando a propensão para doenças infectocontagiosas.529
Coordenado pelo Dr. Ricardo Jorge, o Instituto Central de Higiene publicou, em 1922, a Estatística do Movimento Fisiológico da População Portuguesa, Ano de 1918,
525 GARNEL, Maria Rita Lino, “Morte e memória da pneumónica de 1918” in A Pandemia esquecida:
Olhares comparados sobre a pneumónica de 1918-1919, SOBRAL, José Manuel; SOUSA, Paulo Silveira e; CASTRO, Paulo; LIMA, Maria Luísa (orgs.), Imprensa de Ciências Sociais, Lisboa, 2009, p. 221.
526 O Dr. Fernando Garcia (1872-1931) foi um relevante activista político local ligado ao sector monárquico,
conservador e afecto ao pensamento Integralista Lusitano. Escrevia sob o pseudónimo João Semana.
527 “Ultimamente apareceram certos casos que chamaram novamente a atenção dos médicos e do público,
constituindo a célebre febre-amarela de Setúbal (…) No ano corrente [1915] já tivemos um período abundante em casos intensamente meníngeos em crianças, muitos terminados pela morte (…) Continuam a observar-se, com uma frequência notável, as manifestações pneumónicas, tais quais já ficam descritas nos apontamentos de 1914.”, GARCIA, Fernando, “As doenças de Setúbal: 1911-1914” in A Medicina Moderna, nº 267/268, Tipografia A Vapor, Porto, 1916,pp. 9 e 29-31.
528 Cf. GARCIA, Fernando, “As doenças de Setúbal: 1918” in A Medicina Moderna, nº 298/300, Tipografia
A Vapor, Porto, 1919.
529 FRADA, João, A Gripe Pneumónica em Portugal Continental – 1918: Estudo Socioeconómico e
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cujos dados são de extrema importância para avaliar o peso dos impactos da gripe em Setúbal através de análises comparativas no actual distrito. Nesse sentido, segundo a
Tabela XV - Óbitos, por causa e sexos, nos distritos e concelhos530, morreram 2633
pessoas na cidade, sendo que 672 mortes foram provocadas pela gripe pneumónica531,
correspondendo a 25,5% dos óbitos de 1918. Há equilíbrio, por género, morrendo 347 homens e 325 mulheres, mas no total de óbitos por género os números revelam uma menor simetria (1426 homens e 1207 mulheres). As 1887 crianças nascidas em 1918532
não evitaram um saldo fisiológico negativo de 746 pessoas.
Alberto Pereira afirma que Setúbal foi a 7ª localidade portuguesa mais afectada pela doença, utilizando uma metodologia que assenta nas percentagens populacionais dos censos de 1911 e 1920 e na inclusão dos valores das mortes por pneumonia, exacerbando, em certa medida, esse impacto. [Tabelas nº 52 e nº 53] Por outro lado, se usarmos a lógica numérica que as fontes nos fornecem, podemos afirmar que Setúbal é, na prática, a 11ª localidade nacional com maior número de mortes. [Tabela nº 51] Dos 2633 óbitos locais, 142 enfermidades foram classificadas como «doenças ignoradas ou mal definidas», possibilitando a afirmação de que o número de mortes por pneumónica possa ter sido superior. Se conjecturarmos, através dos dados do Director-geral dos Hospitais Civis de Lisboa que asseveram que “Examinando as procedências dos doentes entrados nos
hospitais verifica-se que dos 4.817 hospitalizados apenas 600 vieram de fora de Lisboa”533, os valores totais de contaminados poderão ter sido acrescidos face à
proximidade geográfica Setúbal-Lisboa. Localmente a epidemia atingiu o seu pico em Outubro e Novembro, perdendo praticamente todo o seu fulgor em Dezembro.
Seria incorreto, no entanto, menosprezar o peso obituário que a varíola possuiu localmente já que provocou a morte a 396 pessoas, representando 15% do total de falecimentos no concelho em 1918. Este facto é bem elucidativo perante o conjunto de louvores dados pelo presidente da delegação local da Cruz Vermelha Portuguesa a todo
530 Arquivos do Instituto Central de Higiene, Estatística do Movimento Fisiológico da População
Portuguesa, Ano de 1918, Imprensa Nacional, Lisboa, 1922, p. 89.
531 O primeiro registo de morte por «pneumonia infecciosa» foi de Mariana da Piedade, a 4 de Outubro,
enquanto o primeiro registo de óbito por «gripe pneumónica» foi de António Francisco a 25 de Outubro. Arquivo Histórico Municipal da C.M. de Setúbal, Livros de Óbitos, nº 8 (1916-1921), pp. 97-105.
532 “Tabela III - Casamentos, nascimentos e óbitos, por distritos e concelhos, com nascimentos por
legitimidade e sexos e óbitos por sexo”. Arquivos do Instituto Central de Higiene, op. cit., p. 9.
533 ALVES, A. Lobo, “Relatório do director geral dos Hospitais Civis” in Relatórios e Notícias sobre a
Epidemia de Gripe Pneumónica, Hospitais Civis de Lisboa – Repartição do Boletim e Serviços de Estatística Clínica - Imprensa Nacional, Lisboa, 1920, p. 4.
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o corpo activo da mesma aquando das epidemias de varíola e de gripe pneumónica.534 A
diarreia e enterite, atacando maioritariamente bebés, representaram as causas para o falecimento de 463 pessoas, correspondendo a 17,6% do total do número de óbitos. Assim, varíola, diarreia e enterite e a gripe pneumónica, representaram perto de 60% de todas as causas de morte, valores absolutamente contundentes. [Tabela nº 50]
Recorrendo a uma perspectiva comparada no actual distrito de Setúbal, compreendemos que a actual capital distrital se destaca claramente no número de óbitos por gripe, estando Alcácer do Sal logo atrás com 318 falecimentos, importando ter presente a proximidade geográfica destes concelhos vizinhos. Assim descreveu a Comissão de Socorros de Alcácer do Sal a difusão da enfermidade: “A epidemia, dando
entrada pelos lados de Montalvo, onde as cabanas abundam, encheu em cerca de 10 dias, quase por completo, o Hospital da Misericórdia. E fazendo tombar, logo de entrada, três ou quatro pessoas novas, e com recursos, apavorou os ânimos.”535 Em termos
percentuais, Alcochete, Aldeia Galega do Ribatejo (Montijo) e Alcácer do Sal registam valores bastante superiores a Setúbal (40%, 35.4% e 32.5% respectivamente), revelador dum impacto obituário mais profundo no seio da totalidade da mortandade. Por seu turno, Santiago do Cacém foi o concelho com o mais baixo nível percentual por apenas terem morrido 42 pessoas de pneumónica em 1029 óbitos. [Tabela nº 51] Apesar da apresentação destes dados, é relevante salientar a imperfeição das fontes contemporâneas e os erros de diagnóstico que anteriormente foram alvos de crítica.