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Appendix 6: Evidence profiles

Provavelmente um dos objectos mais curiosos do mobiliário doméstico do Antigo Egipto327, talvez por serem tão distantes da realidade actual, são os descansos de cabeça. O seu nome em egípcio antigo é 328. À primeira vista a sua estrutura rígida transmite uma noção de desconforto. Apesar de se saber que era colocado linho na superfície que entrava em contacto com a cabeça, numa tentativa de tornar o objecto mais cómodo329, porque seriam os descansos de cabeça realmente usados?

Uma primeira explicação para a altura e rigidez destes objectos está relacionada com a já referida segurança330

. Era uma extensão da protecção proporcionada pela cama elevada do chão331

. A segunda explicação está relacionada com a esfera mágico-simbólica. Na sua maioria, os descanso de cabeça eram complexos amuletos, repletos de simbologia que tinha como única função proteger o individuo durante o seu sono. Um excelente exemplo é o descanso de cabeça dobrável de Tutankhamon. Encontrado no KV 62 tinha nas duas vistas laterais uma temível cara do deus Bes332

. Esta representação associada à função primeiramente protectora deste deus tornava este objecto num importante e interessante companheiro de sono.                                                                                                                

325

Vd. Descrição de Carter, H., The Handlist description of object 137. www.griffith.ox.ac.uk.

326 Hawass, Z., Op. Cit.,32. Cartela, hieróglifo V 10, chenw. Vd. Gardiner, Sir A., Egyptian Grammar,

522.

327 E certamente um dos mais característicos desta civilização.

328 Vd. Gardiner, Sir A., Op. Cit., 500. A titulo de curiosidade, refere-se que ao hieróglifo Q 4 se

atribui o nome “descanso de cabeça”.

329

Reeves, N., Op. Cit., 182.

330 Vd. Ponto 4. Camas.

331 Cf. Ruiz, A., The Spirit of Ancient Egypt, 36.

332 Localização actual: The Egyptian Museum of Antiquities, Cairo. Objectos JE 62020. Vd. Anexo I,

53 Outros exemplares mostravam leões a flanquear a cabeça e adquiriam assim um

simbolismo diferente que se discutirá em baixo. Para uma civilização que descartava o encéfalo durante a mumificação é curioso ver como havia um entendimento quase instintivo da protecção que era conveniente proporcionar à cabeça.

OBJECTO 7 – O DESCANSO DE CABEÇA EM MARFIM DE TUTANKHAMON, DINASTIA XVIII,FARAONATO DE TUTANKHAMON

ANÁLISE MATERIAL

Dimensões333:

Altura máxima 0,175 m Comprimento 0,291 m Largura 0,090 m

Este descanso de cabeça334

apresenta um primoroso trabalho de talha em marfim. É composto por duas partes distintas e unidas sob o peito de Shu. A união é feita por uma peça rectangular de madeira dentro do corpo oco do deus. As três peças são fixadas por quatro pregos de ouro335

.

A figura central representa o deus Shu, de joelhos336

, a sustentar uma estrutura semicircular, o lado superior do descanso de cabeça. De cada lado da figura do deus está um leão deitado, olhando o infinito, também esculpido no mesmo pedaço de marfim337. Os detalhes em baixo relevo são acentuados por um pigmento preto que confere à peça um acabamento de extremo requinte.

Nas costas da peça uma inscrição hieroglífica gravada e igualmente tingida a negro, traduz-se aproximadamente em: “O bom deus, filho de Amon, Rei do Alto e do Baixo Egipto, Senhor das Duas Terras, Nebkheperure, a quem foi dada vida como a Ré para sempre.”338.

                                                                                                               

333 Descrição de Carter, H., The Handlist description of object 403c-1. www.griffith.ox.ac.uk. 334 Vd. Anexo I, Figura 78, 32.

335

Cf. Descrição de Carter, H., The Handlist description of object 403c-2. www.griffith.ox.ac.uk.

336 Reeves, N., Op. Cit., 182.

337 Cf. Descrição de Carter, H., The Handlist description of object 403c-1. www.griffith.ox.ac.uk. 338 Tradução executada com recurso a Gardiner, Sir A., Egyptian Grammar. Vd. Anexo I, Figura 79 e

54 OBJECTO 8 – O DESCANSO DE CABEÇA EM FAIANÇA DE TUTANKHAMON, DINASTIA

XVIII,FARAONATO DE TUTANKHAMON

ANÁLISE MATERIAL Dimensões339 : Altura máxima 0,90 m Comprimento 0,279m Largura 0,100 m

Este descanso de cabeça340

é notável pelo material usado na sua construção. Relembra o avanço tecnológico que se iniciara alguns Faraonatos antes na produção de elaborados objectos de faiança para uso diário das elites.

É composto por duas partes341 unidas por um elemento de madeira no interior da coluna em formato octogonal. Apresenta uma elegante tira de ouro com incrustações alternadas de pasta de vidro com tom vermelho, azul-egípcio e azul- turquesa342

que cobre a união central das duas metades de faiança.

A sua forma é muito simples, lisa e adequada. A coluna termina num suporte semicircular. Exceptuando a decoração proporcionada pelo elemento em ouro no centro da coluna, apenas duas outras pequenas inscrições estão presentes nesta parte do objecto. As duas cartelas esculpidas anunciam o proprietário desta peça. Simetricamente encontra-se de um lado o prenome Nebkhperure 343

e do outro o nome Tutankhamon344

. Cada cartela está sobre um símbolo nbw e é coroada por duas plumas com um disco solar ao centro. A ladeá-las a antiga e eterna dupla protectora da monarquia, a cobra Uadjet e o abutre Nekhbet345.

                                                                                                               

339

Descrição de Carter, H., The Handlist description of object 403b-1. www.griffith.ox.ac.uk.

340 Localização actual: The Egyptian Museum of Antiquities, Cairo. Objectos JE 62021. Vd. Anexo I,

Figura 81, 34.

341

Ibidem.

342

Vd. Anexo I, Figura 82, 34.

343 “A manifestação [humana] de Ré”. Cf. Reeves, N., Op. Cit., 25. 343 O nome de coroação precedido

comummente pela expressão neswbit “o que pertence ao junco e à abelha – O Rei do Alto e do Baixo Egipto” . Cf. Sales, J. C., Poder e Iconografia no Antigo Egipto, 16. Vd. Anexo I, Figura 83, 35.

344 “Imagem viva de Amon” (Governante de Heliópolis do Alto Egipto). Cf. Ibidem. O nome pessoal, o

nome de nascimento. Usualmente precedido pela designação Sa Ré. Cf. Sales, J. C., Op. Cit., 16. Vd. Anexo I, Figura 84, 35.

55 Por último, um elaborado padrão geométrico rectangular346

adorna a parte inferior da base e a parte superior do descanso347, tendo 0,030 m por 0,020m. Diversos materiais compõem este padrão, sendo o rectângulo central uma incrustação de calcite emoldurada por um fino embutido de ouro. Segue-se uma moldura de pasta de vidro com tom lápis-lazúli. Outra incrustação de ouro. Uma nova moldura de pasta de vidro azul-turquesa e uma final incrustação de ouro.

5. AARCA

O termo arca, 348

engloba uma enorme variedade de peças de mobiliário do Antigo Egipto, desde os cofres até às simples caixas e arcas. É um termo generalista e não convém ser interpretado com base na definição actual de arca. Os primeiros exemplares encontrados no Egipto surgem no período pré- dinástico, tendo os melhores modelos relativos a esta fase sido descobertos entre 1901-1904 perto de Abidos, em Nag el-Deir349. Referem-se claro ao que actualmente designamos por caixões. O primeiro exemplar de caixa doméstica encontrado intacto pertencem à Dinastia I e foram encontrados em Saqqara, no túmulo S 3504350.

O aspecto decorativo e simbólico parece ter sido incluído na construção destes objectos deste os primeiros exemplares dinásticos. Ilustra-o como exemplos a caixa , do túmulo S 3504 ou os painéis das caixas de Hesire descobertas em Saqqara (túmulo S 2405 [A]) datados da Dinastia III, Faraonato de Djoser351

. As semelhanças decorativas com objectos de dinastas mais tardias são evidentes352

. Os princípios simbólicos que seriam futuramente associados a este conjunto de peças foram assim estabelecidos bastante cedo na história do Egipto.

                                                                                                               

346 Vd. Anexo I, Figura 85, 36. 347

Descrição de Carter, H., The Handlist description of object 403b-2. www.griffith.ox.ac.uk. Não existe nenhuma imagem da parte inferior.

348 Cf. Janssen, J. J., Furniture at Deir el-Medina, 14. Arca, caixa e cofre são as palavras com mais

definições diferentes em egípcio antigo. Supõem-se que esta variedade esteja relacionada com a finalidade do objecto em si. , ou seriam outras definições possíveis para arcas ou caixas. Cama é na realidade uma das palavras mais frequentes relativamente a mobiliário. A titulo de curiosidade refere-se que ao Hieróglifo Q 5 é dado o nome arca (ou caixa). Cf. Gardiner, Sir A., Ibidem.

349 Killen, G., Ancient Egyptian Furniture: Boxes, Chests and Footstools, 1. 350 Killen, G., Op. Cit., 2. Vd. Anexo I, Figura 86, 36.

351 Killen, G., Ibidem, 7. 352 Vd. Anexo I, Figura 87, 37.

56 As caixas, cofres e arcas eram, claro, usadas com uma finalidade específica: a

de armazenar objectos353

. O cuidado de organizar conteúdos pessoais ilustra uma extensão de ordem que aqui passa do nível político e Universal, para o nível individual e diário dos antigos egípcios. É uma associação do conceito de maat ao próprio ambiente doméstico. Toda a vida no Egipto parecia estar orientada para um claro equilíbrio dominado por uma substancial dose de superstição e de crenças simbólicas, míticas e mágicas. Será impossível não se tentar imaginar o quão importante todos os rituais e seus simbolismos eram na vida diária de um egípcio, independentemente da sua posição social.

OBJECTO 9 – A ARCA CONTENDO O NOME DE AMENHOTEP III, DINASTIA XVIII, FARAONATO DE AMENHOTEP III

ANÁLISE MATERIAL Dimensões354 : Altura máxima 0,510 m Comprimento 0,530 m Largura 0,420 m

A arca apresentada355 contém uma elaborada conjugação de técnicas e materiais que se traduzem numa sensível e imaginativa mestria dos artesãos do Império Novo. A primeira imagem que este objecto fornece é a associação à fachada de uma casa. As suas pernas assemelham-se a elegantes colunas que terminam numa delicada cornija de caveto, típica dos edifícios do Antigo Egipto356. As pernas da arca têm uma base quadrangular e apresentam uma inclinação ligeiramente oblíqua. As duas faces interiores das pernas estão pintadas com pigmento amarelo. Sensivelmente a meio-altura traves horizontais unem as pernas duas a duas, estando fixadas com juntas de furo e respiga não cavilhadas357

. Entre as traves e o corpo da arca, em cada                                                                                                                

353 Ibidem. 354

Killen, G., Op. Cit., 49.

355 Localização actual: The Egyptian Museum of Antiquities, Cairo. Objecto JE 69077. Vd. Anexo I,

Figuras 88 e 89, 37-38.

356 Burden, E., Illustrated Dictionary of Architecture, 111.

57 face, dois suportes oblíquos unem-se a um ou dois perpendiculares que sustentam os

painéis que decoram a arca. Exceptuando as faces interiores das pernas, toda a madeira foi coberta com gesso dourado358

.

O corpo da arca é composto por quatro painéis extraordinariamente trabalhado fixados às pernas por juntas de furo e respiga359. A madeira foi cuidadosamente talhada numa sequência de pilares djed, amuletos ankh e was360

. Entre cada símbolo foi incrustada faiança azul, primorosamente recortada de forma a preencher o restante espaço dos painéis. A moldura de madeira dourada que rodeia os painéis assim como a cornija estão ornamentadas com finos traços esculpidos, criando um padrão geométrico bastante sóbrio e elegante.

A tampa é composta por duas folhas com abertura ao centro. Estão ligadas à estrutura com espigões de madeira introduzidos em encaixes na parte interior da cornija361. As duas folhas fixam-se uma à outra através de um par de linguetas que passam por arcos em bronze. São abertas com o auxilio de dois puxadores em madeira com forma de cogumelo e pintados de preto362. O trabalho que adorna a tampa é semelhante ao dos painéis, um minucioso entalhamento dourado, com incrustação de faiança azul. As molduras das tampas têm o mesmo efeito das vistas laterais, uma delicada sucessão de entalhamentos paralelos. Nas tampas estão também talhadas as duas cartelas de Amenhotep III. Estão suportadas pelo deus Heh na sua típica posição com um joelho sobre o símbolo nbw. Segura em cada mão o símbolo do ano, que rodeia a cartela.

O interior da arca foi totalmente pintado com pigmento amarelo.

                                                                                                               

358

Killen, G., Op. Cit., 49.

359 Ibidem.

360 Vd. Anexo I, Figura 90, 38. 361 Ibidem.

58 OBJECTO 10 – A CAIXA RECTANGULAR DE TUTANKHAMON, DINASTIA XVIII,

FARAONATO DE TUTANKHAMON ANÁLISE MATERIAL Dimensões363 : Altura máxima 0,700 m Largura 0,435 m Profundidade 0,400 m Esta caixa364

elevada por quatro pernas de secção quadrangular terá sido meticulosamente desenhada e concebida para transportar uma importante mensagem simbólica. A estrutura da caixa, composta pelas quatro pernas, as traves horizontais que as unem entre si e as traves que compõem o corpo da caixa em si são feitas de ébano365, cortado com cuidada precisão. Os painéis laterais, superiores e inferiores são feitos em cedro366

. A arquitectura da caixa é bastante simples. As juntas de furo e respiga unem as diversas partes da moldura de ébano entre si. Os painéis de cedro maciço são fixados à estrutura com espigões367.

Sob o fundo da caixa surge um elegante friso nas quatro frentes do objecto composto por uma sucessão de símbolos ankh e was sobre o símbolo neb368 entalhados em ébano, tendo sido os dois últimos dourados.

A tampa é composta por duas placas de cedro encaixadas numa moldura de ébano, fixadas a dobradiças de bronze369. No centro foi colocada uma maçaneta em forma de cogumelo, dourado. Faz par com uma outra de igual forma colocada no painel frontal da caixa. Ambas as maçanetas têm talhadas cartelas de Tutankhamon. A da tampa encerra o prenome Nebkheperure e a lateral o nome Tutankhamon. Ambas as cartelas estão sob o símbolo nbw e são flanqueadas com uraei simbolicamente coroados

                                                                                                               

363

Killen, G., Op. Cit., 60.

364 Localização actual: The Egyptian Museum of Antiquities, Cairo. Objecto JE 61446. Vd. Anexo I,

Figuras 91 e 92, 39.

365

Killen, G., Op. Cit., 62.

366 Ibidem. 367 Ibidem.

368 Vd. Anexo I, Figura 90, 38. 369 Ibidem.

59 Internamente a caixa encontra-se dividida em diversos compartimentos.

O detalhe mais extraordinário da caixa será as inscrições hieroglíficas que percorrem todos os elementos em ébano a partir da trave do friso, incluindo a moldura da tampa. Esculpidos na madeira e pintados com um vibrante amarelo dourado, traduzem-se nas comuns fórmulas de auto-glorificação militar faraónica370

.

6.AMESA

É referido que a mesa de madeira, 371, era como objecto de uso doméstico menos frequente numa casa egípcia do que uma cama ou uma cadeira372

. Existem na realidade poucos exemplares actualmente. Uma explicação possível poderá estar relacionado com o facto de serem colocadas fora dos túmulos para os familiares depositarem oferendas regularmente. Seriam assim ou destruída pelos elementos ou possivelmente roubadas373

. Em Tarkhan, num túmulo datado dos tempos da distante Dinastia I, foi encontrado o mais antigo exemplar de mesa374

, até à data. O seu design é ligeiramente diferente375

dos usados na Dinastia XVIII, mostrando uma evolução da estética e da técnica na construção de mobiliário. A presença de mesas em túmulos com mais de cinco milénios poderá estar relacionada com a função de altar de oferendas. É possível que tenha havido uma evolução do tipo de altar pré-dinástico, de superfície natural para uma artificial. Num contexto doméstico o uso de uma mesa como altar de oferendas seria um uso lógico e prático destes objecto. A passagem para o contexto funerário terá sido um passo                                                                                                                

370 “Filho de Amon, gerado pelo Touro de sua Mãe, aquele que Mut, Senhora dos céus, criou e

amamentou com o seu próprio leite, aquele que o Senhor dos Tronos das Duas Terras criou para ser governante daquilo que o sol engloba, Amon atribuí-lhe o trono de Geb e o poderoso gabinete de Atum.”; “Construtor de monumentos, para que eles se tornassem existentes de uma só vez, para os seus pais e todos os deuses. Ele construiu os seus templos de novo, fez as suas estátuas do melhor ouro, ele providenciou as suas oferendas na terra.”; “Rei poderoso que subjugou terras estrangeiras, capturando aqueles do sul e atropelando os do norte e chacinando os seus inimigos.”; “Ele é Ré-Atum e o que afugentou o mal do templo de Ré em Heliópolis, purificando-o como era no principio dos tempos”. Cf. Desroches-Noublecourt, C. Life and death of a Pharaoh - Tutankhamen, 93

371 Cf. Janssen, J. J., Furniture at Deir el-Medina, 12. 372

Cf. Janssen, J. J., Op. Cit., 12.

373 Cf. Baker, H. S., Furniture in the ancient world: Origins & evolution 3100-457 B.C., 150.

374 Não é atribuído a nenhum hieróglifo o significado “mesa de madeira” (para um contexto

doméstico). Existem, no entanto, três hieróglifos que nomeiam “Mesa de oferendas”. R 1 , numa expressão , ”Mesa com pães e jarro”; R 2 , numa expressão , “Mesa com fatias de pão convencionadas” e R 3 , numa expressão , “Mesa de quatro pernas com pães e vaso de libação”. Cf. Gardiner, Sir A., Egyptian Grammar, 501.

375 Tratam-se das chamadas “Low-Tables”. Cf. Killen, G. Egyptian Woodworking and Furniture, 26.

60 natural, uma vez que o túmulo tendia a copiar os hábitos domésticos. Inúmeros

registos iconográficos mostram o uso da mesa recheada de alimentos como oferenda aos deuses376

ao longo de todo o período dinástico.

A mesa, como a cama ou a arca, é também sinónimo de civilização, mais do que qualquer outro objecto de mobiliário. Este tipo de peças mostram uma mudança de hábitos e costumes de um povo, quase como que se um acordar repentino tivesse ocorrido num determinado momento da história desta civilização. Aliás, mais correctamente pode ser dito que este momento teria sido exactamente o inicio da civilização egípcia. A etimologia de civilização civilis (relativo a um cidadão) com origem em civis (aquele que vive numa cidade [civita]) parece fornecer uma boa indicação de quando a mente egípcia começou a ser modificada. Coincide com a altura em que os dois Egiptos foram unidos sob a mesma coroa. A partir deste momentos quase todos os costumes, ideias e comportamentos perante o mundo, o religioso e o simbólico passaram a estar enquadrados num completamente novo ponto de vista.

OBJECTO 11–OPAR DE MESAS BRANCAS DE KHA,DINASTIA XVIII, FARAONATO DE AMENHOTEP III

Muitos túmulos podem ter revelado artefactos de incalculável valor mas poucos partilharam a sorte do TT 8377. Selado durante o Faraonato de Amenhotep III manteve-se trinta e quatro séculos inviolado378. Em 1906 Ernesto Schiaparelli reabriu-o. Foi possível ver então um túmulo exactamente como fora deixado milénios antes. Todos os detalhes rituais e todos os objectos tinham ficado parados no tempo. No TT 8, ainda se vivia no tempo dos grandes Faraós. No seu interior repousavam Kha e sua esposa, Merit. A organização do espaço e dos seus artefactos era cuidada e detalhada. Este túmulo fornece uma excelente ferramenta para a compreensão do ritual funerário do Antigo Egipto.

Kha fora no Império Novo arquitecto do faraó. O seu túmulo e espólio funerário são um monumento ao seu sucesso como oficial do Palácio de Hórus. O arquitecto manteve as suas funções durante quatro Faraonatos, de Tutmés III a                                                                                                                

376 Vd. Anexo I, Figuras 94-96, 40-41.

377 Outros dois túmulos foram descobertos absolutamente intocados: “Túmulo de um desconhecido” do

Império Antigo e “Túmulo de Ini” do Império Médio, ambos em Gebelein.

61 Amenhotep IV379

. Kha não se tornou, no entanto, conhecido pelo seu túmulo. No século XIX a sua capela funerária havia já sido descoberta380 e o seu nome era desde então conhecido. Quando foi aberto o TT 8 encontrou-se no meio do vasto espólio de Kha um par de mesas idênticas. Sobre elas estava um repasto com três mil anos deixado para os deuses do panteão egípcio381

. ANÁLISE MATERIAL Dimensões382: Altura máxima 0,476 m Comprimento 0,749 m Largura 0,381 m

Em termos técnicos o par de mesas de Kha383 apresenta um design extremamente simples. As pernas e as traves de sustentação têm secção quadrangular. Estão unidas com juntas de furo e respiga384. O tampo das mesas é composto por tábuas unidas com juntas de aresta simples e assenta sobre respigas que saem das pernas. As tábuas do tampo estão decoradas com inscrições hieroglíficas desenhadas a preto em duas colunas, uma em cada ponta. A emoldurar as inscrições estão quatro linhas, duas a duas, desenhadas com tinta preta com a inscrição repetida “Uma oferta é feita a Amon”385. No centro do tampo, paralelamente, uma outra inscrição emoldurada com linhas pretas exibe o nome e título principal de Kha. As mesas foram produzida com madeira de cedro386

e pintadas de branco387 .

                                                                                                               

379 Reeves, N., Op. Cit., 127.

380 A localização da sua capela na colina oposta ao TT 8 terá sido um dos factores que contribuíram

para que o túmulo se tivesse mantido intocado.

381

Vd. Anexo I, Figura 97, 42

382 Killen, G., Ancient Egyptian Furniture, Vol. I – 4000-1300 BC, 65.

383 Localização actual: Museo delle Antichità Egizie di Torino. Objecto 8258. Vd. Anexo I, Figuras 98-

100, 42-43.

384 Killen, G., Op. Cit., 65.

385 Cf. Schiaparelli, E., La Tomba Intatta Dell’Architetto Kha Nella Necropole di Tebe, 118. 386 Svarth, D., Egyptisk Møbelkunst fra Faraotiden, 107

62 OBJECTO 12– AMESA DE PA-PER-PA,DINASTIA XVIII,FARAONATO DESCONHECIDO

ANÁLISE MATERIAL Dimensões388 : Altura máxima 0,490 m Comprimento 0,680 m Largura 0,460 m

A mesa de Pa-per-pa389 é bastante característica do período helenístico. Uma vez que a sua datação a coloca inquestionavelmente no Império Antigo, o modelo desta peça viria a ressurgir num revivalismo helenístico, séculos mais tarde.

O nome do proprietário está escrito em egípcio hieroglífico no tampo da