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Appendix 4: Characteristics of included studies of effect

Desde muito cedo que a cor se tornou num elemento central no campo decorativo do mobiliário do antigo Egipto. Não só por acrescentar um elegante detalhe estético, mas por ajudar a canalizar para uma determinada peça todo o poder que estava associado a uma cor e cujas raízes partiam do mais profundo sistema de crenças e simbologia do antigo Egipto.

Certamente que um dos melhores exemplos que ilustram a importância da cor para os antigo egípcios se encontra nos túmulos do Império Novo. Neles, as suas câmaras, muitas vezes também corredores e antecâmaras estavam preenchidos com detalhadas imagens, cuidadosamente pintadas de forma a ajudar o ritual funerário a                                                                                                                

163 Cf. Gardiner, Sir A., Op. Cit., 514.

164 Hipopótamo ou Elefante, Cf. Killen, G., Egyptian Woodworking and Furniture, 10. 165

Túmulo de Djer, Umm el-Qa’ab, Abidos; Diversos exemplars de pernas esculpidas provavelmente para suporte de arcas. Cf. Killen, G., Op. Cit., 9.

166 Wilkinson, R. H., Symbol and Magic in Egyptian Art, 92.

167 Como Ipet, Reret, Shepet e Taueret. Cf. Wilkinson, R. H., The Complete Gods and Goddesses of

Ancient Egypt, 183-186.

168 O aspecto dual mais significativo encontra-se entre a simbologia ligada ao género do hipopótamo.

Ao género masculino era também associada força e poder destrutivo, mas era vista como algo perigoso e associado a Set, uma oposição radical à da simbologia associada aos elementos femininos destes animais. Cf. Wilkinson, R. H., Op. Cit., 183.

25 prosseguir como planeado, na transmutação das imagens representadas. Se alguma

dúvida restar no quão importante era o papel da cor e na sua utilização correcta na quadrícula devida, será talvez importante relembrar as condições extremas a que os pintores estavam sujeitos durante a sua complexa tarefa. No Império Novo, dentro dos túmulos que se prolongavam longos metros para o interior da montanha tebana, a iluminação não natural era um problema real. A única solução seria o uso de candeias169

para fornecer iluminação artificial, num local onde o oxigénio era por natureza já bastante limitado.

AS MATÉRIAS USADAS E OS PROCESSOS QUÍMICOS QUE ORIGINAVAM AS CORES NO ANTIGO EGIPTO

A obtenção do equilíbrio perfeito de cada elemento que constitui uma cor é, claro, um processo complexo. Como em muitas outras civilizações, também na do Egipto Faraónico, foi sendo aperfeiçoado. Este aspecto é indispensável para compreender a evolução e as alterações na produção da cor. Os processos foram sendo graduais, inicialmente partindo de elementos simples presentes na natureza. No Império Novo, este era já um aspecto ultrapassado em alguns casos. Haviam sido desenvolvidas técnicas sintéticas para a obtenção de algumas cores. Nesta altura também os materiais usados para a produção de pigmentos eram bem conhecidos. A passagem geracional da informação era perpetuada pelo artesão que ensinava o seu aprendiz. No caso de misturas demasiadamente complexas, eram escritas fórmulas como no caso de pigmentos obtidos de forma sintética que precisavam de seguir processos meticulosos para terem sucesso. Também a simbologia da cor, nesta época, estava claramente definida e ramificava-se nas mais diversas atribuições.

AS DUAS CORES OPOSTAS

Pelas suas características químicas extremas, o branco e o preto não são incluídas em nenhum grupo de cores, formando antes os dois um grupo por si só. Eram as duas cores inquestionavelmente mais simples de obter. O pigmento preto,

170, era obtido pela simples combustão de material orgânico vegetal,

                                                                                                               

169

Que libertavam gases nocivos que se tornavam mais perigosos conforme se passavam mais horas a inspirá-los.

170 Cf. Faulkner, R., O., A Concise Dictionary of Middle Egyptian,286. Deriva da sua associação com

“Egipto - Kmt”. Cf. Baines, J., “Color Terminology and Color Classification: Ancient Egyptian Color Terminology and Polychromy” in American Anthropologist, 284.

26 reduzindo-o a carbono171 e o branco, 172, poderia ser obtido pela redução a pó

de gipsita pura, carbonato de cálcio ou de um carbonato mineral, a huntite173, composto por cálcio e magnésio.

AS CORES PRIMÁRIAS

A obtenção de cores é um processo não muito complexo, essencialmente baseado na observação de materiais e das suas cores naturais. A transformação dos materiais certos em pigmentos capazes de produzir as cores que eram desejadas foi um processo ligeiramente complicado. Era no entanto suficientemente rápido e a aprendizagem foi certamente feita numa dinâmica de tentativa e erro. A matéria prima para se conseguir produzir pigmentos estava presente em abundância no antigo Egipto e a observação desses materiais esteve no centro do sucesso que esta civilização alcançou desde momentos tão iniciais. As cores mais rapidamente replicadas terão sido as primárias: azul, vermelho e amarelo, por serem originadas com misturas simples e intuitivas. O amarelo, 174, conseguia-se pela redução a pó de goethita175 e limonite, posteriormente misturado com barro e matéria silícica176. Inicialmente, no período pré-dinástico o pigmento amarelo era simplesmente obtido do pó do Auripigmento. O vermelho, 177

, cor que surge num período inicial da história bastante anterior à formação do Egipto dinástico, era obtido do óxido de ferro anidro (hematite) ou óxido hidratado de ferro (limonite)178, ambos os óxidos presentes em forma mineral na natureza. A obtenção do azul,

179

, teve uma curiosa evolução ao longo do tempo. Inicialmente era obtido simplesmente com óxido de cobalto. Contudo, no Império Novo180 foi desenvolvido um pigmento sintético composto por sílica, cobre e cálcio181

. O                                                                                                                

171 Lee, L. and Quirke, S., “Painting Materials” in Nicholson, P. T., Shaw, I. (ed), Ancient Egyptian

Materials and Technology, 108.

172

Cf. Faulkner, O., Op. Cit.,181. Deriva da sua associação com “prata”. Cf. Baines, J., Op. Cit., 284.

173 Lee, L. and Quirke, S., Op. Cit., 114.

174 A tradução mais correcta será “pigmento amarelo”. Cf. Faulkner, O., Op. Cit., 280. 175 Fórmula química α- FeO(OH) (unidade de repetição)

176 Lee, L. and Quirke, S., Op. Cit., 115. Deriva da sua associação com “deserto”. Cf. Baines, J.,

Ibidem.

177 Cf. Faulkner, O., Op. Cit., 316. Sir A. Gardiner discorda, introduzindo para vermelho . Cf. .

Gardiner, Sir A., Egyptian Grammar, 622. Parece ambos uma variação da mesma palavra.

178

Ibidem.

179 Cf. Faulkner, O., Op. Cit., 28.

180 Exceptuando o caso de Amarna que regista o uso do pigmento azul directamente obtido da forma

primordial.

27 pigmento era obtido através do aquecimento de sílica, filamentos de uma liga de

cobre ou um minério de cobre (malaquite ou óxido de cálcio) e um elemento alcalino como potássio ou natrão. A este novo pigmento deu-se o nome de azul egípcio, assim designado pela sua cor tão distinta. Tornou-se na única cor primária a ser obtida artificialmente. Este pigmento sintético tinha uma cor mais intensa e profunda, simbolicamente intensificando a ligação que já tinha com o céu e o seu espelho, o Nilo.

As cores consideradas mais complexas, secundárias e terciárias terão sido certamente originadas por simples misturas intuitiva de pigmentos, por certo com recurso a tentativa e erro até terem sido atingidos os objectivos pretendidos.

AS CORES SECUNDÁRIAS E TERCIÁRIAS

O verde, 182, já uma cor secundária, não era, no Império Novo, obtido pela união de cores primárias. Era igualmente conseguido com recurso a uma técnica artificial183

. Produzido sinteticamente com recurso a um processo de redução dos mesmos elementos usados para o azul egípcio era incluída uma excepção para a diferenciação da cor: introduzia-se na mistura uma maior quantidade de óxido de cálcio e uma menor de cobre184.

Os pigmentos compostos eram obtidos com a junção de vários pigmentos simples. O cinzento era formado através da mistura dos pigmentos que originavam o preto e dos que originavam o branco185

. O castanho, surgia de uma de duas formas ou através de uma mistura de carbono (preto) com óxido de ferro III186 e sulfeto de arsénio187

ou recorrendo a uma técnica bastante curiosa, pintando com pigmento vermelho sobre pigmento preto já seco188. O cor de laranja podia ser obtido de quatro formas distintas: aplicando tinta vermelha sobre tinta amarela seca; misturando simplesmente as duas tintas na proporção adequada; através do uso de sulfeto de arsénio ou ainda recorrendo a um outro sulfureto de arsénio, o realgar189

. Por último,

                                                                                                               

182

Cf. Faulkner, O., Op. Cit., 55.

183 Originalmente obtido pela redução a pó de malaquite. 184 Lee, L. and Quirke, S., Op. Cit., 112.

185

Ibidem, 113.

186 A comum ferrugem.

187 Um mineral com uma cor amarelo-alaranjada. 188 Ibidem, 111.

28 o cor de rosa era conseguido graças a uma elaborada mistura de dois elementos, a

gipsita, o branco, e óxido hidratado de ferro190

, o vermelho.

Nota-se claramente que o balanço exacto dos componentes de cada pigmento foi sendo aperfeiçoado ao longo do tempo. Não há, infelizmente, relatos destes trabalhos mas verifica-se um aumento não só da variedade de cores como também da intensidade das próprias cores que foram sendo encontradas em túmulos do Império Novo. Tem-se, por correcção científica, de salvaguardar algum efeito da acção do tempo nas variações de cor hoje em dia encontradas em amostras do antigo Egipto, podendo, no entanto, também atribuí-la a uma certa liberdade artística de quem as preparava, à insuficiência de determinados elementos que as compunham ou à não uniformização das metodologias usadas para a obtenção da cor. Num todo, um aspecto é fundamentalmente aceite, a civilização egípcia usava a cor abundantemente e, analisando do ponto de vista meramente artístico, as conjugações eram frequentemente felizes, mas certamente também este foi um processo aprimorado durante milénios com constantes tentativas... e erros191.

A SIMBOLOGIA DAS CORES

A cor ocupava um papel tão central no sistema simbólico dos antigos egípcios que a sua associação com importantes deuses do panteão foi estabelecida de uma forma natural. De igual modo, a obtenção da cor veio revelar-se uma actividade quase instintiva para um povo que tendia a observar o ambiente que o rodeava, o absorvia e introduzia nas suas crenças. Copiava-o e adaptava-o. Às três cores principais, actualmente designadas por cores primárias, foram associados elementos centrais da vida no Egipto. O amarelo foi ligado a Ré, o deus primordial de Iwnw, dando a esta cor uma pesada simbologia não só associada a um deus, como às suas características, sendo a mais relevante a eternidade. Ao azul duas correspondências pareciam igualmente naturais, o céu e o Nilo. Na abóbada celeste encontrava-se a casa do panteão, as estrelas, o ciclo nocturno. Amon era recorrentemente representado também nesta cor. Também o Nilo, o coração das Duas Terras era azul. Esta cor primária incorporava assim simbologias associadas à regeneração, aos ciclos anuais e ao complexo aspecto divino. Na mesma linha, o vermelho estabelecia uma associação                                                                                                                

190 Ibidem.

191 Um aspecto assinalável: apesar da complexidade da análise química actual, na realidade a obtenção

de cores parece ser um processo bastante natural para qualquer civilização, baseado primeiramente na junção de cores primárias e secundárias para obtenção de resultados.

29 às forças regeneradoras, às terras vermelhas e férteis à energia, ao poder e à

sexualidade. Será possível que estas atribuições advenham da observação directa do sangue e de uma compreensão primitiva, mas acertada, da sua importância.. Dualmente o vermelho era também associado a Set, o eterno usurpador e ao seu domínio, o deserto. Pode-se ver que com apenas as cores primárias se conseguia definir todo o complexo cosmos de crenças do antigo Egipto, desde os deuses protectores de maat, dos ciclos de regeneração e vida, até ao deus isefético, habitante do mais temido e estéril lugar das Duas Terras.

Não existem duas cores simbolicamente tão antagónicas, em características químicas e em efeito visual, como o branco e o preto. Enquanto que a noite e a morte eram inevitavelmente ligadas à cor preta192, a pureza e a verdade eram associações feitas ao branco. Existe neste caso um aspecto dual, quase primário e natural, muito característico do pensamento dicotómico egípcio.

O verde, uma cor secundária, tinha igualmente uma complexa simbologia associada, estabelecendo uma ligação à regeneração, à vida e a Osíris, o primeiro dos faraós e senhor do Mundo dos Ocidentais, frequentemente representado nesta cor.

1.3AS TÉCNICAS DE CONSTRUÇÃO USADAS NO MOBILIÁRIO DO IMPÉRIO NOVO