A. Closed–ended question results
7. Parent Questions 16–23, Director Questions 12–19
Cumbica
Num primeiro momento, o visitante que chega à Cidade Industrial Satélite de Cumbica não encontrará, como poderia se esperar, pelo seu nome, um bairro distante do centro com características de cidade de interior: uma praça, igreja ou até casas antigas, possivelmente remanescentes de outros estágios do desenvolvimento histórico da cidade de Guarulhos. Este tipo de bairro de fato existe na cidade, mas não corresponde à CIS Cumbica e sim ao bairro do Bonsucesso, também distante da zona central de Guarulhos, mas que possui essas características uma vez que guarda em sua história o ciclo do ouro ocorrido naquela região, nos séculos XVI e XVII, como mencionado anteriormente.
Na CIS Cumbica não há equipamentos sociais ou estabelecimentos comerciais e de serviços, suficientes, que possam caracterizar este bairro como residencial. Se observado do alto, chama a atenção galpões industriais, que ocupam uma grande área e, entre estes e suas avenidas e ruas, na sua maior parte sem asfaltamento, "manchas" de moradias irregulares. Estas "manchas" são os núcleos de favelas que atualmente constituem as 16 ocupações da região, de tamanhos variados e espremidas entres os galpões de fábricas, transportadoras e armazéns. De bairro antigo, na verdade, não há nenhuma referência devido ao fato de que a CIS Cumbica é um bairro relativamente novo, planejado nos anos 1970 para
atrair grandes indústrias ao município. Não houve, portanto, na sua constituição, nenhuma proposta de incluir equipamentos sociais que pudessem atender a moradores locais. Devido à sua característica de planejamento exclusivamente industrial, essa região não apresenta nenhuma infraestrutura social e urbana para atender às necessidades das famílias existentes na área, sendo que os principais equipamentos públicos encontram-se distantes, dificultando o acesso dos moradores.
Planejada exclusivamente para receber empresas no local, o poder público não investiu em escolas, unidades de saúde e áreas de lazer. Por outro lado, serviços essenciais mesmo para uma área industrial, também foram negligenciados nesta região, tais como acesso ao transporte público e estabelecimentos comerciais que pudessem atender aos trabalhadores da região. Apenas recentemente, linhas de ônibus passaram a incluir a CIS Cumbica em suas rotas, ainda assim de forma precária, obrigando os passageiros a caminhar longos trajetos para chegar aos pontos de ônibus. Não existem comércios regulares na área e os existentes são improvisados, na sua maioria, nas áreas ocupadas irregularmente, dentro dos núcleos de favelas e nas vias mais movimentadas ou ainda próximos às indústrias (na sua maioria trata-se de bares e restaurantes que servem refeições ao empregados na área). Não há, portanto, serviços comerciais essenciais, como farmácias e supermercados, sendo possível comprar produtos de primeira necessidade nas várias pequenas mercearias que os próprios moradores estabeleceram, no entanto os preços cobrados são
consideravelmente mais elevados do que em outras áreas da cidade. Em levantamento realizado em 2008, a Secretaria de Habitação de Guarulhos identificou cerca de 50 estabelecimentos comerciais operando dentro dos limites da favela São Judas. Ao contrário do que podia se esperar de uma área de favela, os pontos comerciais não se referiam apenas a bares e pequenas mercearias mas apresentavam uma surpreendente variedade de oferta de produtos – como padarias, armarinhos, restaurantes – e serviços – tais como salão de beleza, cabeleireiro, lan house e borracharia45 (SECRETARIA DE HABITAÇÃO, 2007).
As suas condições particulares de ausência quase que absoluta de serviços públicos (escolas, hospitais e transporte) e privados (estabelecimentos comerciais), contribui decisivamente para transformar este bairro em exemplo típico de área de segregação socioespacial. Se considerarmos a cidade de Guarulhos como um todo, observaremos que esta está dentro de bons parâmetros de oferta de serviços à população46. No
45 Dentro da perspectiva do senso comum e mesmo de representantes do poder público, foi
constatado, durante a pesquisa de campo, que ainda existe a concepção de que dentro da favela os únicos estabelecimentos comerciais possíveis seriam aqueles diretamente ligados à venda de bebidas alcoólicas, tais como bares e lanchonetes. Esta ideia reforça o estereótipo de que moradores de favelas tem tendências ao alcoolismo e a preguiça, uma vez que gastam grande parte do seu tempo livre nos bares e botecos da favela. O levantamento de comércios revela que os estabelecimentos do local refletem a falta de opção de lojas e serviços próximos, por isso são variados e em grande quantidade, contrariando a noção de preferência por bares.
46 Segundo dados da Associação Comercial e Empresarial de Guarulhos, a cidade conta
com mais de 50 mil estabelecimentos comerciais formais e cerca de 40 mil estabelecimentos voltados à prestação de serviços (PREFEITURA DE GUARULHOS, 2010). Outro dado importante a se considerar é que a evolução do Produto Interno Bruto (PIB) da cidade, entre 2002 e 2008, foi de 45,48%, mais do que o dobro da cidade de São
entanto, quando nos afastamos da área central da cidade e consideramos sua extensa área periférica, nos deparamos com uma realidade socioeconômica completamente diferente: bairros que estão na linha limite entre as zonas rural e urbana, com moradias construídas precariamente em encostas de morros, com acesso precário aos serviços de água, esgoto e transporte público.
O processo de ocupação deste bairro data da década de 1970, porém, intensificou-se a partir da década de 1980 quando muitas transportadoras, anteriormente instaladas no bairro de Vila Maria, na cidade de São Paulo, se transferiram para Guarulhos, mais especificamente para a CIS Cumbica. Essa região denomina-se, hoje, de Zona Industrial e nela estão instaladas, em média, 700 indústrias. Este número elevado de empresas é devido aos acessos viários estratégicos existentes como a Av. Santos Dumont e a Av. Projecta, para as principais rodovias que cortam o Estado de São Paulo, como a Rodovia Federal Presidente Dutra e a Rodovia Estadual Ayrton Senna.
A população sem qualificação profissional, atraída pela oferta de emprego, fixou-se no entorno das rodovias e principais avenidas do bairro, ocupando o sistema viário, praças, canteiros e beira de córregos. As condições de moradia são precárias, com construções predominantemente
Paulo (20,87%) e muito acima do Estado de São Paulo e do Brasil (26,43% e 24,81%, respectivamente).
em madeira, adensadas, sujeitas a situações de risco de solapamento das margens de córregos e enchentes, os esgotos correm a céu aberto e as moradias são desprovidas de abastecimento de água e esgotamento sanitário.
Não há, até o momento, levantamentos censitários ou socioeconômicos que dêem conta da totalidade da população residente na CIS Cumbica. No entanto, levantamentos cadastrais realizados pela Secretaria de Habitação de Guarulhos revelam que existem, aproximadamente, mais de 3.000 famílias residindo nesta área. Destas, cerca de 800 são moradoras da favela São Judas, o maior aglomerado de moradias da região (SECRETARIA DE HABITAÇÃO DE GUARULHOS, 2007).
Neste contexto, portanto, a favela São Judas insere-se no bairro da Cidade Industrial Satélite de Cumbica. Em seguida, dados socioeconômicos e relatos de vivências auxiliarão na caracterização socioespacial da área e no conhecimento da realidade social específica que constituem e permeiam o cenário ao qual o programa Bolsa Família está presente.
4.1.4. A Favela São Judas: Caracterização Socioeconômica