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O mundo do trabalho é construído por homens e mulheres, mas, não “pensado” os dois sexos, e as mulheres devido aos atributos colados a uma representação tradicional da mulher enquanto mãe e esposa encontram o mercado de trabalho em desigual condição dos seus parceiros. Nesta condição, os atributos do trabalho se acham inscritos em atividades domésticas, o lar e a maternidade sendo tarefas desqualificadas para o mercado de trabalho visto que não geram riqueza são afazeres privados motivados para a reprodução familiar. Por essa evasão de valores do âmbito privado, o mercado de trabalho emite uma perspectiva deformada sobre a presença feminina nesse campo. Para Scott (1982: 444), no advento do capitalismo as mulheres entraram no mercado de trabalho com problemas que exigiam solução urgente: a compatibilidade entre lar e trabalho, maternidade e salário, feminilidade e produtividade. A autora cita o legislador Jules Simon que em 1860 afirmava: uma mulher que se torna trabalhadora deixa de ser mulher.

21 Cf. GIROLETTI, Domingos, (UNB, 2002) cientista político, professor do mestrado profissional em administração das Faculdades Integradas de Pedro Leopoldo; autor de “Fabrica: convento e disciplina”.

22 Cf. ANTUNES, Ricardo (1999). Analisa o novo cenário em expansão, o surgimento de trabalhadores em tempo parcial, precarizados, subproletarizados. Destaca as mulheres, manifesta: “Os sindicatos devem ainda reconhecer o direito de auto- organização das mulheres-trabalhadoras, parte decisiva do mundo do trabalho e que sempre estiveram excluídas do espaço sindical dominado pelos homens-trabalhadores” (Idem, ibidem, 244).

36 Para Helena Hirata (1988: 12) o conceito de trabalho deve ser ampliado ao trabalho doméstico, ao trabalho não assalariado, não-remunerado, não-mercantil, ao trabalho informal. A autora concebe, dessa forma, a equidade nas discussões entre o trabalho profissional e o trabalho doméstico, e coloca como um desafio teórico a ruptura dicotômica entre produção/reprodução. A autora acrescenta:

A conseqüência dessa postura teórica na análise do trabalho tanto masculina como feminina é que ela permite melhor apreender as continuidades entre trabalho formal e informal, entre o trabalho como ação organizada na empresa e o trabalho isolado a domicilio, entre círculos concêntricos de firmas terceirizadas e empresas clientes (HIRATA, 1988: 15).

A assertiva sugere que a relação entre trabalho feminino e trabalho masculino possibilitará a apreensão das peculiaridades distintivas de cada pessoa dentro da modalidade de trabalho. Ao evocar relações adversas no conceito de trabalho evidenciam-se uma junção entre classe/gênero que reprime as mulheres trabalhadoras como pessoas humanas.

Para Nancy Fraser (2000: 67), duas condições fundamentais precisam ser repensadas na sociedade para haver paridade participatória, ou seja, uma participação em condições de igualdade quanto à distribuição dos recursos materiais, como ao status de parceiro em condições de igualdade. Em não havendo paridade entre os gêneros diferentes e, se não há distribuição de recursos materiais (...), há formas e níveis de dependência econômica e desigualdade que impedem a paridade de participação (...), não assegura independência e “voz” aos participantes. Concepção de gênero bidimensional adotada na perspectiva bifocal por ter dois conjuntos de preocupações, um se refere à injustiça distributiva – a materialidade da vida e a inter-subjetividade, os valores culturais de respeito com igualdade a todas as pessoas, independente do sexo. Na sociedade capitalista, a ausência do reconhecimento da mulher como cidadã em par de igualdades com o parceiro do sexo masculino, desrespeito a suas distinções, e garantia do status e estima social. Na sociedade hierarquizada, cujos valores culturais adotam um padrão masculino no sistema social como modelos de valores institucionalizados que negam a alguns o status de parceiros plenos na interação – seja sobrecarregando esses uns com a imputação de uma “diferença” excessiva ou não tomando conhecimento de suas distinções (Idem: ibidem), com ausência de paridade participatória.

37 De fato, o trabalho produtivo desenvolvido pelas mulheres no mercado de trabalho em todos os ramos econômicos resulta em salários abaixo da remuneração do homem, embora essas sejam procuradas para certos serviços que desenvolvem melhor do que seus pares, com mais vantagem à classe patronal. Contratar mulheres na Grã-Bretanha (...) significa freqüentemente uma mudança de estratégia: um desejo de aumentar a eficiência econômica e de cortar nos custos laborais, recrutando ao mesmo tempo trabalhadores com melhor educação (SCOTT, 1982: 462).

Nas origens dos sindicatos nem todos os trabalhadores pobres participavam como se vê na distinção que faz Eric J. Hobsbawm (1982) entre militantes potenciais e o resto, ao focalizar a formação livre e consciente de sociedades democráticas para defesa social:

(...) aqueles que pudessem efetivamente „associar-se‟ deveriam dar de ombros e desprezar os que não quisessem ou não pudessem, e não apenas as mulheres que estavam virtualmente excluídas do mundo das formalidades dos clubes e de suas propostas de associados. (HOBSBAWM 1982: 238)23.

Joan Scott (1982: 453) revela que os sindicatos masculinos recusavam freqüentemente a entrada de mulheres ou insistiam que elas deviam ganhar um salário igual ao dos homens antes de poderem aderir [ao sindicato]. Ela cita como exemplo, o ocorrido com as encadernadoras de ofícios de Londres em 1.87424. A autora elucida outros aspectos das associações operárias do Norte da França entre 1870-80 que obrigavam as mulheres que desejassem tomar a palavra em reuniões a trazerem uma autorização escrita dos seus maridos ou pais (...) muitas (associações) definiam o papel da mulher como aquele que segue a chefia masculina (Idem, ibidem: 466). Essas práticas desfavoreciam a ampliação dos postos de trabalho para mulheres e sua participação no movimento sindical. Os líderes não percebiam que elas poderiam somar aos que buscavam a melhoria da qualidade de vida, se participassem das associações criadas, entre as quais, os sindicatos.

23 Cf. HOBSBAWM, Eric J. “A Era do Capital – 1848-1875” ao mencionar sobre a distinção entre os trabalhadores pobres, os militantes em potencial do movimento trabalhista e a classe operária no seu conjunto.

24 Cf. SCOTT, Joan W. “A mulher Trabalhadora”. A autora ilustra fato citado por Michelle Perrot, “Le syndicalisme français ET Le femmes: histoire d‟un malentendu”, Aujourd‟ hui, nº. 66, Março 1984, p. 44, no qual os delegados ao Conselho de Ofícios hesitaram em admitir uma representante do sindicato das mulheres encadernadoras nas suas fileiras porque “a mão- de-obra feminina era mão-de-obra barata e muitos dos delegados... não podiam aceitar esse facto”.

38 O Manifesto25 escrito por Karl Marx e Friedrich Engels (2003) aponta para a libertação da sociedade na formação da consciência de classe onde os autores apresentam novos caminhos para as mulheres na substituição da educação doméstica pela educação social (...) e abolição da posição das mulheres como simples instrumentos de produção (Idem, ibidem: 64). Os dois teóricos clássicos censuram a restrição contra as mulheres destinadas à reprodução da espécie humana na sociedade capitalista, consideram a educação social da prole como de responsabilidade do Estado, e, ao mesmo tempo, denunciam a relação de exploração da classe operária conclamando-os a se unirem e lutarem. Mas, essa conclamação refere-se ao elemento masculino trabalhador, o proletário.

Em “Uma Comunidade de Homens: O Marxismo e as Mulheres” Andréa Nye (1995) ao avaliar o papel político das mulheres e a dimensão da teoria marxista para avançar nas propostas de mudança social, cita que em:

(...) 1875, no Congresso de Gotha, no qual o Partido Socialista Alemão aceitou uma orientação marxista, a proposta de Bebel de que as mulheres

deviam ter direitos iguais foi rejeitada com base na argumentação de que as mulheres não estavam prontas. Mesmo quando em 1891 o partido alemão, empurrado por Bebel, finalmente aceitou os direitos das mulheres, eles

eram limitados e estritamente legais. Foi

permitido às mulheres filiar-se ao partido, mas em fins de 1900 ainda não podiam comparecer a encontros “mistos” e ainda lutavam pelo direito de falar. Sobretudo quando as mulheres ainda não

tinham voto, parecia inútil pertencer às fileiras do partido, sem qualquer vantagem política (NYE, 1995: 54/55)26.

Também nas hostes comunistas, onde se originou o sindicalismo, persegue-se a paridade entre homens e mulheres desde séculos atrás. A cultura patriarcal se desdobra nas dicotomias sociais entre os sexos explorando uma representação essencialista para mulheres e

25 Manifesto lançado em Londres em 1847.

26 O negrito ressalta a persistência do Ferdinand Auguste Bebel (1840-1913), décadas seguidas perseguiu a conquista da paridade no seio do partido buscando uma sociedade justa. Gesto que nos leva a reflexão do quanto ainda é necessário a persistência de homens e mulheres que se dediquem à luta pela transformação da sociedade. Atualmente persegue-se a paridade de representação política na sociedade e nos partidos, embora tenha mudanças relevantes, convivemos com desigualdades, inclusive, entre homens e mulheres. A propósito, a I Conferência Nacional do PCdoB sobre a Questão da Mulher (março de 2007) aprova resolução de “no mínimo 30% de mulheres deve ser considerada na indicação de nomes para integrar representação partidária, cursos,

comissões auxiliares e direções de organismos intermediários e de base”, quando nacionalmente as mulheres

39 homens definindo comportamentos e atitudes tidos como “masculinos” e “femininos”. Há necessidade de infringência aos padrões estabelecidos para avançar na sociedade.

O mais comum será, portanto, a manutenção das hierarquias, independente das práticas que envolvem os dois gêneros. O não reconhecimento da capacidade das mulheres para ocupar espaços políticos, a exemplo, os sindicatos, vem desde as origens desses espaços. A força dos padrões morais na civilização burguesa insistia em que as mulheres eram essencialmente um ser espiritual e deveriam permanecer totalmente na ignorância do que os homens e algumas mulheres praticavam, quer na vida social quer na vida sexual, na formação das associações, inclusive as democráticas da sociedade.