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Paper C: Perceptual Spatial Uniformity Assessment of Projection Displays

Não se pode afirmar, em hipótese alguma, que a principal motivação da Primeira Cruzada – tanto do Papa ao fazer seu discurso em Clermont, quanto dos homens e mulheres que tomaram a estrada – tenha sido o aspecto apocalíptico. A origem do movimento é, ainda hoje, muito turva, apesar dos diversos estudos já consagrados ao tema. As imbricações são inúmeras, e prefiro acreditar, como diz Prawer, que o século XI reuniu as condições necessárias para fazer deslanchar um movimento como esse.

Uma dessas imbricações, dessas condições, era a perspectiva apocalíptica, realidade da fé cristã, e sacralizada em Jerusalém como “cidade apocalíptica por excelência”. Significa isso dizer, que a prática da fé possui uma importante dimensão escatológica; e, se consideramos a Cruzada como um movimento também religioso, como um ato de fé, é muito natural que a perspectiva do Fim emirja.

Schmidt-Biggemann traz à luz a importância da esperança do Fim para a compreensão da História:

Sem a expectativa da revelação final da glória de Deus, o tempo perde sua tensão e, ainda, sua especificidade histórica. Sem a tensão da finitude do tempo, a interpretação e a hermenêutica históricas seriam impossíveis, e apenas o tempo natural restaria, como o processo indiferente, eterno de transformar-se e de desaparecer233.

      

233  SCHMIDT‐BIGGEMANN,  Wilhelm.  Philosophia  perennis  –  Historical  outlines  of  Western  spirituality  in  Ancient, Medieval and Early Modern Thought. P. 328. 

No caso específico das experiências vividas ao longo do século XI, em que o discurso e a perspectiva religiosos eram centrais, a compreensão dessas experiências passava pela lente das Sagradas Escrituras. Identificar no processo histórico secular a realização das profecias bíblicas era perfeitamente enxergar a mão de Deus na condução desse processo, que é, aliás, a mensagem de fundo do Livro de Daniel, para quem o tempo histórico é conduzido por Deus, num longo processo de castigo, arrependimento e perdão que caracteriza a relação do Senhor com os homens. Nesse sentido, continua Schmidt-Biggemann:

O fantástico reconhecimento da história do mundo é inteiramente definido pela crença de que os eventos históricos possuem um sentido espiritual. Esse sentido é revelado para aqueles que acreditam na revelação das Escrituras. Para os fiéis, a revelação profética é a medida de interpretação dos eventos. Se a possibilidade de sobreviver ao mundo como um todo deriva da compreensão de seu fim, então, hermeneuticamente, a história do mundo só pode ser escrita se o mundo for finito. Nesse respeito, a história do mundo é parte de uma filosofia perene, pois ela depende dos pressupostos teológicos sobre a criação e a finitude do mundo234.

Ora, se para os fiéis é a revelação profética que serve de medida para a interpretação dos eventos, ignoraria o Papa as correspondências estabelecidas entre a tomada de Jerusalém, as dominações muçulmanas e as profecias bíblicas?       

Se Guiberto de Nogent é o único a atribuir o discurso apocalíptico a Urbano II, todas as demais crônicas tratam da sacralidade e do valor espiritual de Jerusalém. Ora, tanto sua sacralidade quanto seu valor espiritual advêm não apenas de lá ter nascido a própria religião – como diz Guiberto – ou ser lugar onde Cristo nasceu, evangelizou, padeceu até a morte e ressuscitou. É também o lugar do Fim, onde chegará Jesus em sua segunda vinda, onde o Último Imperador entregará a coroa da Cristandade unida a Deus.

Retomando as palavras de McGinn, se Jerusalém é a cidade apocalíptica por excelência, a dimensão espiritual não pode deixar de fazer parte da iniciativa papal de fazer marchar naquela direção o maior número possível de fiéis. Dos elementos que sacralizam Jerusalém, todos já se haviam realizado, faltando apenas a Segunda Vinda. As palavras apocalípticas que Guiberto introduz ao discurso do Papa faz muito mais sentido do que sua ausência. Na sua versão, Urbano II deixa clara a questão apocalíptica, cujas profecias poderiam estar se realizando. Nas demais crônicas, isso aparece de maneira mais escondida, e “apenas” o apelo para a retomada de Jerusalém e pela expulsão dos infiéis permitem entrever sua razão: que, na dimensão espiritual, é também apocalíptica.

É curioso, entretanto, que em 1108, quase dez anos após a tomada de Jerusalém pelos exércitos cristãos, Baldrico de Bourgueil, bispo de Dol, “estampe um desprezo letrado e aristocrático por essas manifestações e crenças populares”235. Um comportamento como esse corrobora o que foi dito anteriormente: após a constatação de que o Fim não adviera, o ideal seria negar e menosprezar o sentimento apocalíptico e as pessoas que o alimentavam, intitulando-o de “manifestações e crenças populares”, e, para os demais cronistas,       

silenciar a esse respeito no momento de reproduzir o discurso de Urbano. Seria a experiência que La Fontaine sacralizou em sua famosa fábula da raposa e das uvas...

Mesmo rotulando os sentimentos escatológicos de “populares”, Baldrico admite que esses sinais facilitaram, em grande medida, o sucesso da pregação e do movimento em si. Seu esforço, portanto, é muito interessante, uma vez que ele reconhece a existência dessas expectativas, mas as limita a uma parcela muito específica dos cruzados: a dos mais pobres, seguidores de Pedro, o Eremita, e de Gualtério Sem-Haveres, traçando – ou reforçando – a fronteira existente entre a Cruzada dos Pobres e a Cruzada dos Barões. Esses, a seu ver, não acreditariam nessas crendices infantis e simplórias. Através desse argumento, ele retira do discurso do Papa qualquer dimensão apocalíptica. Se a resposta que Urbano II esperava à sua pregação seria dada por esses barões – e não pela multidão de pobres desordenados que reuniu Pedro –, o Papa também não teria mencionado em momento algum a proximidade do Fim ou a realização de alguma profecia apocalíptica.

Essa foi outra saída que encontrou a historiografia para lidar com a questão escatológica durante a Primeira Cruzada: reconhecer que ela existiu, mas limitá-la a uma parcela dos cruzados – os pobres, e, principalmente, o maior de seus líderes, Pedro, o Eremita. Figura muito controversa na historiografia, passou do original propositor da Cruzada236 de 1096 à lenda a ser riscada da História237.

      

236 Como nas crônicas de Guilherme de Tiro e de Alberto de Aquisgrão.   237 Grousset. Histoire des croisades… P. 76.