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Escrito em siríaco aproximadamente em 630, é atribuído a Metódio de Pátara, um bispo mártir que morreu no início do século IV. A obra foi rapidamente traduzida para o grego, para o latim (no início do século VIII), para o russo, para o armênio e para o árabe. Depois dos livros de Daniel e do Apocalipse de São João, foi um dos textos apocalípticos mais difundidos na Idade Média. Nele, o grande       

inimigo da Cristandade e da fé cristã já é o Islã – o Pseudo-Metódio, portanto, incorpora o Islã à História da Salvação –, e ele exprime a esperança de uma vitória próxima dos cristãos contra os ismaelitas. Essa perspectiva era popular na época, devido à relação estabelecida entre as profecias bíblicas e o Islã.

O grande elemento inovador do Pseudo-Metódio é o modo vislumbrado para essa vitória: ela viria a partir de uma reconquista militar203. Um imperador cristão viria à frente de um exército para derrotar os "infiéis" - trazendo à força a paz do mundo -, para liberar Jerusalém e para fazer dela a capital do mundo unificado sob a verdadeira fé. Esse imperador reinaria durante uma semana e meia em Jerusalém, até a aparição do Anticristo. Nessa ocasião, o rei dos romanos subirá até o Gólgota, onde foi cravada a cruz de Cristo, e, levando as mãos aos céus, entregará o reino dos cristãos a Deus204.

      

203 A idéia de um enfrentamento militar contra o Islã e a reconquista de Jerusalém eram relativamente novas.  Antes  de  Urbano  II,  já  havia  idéias  de  se  prestar  socorro  aos  irmãos  do  Oriente,  mas  a  pretensão  de  se  reconquistar  Jerusalém  ainda  não  era  concreta.  Em  888,  por  exemplo,  o  patriarca  de  Jerusalém  falava  ao  imperador Carlos III, o Gordo, sobre a ruína que ameaçava os Lugares Santos pede a ele ajuda financeira para  restaurá‐los.  Também  em  984,  Gerberto  de  Aurillac,  futuro  Papa  Silvestre  II,  escreve  uma  carta  destinada  a  informar os cristãos ocidentais a dolorosa situação da Igreja de Jerusalém, submetida ao jugo pagão. A carta  implora  ajuda  do  Ocidente  em  favor  do  Sepulcro  de  Cristo.  Até  esse  momento,  não  se  cogita  reconquistar  Jerusalém.  Será  a  partir  de  uma  encíclica  do  Papa  Sérgio  IV  –  cuja  autoria  negam  alguns  historiadores  –,  na  qual  faz  alusão  à  destruição  do  Santo  Sepulcro  como  uma  anomalia,  uma  catástrofe  contrária  a  todas  as  profecias, que ele anuncia a intenção de dirigir pessoalmente uma campanha militar para restaurar o “santo  túmulo do Redentor”.   204 A versão aqui resumida é a versão latina, escrita no início do século VIII. A essência do original em síriaco é  a mesma; as discrepâncias são, em sua maioria, de forma. Por exemplo, o texto oriental anuncia que os árabes  resistirão aos Romanos por, no máximo, 70 anos. O latino, por sua vez, não acredita ser ainda possível uma  vitória sobre os muçulmanos antes do fim do mundo. Essa alteração retira da profecia seu valor cronológico, e  a  versão  latina  desloca  essa  vitória  para  um  momento  indeterminado,  o  próprio  Fim.  No  texto  original,  a  vitória é inteiramente mérito do rei dos gregos; enquanto a versão latina ampliará o título para "rei dos gregos  e dos romanos", até chegar a uma forma reduzida, que seria "rei dos romanos”. Aproximadamente em 732, 

A profecia do Pseudo-Metódio fornece, então, novos elementos para se pensar o Fim dos Tempos, a partir de uma reconfiguração dos personagens nele envolvidos e da participação de cada um deles na economia da Salvação:

A partir do Pseudo-Metódio, as conquistas muçulmanas do século VII começaram a assumir um lugar de proeminência nos esquemas históricos e na escatologia cristãos, incluindo a lenda do Último Imperador, que iria retomar Jerusalém como um prelúdio da vinda do Anticristo205.

Ela traz não apenas elementos, mas também argumentos para um enfrentamento militar entre Cristandade e Islã. Ele conseguiu adaptar as profecias bíblicas para os novos tempos, respeitando os preceitos agostinianos, e fornecendo um novo lugar tanto para o Islã quanto para a Cristandade. Dessa forma, os cristãos teriam uma missão a ser cumprida antes do Fim: a reconquista de Jerusalém. Para que isso fosse possível, seria necessário um enfrentamento militar contra uma grande potência inimiga, às vezes identificada como a quarta besta de Daniel ou a besta que sobe do abismo de João. Em qualquer caso, a identificação do Islã como o povo que tripudiará dos cristãos perto do Fim já se consagrara. O Fim já estava próximo, mas nunca chegava. Angústia, aliás, vivida desde a Igreja primitiva. De certa forma, o Pseudo-Metódio fornece uma saída para isso, na qual os cristãos

      

uma  nova  versão  latina  desse  texto  aparecerá,  tendo  sido  redigida  na  Germânia.  Essa  versão  concede  ao  último  imperador  o  título  de  "rei  dos  cristãos".  Ele  traz,  ainda,  um  elemento  importante:  a  conversão  dos  judeus, dos quais 144.000 morrerão como mártires de Cristo. 

deixariam de ser meros pacientes da vontade divina e passariam a agentes, antecipando a realização das profecias.

Não se pode negar, ademais, que esse texto também revelou o espaço de um grande poder político: o do último imperador. O momento em que isso talvez mais tenha se explicitado foi nos repetidos episódios da conhecida querela das investiduras, na qual se opuseram tão ferozmente o Papa Gregório VII e o imperador Henrique IV. É nessa época que os Seljúcidas investem contra o Oriente cristão e quando chegam ao Papa pedidos de socorro. Já nesse momento, Gregório VII recorre a diversos príncipes, particularmente na França, solicitando que enviem tropas para prestar socorro a esses irmãos. Já nesse momento, o Papa se coloca como o grande suserano, o chefe absoluto da Cristandade em armas. Nesse jogo todo, existem também elementos do projeto de reforma que pregava Cluny, um real esforço de delimitação do poder papal e imperial (ou espiritual e secular) e uma tentativa de reunião das Igrejas do Ocidente e do Oriente, o que também parecia ser do interesse pessoal de Gregório. Quaisquer que sejam os motivos por detrás disso, a querela com Henrique IV e a idéia de se organizar uma expedição armada contra os turcos islamizados eram um esforço para se estabelecer o poder absoluto do Papa sobre a Cristandade – pretensamente, apenas no campo espiritual.

É difícil de precisar qual a real influência das profecias do Pseudo-Metódio na querela entre Papa e imperador ou na idéia de uma grande peregrinação armada contra os turcos para socorrer os cristãos. O texto era conhecido, e a vacância de poder que ele criava, tentadora. Independentemente de seu valor apocalíptico, ser o chefe de uma expedição armada contra o Islã, que recuperasse Jerusalém e que permitisse o vislumbre de uma reunificação das Igrejas era uma posição de poder

inigualável. Do ponto de vista político, a realização dessa profecia consagraria o poder da Cristandade e da Igreja, sobretudo se fosse o Papa o líder dessa missão.

Vinte anos depois, na época da pregação da Primeira Cruzada, pergunta-se se também Urbano II tinha a pretensão de assumir essa vacância. De qualquer forma, a dimensão escatológica figura como uma de suas motivações. Flori é da mesma opinião: "É, então, absolutamente possível, talvez provável, que a pregação da cruzada tenha tido, entre outras motivações, a dimensão escatológica"206. Com o objetivo de recuperar Jerusalém e derrotar os muçulmanos, a Cruzada estaria realizando a profecia, mesmo sem que isso aparecesse expressamente no discurso do Papa. Explícita ou não, Urbano II teria a compreensão de uma História conduzida por Deus, algo que Whalen chama de “teologia da História de Urbano”, que seria um esquema amplo de como, em seu entender, Deus conduziria a História, reforçando, de certo modo, a idéia da dominação de Jerusalém pelos muçulmanos como um artifício pedagógico. Seria, portanto, “uma progressão passo a passo desde a antiga glória, passando pela posterior perda até a presente restauração, formando uma visão dinâmica da mão de Deus na modelagem do que talvez chamemos de geopolítica do mundo mediterrâneo”207.