7. Desenvolupament dels continguts
8.2 Palanca de canvi cap a unes pràctiques inclusives
Costuma-se pensar a observação participante como uma técnica ou um procedimento utilizado pelo antropólogo para conhecer o grupo que estuda. Porém, não é apenas o pesquisador que busca se familiarizar com o espaço cultural onde o grupo se insere. Relatarei a seguir a experiência do primeiro contacto com o grupo estudado.
Eram 19.30h, a noite era levemente fria para o mês de maio no sul do Brasil. Sabia que os cultos começavam todas as noites às 19h e decidi ir até a sede da IPDA naquela cidade. Precisava verificar se me sentiria minimamente confortável para realizar a pesquisa naquele ambiente. Peguei na mota e segui.
Parei mesmo em frente à entrada da igreja.
Pessoas caminham apressadas em direção ao portão de ferro. Há um homem postado a esquerda da porta e uma mulher à direita. Ele veste um terno* escuro, um pouco desbotado, noto a barra da calça curta, sapatos velhos mas bem limpos e uma gravata discreta, o conjunto todo parece bastante usado. A mulher usa uma bata* cor de rosa que desce abaixo dos joelhos. Noto que há uma blusa branca por baixo, pois as mangas são mais compridas que as da bata. O casal me olha impassível. Por um momento parece que estou no endereço errado. Tiro o capacete. Noto uma expressão de espanto no olhar do casal. Dirijo-me a porta, a mulher se antecipa a me cumprimentar e diz ‗a paz do Senhor, seja bem vinda‘. Aponta os bancos a direita. Há menos de cinqüenta pessoas ali. Sento-me no lugar indicado. As pessoas estão orando em voz alta, cada um no seu ritmo, cada um do seu jeito, uns gritam ‗aleluia‘ outros ‗senhor‘, no meio de tudo não é possível ouvir claramente uma frase inteira.Alguns estão de pé, outros ajoelhados. A maioria de olhos fechados. Mantenho a cabeça baixa, as mãos juntas sobre o colo. Observo que também sou observada discretamente. (Diário de campo, 20.05.2006, Brasil)
A partir daquela noite eu passei a ‗existir‘ para aquele grupo como uma mulher, como tantas outras, que procurou aquela igreja provavelmente em busca de solução para algum problema. Mas não faço parte daquele grupo, sou apenas o ‗outro‘, a de fora, a que não conhece, a que precisa de ajuda, de entendimento, de uma palavra e de ser salva.
Todos esses ‗apontamentos‘ foram ‗registados‘ pelo grupo ao ver-me. Eu fui observada, analisada e identificada desta forma. Naquele momento eles eram os
46 pesquisadores. Porém, eu só tomei conhecimento desses apontamentos posteriormente, quando observei como os ‗estranhos‘ eram classificados, e perguntei se eu também havia sido. A resposta que recebi de uma sorridente interlocutora foi ‗você era do mundo, mas agora não é mais‘.
Desta forma, o grupo também mobiliza seu sistema de classificação para tornar aquele que inicialmente era um ‗estranho‘ em uma ‗pessoa de dentro‘, isto é, num indivíduo socialmente reconhecido.
Ainda é comum que em algumas religiões o pesquisador receba um nome e seja localizado nas categorias de gênero, idade, estado civil, parentesco, etc., que regula os papéis sociais dos indivíduos naquele grupo. Durante meu percurso o ‗nome‘ que recebi e a forma pela qual sempre fui tratada, foi ‗Irmã kachia‘, nunca senhora ou menina (como se usa em Portugal para mulheres solteiras), mas sempre o nome antecedido por ‗Irmã‘ que designava a categoria de género e estado civil. Mulheres solteiras eram tratadas por ‗jovem Ana‘, jovem Maria, etc. Apesar de ser divorciada fui classificada e ‗localizada‘ entre as mulheres casadas, com as quais passaria a andar, porque a doutrina interna da IPDA regula que um membro só pode se casar pela segunda vez em caso de viuvez. Desta forma, tornei-me uma ‗irmã‘ a ser vigiada e passei todo o período da pesquisa acompanhada por irmãs casadas ou idosas.
As orientações de meu interlocutor principal, no Brasil, [que eu já conhecia há mais de oito anos] serviram grandemente para conseguir perceber de qual lado da igreja eu deveria me colocar, ‗onde‘ deveria me sentar, que ‗tipo de comportamento‘ deveria adoptar quanto ao andar, ao vestir, ao falar e até ao olhar, ao perfume, a inexistência da maquiagem, a cor dos trajes, ao sorrir, a me dirigir as pessoas somente do sexo feminino e jamais as do sexo masculino. Sem o contacto e apoio deste interlocutor32 eu não teria tido nenhuma hipótese de me inserir tão profundamente no grupo e realizar minha pesquisa.
32
Meu interlocutor principal no Brasil foi em todo o tempo extremamente importante, visitava minha casa as escondidas, me ‗apresentava‘ as pessoas do grupo, e orientava até sobre os ‗assuntos‘ que eu poderia abordar com cada uma delas. Este interlocutor acompanhou-me entre maio a outubro de 2006 e num momento seguinte, entre fevereiro a junho de 2007, quando então a ‗vigilância‘ sobre minhas andanças intensificou-se e ele não pode mais me acompanhar [pelo facto de ser um homem] introduziu-me na casa de seus pais que passaram a ser meus guias e também interlocutores nas diversas fases do trabalho de terreno no Brasil. Ainda, nos períodos em que estive a realizar trabalho de terreno fora do Brasil nosso contacto mantinha-se via telefone e internet.
47 As pré aulas ocorreram entre maio e julho de 2006, no mesmo período em que comecei a frequentar diariamente a IPDA daquela cidade no interior do Brasil. Entre Agosto e Setembro fui surpreendida ao receber a aprovação do grupo diante de obstáculos que outros membros normais haviam conquistado somente após alguns anos, ou em alguns casos ainda não haviam obtido (por exemplo alguns ‗dons do Espírito Santo‘ que me foram concedidos).
As indicações ou recebimento de dons sendo vistos como uma grande honra para quem os recebe, faz com que o pesquisador as aceite, mesmo que não pretenda se iniciar, pois recusá-los seria considerada uma ofensa, uma incompreensão das regras da etiqueta, uma incompreensão dos símbolos todos. Ao receber um nome ou um título o pesquisador participa de um ritual de delicadeza que pode ser uma espécie de reconhecimento da sua presença naquele ambiente religioso.
Desta maneira, o antropólogo deve pesquisar a si próprio antes de pesquisar o ambiente e o grupo que pretende estudar, e verificar se possui condições mínimas de empatia com os processos que pretende analisar. Por exemplo, nos primeiros cultos o som estridente dos microfones era quase insuportável e por diversas vezes reflecti durante quanto tempo eu conseguiria estar naquele espaço.