7. Desenvolupament dels continguts
11.1 Entrevista semiestructurada a l’especialista de Suport del centre
‗nas origens do pentecostalismo brasileiro encontram-se migrantes‘ (Dreher, 1991,p.8)54 Migrantes são também os iniciadores do segundo grande movimento pentecostal no Brasil. Em 1910 através do italiano Luigi Francescon, fundador da Congregação Cristã no Brasil, e em 1911 com os suecos Adolf Gunnar Vingren e Daniel Berg, precursores da Assembléia de Deus, sua situação ao entrarem no Brasil era idêntica a da maioria absoluta dos imigrantes que chegavam: foram sem recursos financeiros e sem conhecer a língua do país (Dreher, 1991,p.9).
Francescon havia emigrado para Chicago, abandonado o catolicismo e se tornado presbiteriano e posteriormente pentecostal. Igualmente Vingren e Berg haviam emigrado e se fixado na região de Chicago. Eram batistas antes de se unirem ao movimento pentecostal.
Em fins da década de 1940, chegava ao Brasil o missionário pentecostal norte- americano Harold Willians. De sua actividade surgiu a Igreja do Evangelho quadrangular. Williams introduziu no Brasil a técnica de evangelização em tendas.A tenda teve seu lugar em civilizações nômades, e cada vez mais nômade começavam a se tornar a população brasileira da época. Se até antes do final da Segunda Guerra Mundial eram os nordestinos que haviam migrado para a Amazônia e depois em direção a São Paulo, depois todo o Brasil começava a entrar em processo de migração. Migrava-se do campo para a cidade e do campo para as novas áreas de colonização, num movimento que persistia e a cada dia se agudizava mais. Em todo esse processo de migração a tenda esteve presente e ‗Que mais são os barracos do que tendas, das quais seus moradores esperam que possam ser arrancados quando surgir nova oportunidade de migração para uma vida melhor?‘ (Dreher, 1991,p.10). Assim, segundo Dreher em todo o processo de migração brasileiro, o pentecostalismo tem estado presente.
A Congregação Cristão teve seu início em São Paulo através de um cisma provocado por Francescon na Igreja Presbiteriana do bairro do Brás. Seu
54
Dreher, Martin N. (1991) Pentecostalismo – Religião de Migrantes. In: Travessia: revista do migrante. Publicação do Centro de Estudos do Migrante – Ano IV, número 10. São Paulo,maio/agosto, p. 08- 11.
74 desenvolvimento se deu primordialmente entre imigrantes italianos e seus descendentes. Sua expansão geográfica seguiu a trilha do café que havia empregado largamente a mão de obra imigrante e que havia facilitado a penetração do presbiterianismo no interior de São Paulo e Minas Gerais. Assim a Congregação estabeleceu-se majoritariamente nas áreas cafeeiras do interior de São Paulo, do sul de Minas Gerais e do oeste do Paraná.
A ‗Assembléia de Deus‘ também iniciou-se através de um cisma provocado por Vingren e Berg na Igreja Batista de Belém, no Pará. Essa igreja era pastoreada por um sueco que havia emigrado para os Estados Unidos, indo de lá para o Brasil em 1897. Como Vingren e Berg não tinham nem sustento financeiro certo nem respaldo eclesiástico, este último trabalhou como fundidor para sustentar os dois. A expansão geográfica da Assembléia de Deus seguiu num primeiro momento o refluxo de migrantes nordestinos desiludidos com a crise do ciclo da borracha e em um segundo momento o fluxo de migrantes nortistas e nordestinos para o sudeste do Brasil. Dessa forma, A ‗Assembléia de Deus‘, em 1920 estava estabelecida em nove estados brasileiros e em 1930 já estava presente em praticamente todo o país.
No inicio da década de 40, a Assembléia de Deus e a Congregação Cristã possuíam cerca de cinquenta mil membros cada uma. Dez anos depois esse número praticamente havia dobrado. Porém, o crescimento exponencial ocorreu na década de 50, principalmente para a ‗Assembléia de Deus‘ que inaugurou a década de 60 com quase um milhão de membros e atingiu um milhão e quinhentos mil membros em 1965, nessa mesma época a ‗Congregação Cristã‘ possuía quinhentos mil membros.
A década de 50 foi também a década de fragmentação do pentecostalismo brasileiro. Várias outras denominações surgidas nesse período beneficiaram de um crescimento exponencial e em 1965 contavam com cerca de trezentos mil membros, sendo a Igreja Pentecostal o Brasil para Cristo e a Igreja do Evangelho Quadrangular as mais expressivas, com respectivamente cento e trinta mil membros. Havia em 1965 cerca de 2.230.144 pentecostais, equivalente a 68,5% do total de evangélicos, que seria de 3.257.501, ou seja, 3,9% da população brasileira55.
Os dados do último Censo realizado pelo IBGE (2000) ilustraram bem esse cres- cimento. Naquele ano, havia no Brasil 17,7 milhões de brasileiros incluídos na categoria de pentecostais, o que equivale a 67,65% do total de 26,2 milhões de evangélicos. Desse
55 Dados extraídos de Read, William; Monterroso, Victor e Hohnson, Harmon. (1969) Latin American
75 número de pentecostais, 47,47% pertenciam à Assembleia de Deus; 14,04% à Congregação Cristã do Brasil. Portanto, 61,5% dos pentecostais faziam parte dos dois maiores e mais antigos movimentos pentecostais no país.
Ao terceiro grupo mais numeroso, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), foi atribuído um total de 11,85%. Trata-se, no entanto, de um dos ramos pentecostais mais novos, sincréticos, dinâmicos e visíveis no espaço social (mídia e política)56, também classificado por muitos autores como Neopentecostal.
O mapa abaixo auxilia a visualizar as várias fases originárias do pentecostalismo brasileiro, citadas neste capítuo, desde o século XVII a partir dos EUA e seu consequente desenvolvimento no Brasil. A primeira parte do mapa (em preto) foi retirada de um estudo do Prof. Leonildo Campos57. Esta pesquisa apresenta dados novos a partir da segunda parte do mapa (em azul). Refere-se a linha histórica que originou o nascimento da IPDA no Brasil, e as consequentes igrejas surgidas a partir da IPDA em Portugal (em vermelho). Será interessante ainda observar o mapa histórico da IPM (capítulo 3.4.1) nascida a partir de uma cisão da IPDA em Portugal em 2007 e sua extensão/retorno ao Brasil a partir de 2008, tornando-se na primeira igreja pentecostal brasileira criada no exterior a ‗migrar‘ para o Brasil.
Ainda, inseriu-se nesse mapa a localização histórica da IURD, apesar de tratar-se de uma linha neopentecostal, por se tratar de uma igreja amplamente conhecida em Portugal e ainda devido ao facto de que as igrejas dissidentes da IPDA ainda não consolidaram sua estrutura doutrinária podendo a vir, futuramente, assemelharem-se mais as igrejas neopentecostais do que prórpiamente a sua igreja/matriz (IPDA).
56 De acordo com pesquisas de Mariano (1999), Oro, Corten e Dozon (2003), Campos (1997), Ruuth &
Rodrigues (2007) e tantos outros, a IURD é um tipo de igreja que mais se adapta a um contexto de globalização e internacionalização da cultura e da economia.
57 Campos, Leonildo S. (2005) As origens norte-americanas do pentecostalismo brasileiro: obserações
sobre uma relação ainda pouco avaliada. Revista USP: São Paulo, nº 67, pp100-115, Setembro/Novembro.
76 Tabela 1 Mapa Histórico da IPDA
77 Emilio Willens58, antropólogo alemão, foi um dos primeiros a estudar o pentecostalismo no Brasil. Para ele a rápida expansão ocorria porque os grupos pentecostais atendiam às necessidades particulares e correspondiam a certas aspirações das massas expostas às fortes mudanças sociais ocorridas a partir dos anos 30. O pentecostalismo funcionaria como um instrumento de adaptação das massas recém chegadas do meio rural ao meio urbano.
As comunidades pentecostais forneceriam ao migrante a coesão e a segurança necessárias para a vida em um ambiente novo e hostil, como também proporcionariam oportunidades sociais e económicas para os membros. O migrante teria sua entrada no meio pentecostal facilitada pela existência de diversas afinidades entre este e o catolicismo popular, do qual o migrante era oriundo.
Willens defendia que o pentecostalismo expressava simbolicamente a rebelião das massas, substituindo o sistema de classes tradicional por uma sociedade sem classes. As massas estariam escapando do catolicismo hierárquico e autoritário e abraçando sua fé que enfatizaria o igualitarismo.59
As causas da expansão pentecostal também foram analisadas por William Read60, missionário presbiteriano que antecedeu ao clássico de Willens e foi citado por ele várias vezes, porém sua leitura ficou restrita ao meio eclesiástico. Algumas explicações de Read para o rápido crescimento do pentecostalismo são a rápida urbanização, a propensão dos brasileiros para o sentimento religioso, a natureza emotiva dos brasileiros, os elementos míticos e miraculosos presentes na cultura brasileira, o analfabetismo e o autoritarismo presente na estrutura pentecostal.
Quanto a este último aspecto totalmente oposto a leitura de Willens, Read salienta que as massas eram atraídas pelo pastor pentecostal pois identificavam nele o patrão que possuíam anteriormente. Read percebeu que os processos democráticos não funcionariam com pessoas que não estivessem aptas ou preparadas para as responsabilidades democráticas. Assim, era o autoritarismo e não o igualitarismo,
58 Emigrou para o Brasil em 1931, viveu nas áreas de colonização germanica no sul do Brasil, sendo
professor na Universidade de São Paulo e depois emigrou para os Estados Unidos, fixando-se na universidade Vanderbil. Willens, Emilio. (1967) Followers of the New Faith. Culture change and the rise of protestantism in Brazil and Chile. Nashville University Press. p.118-159.
59 Willens, Emilio (1964) Protestantism and cultural change in Brazil and Chile, In, William V. D‘
Antonio e Fredrick B. Pike (orgs) Religion, revolution and reform: new forces for change in Latin America. New York: Frederick A. Praeger. p.93-108
60 Read, William. (1965) New patterns of church growth in Brazil. Grand Rapids, MI: Eerdmans. p.208-
78 presente na estrutura pentecostal que fazia as massas se sentirem em casa no pentecostalismo.
Read foi o primeiro autor a observar no pentecostalismo brasileiro uma revolução económica nos moldes daquela provocada pelo metodismo, percepção redescoberta e vulgarizada nos anos 9061.
O primeiro a criticar a percepção de Read e também a de Willens, segundo a qual o pentecostalismo seria uma rebelião de massas, foi Lalive d‘Epinay62, para quem o pentecostalismo, longe de representar uma rebelião, era o refúgio das massas temerosas de provocarem as necessárias transformações sociais63.
O ponto e convergência entre as análises de Willens, Read e Lalive d‘ Epinay é que o pentecostalismo surge em um ambiente de rápidas transformações sociais simbolizadas pela urbanização, alcançando as camadas marginalizadas no processo.
Assim, o pentecostalismo seria uma resposta religiosa comunitária a anomalia social por parte dos grupos desenraizados em uma sociedade em transição.Lalive d‘Epinay no entanto, distancia-se de Willens e Read e observa que as comunidades pentecostais não são inovadoras, ao contrário, elas são uma metamorfose do sistema social tradicional. Para ele o pentecostalismo reproduz no meio urbano as formas de dominação tradicionais do meio rural, onde o pastor desempenharia, igual ao proprietário de terras, o papel de agente relacionador de seu grupo com a sociedade.
61 ‗assim como aconteceu com a Igreja metodista quando o fogo da pregação e a santificação do Espírito
Santo levou um pequeno povo à proeminência nacional e internacional, da mesma maneira as Assembléias de Deus estão se tornando o maior movimento ascendente das pessoas de classes inferiores em toda América Latina […] Deus os esta abençoando com renda, educação e condição social‘. Read (1965, p.143). Ver tambem David Martin (1990) Tongues of fire: the explosion of protestantism in Latin America. Oxford: Basil Blackwell.
62D‘ Epinay, Christian Lalive.(1968) El refugio de las masas: Estudio sociológico del protestantismo
Chileno. Santiago:Editorial del Pacifico. É interessante observar que o título do livro de Read publicado primeiramente nos Estados Unidos em 1965 é New Patterns of church Growth in Brazil, porém em sua edição em português, publicada em 1967, foi intitulado Fermento religioso nas massas do Brasil. A mudança de titulo foi uma resposta a Lalive d‘epinay, cujo texto primeiramente publicado em francês em 1966 e posteriormente em espanhol (1968), inglês (1969) e português (1970), em todas as edições é o mesmo, Refugio das massas, numa contraposição a ‗rebelião das massas‘ de Willems.
63Os trabalhos de Read e Lalive d‘Epinay representam ideologias contrarias que estavam em conflito a
nível mundial.Enquanto o Conselho Mundial de Igrejas apontava a revolução socialista como caminho para o desenvolvimento da America Latina, os setores conservadores do evangelicalismo norte-americano receitavam uma revolução nos moldes capitalistas. A ponte entre estes dois grupos era a Confederação Evangélica do Brasil, que através de seu Setor de Responsabilidade Social introduziu no país as discussões que estavam ocorrendo a nível mundial, organizando inclusive em 1962, no Recife, uma conferência com a temática ‗Cristo e o processo revolucionário brasileiro.Siepierski, Paulo. (2002) Mutações no protestantismo brasileiro:o surgimento do pós- pentecostalismo, In, Dreher, Martin. 500 anos de Brasil e igreja na America Meridional.Porto Alegre:Est Edições.
79 Quanto ao igualitarismo defendido por Willens, Lalive d‘Epinay observa que se por um lado é verdade que o acesso a todos os cargos esta em aberto, por outro lado o poder é exercido de maneira autoritária e hierárquica (Lalive d‘Epinay, 1968, p.164- 167).
Durante o trabalho de terreno realizado junto a IPDA procurou-se subsídios para verificar estas proposições de Lalive d‘Epinay, no decorrer desta tese serão expostos, e desta forma concorda-se amplamente com este autor. Deste o controlo rigoroso dos tempos e acções dos membros até o uso com duplo sentido da palavra ‗doutrina‘ que por vezes significa ‗regras retiradas da bíblia‘, como os dez mandamentos, e por vezes significa ‗regras da igreja‘ estruturadas pela administração e extremamente minuciosas em relação a vida social/cultural/afectiva do indivíduo.