sequelas
Benner (2001) considera que a prática de enfermagem implica que se assuma uma intenção de ajuda e um compromisso de se desenvolverem as práticas de cuidados. A intenção antecede a tomada de decisão enquanto organizadora da função, permitindo explicar e particularizar cada ato, inserindo-o numa estrutura que lhe dá sentido (Boterf, 1994).
A avaliação inicial surge como a primeira etapa do processo de enfermagem, é decisiva para a conceção, planeamento, implementação e avaliação dos cuidados prestados, o que lhe acrescenta qualidade, mas especialmente individualidade. Deve ser rigorosa e capaz de descrever com pormenor a condição de saúde permitindo deste modo, inferir e enunciar o diagnóstico de enfermagem, tendo como objeto o planeamento e consequente prestação de cuidados à pessoa.
O autocuidado refere-se à “prática e atividades que os indivíduos iniciam e realizam em seu próprio benefício, para a manutenção da vida, da saúde e do bem- estar” (Orem, 2001, p.43). O défice de autocuidado é um termo que exprime a relação entre as capacidades de ação dos indivíduos e as suas necessidades de autocuidado (Orem, 2001). O requisito de autocuidado é um conceito abstrato que, quando expresso em termos de limitações de ação, fornece orientações para a seleção de métodos de auxílio e compreensão da intervenção da pessoa no autocuidado.
Assim, o processo de identificação dos requisitos de autocuidado da pessoa com tetraplegia devido a LVM apresenta-se como um momento fundamental para a definição da intervenção do EEER, entendida dentro da Teoria dos Sistemas de Orem, na qual é determinado como é que os enfermeiros, os doentes ou ambos, dão resposta às necessidades de autocuidado do doente (Petronilho, 2012).
Na identificação de necessidades específicas de intervenção do EEER considerou sempre a complexidade e singularidade da pessoa enquanto ser único, procurando obter informações sobre a pessoa com tetraplegia devido a LVM, ao mesmo tempo que se ia familiarizando com protocolos/normas do serviço, constituição do processo clínico, instrumentos de registo, escalas utilizadas, e registos de enfermagem de reabilitação.
No SRA coincidindo com o momento de acolhimento do utente é realizada a colheita de dados e avaliação das capacidades funcionais, dos problemas existentes, condições familiares e cuidadores informais, situação social e habitacional (tipo de habitação e quais as principais barreiras arquitetónicas que dificultam o processo de reabilitação), existência, ou não, de dispositivos de apoio que favoreçam a readaptação da pessoa com mobilidade reduzida, de modo a estabelecer os objetivos a delinear no plano de cuidados. Na avaliação das atividades dos doentes é usado pelos enfermeiros o modelo teórico de enfermagem de Nancy Rooper.
Face às necessidades destes doentes, Orem (2001) refere que uma expressão mais detalhada dos requisitos de autocuidado oferece um guia ao enfermeiro, relativo ao tipo de conhecimento necessário para compreender apropriadamente a natureza do requisito, incluindo os mecanismos de regulação interna, bem como as escolhas da pessoa para a sua própria regulação, orientando as principais intervenções de enfermagem.
De referir que também é dada enorme importância à aplicação das escalas que avaliam a dor (Escala Analógica da Dor), o risco de queda (Escala de Morse) e o risco de úlcera de pressão (Escala de Braden), uma vez que naquela instituição são utilizadas como indicadores de qualidade dos cuidados de enfermagem. Verificou
ainda que estavam protocoladas a Escala de Lower (avaliação da força) e a Escala de Ashworth Modificada (avaliação do tónus muscular).
A lesão medular é classificada, de acordo com o tipo de lesão na espinal medula, segundo a padronização internacional determinada pela ASIA (Ditunno, Young, Donovan, & Creasey, 1994) em cinco categorias, identificadas por letras, de A a E, sendo que A representa a lesão completa e E o estado normal.
Para avaliar o impacto da lesão na autonomia para a satisfação das necessidades fundamentais de cada pessoa, bem como os resultados das intervenções de reabilitação desenvolvidas estava preconizada a MIF. A importância desta escala e o seu correto preenchimento é um grande foco de atenção por parte dos EEER deste Serviço, fornecendo dados que permitem avaliar a funcionalidade da pessoa e o seu potencial de reabilitação, permitindo também reavaliações periódicas fazendo notar alterações verificadas nos utentes e avaliar resultados decorrentes da intervenção de Enfermagem de Reabilitação.
É também importante a realização do exame neurológico pelo EEER. Como contributo para o aprofundamento do seu conhecimento, após partilha de opinião com o Enfermeiro Orientador, foi proposta a realização de um instrumento para avaliação inicial de um doente com lesão medular (Apêndice VI).
Para a elaboração deste instrumento foram realizadas pesquisas bibliográficas sobre diversas escalas de avaliação como meio de efetuar uma completa, sistematizada e adequada avaliação inicial da pessoa com lesão medular, permitindo-lhe explorar a vertente da neuro avaliação, colher os dados mais pertinentes e compreender aqueles que fizeram a diferença, possibilitando a qualidade dos cuidados prestados. As escalas que considerou mais importante utilizar foram: Escala de Comas de Glasgow (estado de consciência); Escala Visual Analógica/Numérica (dor); Escala de Braden (revestimento cutâneo); Escala de Lyon Universite (frequência de espasmos); Escala de Lower (força muscular); Escala de Ashworth Modificada (tónus muscular); Escala de ASIA (neurológica – sensitiva e
motora); MIF e SCIM7 (Spinal Cord Independence Measure) (escalas de avaliação de dependência). Foi ainda incluída no mesmo a avaliação da amplitude articular, equilíbrio, clonus, reflexos (superficiais e profundos) e sensibilidade (superficial e profunda).
No decorrer desta pesquisa bibliográfica despertou-lhe uma opinião, a qual não quer perder a oportunidade de expressar, que se baseou no facto de que neste SRA é aplicada a MIF como escala de medida da independência funcional dos utentes internados, no entanto a sua preferência recai sobre a escala SCIM, por ser uma escala de medida muito adequada, a seu ver, à avaliação dos défices de autocuidado que necessitam de ser satisfeitos de acordo com o nível de dependência, assim como permite uma avaliação mais concreta do grau de recuperação da pessoa com tetraplegia devido a LVM, demonstrando o quão importante é a implementação do processo de reabilitação, maximizando a capacidade de independência funcional.
Mesmo que inicialmente este instrumento de colheita de dados se demonstre bastante extenso, a sua aplicação poderá estar facilitada em vários momentos de prestação de cuidados, nomeadamente nos cuidados de higiene, mobilização, posicionamentos, entre outras intervenções, não sendo a sua utilização exaustiva para o utente.
Ao longo do estágio conseguiu implementar este instrumento de identificação de necessidades específicas da pessoa com tetraplegia devido a LVM em cuidados de Enfermagem de Reabilitação às pessoas que teve oportunidade de cuidar. Como complemento a este procedimento de identificação de requisitos de autocuidado pode destacar a informação que é transmitida durante a passagem de turno, momento crucial que permite a identificação e continuidade da intervenção do EEER no processo de reabilitação.
7 o desenvolvimento da Escala SCIM foi iniciado em 1994 por Amiram Catz e Malka Itzkovich, tendo a primeira versão sido publicada em 1997. Escala válida e fiável na avaliação funcional dos doentes com lesão medular (Dantas, Amaro, Silva, & Margalho, 2012).
A terceira versão da Escala SCIM que foi traduzida para português, consiste em 19 itens ou tarefas, que se agrupam em 3 subescalas: Autocuidados (6 itens com pontuação entre 0 e 20), Alterações da Respiração e Esfíncteres (4 itens com pontuação entre 0 e 40), e Mobilidade (9 itens com pontuação entre 0 e 40). A pontuação total varia entre 0 e 100, correspondendo este último valor à máxima autonomia funcional. Pode ser aplicada por método observacional ou através de entrevista (Dantas et al., 2012).
Neste âmbito teve oportunidade de participar em algumas reuniões de objetivos, que se realizam periodicamente, em que toda a equipa multidisciplinar se reúne com a finalidade de apresentar a situação de cada pessoa, para a partir da qual se avaliar e reformular o programa de reabilitação. Expôs o processo evolutivo das pessoas com LVM a quem prestou cuidados (assumindo a postura de enfermeiro de referência) avaliando os objetivos a alcançar, os motivos para a possível não concretização, as dificuldades em alcançá-los, sugerindo alternativas.
Habitualmente os profissionais de saúde têm a tendência em dar atenção aos problemas visíveis que frequentemente são os do foro físico. Na verdade a pessoa com tetraplegia debate-se com problemas muito complexos, neste sentido é após uma detalhada avaliação e identificação de todos os problemas da pessoa que se pode intervir em termos de reabilitação, de modo a evitar a frustração e desapontamento de quem cuida e de quem é cuidado. Deste modo recolheu a informação pertinente relativa a fatores inibidores e facilitadores para a satisfação dos défices e promoção do autocuidado, observando a pessoa/família de uma forma holística, identificando as necessidades de intervenção do EEER para otimizar ou reeducar a função a nível motor, sensorial, da alimentação, da eliminação, da sexualidade e da realização das AVD da forma mais independente.
1.6. Planeamento de cuidados de Enfermagem de Reabilitação à pessoa com