2. BAKGRUNN
2.5 P ROBLEMSTILLINGER RUNDT SELSKAPSFORMEN NUF
O enfoque agroecológico reconhece a relevância do potencial das distintas modalidades de conhecimentos e de saberes, no que se refere a contribuições para o desenvolvimento de soluções relativas ao desenvolvimento da agricultura sustentável, mesmo porque, conforme pontua Gomes (2005, p. 93), “os diversos tipos de conhecimentos não têm atributos específicos que os tornem superiores ou inferiores uns aos outros”.
A metodologia e prática da agroecologia originam-se de distintas raízes filosóficas, as quais se distinguem daquelas das quais provém a ciência agrícola convencional (RICHARD; SIKOR, 1999). A epistemologia da Agroecologia reporta à construção de um novo paradigma que se mostre capaz de superar a ciência normal, o que significa superar aquela que tem “por base as firmes convicções e os fundamentos adquiridos e reconhecidos pela comunidade científica, em um determinado paradigma...” (GOMES, 2005, p. 82). Como esclarece Guzmán e Montiel (2010) isso não significa rechaço à ciência convencional, apenas se reconhece que esta forma de conhecimento mostra-se limitada na resolução de problemas; afinal, a ciência dever ser compreendida como uma via de geração de conhecimento entre outras. Além disso, Caporal e Costabeber (2004) afirmam que as mudanças propostas pela agroecologia e a complexidade da transição a estilos de agriculturas sustentáveis não permitem descartar o conhecimento técnico-científico, uma vez que este apresente compatibilidade com os princípios e metodologias que podem possibilitar uma agricultura de base ecológica. Além disso, reconhece-se que “é da sua fusão com o conhecimento tradicional que a agroecologia busca estabelecer suas bases” (CARMO, 2008, p. 36).
Agroecologia convoca a um diálogo de saberes e intercâmbio de experiências; a uma hibridação de ciências e técnicas, para potencializar as capacidades dos agricultores; a uma interdisciplinaridade, para articular os conhecimentos ecológicos e antropológicos, econômicos e tecnológicos, que confluem na dinâmica dos agroecossistemas (LEFF, p. 42, 2002).
Como a Agroecologia não se restringe a uma atividade meramente econômica, mas uma forma cultural de produzir alimentos e, também, de produzir formas de viver, por meio da utilização dos recursos naturais, dos saberes empíricos e das formas de relação entre o homem e a natureza, o conhecimento de quem faz a agricultura torna-se uma variável extremamente condicionante (BALEM; SILVEIRA, 2002).
A matriz do conhecimento agroecológico interliga dois princípios que se mostram fundamentais: a conservação e ampliação da biodiversidade dos agroecossistemas (saúde ecológica) e a preservação da diversidade cultural das populações envolvidas (saúde cultural) (CARMO, 2008).
Norgaard e Sikor (1999) assinalam diferenças entre a construção do conhecimento no âmbito da agricultura convencional e da agroecologia. De acordo com eles, a agroecologia leva em consideração tanto o sistema agroecológico, como o social no qual trabalham os agricultores, dá uma ênfase relativamente baixa às investigações realizadas nos centros
experimentais e nos laboratórios e enfatiza fortemente os experimentos de campo, de modo a possibilitar uma maior participação dos agricultores no processo de investigação.
De acordo com Carmo (2002, p. 36) um dos pilares, no qual a agroecologia se apoia, “também vem na direção de alterar o enfoque unidimensional do desenvolvimento como crescimento voltado exclusivamente ao mercado, e procurar uma transição que desenvolva laços de solidariedade entre os povos”. Em virtude (também) disso, a pesquisadora explicita a necessidade de se compor um marco teórico mais coerente com as transformações da realidade social para que se tenha uma visão mais ampla da agricultura, como cenário de atividades socioculturais e intercâmbios ambientais. Para tanto, cabe dizer que em “lugar de consenso científico excludente, é preciso abrir-se e conviver com o conflito e com a diversidade como fatores que contribuem para a consolidação de processos participativos e democráticos” (GOMES, 2005, p. 97).
Diferentemente da ciência convencional que utiliza uma forma de conhecimento atomista, mecânica, universal e monista, a agroecologia, respeitando a diversidade ecológica e sociocultural e, portanto, outras formas de conhecimento, advoga pela necessidade de gerar um conhecimento holístico, sistêmico, contextualizador, subjetivo e pluralista, originado a partir das culturas locais (GUZMÁN, 2001). De forma condizente com tais questões, acrescenta-se, ainda, que os “agroecologistas” não aceitam verdades tidas como universais para aplicar o saber das ciências agrícolas e humanas, pois o desenvolvimento de cada agroecossistema ocorre com uma história coevolutiva distinta (CARMO, 2008). Estas questões reforçam a ideia revelada por Moreira e Carmo (2004, p.08), os quais reconhecem que “a agroecologia não é uma ciência acabada”, mas se encontra em processo de construção, portanto o seu desenvolvimento exige dos cientistas ligados ao tema “uma postura aberta (epistemológica e metodológica) e pouco dogmática”.
Gomes (2005) ressalta a necessidade de que o pluralismo na produção do conhecimento, como base epistemológica para agroecologia, contribua para a superação da ideia de supremacia das ciências naturais sobre as ciências sociais e do caminho da especialização, como meio único para a promoção do desenvolvimento na ciência. De forma coerente com estes propósitos, como ainda destaca o referido pesquisador, em um dos trabalhos mais importantes relativos à abordagem da epistemologia da agroecologia:
É necessário adotar não só ações de tipo interdisciplinar ou transdisciplinares como também promover o diálogo de saberes, articulando os conhecimentos científico e “tradicional”. Ou seja, é preciso superar a concepção de ciência como fonte única do conhecimento válido, pois os conhecimentos produzidos pela “epistemologia natural” também representam importante alternativa na recuperação e manutenção dos recursos naturais ou na construção da sustentabilidade, em suas várias
dimensões. Em lugar do conhecimento que permita o domínio da natureza, deve ser introduzida a cooperação (ou, de novo, o diálogo), entre cientistas, cidadãos e natureza. (GOMES, 2005, p. 97).
Como observam Caporal et al. (2011), a Agroecologia não se encaixa no paradigma convencional, cartesiano ou reducionista, compreendido como “paradigma da simplificação”; em referência à Morin (1999), afirmam que este paradigma não é capaz de reconhecer a existência do problema da complexidade. A Agroecologia requer um novo enfoque paradigmático, que seja capaz de estabelecer a união entre os saberes populares com os conhecimentos criados por distintas disciplinas científicas, para que se possa dar conta da totalidade dos problemas e não do tratamento de suas partes isoladamente. Mesmo porque as dimensões que compõem a agroecologia não são isoladas, se entrecruzam, influem-se mutuamente, de maneira que estudá-las, compreendê-las e propor alternativas supõe, necessariamente, uma abordagem inter, multi e transdisciplinar, motivo pelo qual os agroecólogos e seus pares utilizam-se de ensinamentos de distintas áreas do conhecimento, de modo a caracterizá-la como ciência da complexidade, não se enquadrando no campo do paradigma convencional, cartesiano, como já relatado (CAPORAL et al., 2011).
Considerações realizadas por Edgar Morin (2001), tido como o pai da Teoria da Complexidade, refletem a importância da superação das ideias que tentam sustentar a supremacia da ciência sobre outros estilos de conhecimento e da visão fragmentada que se mantém sobre o conhecimento, por meio da abordagem sistêmica e da interdisciplinaridade. Para Morin (2001), cujas contribuições apresentam grande valia para a estruturação da base epistemológica da agroecologia, a cultura científica, de forma bastante distante da natureza, separa as áreas do conhecimento, produz descobertas admiráveis, teorias que se mostram geniais, no entanto, não acarreta uma reflexão acerca do destino humano e sobre o futuro reservado à própria ciência.
A pluralidade epistemológica da Agroecologia, por sua vez, revela-se distinta da ciência convencional, pois se baseia numa nova visão das relações homem - natureza e busca sua concretude numa articulação que não se restringe apenas à questão ecológica, mas que contempla, também, as bases de uma epistemologia natural e evolucionista (CAPORAL et al., 2011).
Na acepção apresentada por Borsatto et al. (2005), o mérito do pensamento complexo refere-se ao fato deste priorizar o enfoque interdisciplinar na abordagem e proposta de estratégias para o meio agrário, sem se tratar de um pacote de intervenções, mas um conjunto de reflexões construídas a partir de múltiplas dimensões; pois a teoria da complexidade –
pensamento complexo – não consiste em algo concreto ou palpável, não oferece fórmulas e não propõe técnicas; o que apresenta consonância com a mudança paradigmática proposta pela agroecologia. Esta, como sustenta Caporal (2004), busca, sobretudo, nos conhecimentos e experiências já acumuladas, um método de estudo e de intervenção que, além de se manter coerente com suas bases epistemológicas, possa contribuir na promoção das transformações sociais que se mostrem necessárias para a geração de padrões de produção e consumo mais sustentáveis.