Fez-se à ‘professora-bibliotecária’ a mesma pergunta feita aos professores sobre possíveis participações em cursos (de capacitação, de atualização, de pós- graduação etc.) oferecidos pelo Poder Público, visando o uso eficaz e dinâmico das TIC e do espaço da biblioteca.
A resposta foi “[...] só participaram desse curso os professores que atuam em sala [...]”. Vê-se que a biblioteca continua preterida pelo Poder Público que desconsidera seu valor não prevendo cursos visando o preparo não só do profissional que nela atua, mas tendo por objetivo também dinamizar este espaço.
Observe que a responsável pela biblioteca, ao salientar que “[...] Só participaram desse curso os professores que atuam em sala [...]”, sabe-se preterida e alienada do processo, sendo a função desta secundarizada pelos demais.
Note que a escola investigada mesmo contando com algum aparato tecnológico, relega a biblioteca a segundo plano, desdenhando seu papel pedagógico, o profissional que nela trabalha e o seu “lugar” no processo educativo.
Todavia, em face das evoluções tecnológicas que impactaram as bibliotecas e os serviços de informação mundo afora, o referido profissional tem sido muito exigido no traquejo da internet e demais tecnologias agregadas (GUEDES e FARIAS, 2007; SILVA, J., 2004).
Não é admissível, portanto, excluir o “professor-bibliotecário” de iniciativas relativas à sua formação e atuação “dentro” ou “fora” do ambiente de sala de aula. Para isto é necessário propiciar-lhe o redescobrimento da atividade que realiza na biblioteca, dando maior ênfase à dimensão educativa de suas práticas e adquirindo, sempre que forem necessários, conhecimentos técnicos para exercer suas funções (SILVA, E., 2005a).
A responsável pela biblioteca do caso investigado, quando questionada se considera a si mesma “alfabetizada” no uso do computador, da internet e das ferramentas que lhe são inerentes, forneceu a seguinte resposta: “De certo modo
sim, porém falta o aprimoramento”. Aprimoramento este que não lhe foi oferecido, mas apenas aos demais professores que atuam em sala de aula.
Outro ponto a salientar, se refere aos fins pedagógicos para os quais a “bibliotecária” utiliza o computador. Ela afirmou: “Utilizo o computador pra pesquisa, o que não tem aqui na biblioteca, tem no Google [...] Não fico só tomando conta de livros, não, faço o que posso pra ajudar os alunos, mas gostaria de fazer mais”.
A fala da “bibliotecária” indica seu reconhecimento de que toda informação e comunicação por bits no ‘ciberespaço’ tornam ínfimo qualquer acervo escolar e que habilidades como “guardar” e “registrar” documentos, ainda que necessárias, devem ser incorporadas a outras (cf. SILVA; ABREU, 1999). Ao mesmo tempo, partilha da ilusão de que o Google dá acesso a “todas” as informações, como se todo o universo informacional estivesse na internet.
Foi perguntado também à responsável pela biblioteca se esta tem dificuldades em utilizar os “buscadores” (Google, Yahoo, dentre outros) para encontrar o que deseja e se orienta (ou já orientou) sistematicamente os estudantes a este respeito. Note a resposta: “Às vezes, mas não com frequência, pois a maioria deles (os alunos) se sai melhor do que eu nisto [...]”.
Vê-se que a “bibliotecária”, ao afirmar que “a maioria deles se sai melhor do que eu nisto” corrobora a constatação de que crianças e jovens utilizam-se da internet com relativo desembaraço, pois não a encaram como “aparato tecnológico”, mas simplesmente dela se utilizam para brincar, para se comunicar e formar relacionamentos (cf. AMARAL, 2003).
Mas, apesar do referido desembaraço no manuseio do computador, estes mesmos estudantes deparam-se com a fragmentação característica do “hipertexto internetiano” que, por vezes, impossibilita o acesso direto à informação desejada (MARCUSCHI, 2001). Daí a necessidade de encaminhamentos e orientações a estes estudantes-usuários da internet que precisam ser iniciados na “arte” de pesquisar, de associar e relacionar fatos, dados, informações etc. E, sobretudo, de criticar e selecionar fontes confiáveis, procurando separar o “joio do trigo”, tendo em vista o bombardeio de informações falsas que circulam pela internet (cf. ALMEIDA, 2003).
E é também papel do “professor-bibliotecário” introduzir os alunos ao universo da pesquisa, ensinando-lhes o uso de almanaques, de dicionários, enciclopédias, atlas geográficos, revistas, jornais e a utilizar apropriadamente a diversidade de “buscadores” existentes, cujas informações estão agregadas a enormes bancos de dados de páginas da web (ELY, 2003; BRANSKI, 2004; CAMPELLO, 2006).
Verificou-se, no entanto, que inexiste na escola investigada qualquer esforço aparente ou atividade intencionalmente prevista e planejada cujo fim seja ensinar aos alunos a fazerem uso da biblioteca e das fontes de informação disponíveis. Se o aluno precisa “aprender a aprender”, como se preparará para renovar e atualizar conhecimentos que hoje rapidamente se obsolescem? Se o aluno não aprende a buscar e a selecionar a informação, como pode ser o sujeito, em vez de objeto, da aprendizagem?
Perguntou-se também a “bibliotecária” se esta se utiliza de algum portal educacional (páginas da internet que servem como ponto de acesso direto a um conjunto de serviços e informações) como apoio pedagógico às atividades que desenvolve na biblioteca. Sua resposta foi:
“[...] Não, não utilizo a internet pra isso, não com este fim [...] Só pra pesquisar um assunto (no Google), ler alguma notícia, me informar”.
Na web embora não há haja um portal específico voltado para a biblioteca escolar, vale destacar o www.portalbibliotecario.com.br cujo conteúdo interessa a qualquer um que trabalhe com serviços de informação e pesquisa. Há neste “portal” links interessantes como “coleções” (obras raras digitalizadas disponíveis na internet), “escritores” (notas biográficas de autores de obras da literatura brasileira, da portuguesa e da inglesa), “artigos e colunas” e blogs (de profissionais que lidam cotidianamente com os serviços de biblioteca e informação).
Quando perguntada acerca da conservação e atualização do acervo, respondeu: “[...] A biblioteca é muito limitada em termos de acervo, falta recursos, investimento, mais espaço [...]”. Perguntou-se ainda à “bibliotecária” se as atividades desenvolvidas na biblioteca estão integradas ao que é realizado na sala de aula. Ela respondeu: “Não, o que acontece lá é só lá [...] Atividades com classmate só em sala de aula”. Note que nesta realidade escolar há, de um lado, salas de aula com um
computador por aluno, do outro, uma biblioteca preterida, esvaziada em sua importância e função.
Outra pergunta efetuada foi se existe algum trabalho que seja (ou tenha sido) planejado e realizado conjuntamente pela biblioteca escolar e corpo docente, tendo em vista a promoção da leitura e a formação de estudantes-leitores. Sua resposta foi: “Sim. As feiras cultural (sic), onde são dados (sic) apoio na parte dos livros”. Contudo, tal declaração contrapõe-se às afirmações feitas pelos professores, já anteriormente descritas.
[...] Sinceramente não vejo necessidade, pois o trabalho realizado lá (na biblioteca) é um e o nosso é outro [...].
[...] O bibliotecário auxilia quando a gente precisa, mas a dinâmica escolar não permite mais do que isso [...]
[...] Cada qual cuida da sua responsabilidade e se ajuda quando possível [...].
Verificou-se que as feiras culturais fazem parte do calendário escolar, todavia, as atividades realizadas nestes eventos não são planejadas conjuntamente por professores e o setor de biblioteca, mas apenas executadas pela “bibliotecária”.
Noutro momento da entrevista, a “bibliotecária” foi questionada se o acervo, o mobiliário e a estrutura física da biblioteca são adequados às diferentes faixas etárias e níveis de ensino dos estudantes-usuários. Sua resposta foi categórica: “Não. Não, o espaço é pequeno demais, muito apertado, há até muitos livros, mas onde colocá-los? [...]”.
Note que a declaração “bibliotecária” confere com as queixas feitas pelos professores (cf. p. 56 deste trabalho) e com o que está posto no Projeto Pedagógico da escola (cf. p. 71 deste trabalho). Logo, tais fatores interferem no funcionamento da biblioteca e no atendimento aos estudantes e professores. Desse modo, também dificulta a integração entre os espaços escolares: a sala de aula situa-se cada vez mais distante da biblioteca e vice-versa.
É mister, portanto, a reformulação e ampliação do espaço da biblioteca para que, de fato, seja um “centro de recursos educativos, integrado ao processo de ensino-aprendizagem” (FRAGOSO, 1996, p. 78). Afinal, o classmate (laptop) em sala, principal atração da escola investigada, é um recurso que, se afinado com
outros mais, existentes em uma biblioteca escolar, poderá auxiliar ações educativas diversas, integrando biblioteca e práticas docentes.