“A criação de conhecimento ocorre não apenas dentro das empresas, mas também a partir dos relacionamentos entre empresas diferentes” (Ahmadjian, 2008, p. 201); uma vez que, de acordo com Fleury e Fleury (2003), a competitividade é, e será cada vez mais, relacionada ao desempenho de redes interorganizacionais e não de empresas isoladas. Por essa razão, para Lambais (2009), a inovação tem ocorrido por múltiplas formas, sendo exemplo de meios externos a presença em clusters e as conexões em rede. Destarte, interagir em comunidades estratégicas de conhecimento em níveis de compartilhamento, criação e renovação de conhecimento; se torna uma competência vital. Essas comunidades são criadas e mantidas enquanto forem necessárias (Carvalho, 2009), e são caracterizadas por fluxos de informação e pelo compartilhamento de competências em redes estruturadas com a presença de atores interorganizacionais e intraorganizacionais (Canongia, Santos, Zackiewicz; 2004).
Analisa-se, então, que para inovar é necessário que uma organização desenvolva a sua capacidade de aprendizagem de diversas formas, tais como por adaptação, pelo desenvolvimento de pesquisas e pela interação com outras instituições. Esse último tópico origina as redes de inovação tecnológica, que são compostas por diversos tipos de instituições
que atuam desde o desenvolvimento de pesquisa até o financiamento de projetos. (Pelaez e Szmrecsányi, 2006).
Rocha Neto (2004, p. 261) conceitua rede como “um arranjo de vários nós e conexões”. Amorim e Shima (2006) explicam que a rede possui elementos estruturais constituintes e processos de transformação, reprodução e fortalecimento de suas estruturas ao longo do tempo, esses elementos são: os pontos, as posições, as ligações, o conteúdo e os fluxos. A rede deve ser mais forte e mais competitiva do que a simples soma dos resultados das ações de cada instituição individualmente (Costa, 2007), ela deve produzir sinergia.
Cada ponto, ou nó, representa um dos atores que participam da rede, sendo que cada um deles possui características que definem os padrões de interdependência e complementaridade recíprocos que serão estabelecidos entre os atores/pontos participantes do arranjo. Assim, cada ponto detém competências que serão necessárias para a rede, seja a capacidade de pesquisa ou a capacidade financeira, por exemplo. Os pontos mudam sua organização interna e externa e as suas estratégias competitivas em função da interação e das ligações com os demais pontos em rede.
A posição define como os diferentes pontos se localizam no interior da estrutura de rede, ela representa a divisão do trabalho, o que cada ponto fará na rede. As ligações, ou elos, correspondem ao mapa que se forma a partir dos relacionamentos e das articulações entre os pontos de rede. Os elos relacionam os diversos pontos entre si em função da posição que cada um ocupa na rede, pois os pontos estão ligados uns aos outros porque há entre eles determinadas características comuns que os atraem. A partir do momento em que essas ligações se tornam mais freqüentes, os elos ficam mais fortes e os pontos tornam-se interdependentes. O ponto central das ligações é o contrato, que regula as relações entre os pontos e define processos de coordenação e de prevenção de comportamentos negativos, reforçando o comprometimento com os objetivos das partes envolvidas. O conteúdo se refere aos objetivos da rede, que pode ser a integração de etapas da cadeia produtiva ou a realização de pesquisa e desenvolvimento tecnológico em conjunto, por exemplo. E os fluxos são os estímulos, tangíveis ou intangíveis, que circulam entre os pontos da rede, podendo ser dos mais diversos tipos, como conhecimento, matéria-prima ou recurso financeiro (AMORIM e SHIMA, 2006).
Posição é diferente de papel, que se refere às características das relações obtidas entre atores e posições. Identificam-se as posições sociais como coleções de atores que são similares em seus laços; enquanto os papéis sociais são sistemas de laços entre atores ou entre posições. Dois atores são estruturalmente equivalentes quando têm idênticos laços com outros
atores em uma rede. Blockmodel é um modelo que apresenta as características gerais de uma rede, tanto os laços entre as posições como as informações sobre os atores individuais. As características dos atores são importantes condicionantes de suas relações e a posição estrutural em uma rede pode ser vista como influenciadora das características dos atores. [WASSERMAN E FAUST (1976) apud ROSSONI; HOCAYEN-DA-SILVA e FERREIRA JÚNIOR (2008)].
A participação em redes amplia a capacidade de percepção acerca das tendências de tecnologias e mercados e de seus impactos socioambientais (Canongia, Santos, Zackiewicz; 2004). E a natureza sistêmica das inovações força as empresas inovativas a administrarem os outros atores em rede, uma vez que essas empresas monitoram o desenvolvimento de múltiplas inovações simultaneamente e realizam múltiplos contatos externos, obtendo informações importantes a respeito de diferentes tecnologias. Isso permite a essas companhias direcionar o processo de desenvolvimento tecnológico para o aproveitamento de novas oportunidades de negócio (Vanhaverbeke, 2006).
Um exemplo disso é a Petrobrás, que além de manter o seu centro de pesquisa, está envolvida em diversas redes de pesquisa de bioetanol, mantendo contato com organizações que desenvolvem tecnologias diferentes; como com a Embrapa e com a Amyris, empresa que desenvolve pesquisas de biotecnologia com a cana e tem por objetivo desenvolver diversos produtos alternativos aos advindos do petróleo.
A interação entre os atores dentro das redes de inovação tecnológica permite o alcance de eficiência técnico-produtiva maior (Shima, 2006). Pois, segundo Simard e West (2006), as redes facilitam a acumulação de conhecimentos e o intenso aprendizado entre os agentes; por serem elementos relevantes para aquisição, exploração e desenvolvimento de novas tecnologias; contribuindo para o aumento da quantidade de patentes, melhora de produtos já existentes, criação de novos, e acesso rápido a mercados novos e já existentes. Nas redes, a reputação dos atores e o fortalecimento dos vínculos são construídos de acordo com as interações passadas. No entanto, se as redes forem formadas sempre pelos mesmos atores, pode haver a construção de conhecimento redundante, provocando o seu sufocamento.
De acordo com Rossoni e Hocayen-da-Silva (2008), small worlds ocorrem quando atores em uma rede estão altamente agrupados e conectados a atores fora de seus grupos por meio de um pequeno número de intermediários. Nessas redes, em vez de a distância entre os nós aumentar cada vez mais com o aumento do tamanho da rede, sua distância apresenta pouca variação. Assim, o crescimento no número de nós não é acompanhado pelo aumento da
distância média entre eles. Isso faz com que os pontos fiquem agrupados localmente e precisem de poucos contatos para se ligarem a quaisquer membros na rede.
Pode-se determinar a posição do ponto em rede de acordo com a medida da sua centralidade, que pode ser local ou global. Um ponto é localmente central se apresenta grande número de conexões com outros pontos; será globalmente central, se possuir posição significativamente estratégica na rede como um todo (Rossoni e Hocayen-da-Silva, 2008). A presença de muitos atores que exercem posição de intermediação pode favorecer o surgimento de pontos vulneráveis de rede (cut-points) que são, de acordo com Hanneman e Riddle (2005 apud Rossoni; Hocayen-da-Silva e Ferreira Júnior, 2008), nós que, se forem removidos, deixam a estrutura da rede dividida em partes desconectadas. Se houver grande quantidade de
cut points, a rede se torna vulnerável à fragmentação. Pois, com a remoção desses poucos nós,
ela ficará desconexa.
As redes de inovação tecnológicas acabam formando redes sociais. De acordo com Nelson (1984 apud Rossoni e Hocayen-da-Silva, 2008), as redes sociais são formas estruturais que ligam vários nós, pessoas ou organizações, conectados por uma ou mais formas de interdependência, estabelecendo contatos de diferentes tipos e conteúdos. As redes apresentam laços relativamente fortes, diretos, coesos, intensos e freqüentes; com suas próprias normas, valores, orientações e subculturas.
Uma rede de organizações pode evoluir e se tornar um cluster; que é conceituado, segundo Costa (2007), como um aglomerado de organizações que se unem de maneira natural por terem objetivos ou atividades semelhantes ou complementares e com o intuito de atender algumas necessidades do mercado no qual elas estão inseridas. Segundo o autor, a estrutura de um cluster é heterarquia, isso significa que não há uma hierarquia com uma instituição líder da qual são emanadas ordens às demais, dentro de um cluster as instituições se auto- organizam de acordo com projetos de interesse comum.
O conceito de clusters proposto por Rocha Neto (2004) é de arranjos produtivos que envolvem concentração geográfica de empresas e organizações de atividades econômicas ou setores específicos de produção. Hess (2007) considera que clusters de alta tecnologia com preocupação ambiental tem orientado as atividades industriais para o uso de novas tecnologias de fontes de energia. No caso do setor sucroenergético, a região de São Paulo forma um
cluster.
A diferença entre rede e cluster é que, de acordo com Shima (2006) uma rede não se caracteriza necessariamente pela proximidade geográfica entre os seus pontos. Uma organização entre agentes nas proximidades uns dos outros, e que se relacionam com base nos
elementos que caracterizam a rede, formam um tipo de economia de aglomeração caracterizada pelos clusters. A rede, portanto, é um conceito mais geral que implica fundamentalmente fluxos entre os pontos, e não necessariamente aspectos relacionados a sua localidade.
A inovação resulta de um processo de construção social que abrange diferentes atores, como universidades, empresas, governos, associações e centros de pesquisa (Ruffoni, 2006). O tipo de parceiro que uma organização irá buscar na sua formação de redes pode compor um conjunto bem diversificado e depende das metas que esta organização pretende alcançar no seu processo de inovação tecnológica (Vanhaverbeke, 2006). Uma multiplicidade de metas pode significar a necessidade de participar de uma multiplicidade de redes, cuja participação sempre implica na colaboração com os demais parceiros.