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No que diz respeito às análises variacionistas, não encontramos, no material pesquisado, variação entre (i) futuro do pretérito e presente do indicativo e (ii) futuro do pretérito e futuro do presente, como abordamos nas nossas hipótese iniciais; contudo, a alternância entre o futuro do pretérito e imperfeito do indicativo, embora seja escassa, se faz presente em dados que são mostrados a seguir. Abaixo, transcrevemos as ocorrências de pretérito imperfeito, forma que pode ser substituída pelo futuro do pretérito, a título de informação, o que nos parece ser um indício de que há variação entre o futuro do pretérito e o imperfeito do indicativo. Assim sendo, evidenciamos que embora tenham surgido apenas nove dados na escrita, presumimos que na linguagem oral esses dados são mais frequentes, haja vista as mudanças linguísticas ocorrerem muito antes na fala, para depois inserirem-se no campo da escrita.

92. “Si nos faltassem absolutamente documentos, que viessem em abono á nossa opinião, ahi estavam em nosso favor as proprias palavras do Senhor Major Joao Brigido (...)”. (Registros Da Memoria Dos Primeiros Estabelecimentos na Villa de Santa Cruz de Aracaty, 1782).

93. “Si elle ainda tivesse de enfrentar com o governo que creara o tribunal de sangue, (...) bem podia dirigir-lhe a mesma terrível imprecação, que Seneca poz, na sua Tragedia Hercules (...)”. (Resumo Cronologico Da Historia Do Ceará pelo Major Joao

Brigido, 1772).

94. “Estavam marcadas as eleições primarias para 3 de Novembro, nas quaes

deviam-se apresentar os conservadores...” (Biografia de Pessoa Anta, 1889)

95. “Se não fossem as palavras, quaes raios fulminantes de Ruy Barboza, a monarchia não tinha caído em 1889...”. (Conferência – Dr. Virgilio Brigido, 1889)

96. “Gaia, certamente, o convenceu de que devia mandal-a por um escravo... enquanto Andrade se achasse naquelle sitio...”. (A correspondencia de Bernardo Manoel, 1799)

97. “... assim que viu a diligencia partir, disse ao Commandante Pereyra de Castro que, se pudesse, voltava a commandar, ele mesmo e sozinho, sua diligencia na cidade.” (A correspondencia de Bernardo Manoel, 1799)

98. “Por isso é que Martins Sobrinho não poupou esforços para dizer o quanto

gostava de que essa informação fosse verdade.” (...)” (Discurso da Posse de Tomás Pompeu,

1889)

99. “... si o Juiz da Commarca de Villa Real de Sobral não soubesse que no deposito estavam as armas de fogo, o delegado tinha mandado expedir a devolução ao destacamento de policia...” (Resumo Cronologico Da Historia Do Ceará pelo Major Joao Brigido, 1772)

100. “Apesar das provas de confiança... que o authorizava a manter-se na governaçã pelo tempo que lhe aprouvesse, preferia voltar ao Recife...” (Memórias do Pe. Vicente José Pereira – 2ª parte, 1823)

Os contextos condicionais – aos quais são designados valores modais – bem como os contextos cuja função é temporal são empregados também com o imperfeito do indicativo nos exemplos acima, que são decorrentes da sua relação com um tempo passado no contexto situacional. Vemos que mesmo sendo variantes do futuro do pretérito, as formas do imperfeito do indicativo continuam expressando futuridade em relação a um passado,

modalizado ou não modalizado, reforçando, assim, a equivalência funcional entre as duas formas verbais em questão.

Face ao exposto, retomamos as pesquisas variacionistas que atestam a variação entre o imperfeito do indicativo e o futuro do pretérito na oralidade, como é o caso de Costa (1990, 1997, 2003): “O Futuro do Pretérito e Suas Variantes: Um Estudo de Mudança em Tempo Real de Longa Duração”; “A variação entre as formas de futuro do pretérito e de pretérito imperfeito no português informal no Rio de Janeiro”; “O futuro do pretérito e suas variantes no português do Rio de Janeiro: um estudo diacrônico”; Silva (1998): “A alternância entre as formas verbais terminadas em -va, -ia, -ria dos usuários da cidade de Florianópolis”; Domingos (2003): “Variação no uso do pretérito imperfeito (indicativo e subjuntivo) na função de cotemporalidade a um ponto de referência passado”; Santos (2003): “O futuro verbal é um tempo ou um modo?”; Coroa (2005): “O Tempo nos Verbos em Português: uma introdução à sua interpretação semântica”; Barbosa (2005): “A variação entre futuro do pretérito e imperfeito do indicativo em orações condicionais iniciadas por SE na fala Uberlandense”; Dias (2007): “Variação e funcionalidade modo-temporal no Português Oral de Fortaleza/CE: futuro do pretérito versus pretérito imperfeito, na codificação de eventualidade em construções condicionais”, às quais correlacionamos, diacronicamente, as ocorrências de variação das duas formas verbais nos dados do corpus analisado, já que encontramos casos que evidenciam a alternância entre elas.

Especificamente, recorremos ao trabalho de Dias (2007) para expormos uma abordagem da variação e funcionalidade do imperfeito do indicativo e do futuro do pretérito em dados do português oral culto da cidade de Fortaleza, em que a alternância entre as formas de pretérito imperfeito e futuro do pretérito, na oração nuclear (apódose) acoplada à oração adverbial condicional (prótase), reflete a existência de uma regra variável. A partir de uma perspectiva sincrônica, analisamos o porquê destas formas verbais se alternarem e quais foram os fatores que condicionaram a escolha do imperfeito e do futuro do pretérito. Abordamos os princípios funcionalistas marcação e iconicidade, no que tange à codificação estrutural (forma simples/forma perifrástica) e à ordem estrutural (prótase + apódose ou apódose + prótase); as categorias Tempo, Aspecto, Modalidade e Referência, mediante análise das situações codificadas pelo futuro do pretérito ou pelo imperfeito, em que avaliamos a estrutura temporal, o tipo de verbo e os graus de certeza (atitude do falante). Referindo-se aos fatores extralinguísticos, consideramos sexo e tipo de inquérito.

Ao correlacionarmos a pesquisa de Dias (2007) com os resultados da pesquisa atual sobre a multifuncionalidade do futuro do pretérito, percebemos que, na perspectiva sincrônica feita em Dias (2007), foram encontrados 167 dados, dos quais 85 com o futuro do pretérito e 82 com o imperfeito do indicativo nas construções condicionais do português oral de Fortaleza, dados estes que foram catalogados nas décadas de 80 e 90. Já com relação à pesquisa em questão, de viés diacrônico, encontramos 336 dados com o futuro do pretérito distribuídos nas seis funções aqui estudadas, mais nove dados com o imperfeito do indicativo, em construções condicionais retirados dos documentos históricos catalogados no Instituto do Ceará. Dessa forma, esse fato revela que, desde o século XVIII até o século XX, o futuro do pretérito assume funções que são usadas no discurso. Já com relação ao uso do imperfeito do indicativo em construções condicionais, já encontramos indícios, na escrita, desde o século XVIII, perpassando pelos séculos XIX e XX, o que vem ao encontro da pesquisa de Dias (2007), pois a tendência de mudança nas condicionais percorrem um curso temporal, já que a encontramos há três séculos. A escolha da pesquisa de Dias (2007) para comparação com a pesquisa em questão se deve ao fato de os dados serem da mesma localidade, porém de períodos temporais diferentes, o que corrobora uma análise linguística sincrônica e diacrônica do futuro do pretérito.

Embora as ocorrências da variante futuro do pretérito sejam em número maior, o imperfeito do indicativo mostrou um percentual expressivo no discurso (48%), o que comprova a significância do fenômeno da variação destas duas formas verbais.

Já com relação às funções codificadas pelo futuro do pretérito em uma perspectiva diacrônica, propusemo-nos a analisá-las conforme Travaglia (1999) em produções escritas do Instituto do Ceará.

A partir dos fatores linguísticos como estrutura temporal, modalidade (níveis de

irrealis) e tipologia verbal (aspecto), e dos fatores extralinguísticos (século e gênero textual),

analisamos os dados em que aparecia o futuro do pretérito, para apresentar um panorama histórico do uso da gramática vigente nos séculos XVIII, XIX e XX.

Em suma, com base nos estudos citados, diacronicamente e sincronicamente, concluímos que as formas verbais imperfeito do indicativo e futuro do pretérito competem

entre si desde o século XVIII, quando a noção de condição e ou hipótese faz-se presente em um enunciado escrito, pois, nos séculos escolhidos para a análise diacrônica – XVIII, XIX e XX – foram encontrados dados que comprovem tal fato, embora não houvesse dados suficientes para uma análise mais aprofundada. Percebemos, assim, que não é de hoje que as duas formas verbais exercem a mesma função nocional de condição, tanto no que diz respeito aos textos escritos quanto à oralidade. Ressaltamos que até o presente momento, não encontramos na literatura vigente, pesquisas que abordem uma perspectiva diacrônica da variação e funcionalidade do imperfeito do indicativo e do futuro do pretérito.