Nascida em 1976, no município de Pedra Branca, interior do estado do Ceará, Girassol veio morar em Fortaleza aos seis anos de idade, juntamente com os pais e dois irmãos. Logo que chegaram à capital ficaram hospedados na casa de uma tia, no Conjunto Palmeiras e lá ficaram até que o pai conseguisse um trabalho que pudesse garantir o sustento da família.
Na época, início dos anos 1980, a prefeitura estava assentando as famílias no local, ainda de forma precária, e, por intermédio de sua tia, conseguiram um terreno para construir a casa que moram. Ela lembra que a mãe foi várias vezes à prefeitura e que, com muito esforço, viabilizaram o espaço, onde o pai ergueu um “barraquinho de taipa”:
Quando nós chegamos no [Conjunto] Palmeiras era tudo alagado. Meu pai construiu um barraquinho de taipa, de barro, pra gente. Ele fez só um quartinho lá, um vão, e colocou toda a família lá. E foi difícil pra gente lá, porque era inverno, a gente dormia na chuva, porque era de taipa e a chuva era forte e ele ficava tentando cobrir a gente com uns plásticos pra gente não se molhar.
Ela conta que o bairro não dispunha de infra-estrutura, havia poucas casas, não tinha saneamento básico, nem iluminação pública:
Parecia mais uma favela do que um bairro, mas aí a população foi aumentando, o bairro foi crescendo, fizeram as avenidas, aquela avenida grande – a Val Paraíso. A nossa casa não tinha água encanada, nem iluminação e andava uns quatro quarteirões com um balde na cabeça pra trazer água de outras casas que tinha poço. [...] Não era essa organização que você vê hoje.
O pai trabalhava como servente de pedreiro e ela, os irmãos e a mãe criaram outras estratégias para complementar a renda familiar. Uma delas era a confecção de sacolas de papelão feitas à base de sacos de cimento vazios. A produção era vendida para um mercantil situado nas proximidades. Outra atividade era a produção de hortaliças, no quintal de casa, o que hoje é denominado de agricultura urbana.
Meu pai trazia os sacos de cimento das construções onde ele trabalhava e a gente transformava em sacos para embalar
mercadorias. Tinha um mercantil lá que recebia esses sacos que a gente fazia. E essa era uma forma que a gente encontrou de ajudar na renda. Outra coisa que a gente fazia era vender verdura... a gente fez um canteiro no fundo do quintal e desse canteiro a gente fez uma horta e saía vendendo tomate, pimentão, cebolinha, coentro...
Conheceu o marido na adolescência e logo casou-se, aos dezenove anos. Hoje está com dez anos de casada e é uma das poucas que afirma ter uma convivência harmoniosa. Ela fala ainda, da satisfação em ser mãe.
Eu não namorei muito, só tive três namorados. Sempre fui tímida. Nunca gostei desse negócio de ficar. Sempre gostei de manter o respeito, porque meu pai sempre ensinou isso pra gente. [...] Com o meu marido eu namorei um ano... três anos após nós começamos a morar junto e, seis anos depois, nasceu nosso primeiro filho, o F. E, graças a Deus nós somos muito felizes. [...] Ser mãe é um passo muito satisfatório e é o sonho de quase toda mulher.
Com relação à vida escolar, ela concluiu o ensino médio em 2003 e tentou passar no vestibular, mas, como não o resultado não foi positivo, optou por ir em busca de uma oportunidade no mercado de trabalho. E conseguiu: desde 2004 ela está trabalhando num Hospital, onde ganha um salário mínimo, como auxiliar de serviços gerais. Quando sai do trabalho, três dias na semana, freqüenta um curso de enfermagem e sonha em fazer novamente o vestibular para se graduar na área.
Desde que eu comecei a trabalhar no hospital – eu tô lá desde 2004, graças a Deus! – que eu fui vendo umas amigas minhas que também fizeram o curso de enfermagem e que foram trabalhar lá. [...] Eu me identifico, porque lá atende mais é criança e eu gosto muito de cuidar de criança.
O tom de resignação e de aceitação às adversidades da vida é adotado durante toda a entrevista, sempre utilizando a expressão “graças a Deus”. Essa forma de falar é traço que está associado à sua atuação no movimento da igreja católica, do qual participa desde a adolescência.
Eu sou uma pessoa engajada. Eu amo a minha comunidade e passei a valorizar mais a Igreja. Quando eu conheci a COT [Comunidade Católica Obreiros da Tardinha], eu conheci a igreja e passei a amar a igreja. Eu participei de um grupo no Palmeiras, que era o Teu Chamado. Foi lá que uma pessoa me convidou pra participar de um Seminário de Vida no Espírito Santo. E eu queria mesmo me engajar na catequese. E desde então Deus trabalhou em mim o dom do
chamado e eu permaneci lá até hoje. E lá a gente trabalha de várias formas: trabalha o social, o espiritual... a gente faz trabalho com jovens usuários de droga, com alcoólatras...
A sua atuação no movimento comunitário do bairro se deu por dentro da igreja católica e foi lá que ficou sabendo que a Associação estava realizando um projeto social voltado para mulheres. De início, conta que foi “por curiosidade”, pois a pessoa que fez o convite havia dito que seriam oferecidos cursos profissionalizantes e, como ela estava em busca de qualificação, foi ver de perto do que se tratava.
Eu só tinha ido na Associação uma vez, pro Balcão de Emprego [do SINE]... eu fui mais por curiosidade, pra conhecer, porque eu já tinha ouvido muito falar e depois já fui pra Incubadora. Eu fiquei curiosa pra saber o que era a Incubadora Feminina. E quando eu conheci as pessoas que vieram nos acolher... eu fiquei amando... porque foi algo diferente, inovador que trouxeram pra gente... porque trouxe uma coisa nova pra vida de cada uma, porque cada uma tinha um problema diferente e foi trabalhado tudo isso.
O seu acesso à Incubadora, enquanto mulher em situação de risco social, se deu em função de que seu irmão era usuário de drogas, na época – hoje está em tratamento. Ela conta que a convivência com a drogadição era um dos temas recorrentes trabalhados durante a incubação, pois, muitas mulheres participantes conviviam com esse tipo de problema – “era o marido, o irmão, ou alguém da família e, às vezes, até elas mesmas. Eu lembro que tinha da Dona E, que às vezes chegava embriagada, e a gente acolhia.”
Das fases da “incubação” ela lembra das oficinas terapêuticas e dos cursos profissionalizantes, como o de bijuterias e o de corte e costura.
A gente fazia terapias... relaxamento, - essa parte era com o pessoal da FUNCI. Tinha também os cursos: teve o de corte e costura, o de fuxico. De bijuterias. Pra quem se identificou com aquele tipo de trabalho ali, com certeza, conseguiu dar o passo que queria. [...] Na verdade, eu não me identifiquei muito. No caso do corte e costura, por exemplo, eu não tinha aquele dom, aí eu ficava mais era olhando. Agora o de bijuterias eu me identifiquei. A gente pregava bijuteria nas roupas. Eu gostei muito, porque eu toda vida gostei muito de desenhar. Com o fuxico eu também me identifiquei um pouco... eu fiz até umas bolsinhas...gostei também das rosas de meia [meias de seda] – aquela coisa linda!
Ainda com relação às vivências na Incubadora, ela resgatou o momento da organização do grupo produtivo, considerando que foi um dos pontos cruciais do processo e que, mesmo não tendo sido uma experiência exitosa, trouxe muito aprendizado.
Foi trabalhado esse lado com a gente... pra gente organizar um grupo e ficar trabalhando. Foi depois daquele outro curso que a gente fez com você, pela ADS... de economia solidária. O grupo era eu, a dona Bonina, a Margarida, a dona Tulipa... a gente organizou essa equipe pra fazer as flores de meia. No inicio a gente tinha uma expectativa muito boa de crescimento, mas não teve aquela organização... nem o capital, pra levar à frente... a dona Bunina ainda pegou um pequeno empréstimo no Banco Palmas, no nome dela, mas não deu pra gente cobrir todas as despesas... pra gente ter o nosso local na feira, a nossa barraquinha, a gente tinha que pagar um valor toda semana. Aí tinha que ter esse valor, mais o valor do empréstimo e ainda os gastos com o material pra gente poder produzir. Aí nós não tivemos como levar à frente. Aí chegou uma certa altura que a gente se desestimulou e acabamos.
Um balanço geral do aprendizado geral adquirido na IF aponta alguns avanços significativos do ponto de vista pessoal e profissional e por isso ela considera que ter participado daquele projeto foi uma grande oportunidade que teve e que procurou aproveitar ao máximo, apesar de alguns conflitos iniciais.
Foi muito bom pra mim ter participado da Incubadora. Foi um trabalho de muita importância, do ponto de vista da convivência com pessoas diferentes e foi uma forma de reeducar as pessoas. E quando eu estava inserida na Incubadora eu me sentia na obrigação de passar aquilo que eu tinha e de receber aquilo que estavam oferecendo pra mim e pras companheiras que estavam lá. Apesar das diferenças, foi muito bom pra mim ter feito parte desse trabalho. Eu não conhecia ninguém e fiquei conhecendo todo mundo. Foi difícil em alguns momentos... a convivência foi um pouco dolorosa, porque às vezes uma não aceitava a opinião da outra e queria brigar e no final uma saía com raiva da outra. Mas isso foi mais no inicio, quando as pessoas estavam chegando... houve aquele choque, muita mulher e cada uma com um problema diferente e ia conviver ali no mesmo ambiente...com o passar do tempo as pessoas foram se relacionando melhor.
Ela afirma que ter passado pela Incubadora imprimiu marcas que carregará para toda a vida e que se sente uma pessoa “incluída”.
A gente passa a valorizar mais a cidadania... o lado mulher... eu tentei passar pras minhas colegas, que eram mães como eu, como eu achava que devia ser uma boa mãe... o lado humano também... da solidariedade. Eu lembro que a Hortência estava passando necessidade com os filhos e a gente se reuniu pra ajudar... fizemos uma cesta básica e todo mundo ajudou. E isso foi muito satisfatório. [...] no lado do trabalho eu passei a ver com outros olhos... tudo o que foi oferecido ali na incubadora eu levei para o meu trabalho hoje. Tudo: o lado humano, das relações com as pessoas, da convivência. [...] eu me sinto uma pessoa incluída e não só pelo meu trabalho, porque todo trabalho é digno seja ele qual for, mas também porque eu sou feliz...eu tenho uma expectativa na minha vida... quando a pessoa não tem um direcionamento na vida, uma religião, uma espiritualidade, ela é excluída e isso faz a pessoa retroceder, ir pra trás, não levar uma vida digna. [...] pra mim foi uma forma de aprendizado. A gente sempre deve estar aberto pra acolher coisas novas. E a gente deve valorizar o que foi oferecido pra gente.
Ela sonha em ser microempresária e diz que valoriza muito o trabalho e os estudos, porque são caminhos para a melhoria de vida. Para ela, o significado do trabalho está relacionado ao meio para se conseguir renda e poder proporcionar uma vida digna aos filhos.
Fig. 28 - Hortência Atelier Digital