Nascida e criada no Jardim Eliane, zona leste da capital paulista, Kelly Cristina Lima da Silva sobrevive desde os 10 anos de idade com o dinheiro que consegue com a coleta de materiais reciclá- veis. Com 33 anos, a catadora passou a maior parte de sua vida carregando carrinho com papel, vidro, plástico e latinha de alu- mínio. O carrinho, explica ela, “era feito a partir de uma caixa de geladeira velha com rodinhas”. A conversa acontece na cozinha da cooperativa e interrompe o expediente de trabalho de Kelly.
A jornada dupla de trabalho (das 8h às 21h), iniciada nas duas últimas semanas anteriores à entrevista, foi decidida em assem- bleia e com a aceitação das outras 21 companheiras de trabalho da cooperativa Filadelphia. Fora da reciclagem, em 2010, a cata- dora teve um ano de experiência frustrada em uma oficina de con- fecção de calças jeans. A falta do primeiro registro em sua carteira de trabalho e a falência da empresa fez com que Kelly voltasse a trabalhar com materiais recicláveis na cooperativa presidida por sua amiga Nanci.
“O barraco da minha mãe está caindo e meus quatro irmãos não ajudam em nada. Eu quero reformar a casinha dela que só está de pé ainda porque tem um guarda-roupa enorme dando apoio pra parede. Senão já tinha desabado tudo”, explica o motivo das 13 horas de trabalho com apenas meia hora de intervalo para a janta.
Todos os dias, às 17h, Dona Ivania Lima da Silva leva a marmita para Kelly. A gratidão é grande e um dos principais objetivos da catadora é reformar a casa em que moram ela, a mãe e seis de seus sete filhos. “Em época de chuva, molha mais dentro de casa do que do lado de fora. Queria ajudar mais a minha mãe, porque o que eu faço não chega nem perto do que ela já fez e faz por mim até hoje. Meu maior objetivo é esse e dar um futuro melhor pros meus filhos”, diz.
Fora Alessandra Yasmin, de 13 anos, que mora com a bisavó em uma cidade há 150 quilômetros de São Paulo, Amanda Cristina, a mais velha de 15 anos, Marcos Vinícius, 11, Carolyne Stefany, 9, Isaque Roberto, 6, Jonathas Gabriel e Sarah Vitória, gêmeos de 5 anos, vivem com a mãe e a avó em um barraco de madeira. Kelly ressalta a saudade de sua filha e a vontade de morar com os seus sete filhos que são frutos de três relacionamentos diferentes. “Eu trato todos por igual. Quando um tem que apanhar já bato logo em todos pra um não ficar tirando sarro da cara do outro depois”, conta a catadora rindo.
A parceria da catadora com sua mãe vai além dos momentos em que saiam para catar papelão e carregar até 180 quilos de uma só vez em cima do carrinho. “Não é toda mãe que acolhe uma filha com seis crianças e ela abriu as portas pra mim. Se for até pra ficar sem comer pra dar pra ela eu fico”, afirma Kelly ao contar sobre as dificuldades e as agressões que sofreu do pai de três de seus filhos há cerca de 8 anos.
A catadora é mais uma das milhares de mulheres que são agredidas todos os dias no país e no mundo. No Brasil, segundo dados do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas para a América Latina, a cada quinze segundos uma mulher sofre
violência física por um homem e a cada doze segundos uma mu- lher é estuprada. De acordo com esta pesquisa, cerca de uma entre três mulheres sexualmente ativas já foi agredida física ou sexual- mente por seu parceiro.
A impunidade da justiça – que rapidamente liberaria o agressor –, o medo de perder os filhos e as constantes ameaças de vingança faziam com que Kelly continuasse com o marido e se calasse. “Até hoje tenho a cicatriz de uma pancada que ele me deu na cabeça. Ele usava droga e tinha ciúmes de bobeira, porque eu era bem ma- gra mesmo. A gente começou a brigar e ele me deu uma paulada na frente dos meus filhos. Eu não fui pro hospital, porque senão ia ter que falar que ele me bateu. Aí ele ia ficar uma semana preso e depois voltaria pra me matar. No dia da pancada, Deus me deu for- ça, eu subi uma escada que tinha mais de 30 degraus e fui pra laje. Fiquei sentada lá e meus filhos dentro de casa chorando”, relata.
A narrativa é dramática, mas ela descreve uma das agressões que sofreu de maneira reflexiva. “Eu tinha acabado de comprar pó de café, ele jogou tudinho na minha cabeça para estancar o sangue e depois quis ter relação comigo, à força. Eu não quis e ele falou que ia matar minha família e tomar meus filhos. Eu não podia nem vir pro meu bairro, porque ele era da vida do crime e não se dava bem com o pessoal daqui. Eu tinha medo de fazerem alguma coisa comigo e com as crianças pra poder dar conta dele”.
A última agressão teria ocorrido em fevereiro de 2004. “No dia quatro de março estava dentro de casa e recebi a notícia que tinham matado ele dentro de um mercado. Ele tinha saído de moto na quarta-feira e só soube que ele tava morto no domingo. Eu não sei, mas acho que ele foi morto pela polícia, pelos meninos que ele tinha rixa ou pelos próprios amigos. Na verdade, hoje eu
penso que antes ele ter morrido do que eu, ou alguém da minha família”, complementa.
Nos quatro anos de casamento, Kelly ficou sem trabalhar fora de casa e diz que este foi o pior momento de sua vida. “De momento bom da minha vida, sinceramente, não lembro de ne- nhum. Talvez agora que eu estou com minha mãe. Apesar do barraco estar caindo, estou passando um tempo legal com ela e meus filhos”.