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CHAPTER 4: METHODOLOGY

4.7 Development of the instrument for the experiment

A indústria é quem define as regras do mercado dos materiais recicláveis. Determina o preço e o volume de negociações confor- me rege suas próprias atividades. Como exemplo deste efeito, a crise das hipotecas dos Estados Unidos, originada em 2008, de- sacelerou a economia de todo o mundo e estagnou suas indús- trias. O Movimento Nacional dos Catadores estima que, como reflexo deste momento de instabilidade, a renda dos catadores caiu 62%. O catador Carlão Reis acompanhou o rendimento de

algumas cooperativas na época e descreve que “a crise que atingiu todos os materiais e fez com que muitos grupos se desfizessem”. “Só ficou quem era catador mesmo e vivia exclusivamente da reci- clagem, quem a tinha como profissão”, diz Carlão.

A indústria do papel e da celulose é de extrema relevância para se pensar a política de resíduos sólidos na cidade de São Paulo. Os materiais desta indústria representam quase metade do que se resgata por meio da coleta seletiva do país (45,6% segundo a pesquisa Ciclosoft 2012, realizada pela Cempre), e as férias coleti- vas do final de ano das usinas são precisam ser consideradas nos planejamentos e expectativas de todo o restante da cadeia.

José Francisco Cavaletti trabalhou por 35 anos no setor da in- dústria de papel, aposentou-se, mas continua gerenciando alguns projetos na área. O industriário foi um dos responsáveis pela cria- ção do primeiro papel reciclável do país.

“Um primeiro projeto chegou a ser apresentado como inova- ção na conferência ambiental Rio 92, mas o papel produzido não tinha possuía qualidade industrial”, recorda-se Cavaletti. O papel já era produzido em laboratório quando decidiram usar material proveniente de cooperativas de reciclagem. “No ano 2000, quando foi lançada a máquina de produção de papel reciclado, a única co- operativa capaz de oferecer suporte ao projeto era a Coopamare”, destaca o industriário. Hoje, o projeto incorpora 100 cooperativas localizadas na Capital, em Campinas, em Sorocaba, em São José dos Campos e em cidades do ABC.

Por uma proposta de cunho social, filantrópico ou de marke- ting, a empresa decidiu utilizar apenas o material comprado das cooperativas em valor de mercado, desenvolvendo o projeto a partir de uma produção modesta para os padrões da indústria.

“Apesar de 60% da produção das cooperativas parceiras do pro- jeto ser constituída de material fibroso (como papelão, aparas brancas, longa-vida, misto e jornal), a triagem é realizada pelos catadores manualmente, o que torna sua produção menos eficien- te que a industrial”, explica.

Para um projeto de maior escala, Cavaletti afirma que seria mais conveniente trabalhar com aparistas que possuem uma boa oferta de material e podem aguardar o pagamento por mais de um mês após a entrega do pedido. “As cooperativas vendem de manhã para comer à noite e não têm condições de esperar pelo pagamento”, declara o industrial.

reciclado?

Atualmente produção de papel reciclado é polêmica. O aparista José Carlos denuncia que há empresas que adicionam papelão à produção de papel oriundo de celulose virgem para que o produ- to ganhe o tom pardo característico e adquira maior valor de venda. Cavaletti, que também é membro da Associação Brasileira de Normas Técnicas, ABNT, acredita que se trata de uma confusão de definições. Quando o projeto de reciclagem de papel foi monta- do no país, segundo ele, não havia distinção entre papel pré-con- sumo e papel pós-consumo. As aparas pré-consumo são sobras de papel que restam das gráficas ou do próprio processo de in- dustrialização e que não chegaram ao consumidor final, diferente do caso das aparas pós-consumo, geralmente obtidas por meio da coleta seletiva.

Como não existia uma normatização até três anos atrás, a ABNT trouxe esses conceitos de fora do país e passou a regulamentar a

produção de papel reciclado. Os parâmetros internacionais orien- taram as produção brasileira, que passou a exigir o mínimo de 25% de apara pós-consumo, 25% de aparas pré-consumo e até 50% de fibra virgem na composição do papel reciclado. Para Cavaletti, o uso de fibra virgem não deveria ser aceito, mas algumas empresas não possuem capacidade técnica para desenvolver papel reciclado de qualidade comercial com 100% de aparas.

Embora Cavaletti afirme que já exista tecnologia para desen- volver papel reciclado composto integramente por material pós- -consumo, o industrial faz a ressalva de que o investimento ne- cessário para retirar os materiais contaminantes e proibitivos da linha de produção é muito alto.

Existe pouca chance de uma apara pré-consumo ser encontrada em uma cooperativa, já que a apara industrial não sai da fábrica, e as aparas geradas nas gráficas dificilmente chegarão às organi- zações de catadores. “A gráfica não vai doar refiles das resmas de papel que custam R$ 900,00 por tonelada”, observa o industrial.

Para evitar fraudes, o papel que entra no processo de recicla- gem é auditado, através de visitas às cooperativas que participam do projeto, onde se checa sua procedência. Se houver material trazido de uma gráfica, ele passa a ser considerado material pré- -consumo, “que é desinteressante para a indústria, que gera gran- de quantidade em sua produção”, ressalta Cavaletti.

Quanto à cor parda, também conhecida como “shade natural”, o industriário explica ela é utilizada por uma questão de identidade do material reciclado, embora ele já possa ser produzido com cor semelhante ao papel branco convencional. No entanto, o reciclado de cor branca é produzido em escala menor que a do papel pardo, o que encarece o seu preço.