2. Case study- Social media networks in Ethiopia before and after the reforms
2.3 Overview of how Ethiopia got here
Do ponto de vista da caracterização dos elementos segmentais, os resultados encontrados estão em linha com os encontrados no estudo precedente de Reigado (2009), confirmando a ocorrência de vocalizações mais longas face a contextos linguísticos. Nesse estudo anterior, foi possível concluir que a menor familiarização com estímulos musicais implicaria assimetrias no desenvolvimento da voz cantada face ao desenvolvimento da voz falada. No entanto, ficara por investigar quais as características que influenciavam directamente a duração de uma vocalização, nas duas condições de estímulo. Neste estudo, essas características foram verificadas e discutem-se mais à frente.
Constatou-se uma significativa superioridade do número de núcleos na condição “Conversa”. Tal parece evidenciar uma maior familiarização das crianças às características da linguagem verbal, fruto também de uma maior exposição diária à estimulação linguística. De facto, vários estudos mostram que as crianças produzem, nesta faixa etária, articulações claras e uma grande quantidade de séries de sílabas variadas (Boysson-Bardies, 2001; M. Papousek, 1996). Tal parece, então, traduzir-se em elocuções mais longas do que as que realizam em contexto de uma canção, de acordo com o que acima foi discutido.
Não deixa, no entanto, de ser interessante verificar que a duração média dos núcleos é superior na condição “Canção”. Ou seja, apesar das produções vocais em contexto de uma canção serem mais curtas, a duração dos núcleos é superior, denunciando aquilo que parece ser um prolongamento sistemático das vogais, quando as crianças vocalizam em contexto de uma “Canção”. Estes resultados confirmam as observações de Dowling (1999), que verifica
que, por volta dos 2 anos, há uma maior sustentação de vogais nas vocalizações em resposta à música, do que relativamente àquelas em contexto linguístico.
Estão também em linha com as observações de Scotto Di Carlo (2005) sobre a inteligibilidade da voz cantada adulta, quando constata que a sílaba sofre um prolongamento substancial no canto, o que leva a um aumento na duração relativa das vogais e diminuição nas consoantes. Para aquela autora, tal sucede porque as vogais são um suporte melódico ideal enquanto as consoantes afectam a qualidade do legato, interrompendo a linha melódica. É surpreendente que os resultados apurados neste estudo apontem para um comportamento diferenciador que é semelhante na produção vocal infantil.
Do ponto de vista da análise das características melódicas e rítmicas das vocalizações, encontraram-se também algumas diferenças.
Constata-se, em primeiro lugar, que os valores de F0 encontrados para qualquer dos patamares de medição – minF0, maxF0 e medF0 – foram superiores na condiçaõ “Conversa”. Estes resultados confirmam as observações de Reigado, Rocha e Rodrigues (2011), verificando-se, em ambos os estudos, que as crianças restringem a extensão vocal em contexto musical de forma a aproximá-la da extensão do estímulo cantado pelo adulto.
Considerando o sistema tonal temperado, o qual serve de contexto à interacção musical deste estudo, podemos deduzir que a extensão utilizada pelas crianças na condição “Canção” está de acordo com a literatura. Ou seja, verifica-se que as extensões vocais variam entre o Ré4 e o Si4, tal como propõe Gordon (2000b) acerca da extensão de voz cantada ainda não desenvolvida. Já no caso da condição “Conversa”, a extensão vocal varia entre o Ré#4 e o C#5. Parece assim existir uma sobreposição parcial das extensões usadas pela criança nas duas condições.
Refiram-se agora os resultados apurados acerca do comportamento da linha melódica, tanto nos núcleos, como na vocalização completa. Verificou-se que a percentagem de variação de F0 nos núcleos entendida como movimento (intradinF0) é superior na condição “Canção”. Tal significa que a variação de altura num núcleo é mais vezes entendida como movimento na condição “Canção” do que na condição “Conversa”. Por outro lado, em termos de variação absoluta da F0 (intraabsF0) observaram-se valores superiores para a condição “Conversa”, o que reflecte uma maior instabilidade da altura do som. Ao contrário, os valores inferiores encontrados para a condição “Canção” indiciam uma tendência precoce para estabilizar a altura do som em cada núcleo. Este comportamento manifesta semelhanças com o canto adulto, em que a cada sílaba cantada se faz corresponder, na maioria das vezes, um
Assim, a preocupação articulatória em contexto de fala, pelos menos no que respeita a núcleos, não parece prender-se com questões tonais. Como Patel refere, a manipulação da altura tonal em contexto linguístico é uma ferramenta para atingir um objectivo e não um objectivo em si mesmo (Patel, 2008).
Esta tendência distintiva é também observada quando se analisa a variação de F0 ao longo de toda a vocalização. Ou seja, quando se observa a variação tonal considerando a sequência de intervalos melódicos da vocalização (interabsF0), apuram-se valores superiores na condição “Conversa” aos encontrados na condição “Canção”. Somado às considerações feitas anteriormente, este facto dá conta de uma vocalização que, em contexto de uma “Canção”, obedece a uma linha melódica com poucos saltos, ou seja, que recorre a tons próximos em termos de altura. Pode ver-se nestes resultados, comportamentos semelhantes aos que Gordon (2000a) descreve, relativamente à criança que progride do estádio de resposta intencional da audiação preparatória:
“No estádio 3 da audiação preparatória apenas se devem cantar para as crianças os padrões tonais em tonalidades maior e menor harmónica que se movimentam diatonicamente (por graus de uma escala), porque estes são os mais característicos das vocalizações e dos sons da fala da própria criança.” (p. 71)
Estas observações parecem também convergir com as de Patel (2008), quando constata, nas melodias musicais, maior ocorrência de intervalos pequenos. Para o autor, esta predominância traduz-se na percepção do ouvinte relativamente à continuidade de uma melodia:
“The predominance of small intervals is reflected in listeners’ expectations for how novel melodies will continue when stopped midstream (...)” (op. cit., p. 219)
A verificação deste comportamento em idade infantil é significativa. Por maioria de razão, os intervalos de menor amplitude serão mais fáceis de executar, devido à imaturidade e constrangimentos do aparelho vocal das crianças.
Estes dados vêm ao encontro do que se pode observar em sessões de música para bebés e de iniciação musical com crianças pequenas. Nestas, a ocorrência de produções
vocais que contemplam intervalos diatónicos é comum, sobretudo quando os bebés e as crianças são confrontadas com melodias que terminam repentinamente, num ponto em que soam inconclusivas. Frequentemente as crianças tendem a completar estas melodias cantando sons que são próximos, em termos de altura, do último som cantado e deixado em suspenso. Uma vez que neste estudo os estímulos musicais eram, frequentemente, do mesmo tipo dos realizados naquelas sessões, parece evidente que as crianças tendem a completar o fluxo sonoro, integrando sons que completam a coesão musical.
Este é um aspecto que permite uma ligação óbvia às estratégias usadas na percepção adulta do fluxo sonoro, tal como descrito em Bregman (1994). Ou seja, de acordo com o autor, a compreensão de mensagens auditivas obedece a um conjunto de regras que, uma vez violadas, dificultam a percepção das mesmas. Por exemplo, a proximidade de elementos sonoros vizinhos, como aqui se discute, parece ser um importante factor para a compreensão do fluxo musical (op. cit., p. 401). Para se fazer entender, linguistica e musicalmente, o adulto tenderá também a utilizar estas regras na produção vocal que dirige a terceiros. Tal como o adulto, a criança parece procurar estratégias que visem a compreensão da sua produção vocal em contexto musical, pelos sujeitos que lhe estão próximos.
A este respeito, os indicadores acerca do contorno melódico das vocalizações (MIV) também revelaram diferenças nos dois contextos. A variabilidade da amplitude dos intervalos melódicos de uma vocalização, apurou valores para a condição “Conversa” superiores aos encontrados para a condição “Canção”. Este resultado indica-nos que o contorno melódico de uma vocalização em contexto musical recorre a intervalos sucessivos cuja amplitude não reflecte grandes contrastes, ao contrário do que sucede nas vocalizações em contexto linguístico. Salvo, eventualmente, alguns temas modernos da música erudita, uma característica presente na maioria das melodias musicais, de acordo com Patel, é a predominância de graus conjuntos ou intervalos de amplitude pequena entre os sons sucessivos (Patel, 2008, p.219). Assim, as características melódicas que se observam nas vocalizações das crianças em contexto musical parecem ser semelhantes aos aspectos melódicos do canto adulto. Por outro lado, o comportamento de MIV, nas produções em contexto linguístico vai ao encontro das observações de Patel (2008) a propósito da altura dos sons na produção de fala adulta, segundo o qual, um aspecto característico da mesma, é a rápida taxa de mudança de F0 (p. 186). É interessante que estas características surjam nas produções vocais infantis, estabelecendo distinções entre as vocalizações em resposta à Conversa e à Canção.
No que diz respeito às questões rítmicas, o estudo acerca da variação na duração de núcleos (nPVI) revelou que as crianças produzem maior número de contrastes, quando em contexto musical. No entanto, esta diferença apenas se verifica ao nível das vogais (nPVIv). A organização temporal dos núcleos é diferente nas produções infantis de voz cantada e falada, à semelhança dos dados encontrados por Scotto Di Carlo (2005) sobre falantes adultos.
Os valores aqui encontrados sugerem que há uma menor tendência de produção isocrónica de núcleos vocais em contexto de uma canção do que em contexto de uma conversa.
Outros estudos nos quais este índice foi também verificado no contexto da língua portuguesa não permitem tecer grandes comparações com os resultados apurados na presente investigação. Por exemplo, Salselas e Herrera (2011) observaram valores superiores de nPVI vocálico do português europeu relativamente ao português do brasil, a partir de produções vocais em paiês3. Noutro estudo, Barbosa, Viana e Trancoso (2009) compararam este índice com outras medidas, para verificar diferenças rítmicas nas variedades linguísticas do português europeu e brasileiro e nos estilos leitura e conversação. Que se conheça, nenhum estudo até agora utilizou esta medida na comparação de estilos vocais conversado e cantado a partir das produções infantis. Não obstante, a utilização deste índice revela-se promissora já que permitiu separar rítmicamente as produções vocais das crianças face à “Conversa” e face à “Canção”. De alguma forma poder-se-á dizer, com base nesta variável, que o cantar das crianças é mais rico ritmicamente do que o falar. Já o índice análogo que mede o contraste de duração em consoantes sucessivas (rPVIc) não revela diferenças significativas para as duas condições de estimulação, sugerindo que as diferenças rítmicas resultam, quase exclusivamente, da variação da duração vocálica nas produções das crianças.
Em suma, considerando tanto os elementos segmentais como os aspectos melódicos e rítmicos, a análise das vocalizações revela algumas diferenças nas condições “Conversa” e “Canção”, confirmando a primeira hipótese (H1).
3