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In document AI and extremism in social networks (sider 71-101)

A existência de práticas musicais presentes nas corporações militares pode ser observada desde a Antiguidade. A iconografia mais antiga sobre o tema comprova a existência de instrumentos de sopros e de percussão em associação com as representações militares211. Contudo, somente a partir do século XVI e XVII é que os tocadores de

tambores, timbales, clarins, trombetas e pífaros passaram a ter uma função estratégica militar de codificar sinais. Ao ser incluídos na estrutura militar eles começam a ser agrupados. A designação de banda militar só irá acontecer no século XIX quando a música militar é estruturada e sistematizada na vida dos regimentos212.

O estabelecimento da banda de música militar como se organiza no século XIX é decorrente da circulação dos instrumentos musicais em diferentes Estados europeus. Os contatos militar e diplomático travados entre alguns países fizeram com que muitos instrumentos criados ou usados em um determinado país fossem sendo conhecidos, difundidos, incorporados e remodelados nos outros países por onde esses contatos aconteceram. É o caso do exército francês, que, durante o reinado de Luís XIV (1643-1715), usou o modelo de banda originalmente adotado pelos Guardas dos Dragões de Brandeburgo da Alemanha em 1646, no fim da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). A banda era formada por charamelas (dois sopranos, um tenor com um baixão) mais os tambores213. Outro exemplo dessa circulação foi o caso do oboé, criação francesa

designada por hautbois. Ele foi adotado na Companhia dos Mosqueteiros na França, em torno de 1665. No início dos 1700, ele já foi incorporado nas bandas militares da Alemanha, Áustria e Inglaterra. Gradualmente, foi substituindo as charamelas. Como o uso do termo hautbois serviu para denominar tanto a charamela quanto o oboé, ficou

211 No livro de Meira e Schirmer, os autores descrevem vários exemplos de instrumentos de sopro e

percussão e algumas de suas imagens existentes na Antiguidade e que ainda hoje podem ser vistas em utensílios das civilizações antigas dos romanos, gauleses, egípcios, chineses, persas, entre outros, expostos em museus de países europeus como Alemanha, Copenhague e França (MEIRA; SCHIRMER, op. cit., 2000, p.14-18).

212 SOUSA, op.cit., 2006, p.16-17.

213 No texto em inglês, a banda mencionada é formada por “shawms (two treble and one tenor, with a

dulcian for the bass) and drums”. Em Portugal, o instrumento dulcian, traduzido como “dulciana”, não é mencionado em documentos do século XVI. Em seu lugar, é usado o termo “baixão”. Binder traduz esse instrumento também por “baixão” (PAGE, Janet K. Band (i): Military music. Grove Music Online. Oxford

Music Online. Oxford University Press. Disponível em: <http://www.oxfordmusiconline.com/subscriber/

article/grove/music/40774>. Acesso em: 15 out. 2014; MONTEIRO, op. cit., 2010, p. 26; BINDER, op. cit., 2006, p. 15-16, volume 1).

difícil, em alguns casos, precisar que instrumento a música estava indicando. Dessa forma, tornou-se incerto dizer quanto tempo as charamelas e os novos instrumentos transicionais permaneceram em uso no exército francês214.

Um dos contatos mais marcantes para a constituição da banda de música foi o estabelecido pela banda turca dos Janízaros. Essa banda representava a tropa de elite do Sultão do Império Otomano e provocou uma grande impressão nos exércitos europeus durante as guerras do século XVII e as da primeira metade do século XVIII. Na primeira metade do século XVIII, a banda militar, bem como a civil, ainda era formada por um grupo pequeno de instrumentistas, aumentando do número anterior de quatro principalmente para seis, podendo ser vistas bandas de cinco e de oito instrumentistas. A combinação instrumental também foi bastante variada nesse período, com os oboés tomando o lugar das charamelas e as trompas estabelecendo-se no lugar dos oboés tenores. Na Inglaterra, o trompete foi incluído em lugar das trompas215. Na segunda

metade do século XVIII, a influência turca se fez sentir nas bandas europeias que passaram a incluir o bombo e, mais tarde, os pratos e o triângulo usados nas bandas turcas. No fim do século XVIII, acrescentou-se ainda o chapéu chinês, também chamado de árvore de sinos ou pavilhão chinês (entre outros nomes descritos no Brasil)216. A

percussão turca chamava a atenção dos europeus, porque era geralmente tocada por mouros ou negros vestidos de forma exótica e com gestos extravagantes. Por volta dos anos de 1780, a “banda turca” representou um grupo formado por instrumentos de sopro europeus mais a percussão e o pífaro217. A banda turca dos janízaros promoveu uma

transformação na constituição instrumental da banda de música no século XVIII e seguinte. Sua presença nos ajuda a constatar a existência do trânsito e das trocas culturais que se processou no mundo e integrou os povos de forma planetária desde o século XV.

214 PAGE. Band (i): Military music, op. cit. 215 Idem.

216 PAGE. Band (i): Military music, op. cit. Esse instrumento recebe também o nome em inglês de turkish

crescent por apresentar em sua armação uma meia lua, representativa da antiga “bandeira de Maomé”, o

“crescente” islâmico. Pode receber ainda a denominação de jingling-johnnie, belltree; chapeau chinois em francês, schellenbaum ou schüttelbaum em alemão; “bambulum” ou “campainhas” pelos portugueses. Meira e Schirmer fazem referência a um decreto brasileiro de 1810 em que o instrumento já aparece mencionado (MEIRA; SCHIRMER, op. cit., 2000, p. 22-24).

217 PAGE. Band (i): Military music, op. cit.. A influência Janízara permaneceu até o século XX, com o uso

dos percussionistas de vestimentas de pele de tigre ou leopardo utilizando baquetas ornadas, além das liras, instrumentos presentes nas marching bands.

“A ideia de trânsito [...] se entende [como] resultado de intercessões, e também distensões entre partes, tradições, práticas e concepções muito distintas”218.

O século XIX, particularmente sua segunda metade, foi fortemente marcada pela influência das bandas militares sobre o contexto sócio musical do período. Ao estudar a música militar britânica no Oitocentos, Trevor Herbert e Helen Barlow descrevem a existência de um fenômeno quanto a presença e influência das bandas militares no Reino Unido e que também se espalhou pela Europa Continental e América do Norte219. A influência militar britânica sobre a atividade musical da região pode ser

observada desde os últimos decênios do século XVIII, quando a música militar foi vista inicialmente como uma forma de patrocínio ligado ao entretenimento de oficiais. Os autores mencionam que a presença das bandas de música no exército britânico foi consequência de uma tradição típica de patrocínio aristocrático da música. Nesse caso, o patrocínio partia dos próprios oficiais do exército que demonstravam interesse em possuir bandas de música para seu próprio entretenimento no momento das refeições que ocorriam no refeitório dos quartéis e nas guarnições. Essa prática foi um legado oriundo de um tipo de entretenimento aristocrático que decorria em espaços fechados, um tipo de música de divertimento chamado tafelmusik (música de mesa) oriunda de uma prática originária na Áustria e Alemanha da qual os grupos de harmoniemusik tocavam220. Eram

os próprios oficiais que pagavam esses conjuntos221. Assim, a introdução das “bandas de

música” no exército britânico não partiu de uma necessidade estrutural militar, mas do desejo dos oficiais por entretenimento. Era um conjunto privado. A ideia de possuir uma banda de música nos regimentos estava ligada à crença de quanto o lado estético e artístico dessa arte poderia acrescentar à vida dos membros militares e o quanto a sua presença tornava a imagem da vida militar mais atrativa222.

218 PAIVA, Eduardo França. Trânsito e mobilidade entre mundo: escravidão globalizada, comércio e

práticas culturais. In: FURTADO, Júnia Ferreira (org.). Sons, formas, cores e movimento na modernidade

Atlântica: Europa, Américas e África. São Paulo: Annablume: Belo Horizonte: Fapemig; PPGH-UFMG,

2006, p. 482 (Coleção Olhares).

219 HERBERT; BARLOW, op. cit., 2013, p. 2.

220 Idem, p.45. UNVERRICHT, Hubert. Tafelmusik. Grove Music Online. Oxforf Music Online. Oxford

University Press. Disponível em: <http://www.oxfordmusiconline.com:80/subscriber/article/ grove/music/ 27362>. Acesso em: 01 set. 2017

221 HERBERT; BARLOW, op. cit, 2013, p.38. Esse costume dos próprios oficiais pagarem para terem uma

banda de música no seu regimento passou para as tropas de Portugal e chegou até o Brasil, onde foi estabelecido por lei que oficiais e praças teriam uma parte de seu soldo descontado compulsoriamente para manter a banda de música. Isso prevaleceu nas bandas do exército, Polícia Militar e Guarda Nacional durante o segundo reinado. Esse assunto será retomado posteriormente.

Posteriormente, a banda de música foi utilizada com função de recrutamento. Os conjuntos militares passaram a representar valores simbólicos de patriotismo e de sentimentos de pertença a uma nação atraindo músicos para as fileiras militares. O aumento do número de músicos proporcionou um aumento quantitativo e qualitativo dos instrumentos, passando os grupos a servirem como espaços de empregabilidade, causando um forte impacto sobre a profissão musical inglesa que proporcionou o desenvolvimento e a sustentação de uma infraestrutura comercial. Esse desenvolvimento comercial esteve ligado ao aumento do número de construtores de instrumentos de sopros, que fizeram alterações significativas nos instrumentos já existentes e passaram a inventar novos modelos, ao mesmo tempo em que houve um aumento do número de composições voltadas a esse grupo. Podemos citar ainda as questões culturais e estéticas que a banda militar influenciou como o tipo de repertório tocado, a circulação desse tipo de música223.

O uso da banda de música militar para questões de atração para o recrutamento, lugar de exercício da profissão de músico, e outras que orbitaram ao seu redor como o aumento do número de construtores de instrumentos e consequente criação de novos instrumentos de sopro, aperfeiçoamento dos antigos, expansão de composições próprias ou transcritas para banda, não foram características encontradas somente no Reino Unido.

A presença das bandas militares e sua influência sobre a música do século XIX foi um acontecimento mais amplo que pode ser observado tanto nos países da Europa quanto nos Estados Unidos e também no Brasil224. A amplitude dessa influência é

caracterizado por Herbert e Barlow como um fenômeno enquanto acontecimento global e está relacionado a dois fatores: primeiro “a mudança política e cultural que ocorreu no fim do século XVIII” que traz um novo ímpeto aos exércitos permanentes compreendidos “como componentes integrantes da autoridade do Estado”; segundo, com o declínio dos “modelos de patrocínio aristocrático musical” e dos sistemas de aprendizagem de música tradicional patrocinado por estes espaços de patrocínio aristocrático que gera um “leve fluxo de músicos habilitados” que acaba por criar uma “diminuta comunidade profissional musical”225. Os declínios dos modelos de patrocínio musical das cortes e de

223 HERBERT; BARLOW, op. cit., 2013, p. 196.

224 O livro de Reily e Brucher é bastante ilustrativo dessa influência global das bandas de música. Conferir:

REILY, BRUCHER, op. cit., 2013.

225“[…] firstly, political and cultural change during the late eighteenth century gave new impetus for

standing armies to be perceived as integral components of state authority. Secondly, at the same time and for related reasons, the older models of aristocratic musical patronage declined, along with the apprenticeship systems, usually among long-established musical dynasties, that generated the gentle flow of skilled musical practitioners that was needed for what was a relatively small music profession”. (HERBERT; BARLOW, op. cit., 2013, p.2).

aprendizagem musical acabaram por favorecer as bandas de música militares. Vai recair sobre os militares a função de patrocinar a vida musical e sua aprendizagem. O aumento do número de bandas militares e de sua quantidade numérica fez com que surgisse a necessidade de ser ter músicos habilitados o que proporcionou a criação de escolas de música. Em 1792, surgiu a primeira Escola Militar na França com o objetivo de prover músicos habilitados para as bandas da Guarda Nacional francesa. Esta escola transformou-se, mais tarde, em 1795, no Conservatório Nacional de Música e Dança de Paris226. No caso da Inglaterra, as próprias bandas serviram inicialmente como espaços

de formação. Somente em 1857 é que se criou a Military School of Music e que em 1887 transformou-se no The Royal Military School of Music. Essa escola passou a ser formadora de músicos e de regentes para as bandas militares do Exército Britânico e tornou-se responsável por prover os regimentos de executantes habilitados227. Durante

todo o século XIX, proliferaram bandas militares em todo o mundo. Elas aumentaram o número de integrantes e de instrumentos. Nos Estados Unidos, cresceu o interesse por esses conjuntos. Nasceu, na segunda metade do século, John Philip Sousa (1854-1932), regente, maestro e compositor de marchas, que marcou a história das bandas americanas com suas atuações228.

O Brasil do século XIX também acompanhou essa propagação mundial das bandas militares. Mesmo existindo as “bandas” de pequeno formato desde o século XVIII nos regimentos militares de algumas províncias brasileiras, foi com a chegada de D. João ao Rio de Janeiro em 1808 que a situação das bandas de música mudou. No período em que a corte portuguesa transferiu-se e permaneceu no Rio de Janeiro (1808-1821), algumas bandas militares portuguesas estabeleceram-se no Brasil. Com D. João veio a banda da Brigada Real da Marinha. Posteriormente, em 1816 chegou a banda da Divisão dos Voluntários Reais do Príncipe que possuíam duas Brigadas. Cada Brigada possuía sua própria banda formada por dois mestres e 16 músicos, num total de 38 músicos pelos dois grupos229. Em 1817, chegou a Divisão Auxiliadora formada por dois batalhões de

infantaria e um batalhão de caçadores, cada unidade com sua banda de música230. Em

226 SOUSA, op,cit, 2006, p.22.

227 HERBERT; BARLOW, op. cit., 2013, p.136-153. 228 Idem, p. 195; 237-239.

229SOUSA, op.cit., 2006, p.73-75. 230 BINDER, op. cit., 2006, p.35.

1817 também chegou a banda de música formada por austríacos e portugueses e regida pelo maestro Eduardo Neuparth vinda com a comitiva da princesa Leopoldina231.

Durante sua permanência no Brasil, D. João regulamentou a presença das bandas militares nos regimentos brasileiros. No decreto de 1810232 determinou que

houvesse em cada regimento do Rio de Janeiro uma banda de música composta de doze a dezesseis músicos. Isso representava a criação de quatro bandas, três no regimento de Infantaria e uma no Regimento de Artilharia233. Até aquele momento os grupos militares

existentes no Brasil era formados de grupos pequenos com no máximo 8 instrumentistas234. Na Carta Régia que envia a província de Pernambuco de 1811, refere-

se o quanto é “onerosa à […] Oficialidade” manter a banda de música do Regimento de Infantaria de linha de Recife passando a sua manutenção a ser feita pelo erário real referindo o já estabelecido decreto de 1810235. Para regulamentar a Divisão Auxiliadora

é que D. João assinou o decreto de 11 de dezembro de 1817 que estabelecia que esta Divisão deveria haver uma banda de música em cada unidade conforme a Portaria assinada em Portugal de 1815. Neste decreto há a especificação dos instrumentos que deveriam formar a banda de música formada por até 10 músicos e 6 aprendizes. Pela primeira vez tem-se a descrição dos instrumentos.

Além desses grupos militares, vieram ao Brasil bandas civis que acompanharam os aristocratas europeus de passagem pelo país como é o caso da banda que acompanhou o Duque de Luxemburgo em 1816. Além desses, não podemos deixar de mencionar os músicos escravos da Fazenda Real de Santa Cruz no Rio de Janeiro que formavam conjuntos também por lá236. No Brasil, após a Independência em 1822 e

durante todo o século XIX, surgiram as bandas policiais que seguiam a estrutura militar do exército, além das já existentes, as bandas da Marinha e do próprio Exército. As bandas militares brasileiras influenciaram fortemente a música no país do período, abrindo espaço para uma demanda profissional de instrumentistas de sopro, de formação musical, de mercado de partituras e de instrumentos, de compositores, de música composta para a

231 SOUSA, op.cit., 2006, p.74.

232 DECRETO de 27 de Março de 1810 - Determina sobre as bandas de Musicas dos regimentos do Rio de

Janeiro. Além da determinação da quantidade de músicos das bandas que devem constar nos regimentos militares este decreto menciona o fim do pagamento do soldo feito pelos oficiais e que passa a ser feito pela Coroa. que os oficiais

233 SOUSA, op.cit., 2006, p.73. 234 BINDER, op. cit., 2006, p.31.

235 BINDER, op. cit., 2006, p.29. CARTA RÉGIA de 26 de setembro de 1811. 236 BINDER, op. cit., 2006, p.42-43.

função militar, para entretenimento e incentivo na fundação de novos espaços de formação musical.

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