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Oversiktsartikkel som grupperer studier etter effekt på pasientenes

7.1 Funn i 6 oversikts- og 7 originalartikler

7.1.3 Oversiktsartikkel som grupperer studier etter effekt på pasientenes

Na complexidade do conceito de nação, que contém em si vários elementos definidores, como a etnia, a história, a religião e o território, a língua não é apenas um traço, mas, sobretudo, uma força de identificação nacional em diversos países,

principalmente na França, berço onde foi sonhada, ou melhor, imaginada uma comunidade laica e soberana. E essa força não se esgota diante da diversidade, ao contrário, ela torna fascinantes e intrigantes casos de multilinguismo, como o das línguas regionais no interior da França e os de seus vizinhos – a Suiça e a Bélgica, por exemplo.

Da mesma forma que ela permite pensar a nação, a língua é imaginada pela comunidade nacional a partir de suas coordenadas. É essa relação entre língua e nação que vai ser explicada nas próximas páginas.

Conforme dito anteriormente, para Anderson (2008: 30-34), a nação, apesar das digressões da história que fazem a singularidade de cada uma, é uma comunidade política imaginada. Uma vez que ela é imaginada, pode-se dizer que a ideia de nação, que manifesta o pensamento moderno ocidental (HALL, 2001:49), é um produto cultural modular, isto é, que pode ser modelado, adaptado e transformado porque é uma imagem que se torna real no discurso da vida social: “[...] a nação é uma invenção sem patente, e seria impossível registrá-la” (ANDERSON, 2008:107). Logo, cada sociedade se apropria dessa invenção de um modo particular e lhe atribui sentidos particulares: “As pessoas não são apenas cidadãos/ãs legais de uma nação; elas participam da idéia de nação tal como representada em sua cultura nacional” (HALL, 2001: 49).

Além disso, a ideia de nação foi criada no fim do século XVIII6 a partir dos

primeiros movimentos pela independência das colônias americanas e da Revolução Francesa, ainda que suas origens remontem aos Estados dinásticos do século XVI e ao capitalismo tipográfico, que irrompeu, nessa mesma época, graças à invenção da imprensa. É, então, no século XVIII, que a nação torna-se um conceito coletivamente construído pela língua escrita, sobretudo na imprensa e na literatura.

6 Embora Schnapper (2003) inclua, entre as referências históricas da criação do projeto nacional, o

advento do regime parlamentarista na Grã-Bretanha do final do século XVII, optamos, neste estudo, por descrever os eventos que constituem o “mito nacional” francês (p.96), tendo em vista o objetivo de nossa pesquisa, ainda que consideremos que esse seja um acontecimento político digno de nota, porque contribui para a construção da ideia de nação ao longo da história.

Nesse aspecto, as comunidades sagradas da Antiguidade e da Idade Média podem ser comparadas às comunidades seculares da Modernidade: elas são imaginadas por uma língua e uma escrita. Todavia, as línguas sagradas eram apreendidas por um pequeno grupo de intelectuais, que faziam a mediação entre os fiéis (na maioria, analfabetos) e a verdade ontológica e cosmológica. Por outro lado, as línguas nacionais são línguas vernáculas que servem ao Estado e ao mercado da comunicação de massa, cujo uso constrói os sentidos da cultura nacional, como os valores que estabelecem e definem a consciência e a identidade nacionais – o que fica evidente na manifestação extrema do sentimento nacional: o patriotismo.

Mas o amor patriae [...] não é muito diferente das outras afeições, em que sempre existe um elemento imaginário afetuoso. [...] O que os olhos são para quem ama – aqueles olhos comuns e particulares com que ele, ou ela, nasceu – a língua – qualquer que seja a que lhe coube historicamente como língua materna – é para o patriota. Por meio dessa língua, que se conhece no colo da mãe e que só se perde no túmulo, restauram-se passados, imaginam-se companheirismos, sonham-se futuros. (ANDERSON, 2008: 215)

É interessante observar neste ponto que o domínio da língua é, desde a época da Revolução até hoje, uma condição para que um estrangeiro obtenha a nacionalidade francesa, logo, mais uma vez, a língua legitima a nacionalidade (ou o ser francês).

Não há dúvida de que, para a maioria dos jacobinos, um francês que não falasse francês era suspeito e que, na prática, o critério etnolingüístico de nacionalidade era freqüentemente aceito.

[...]

A insistência francesa na uniformidade lingüística , desde a Revolução, foi realmente marcante e, para a época, era bastante excepcional. [...] Mas o que deve ser notado é que, na teoria, não era o uso nativo da língua francesa que fazia de uma pessoa um francês – e como poderia sê-lo se a própria Revolução gastou tanto tempo provando que poucas pessoas na França realmente dela se utilizavam? – e sim a disposição de adotar a língua francesa junto com outras coisas como as liberdades, as leis e as características comuns ao povo livre da França. Em certo sentido, adotar o francês era uma das condições da plena cidadania francesa (e, portanto, da nacionalidade)... (HOBSBAWM, 1990 : 33-34)

[...] desde o começo, a nação foi concebida na língua, e não no sangue, e que as pessoas podem ser “convidadas a entrar” na comunidade imaginada. Assim, hoje, mesmo as nações mais isoladas aceitam o princípio da

naturalização (que palavra magnífica!), por mais que possam dificultá-la na

prática. (ANDERSON, 2008 : 204)

A obtenção da nacionalidade com base exclusivamente no jus soli, ou com base no casamento, e a naturalização podem ser negadas em virtude de certas modalidades de condenação penal, da existência de um processo de expulsão, e também, nos dois últimos casos, por défaut d'assimilation, medido sobretudo pelo conhecimento da língua francesa. (REIS, 1999 : 123) Enquanto aprendemos naturalmente a língua materna (ela é materna porque nascemos no seio dela e porque o corpo simbólico do indivíduo, a identidade, é nutrido por ela), o mesmo não acontece em relação a uma língua estrangeira, ainda que todas as línguas estejam disponíveis a todos que queiram aprendê-las. Daí a distinção entre o natural ou nativo e o estrangeiro, que define a condição nacional ou o que é próprio à ideia de nação.

[...] nota-se o caráter primordial da língua, mesmo as sabidamente modernas. [...] Todas se avultam imperceptivelmente de um passado sem horizonte. (Na medida em que o homo sapiens é homo dicens, talvez seja difícil imaginar uma origem posterior à própria espécie.) Assim, as línguas se mostram mais enraizadas do que praticamente qualquer outra coisa nas sociedades contemporâneas.

[...]

Toda língua pode ser aprendida, mas esse aprendizado demanda uma parte concreta da vida da pessoa: cada nova conquista é medida pelos dias que vão diminuindo. O que restringe o acesso às outras línguas não é a impermeabilidade delas, e sim a mortalidade do indivíduo. Daí a relativa privacidade de todas as línguas. (ANDERSON, 2008 : 203-207)

Em suas origens, a imagem da nação ganhou contornos geográficos com a invenção das fronteiras pelos cartógrafos (BAUMAN, 1999: 37-42), assim como ganhou contornos temporais com o capitalismo editorial. Logo, o tempo da Modernidade e da nação é caracterizado por uma simultaneidade marcada pela coincidência temporal, medida pelo relógio e pelo calendário (ANDERSON, 2008: 54). É o tempo do jornal e do romance, duas maneiras de criar e compartilhar imagens via palavra escrita, que se desenvolveram durante o século XVIII.

A simultaneidade dos acontecimentos na narrativa do romance é semelhante àquela encontrada todos os dias no relato dos jornais: sabe-se, na narrativa, o que todos os personagens dizem, pensam e fazem, mesmo se eles não estão na presença uns dos outros, porque a onipresença do narrador é a

onipresença dos leitores; o mesmo efeito é possível nos jornais graças à data impressa sobre cada página, que faz saber aos leitores, a todos ao mesmo tempo, isto é, no mesmo dia, os fatos que aconteceram, acontecem ou acontecerão no mundo naquele dia, alguns dias antes ou depois.

Portanto, no momento da leitura, compartilham-se sentidos, e a ideia mesma de compartilhar engendra a fraternidade que torna possível imaginar a nação enquanto comunidade. Destarte, a fraternidade nacional se realiza pela língua, sobretudo pela língua escrita, já que é a leitura, ou ainda a imprensa, a literatura e o ensino que modelam uma nação, assim como a própria língua:

Na Europa anterior à imprensa e, claro, em todo o resto do mundo, a diversidade das línguas faladas, aquelas que forneciam a trama e a urdidura da vida de seus usuários, era imensa; tão imensa, de fato, que se o capitalismo editorial tivesse tentado explorar cada mercado vernacular em potencial, teria adquirido dimensões minúsculas. [...] Nada serviu melhor para “montar” vernáculos aparentados do que o capitalismo, o qual, dentro dos limites impostos pela gramática e pela sintaxe, criava línguas impressas, reproduzidas mecanicamente, capazes de se disseminar através do mercado. (ANDERSON, 2008: 79)

Existe desse modo uma relação essencial entre a definição de uma língua e a existência de uma literatura no sentido amplo, de um corpus de enunciados estabilizados, valorizados esteticamente e reconhecidos como fundadores por uma sociedade.

[...] O imaginário da língua sustenta-se na existência de um corpus de obras que contribuem para proporcionar-lhe sua coesão. Em vez de virem depois, os escritores participam de sua definição. (MAINGUENEAU, 1995: 102-103) “Assim, na época anterior à generalização da educação primária não havia, nem poderia haver, nenhuma língua „nacional’ falada [...]” (HOBSBAWM, 1990: 69). É interessante observar nessa citação que a língua falada, por sua fluidez, não é considerada como um elemento de coesão e, portanto, de fraternidade nacional, diferentemente da língua escrita normatizada, conforme nos explica a educadora Andrea Berenblum (2003):

Com a Revolução Francesa implementa-se a política de unificação lingüística [...].

[...] fazia-se necessária a difusão mais ou menos generalizada da língua

revolucionária, e esta função estava reservada, principalmente, ao sistema

educacional, já que todo cidadão devia dominar a língua comum, universalizando-se a língua nacional através da educação obrigatória. Com a finalidade de expandir o bom uso da língua, surgem gramáticas e dicionários

escolares, baseados na língua escrita, modelo de correção lingüística e referência do uso oral.

[...]

Ou seja, a língua nacional serve tanto como quadro de referência para o uso da fala em geral – tornando-se norma codificada considerada medida de correção – quanto símbolo de unidade e igualdade dos cidadãos de um Estado particular. (p. 40-41)

Mas, a propósito da língua francesa, vê-se que, num movimento aparentemente inverso a esse que constituiu as línguas nacionais (que uniformiza, pela alfabetização, o falar dos cidadãos), o espírito da arte da conversação habita, em princípio, o corpo das palavras e das frases mesmo escritas, assinalando a primazia do oral, embora a escrita tente frear as mudanças resultantes da fluidez da linguagem quotidiana. Assim, segundo o historiador Marc Fumaroli (1994), no século XVII, é a arte da conversação em sociedade que modela tanto o bem falar como o bem escrever em francês (p. 272). E ao fazer da conversação uma arte, a alta sociedade parisiense imprimiu uma marca perene no imaginário francês, fazendo da língua “o gênio tutelar da França” (MESCHONNIC, 1997: 330).

No entanto, como observam os linguistas Dominique Maingueneau (1995) e Henri Meschonnic (1997), a língua e as qualidades que podem ser a ela atribuídas só são reconhecidas quando se tornam uma literatura, isto é, um discurso literário em obras de escritores como Montaigne, Malherbe, Ronsard, Molière e Voltaire, para citar apenas alguns exemplos das letras francesas.

Ao fazerem essa observação, Maingueneau (1995) e Meschonnic (1997) destacam a função poética da linguagem, evidenciada pelo trabalho estilístico dos escritores em sua busca por um modo de significar que caracterize o código de linguagem (MAINGUENEAU, 1995: 101) de cada um, ou seja, o uso da língua que lhe seja próprio, pois seria a única maneira de enunciar que permitiria construir o sentido de sua obra. Assim, o escrito perpetua o oral, dando-lhe a visibilidade que se pressupõe necessária a todas as teorizações sobre a língua, inclusive sobre seu gênio e sua literatura.

Por esse motivo, inaugura-se a história da língua francesa no século IX, com os Serments de Strasbourg de 842, considerados, segundo o historiador e linguista Jacques Chaurand (1969), como a primeira manifestação documentada

da existência do francês enquanto língua escrita distinta do latim e de suas variantes, ainda que a única cópia que conhecemos, o manuscrito de Nithard, intitulado Histoire des divisions entre les fils de Louis le Débonnaire, date de um século e meio mais tarde e seja predominantemente escrita em latim, salvo a transcrição dos juramentos. Daí a menção recorrente a uma outra obra do mesmo século, a Séquence ou Cantilène de Sainte Eulalie, que corrobora a autencidade do texto de Nithard. Voltaremos a tratar desses textos mais tarde, mas o que se deve reter por ora é o fato de que se inaugura, ou melhor dizendo, reconhece-se oficialmente uma língua pela escrita, pois uma língua só tem história quando recebe uma forma escrita, antes disso, é a pré-história (p.6).

Porém, as teorizações sobre a língua não podem torná-la imóvel, nem reduzi-la, nem reduzir sua literatura à reprodução do passado, ou seja, à sua inscrição numa tradição estreita do gênio da língua. A crítica a esse gênio proposta por Meschonnic (1997) repousa justamente sobre “a redução da literatura a uma poltrona: as comodidades da conversação”7 (p.148, tradução

nossa). Estamos de acordo com esse autor sobre os equívocos ocasionados pela identificação entre o gênio (e a conversação que o caracteriza), a língua realizada pelo discurso e a literatura enquanto discurso literário:

Que essa arte de viver e de conversar tenha tido uma importância capital para a formação de uma cultura, que ela tenha marcado o valor alusivo de tudo o que dizia respeito à França, e que ela fosse incorporada ao seu gênio, é inegável. O problema do gênio, é o que o sentido da conversação fez ao sentido da literatura. Na proporção de sua fusão com a língua.8 (MESCHONNIC, 1997: 156, tradução nossa)

O primeiro equívoco, também apontado por Maingueneau (1995), é que a língua não precede a literatura: elas caminham juntas. A literatura, ou seja, a atividade literária, resulta de um trabalho sobre a língua – inclusive sobre a oralidade – que institucionaliza a língua e sua literatura, isto é, que produz os sentidos de língua e de literatura compartilhados por uma coletividade. Portanto, a

7No original: “la réduction de la littérature à un fauteuil: les commodités de la conversation”.

8 No original: « Que cet art de vivre et de converser ait eu une importance capitale pour le

façonnement d’une culture, qu’il ait marqué la valeur allusive de tout ce qui avait trait à la France, et qu’il se soit incorporé à son génie, est indéniable. Le problème du génie, c’est ce que le sens de la conversation a fait au sens de la littérature. Dans la mesure de leur fusion avec la langue ».

literatura é ao mesmo tempo uma atividade de linguagem ou um tipo de discurso e uma imagem construída por esse discurso, assim como o gênio da língua. Daí o segundo equívoco: o gênio é um produto da língua, ou ainda, do discurso, não é a língua em si mesma. Além disso, o oral é um modo de realização da língua, não seu espírito, pois, ainda que haja línguas sem escrita, não há nenhuma que não seja falada. E mesmo essas línguas que só possuem a palavra falada, elas não são desprovidas de literatura, o que nos lembra que todas as literaturas foram, em suas origens, literaturas orais. É por isso que podemos afirmar com Maingueneau (1993b) que todos os textos (escritos ou orais) trazem uma voz, uma maneira de dizer que constitui uma imagem daquele que enuncia (é a noção de ethos da retórica antiga).

Cabe aqui uma reflexão interessante sobre o que se entende por modalidades da língua, que distinguem duas formas de realização: a oral e a escrita. Entretanto, o linguista Pierre Guisan (2009) propõe que se analise cada uma dessas modalidades como um sistema diferente, mas em contato permanente, como duas variantes linguísticas tão peculiares em seu funcionamento que, por muitas vezes, se distanciam, de tal modo que permitiria designá-las como línguas diferentes (o que a própria história das línguas evidencia: as línguas latinas – entre elas, o francês – são variantes do latim em contato com outras línguas e com outros fatores de mudança, como o tempo e a hierarquia social).

Conforme dissemos, a escrita surgiu principalmente em resposta à necessidade de registro e visibilidade da fala. Porém, antes do Renascimento (século XV), esse registro se fazia sem qualquer esforço de correção no sentido de se estabelecer uma uniformidade. Mas com o advento da imprensa, a decadência do regime feudal e a emergência do absolutismo, surgem iniciativas de normatização e padronização da atividade escrita, sobretudo nos meios administrativos e literários. Essa forma escrita resulta da aproximação de falares variantes coexistentes num mesmo espaço, que se mesclam naturalmente pelo contato, mas que orbitam em torno da variante falada de prestígio das elites administrativas e literárias. Assim, a escrita cristaliza diversos falares sem

representar integralmente nenhum, nem mesmo a fala prestigiosa das elites – que é referência para a norma –, pois mesmo essa variante não está imune às derivas naturais da oralidade, mas que a escrita, por seus fins, tenta conter.

Ao se conceber a língua como um objeto único bidimensional, legitima-se a determinação de uma dimensão sobre a outra. Logo, o controle da escrita pela norma visa a regular a fala, além de estabelecer juízos de valor que colocam em evidência as relações de poder existentes na sociedade (o certo e o errado; o bom e o mau uso; o erudito e o vulgar).

Destarte, a ideia de uma língua em duas modalidades pode ser também considerada uma construção simbólica, ou seja, uma convenção como a própria norma que institui e ao mesmo tempo reconcilia essa dualidade, estabelecendo um vínculo imanente imaginário entre escrita e oralidade, que se manifesta no etos discursivo de que nos fala Maingueneau (1993b). Essa construção reforça a noção de unidade tão cara aos imaginários da língua e da nação. Por isso, quando Anderson (2008) nos fala da importância da língua na construção da ideia de nação, entendemos que essa língua (ou ideia de língua) corresponde à escrita forjada a partir de uma koiné normatizada e normativa, a que se atribui o status de língua nacional. Diante disso, podemos afirmar com a linguista Anne Decrosse (1989: 21) que “o mito de uma língua natural, única, própria a um Estado” se constrói “pela redução da diversidade dos usos a um uso normativo”.

Concluímos, então, que: “[...] os discursos sobre a língua se iludem e criam ilusão, uma vez que eles só podem falar dos discursos, e atribuem à língua as qualidades de certos discursos”9 (MESCHONNIC, 1997: 146, tradução nossa).

Por outro lado, o caráter eminente do escrito também se encontra nas origens do capitalismo editorial. Um século e meio depois da invenção da imprensa, o mercado das publicações em latim estava saturado e perdia prestígio após a Reforma. Por conseguinte, as tipografias europeias começaram a publicar livros em línguas vernáculas, resultantes da combinação de diferentes variantes em contato (e, portanto, próximas), o que respondia à busca por maior

9 No original: « ... les discours sur la langue s’illusionnent et font illusion, puisqu’ils ne peuvent

rentabilidade, uma vez que essas variantes médias tornavam as publicações compreensíveis a um grande número de consumidores em potencial, promovendo assim a formação de amplas comunidades em torno de uma língua escrita comum ou uma koiné escrita.

Num sentido bem específico, o livro foi a primeira mercadoria industrial com produção em série ao estilo moderno. [...]

Desse ponto de vista, o jornal é apenas uma “forma extrema” do livro, um livro vendido em escala colossal, mas de popularidade efêmera.

Sendo uma das primeiras formas de empreendimento capitalista, o setor editorial teve de proceder à busca incansável de mercado, como é próprio do capitalismo. [...]

A aliança entre o protestantismo e o capitalismo editorial, explorando edições populares baratas, logo criou novos e vastos públicos leitores – entre eles, de importância nada pequena, comerciantes e mulheres, que geralmente sabiam pouco ou nada de latim –, ao mesmo tempo que os mobilizava para finalidades político-religiosas. (ANDERSON, 2008 : 66-75) Além disso, os Estados dinásticos de pretensões absolutistas engendraram, nessa mesma época, a difusão de certas línguas vernáculas como instrumentos administrativos de centralização do poder. Um exemplo célebre e particularmente interessante para os objetivos deste estudo é o Edito de Villers-Cotterêts de 1539, como será mostrado na próxima seção.

No entanto, nesse período, as línguas vernáculas não eram ainda impostas à população como um traço da identidade nacional. Isso só virá a acontecer efetivamente no século XIX, quando o ensino da língua nacional ocupará uma posição estratégica nos assuntos do Estado.

Para finais do século XVIII e inícios do XIX difunde-se a nação como organização sociopolítica sendo o Estado quem exerce a função de manter uma cultura e uma língua comuns, homogêneas. Para a realização desta tarefa, o sistema educacional tem um papel fundamental como reforçador