Os termos cena e cenografia, tomados por empréstimo do teatro, designam planos e níveis enunciativos constituídos pela enunciação e constitutivos dela. Enquanto o quadro cênico em que se inscreve a enunciação é “o espaço estável no interior do qual o enunciado adquire sentido – o espaço instável do tipo e do gênero de discurso” (MAINGUENEAU, 2001: 87), sendo constituído, portanto, pelas cenas englobante e genérica, que correspondem respectivamente ao tipo e ao gênero de discurso, é com a cenografia que o ouvinte ou leitor se depara assim que a enunciação se desenvolve, pois se trata de uma representação da situação de enunciação construída pelo desdobramento dos conteúdos na materialidade do enunciado, produzindo os efeitos de sentido que se constroem no texto: “Aqui grafia é um processo de inscrição legitimante que traça um círculo: o discurso implica um enunciador e um co-enunciador, um lugar e um momento de enunciação que valida a própria instância que permite a sua existência” (MAINGUENEAU, 2008: 51). Assim, a enunciação se projeta no enunciado, que, por sua vez, se volta para a enunciação ao refletir a encenação instituída por essa: “A situação de enunciação não é, com efeito, um simples quadro empírico, ela se constrói como cenografia por meio da enunciação” (ibidem).
Os elementos da situação que se estabelece ao se realizar a enunciação podem ser marcados no texto pela dêixis linguística, ou seja, por termos
chamados embreantes ou dêiticos, cujos referentes são identificados no contexto empírico. No entanto, a situação construída na e pela enunciação, isto é, a cenografia, é constituída pelos referentes de uma outra dêixis, a dêixis discursiva, que tem a mesma função da dêixis linguística, sendo que as referências dessa dêixis incluem imagens dos participantes da enunciação, ou seja, do enunciador e do coenunciador, e das coordenadas espaço-temporais, que correspondem à cronografia e à topografia.
Portanto, a cenografia não equivale à situação de enunciação empírica (ou contexto situacional), pois a referência da dêixis discursiva constrói a cena que representa a situação de enunciação no interior do enunciado, investindo de outros sentidos as suas coordenadas. Logo, tanto a situação de enunciação quanto a cenografia que a representa no enunciado não são dados preestabelecidos, seja como ambiente imediato ou como efeito de sentido, pois ambas dependem da enunciação como essa depende daquelas para legitimarem- se reciprocamente.
Além da dêixis discursiva, há as categorias do etos e do código linguageiro, que são também dimensões da cenografia a serem analisadas na sua interação com as demais categorias cenográficas – enunciador, coenunciador, topografia e cronografia –, cujo fim é a construção do sentido nos enunciados.
Pela sua maneira de dizer, o enunciador encarna o que diz, constituindo um corpo enunciante que atesta a legitimidade do que é dito. Porém, esse corpo não é o corpo do autor efetivo, mas um efeito de sentido produzido pelo discurso. Logo, esse corpo é uma imagem do enunciador ou fiador do texto, ou seja, daquele que se responsabiliza pelo que é dito. Logo, todo enunciado implica uma imagem do enunciador. Segundo Maingueneau (1993b), essa imagem compreende as três dimensões do etos enunciativo. A primeira delas é o tom, que se define como a marca de oralidade que todo texto, mesmo escrito, traz em si. As demais dimensões, às quais está associado o tom, são o caráter e a corporalidade. O caráter corresponde a um conjunto de traços psicológicos que o leitor/ouvinte pode atribuir à imagem do enunciador em função da sua maneira de
dizer. E a corporalidade corresponde a uma representação do corpo do enunciador, que inclui movimentos e indumentária.
Portanto, o etos põe em evidência a dinâmica sócio-histórica que anima o discurso, na medida em que supõe conhecimentos compartilhados por um determinado grupo.
Conforme dissemos no capítulo anterior, as identidades se definem pela negação, ou seja, se definem pela oposição ao que é diferente delas. Assim, a identidade do enunciador, enquanto fenômeno enunciativo, também pode se constituir pelo fenômeno da negação descrito por Ducrot (1987). Segundo esse autor, há três tipos de negação:
a negação metalinguística, que nega o que foi efetivamente dito por um enunciado positivo;
a negação polêmica, que nega, opondo-se a uma opinião inversa de cujo enunciador não se conhecem as palavras, mas apenas o ponto de vista;
a negação descritiva, que descreve pela negação, atribuindo a propriedade que legitimaria opor-se a um enunciado que tivesse afirmado o contrário.
Assim, para Ducrot (2001), a negação pode ser considerada uma modalidade, que, sendo uma categoria conceitual, não deve se confundir com o que é dito, porque corresponde ao modo de apresentação desse dito. Logo, a modalidade é um ato que se realiza pela enunciação, fazendo do dizer um fazer. Em outras palavras, é uma atitude do enunciador em relação ao conteúdo de sua fala (p. 279), que, por sua vez, exprime a presença do enunciador nesse conteúdo como resultado da construção do dizer.
Nesse caso, segundo esse autor, a negação como modalidade corresponderia à negação polêmica, que contradiz um ponto de vista contrário. Já a asserção negativa não é uma contradição, mas é dizer pelo contrário (é o caso da negação descritiva, daí ser considerada como um derivado delocutivo da
negação polêmica, porque ela se constrói como uma asserção, cujo efeito de sentido faz com que o enunciado pareça falar por si ou por um terceiro, sem implicar os coenunciadores). Assim, a negação descritiva se define como a declaração de um conteúdo negativo, enquanto que a negação polêmica é a refutação de um ponto de vista positivo. Sobre esse segundo tipo de negação, Ducrot (1987: 204-205) nos diz que:
A atitude positiva à qual o locutor se opõe é interna ao discurso no qual é contestada.
[...]
[...] o elemento positivo que considero subjacente ao enunciado negativo não é um enunciado (isto é, uma seqüência de palavras), imputável a um locutor, mas uma atitude, uma posição tomada por um enunciador tendo em vista um certo conteúdo, quer dizer, uma entidade semântica abstrata. Quando falo de uma proposição subjacente a “Pedro não fez grande coisa”, não se trata de uma proposição gramatical, mas de uma proposição no sentido lógico, ou seja, de um objeto de pensamento, da opinião segundo a qual Pedro teria muito o que fazer.
Sabemos que, quando Ducrot se refere a um locutor, este equivale ao enunciador de Maingueneau, ou seja, à instância responsável pelo dito. Já o enunciador de Ducrot equivale a um ponto de vista expresso pela enunciação, que não precisa se identificar com o ponto de vista do locutor. Mas ainda assim cabe a seguinte pergunta: onde está o caráter polêmico e polifônico dessa negação se a opinião contestada é interna ao conteúdo do enunciado negativo, uma “entidade semântica abstrata”, um “objeto de pensamento” inimputável a um ser de fala de outro enunciado?
Diante dessa questão e do quadro teórico apresentado, repensamos assim a negação polêmica: trata-se da negação de uma opinião (ponto de vista ou conjunto de valores) construída por enunciados anteriores, que não podem ser recuperados quanto ao que foi efetivamente dito, mas a partir dos quais o enunciado negativo se constrói, opondo-se a eles no plano do interdiscurso. Por conseguinte, é preferível falar de um “enunciador virtual” (DUCROT, 1987: 203), que representaria o ponto de vista a ser refutado, a falar de “um enunciado virtual” de sentido contrário (MAINGUENEAU, 1993b: 85), pois se trata de uma voz que fala através da enunciação sem que se lhe atribuam palavra precisas. Daí esse
tipo de negação ser mais pertinente para a análise polifônica, porque constitui uma evidência do interdiscurso.
Charaudeau (1992) também estende a análise da negação para além de uma categoria formal, fazendo sobressair seus valores semânticos. Portanto, mais do que uma lista de marcas linguísticas, a negação é um fenômeno discursivo, resultante da interação entre conteúdo explícito e conteúdo implícito, sendo aquele o que se depreende, pelo que é efetivamente dito, como objeto do enunciado, e este o que é implicado tanto pelo dito quanto pelas circunstâncias enunciativas, exigindo um trabalho interpretativo que vá além da apreensão do explícito (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004: 270-272). Assim, explicam-se, por exemplo, os pressupostos (DUCROT, 1987), que constituem uma variedade de conteúdo implícito inscrita no enunciado, ou seja, que se deixa apreender por meio de marcas linguísticas, como as formas de negação.
Por conseguinte, segundo Charaudeau (1992), tanto a negação quanto a afirmação são modos de apresentação de um conteúdo, que determinam a existência ou a inexistência de um acontecimento de discurso (p.553), isto é, não é afirmar ou negar uma realidade ontológica, mas a relação entre os seres e suas ações no momento da enunciação, o que implica a tomada de posição do enunciador (como ele apreende essa relação e onde se situa nessa relação).
Além das muitas nuanças de sentido que a negação pode produzir num enunciado, é interessante observar que a negação da realização de um acontecimento de discurso pressupõe que essa realização seja possível. Assim, uma condição para a negação é a plausibilidade do seu contrário, ou seja, de uma afirmação. Como vimos, essa condição se encontra nos três tipos de negação descritos por Ducrot (1987).
A isso, junta-se o fato de que a negação pode recair ou sobre o conteúdo do enunciado ou sobre o ato de enunciação. É nesse último caso que a negação se confunde com as modalidades enunciativas de que nos fala Charaudeau (1992; 2008a), em meio às quais se deve distinguir, por exemplo, a asserção negativa em terceira pessoa, que se inscreve entre as modalidades delocutivas, de variantes como a denegação.
Charaudeau (1992; 2008a) define as modalidades enunciativas como manifestações de atos ou comportamentos locutivos (referentes ao sujeito falante ou enunciador) que se realizam por meio de procedimentos semântico-formais, a fim de evidenciar um ponto de vista sobre o que se enuncia. Dessa forma, o sujeito pode se posicionar em relação a seu interlocutor (que pode ser individual ou coletivo), em relação ao que ele mesmo diz e em relação ao que o outro diz, resultando em três comportamentos respectivamente denominados alocutivo, elocutivo e delocutivo.
Assim, quando recai sobre o próprio ato locutivo, a negação tem valor de denegação, isto é, ela nega a realização do ato que é enunciado (CHARAUDEAU, 1992: 564). No entanto, quando aplicada às modalidades alocutivas (exemplos: injunção, autorização, julgamento, sugestão, proposta, petição, interrogação ou interpelação), a denegação tem por efeito a mudança do ato enunciativo. Por exemplo, a negação de uma injunção pode significar uma sugestão ou conselho. Então, dizendo "Eu não estou mandando você se apressar, mas o ônibus já vai partir", o enunciador pode atenuar o efeito de uma injunção, modalizando o enunciado pelo recurso da negação e transformando-o numa sugestão ("Não estou mandando, mas seria bom se apressar").
Outra mudança acontece quando se nega uma autorização como "Você pode entrar agora". Nesse caso, tem-se uma injunção ou proibição: "Você não pode entrar agora".
Dependendo do contexto situacional e do cotexto (ou contexto linguístico), a negação também pode acarretar mudança entre modalidades elocutivas. Por exemplo, negar uma possibilidade pode ser mais do que afirmar uma impossibilidade, pois não poder fazer pode ser interpretado como uma obrigação de não fazer, ou seja, como uma interdição. Dizendo "Eu não posso falar com você agora", o enunciador pode exprimir a ideia de que naquele momento ele estava impedido ou foi proibido de falar (o que é admissível se imaginarmos, por exemplo, uma situação de perigo, em que, sob ameaça, o sujeito é obrigado por outrem a não falar, ou, em outro caso, como durante uma solenidade em que as pessoas devem fazer silêncio em demonstração de respeito).
A negação também pode simplesmente modificar o conteúdo do enunciado, exprimindo-o de maneira positiva ou negativa. Isso ocorre principalmente com as modalidades elocutivas e delocutivas. Vejamos um exemplo que se identifica com a negação metalinguística definida por Ducrot. Dizendo "Não é tauba, é tábua", tem-se uma constatação ou afirmação (variante da declaração) implicitamente configurada.
Quanto à negação descritiva, além de se configurar como uma asserção negativa impessoal ou em terceira pessoa, porque não implica o locutor nem o interlocutor, esse tipo de negação pode figurar entre as modalidades elocutivas, como a apreciação, que se vê neste exemplo: "Eu não sou nenhum atleta". Essa frase pode ser interpretada, dependendo da situação enunciativa e do contexto linguístico, como "Estou fora de forma" ou "Sou uma pessoa sedentária".
Além disso, a negação modal ou negação polêmica, entendida como refutação ou contradição, acha-se em potencialidade no interior de todas as modalidades enunciativas, não constituindo, portanto, uma modalidade por si mesma. Porém, os efeitos de sentido da negação, em relação ao fenômeno da modalização, estão condicionados aos contextos verbal e situacional dos enunciados, pois é preciso considerar que todo ato de linguagem se realiza na interação entre o dito (o explícito) e o não-dito (o implícito).
Por tudo isso, é possível afirmar que a negação, em sua relação intrínseca com a modalização, é um fenômeno discursivo importante para o entendimento da construção das identidades, pois o enunciador pode, por ele, manifestar uma atitude ou tomar posição em relação aos conteúdos do seu enunciado, o que resultará tanto na constituição do etos enunciativo, quanto na constituição das demais coordenadas da cenografia, que se definem a partir da imagem da instância de fala.
É importante destacar, neste momento, o papel do coenunciador no ato de enunciação. O coenunciador corresponde ao lugar do destinatário ao qual o texto associa diversas propriedades. É uma figura virtual, que está marcada no texto. Da mesma forma que o etos do enunciador, o texto apresenta um certo etos do
coenunciador, atribuindo-lhe diversos traços em função das coordenadas da enunciação.
Portanto, é pelo corpo enunciante dos coenunciadores que se estabelece o contato e pode-se determinar o grau de proximidade entre os parceiros da comunicação. Por isso, o código linguageiro deve ser analisado na sua relação intrínseca com o etos, pois também participa da constituição desse corpo simbólico.
A formação de um código linguageiro implica a relação de uma língua com outras (vivas ou mortas), chamada plurilinguismo externo, ou a relação entre as variedades de ordem geográfica ou de registros de uma mesma língua (usos associados a classes sociais, setores de atividade ou faixas etárias), chamada plurilinguismo interno. Além dessas relações entre línguas e usos, que constituem uma interlíngua, o código linguageiro também se associa ao etos através das perilínguas, que podem expressar desde a emoção pura sem artifícios (hipolíngua) até o pensamento mais elaborado (hiperlíngua).
O uso que se faz de um sistema linguístico é, pois, determinado pela prática discursiva, uma vez que sinaliza um posicionamento.
Por último, mas não menos importante, tem-se a designação, que, assim como as marcas de negação, serve de entrada linguística para a análise da cenografia. Entendida como o modo de apresentação de um referente (MAINGUENEAU, 2001: 180), a designação é a marca de não-pessoa (grupos nominais e nomes próprios), que remete aos objetos de que falam os coenunciadores, inclusive quando se definem em relação aos outros, ao espaço e ao tempo. Assim, como explica Ducrot (1987), essa marca faz aparecer um ponto de vista que se assimila a uma voz coletiva em relação à qual o enunciador, responsável pelo enunciado, se posiciona, podendo assimilar-se a ela ou não.
Por tudo isso, a presente pesquisa optou pela análise da interação dos constituintes da cenografia que, além das coordenadas espaço-temporais dos participantes da enunciação, incluem o etos e o código linguageiro. Isso porque consideramos, conforme demonstrado ao longo deste subitem e a ser reiterado a seguir, que o sentido é um efeito resultante da reflexividade enunciativa, ou, em
outras palavras, é resultante do enlaçamento dos dois níveis da atividade de linguagem, o do enunciado e o da enunciação, o que significa “encerrar o dito no dizer e o dizer no dito numa circularidade ideal: falar de um mundo no qual existe necessariamente lugar para o discurso que o sujeito justamente está fazendo sobre esse mundo” (MAINGUENEAU, 1996: 202).
Apesar de a cenografia não se construir por apenas uma marca linguística ou por uma única categoria conceitual, delimitamos nosso objetivo optando por privilegiar a análise dos fenômenos da negação a fim de verificar como eles atuam na construção cenográfica, explorando todas as suas potencialidades semântico- discursivas. É evidente que, para isso, é necessário analisar o todo do enunciado para observar como os usos da negação interagem com esse todo (texto e contexto), produzindo sentidos. Nos casos em que se constatar a baixa frequência ou até a ausência absoluta das formas de negação, procedemos por contraste, visando a descrever os efeitos dessas escolhas na construção cenográfica e os efeitos desta na construção dos sentidos de língua e de nação, o que, aliás, será discutido a seguir.