Parte I: Cultura Santomense
1. Como caracterizaria a cultura Santomense? [uma identidade cultural ou várias] |0:00:58|
A cultura santomense é também um resultado do tráfico de escravos. Quiçá, nós podemos dizer que temos apenas uma actividade cultural que é original, que é o socopé. Sabe, nós somos fruto da mistura de outros povos da costa africana, aquando da implementação quer da cultura da cana do açúcar, quer da cultura do café e do cacau, houve a necessidade do tráfico/da importação de mão de obra. São Tomé e a nossa cultura é um resultado, também, desta mistura. Temos o Danço Congo, que como o próprio nome diz é do Congo; temos o Tchiloli que é a partir da tradução de um texto europeu, mas que hoje nos caracteriza bastante; o Auto de Floripes, também é da Europa. A língua portuguesa e a língua crioula forra, que é aqui da região da África bantu. E pronto, a nossa cultura é uma mistura de várias culturas.
2. Sítios e locais de interesse? [que os santomenses valorizam particularmente - associados a histórias de vida, à tradição oral, à história da ilha]
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Ligado à própria história de São Tomé, nós ainda temos a praia Fernão Dias, onde está o campo de concentração que serviu de base para o Massacre de 5323, é um local muito significativo, onde há, todos os
anos uma romaria, em homenagem a todos aqueles que perderam a vida neste local. O destaque vai mais para as festas religiosas, as igrejas, que são construções antigas. Levantou-se agora a questão de Rebordelo, onde houve, há 36 anos, um desabamento de terra que vitimou muita gente. Esse local estava esquecido mas, ultimamente, um repórter da rádio fez um trabalho que reavivou a memória de muitos santomenses.
3. No seu ponto de vista, o que deveria ser feito para preservar a cultura em São Tomé? |0:04:54|
As autoridades competentes deveriam dar maior atenção. Devia haver uma política para o desenvolvimento cultural porque tem-se notado que algumas actividades ou algumas manifestações culturais têm tendência a desaparecer. Não há um acompanhamento, não há transmissão porque estas manifestações, normalmente são seguidas pelos mais velhos e com o seu desaparecimento físico algumas tendem a desaparecer ou estão em vias de desaparecer. Portanto será necessário que as autoridades governamentais, ligadas à área cultural, prestem bem atenção a isto. Mas vem aí o Fórum da Cultura, vamos ver se deste fórum saem medidas importantes, no que concerne a algumas manifestações culturais do país.
4. Haverá já alguns traços (materiais/imateriais) da cultura Santomense que se perderam? Quais? |0:04:54|
Textualmente não tenho ideia. Pode vir a perder-se.
5. Quais os agentes culturais (instituições/indivíduos) em São Tomé? [mesmo na área da cooperação e desenvolvimento ou do património]
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A nível governamental temos a Direcção Geral de Cultura, a Casa da Cultura, a Biblioteca, o Arquivo. A nível individual temos o Sr. João Carlos Silva que este é de se lhe tirar o chapéu porque tem feito bastante.
Temos também o Professor Carlos Espírito Santo (Bené), que há uns tempos recolheu algum material de grupos que estavam a desaparecer. ONG’s, temos por exemplo, os Amigos da cultura, e algumas pessoas individuais. Nós, em tempos, tínhamos vários conjuntos musicais que estão a acabar, embora tenham aparecido bandas que apesar de já não tocarem os mesmos ritmos, mas reactivam alguns ritmos antigos. Temos ainda aqueles cantores mais antigos, mais famosos, o Pepê Lima, o João Seria, o Ayto (já falecido). Ligados à cultura temos o Dr. Armindo Aguiar, Dra. Nazaré de Ceita, são pessoas que batalham bastante. Parte II: Um museu em São Tomé
Que outra tipologia de museu gostaria que houvesse em São Tomé? |0:09:41|
Um museu de história. Um museu temático de história. Nós poderíamos utilizar muitos objectos do nosso acervo para a montagem de outros museus. Teríamos que diversificar porque aqui é muito abrangente. Nós podíamos montar um museu de história, que narrava apenas a história de São Tomé e o restante acervo seria para a montagem de outros museus. Por exemplo, pensa-se num museu do café para a Roça Monte Café, nós temos aqui peças que poderiam integrar a montagem deste novo museu. Poderia ainda associar-se o cacau. O café/cacau foi introduzido em 1822, porque não um museu da agricultura virado para estas culturas, até a cana de açúcar, como primeira cultura.
Por exemplo, nós temos um acervo bastante grande de arte sacra, havendo um edifício, um local próprio, poderíamos criar uma exposição, num edifício separado, só de Arte Sacra.
O que gostaria de ver num museu de/sobre São Tomé? |0:12:44|
Gostaria de ver narrada a história completa de São Tomé , que começa com os descobrimentos até hoje. E muita gente já escreveu sobre isso, nós estamos em condições de montar um museu sobre a história de São Tomé. Desde 1470/71 à data da independência em 1975, ainda outra parte pós independência até aos anos 90 (período monolítico), e daí em diante, com o pluripartidarismo. E assim teríamos um museu bastante rico sobre são Tomé.
Os museus são para os visitantes. De que forma se pode apelar à participação da população na constituição de um museu?
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Sensibilização. Dar a conhecer à população, porque eu acredito que a população não conhece o significado, não sabe o que é um museu. As pessoas conhecem este edifício como um museu mas não sabem qual é o seu valor. Tem que haver mais divulgação, dar mais atenção. O próprio edifício precisa de mais atenção, uma recuperação. Enfim, um trabalho de fundo deve ser feito para abrir mais o museu ao público e dar ao público a conhecer o significado, a importância de um museu para qualquer estado.
Mas de que forma é que a população poderia vir a sentir um museu também como seu? |0:14:50|
Criar programas de aproximação. Começaríamos talvez com estudantes, alunos, que é um público alvo. Com estes meninos, eles próprios se encarregarão de passar a mensagem em casa, dizendo que estiveram no museu e como ele é, e talvez assim os mais velhos tenham vontade de cá vir para conhecer a história. Mas para tudo, isto é, preciso que nós estejamos preparados e tenhamos condições para receber grupos diversificados de visitantes e com interesses diferentes.
Onde deveria ser um museu de/para as pessoas? |0:16:00|
A localização geográfica ainda não pensei. Aqui neste edifício nós temos algumas fraquezas, estamos próximos do mar e por isso há a brisa, é a falta de segurança... Por isso teríamos que estar noutro edifício, num lugar mais bem apetrechado, onde se garantisse a segurança, sem perigo. Talvez no centro da cidade, num lugar mais próximo, porque o facto de estarmos distantes talvez seja um motivo para as pessoas não virem. Mas concretamente o local, eu não sei.
VI. Conversa com Francisco Costa Alegre, realizada no Ministério dos Negócios Estrangeiros, no dia 14 de