Identificação
Eu nasci em São Tomé e fiz cá os ensinos iniciais, até 1964, e depois aos 19 anos parti para Portugal. Era muito conhecido cá nos anos 60, era uma estrela do futebol. Então em 64 parti para o Académica de Coimbra para jogar e para estudar na Universidade de Coimbra. Estive lá durante alguns anos, estudei engenharia electrotécnica, e desviei-me do campo das letras porque era incomportável para o meu pai pagar a propina. Depois fui chamado para fazer serviço militar em Portugal, durante 4 anos, como alferes meliciano. Quando acabei, em 1972, estava em Lisboa. Quando rompe o 25 de Abril de 74, eu e outros jovens embrenhamo-nos na luta política desde aquele tempo. Havia uma grande aliança entre o povo português e o das ex-colónias, os partidos da esquerda ajudavam e nós também. Foi chamado o Verão quente de 75. Depois deu-se a independência do país, pela qual nós lutamos com a actividade política em Portugal, alguns vieram logo para aqui e depois conseguiu-se a independência em Julho de 75. Eu regressei definitivamente em Janeiro de 76. Eu trabalhava, na altura, no Ministério do Trabalho e Corporações, em Portugal. Regressei e não estava muito de acordo com a política que se tinha levado a cabo, era no contexto dos partidos únicos com todos os seus males, a obstrução da liberdade de expressão, de intervenção. Foi um tempo que eu deixei descrito num romance intitulado Um clarão sobre a baía, onde eu retrato as vítimas das prisões e das arbitrariedades. Depois disso nós criamos aqui, em 1990, o PCD - Partido da Convergência Democrática, que era um Grupo de Reflexão - GR. E concorremos às primeiras eleições livres e democráticas, contribuímos para a elaboração dos primeiros textos democráticos, sobretudo a constituição, já que não podíamos participar nas discussões porque isso estava-nos vedado. Mas tivemos uma presença muito activa e o povo reconheceu no GR a estrutura necessária para que São Tomé e Príncipe mudasse de rumo. E assim, o referendo de 22 de Agosto de 1990 (uma data histórica), haveria de ser o primeiro passo para a nossa vitória em 20 de Janeiro de 1991, nas primeiras eleições legislativas democráticas em São Tomé e Príncipe, ganhámos com maioria absoluta. Foi um tempo fantástico, de uma alegria grande. Para grande surpresa minha, num contexto muito difícil, em que havia forças do antigo regime a desmoronar, eu fui indicado para Ministro da Defesa. As pessoas ficaram a pensar, porquê eu, ligado às artes e literatura. Estive neste cargo 18 meses, depois o governo caiu, e em 92 nós constituímos um 2º Governo do PCD e eu deixei a Defesa e fui para os Negócios Estrangeiros, onde estive 2 anos e meio. Convivi muito com Durão Baroso, Ministro dos Negócios Estrangeiros português da altura. Tivemos muitas intervenções, entre as quais o momento em que a CPLP foi criada, numa reunião em Fevereiro de 1994, em Brasília. E a nossa intervenção foi no sentido de criar, ao contrário do Brasil e Portugal que defendia uma organização de cariz exclusivamente diplomático, nós vislumbramos logo como um espaço de concertação não só político mas também social e económico.
Dois anos antes, em São Luís do Maranhão, tinha-se criado o Instituto da Língua Portuguesa (ILP), foi uma coisa que foi criada mas logo morreu na medida em que nunca mais se falou, e talvez tenha morrido porque alguns países talvez não estivessem de acordo com a forma quase leviana como se procurava estruturar o instituto. E isso serviu-nos de lição.
Depois disso, aqui politicamente, o PCD perde em Julho de 94, saí da governação. Instabilidade. Mudança constante de governação. Numa destas fases, em 96, cai o governo do MLSTP e nós criamos um governo de coligação com eles, uma coisa impensável. E neste governo fui indicado para Ministro da Educação, Cultura e Desporto, de 96 a Janeiro de 99. Eu fui sempre um quadro da educação, quando regressei fui presidente da comissão directiva do liceu, em 1976, depois fui director do Liceu Nacional até 79, director do ensino básico e secundário da escola preparatória até 1983, em 84 fui director do gabinete de estudos do Ministério da educação e cultura, onde permaneci até 91, saí de lá para Ministro da Justiça.
Durante este tempo fui deputado com actividade suspensa por estar no Governo, de forma que estou na Assembleia Nacional já ha 20 anos. Actualmente sou deputado, presidente da comissão dos petróleos, das infra-estruturas. Sou presidente da 4ª comissão da Assembleia Nacional que corresponde às infra-estruturas e meio ambiente, que abarca a área das telecomunicações, petróleo, meio ambiente.
Depois, do ponto de vista desportivo, quando regressei de Portugal, depois de ter jogado na Académica, vim treinar várias equipas, fui campeão, fui seleccionador nacional durante 10 anos. E depois de entrar nas lides governamentais deixei o futebol.
Parte I: Cultura Santomense
1. Como caracterizaria a cultura Santomense? |0:17:00|
A minha palestra no Fórum da cultura será exactamente sobre estas questões e ouvirá a minha opinião acerca da identidade cultural e santomensidade.
2. Consegue identificar-me sítios e locais de interesse que os santomenses valorizam particularmente - associados a histórias de vida, à tradição oral, à história da ilha?
|0:17:57|
Na preparação do Fórum da Cultura nós criamos equipas por distritos para conversar com as entidade locais e pessoas que estivessem ligadas à cultura, ao nível dos distritos e da região do Príncipe, sobre a situação da cultura em cada distrito, os impedimentos e contratempos que se levantam e também aquilo que poderia ser o símbolo cultural do distrito. Na cidade de Neves, no distrito de Lembá, no Norte, uma parte da zona dos Angolares, falamos de duas hipóteses, a primeira seria o levantamento do voador (peixe) em Junho, na gravana, os cardumes que vão desovar deixam as águas quentes vão para as águas frias, porque a gravana é a época das temperaturas baixas, e aí eles são captados. Esta captura existe sobretudo no Norte e é seguida de um ritual, mas está a desaparecer. Nós identificamos este ritual como símbolo cultural do distrito, porém, dizem que deixou de estar organizado e que agora se faz o levantamento do voador em todo o lado. Aquilo tinha uma data certa com uma cerimónia, a partir da qual se podia apanhar o voador. Nós gostaríamos de recuperar a cerimónia, até com fins turísticos, com digressões. O outro símbolo é um local chamado Anambó, que foi onde chegaram os portugueses. Eu não percebo como é que Portugal, ou a embaixada, não se interessa por imprimir maior notoriedade àquele padrão, que simboliza a chegada dos portugueses. Porque para alguns santomenses aquilo simboliza a chegada dos invasores.... Foi ali que se criou a primeira povoação, apesar de já não haver vestígios, e lá se construiu o padrão. Depois da chegada, 14 anos depois, em 1485, os portugueses fazem a 1ª expedição para explorar a ilha. Aquele sítio chegou a ser um centro quase turístico, durante a primeira república que poderia voltar a reconverter-se numa atracção turística. Claro, uma tem um cariz mais nacionalista, a apanha do voador, e a outra tem um cariz histórico que nós não podemos deixar perder. É como estas estátuas (João de Santarém e Pêro Escobar). Elas estavam nas praças na época colonial e ainda um tempo depois da independência. Houve uma grande polémica... afinal o que é que elas representam, fazem ou não parte da história de São Tomé e Príncipe? Nós defendemos que sim porque eles fizeram história. Elas chegaram a estar desmanteladas no piso superior do museu à chuva. Depois de muita discussão elas foram postas à frente da fortaleza, que foi importantíssima na defesa da ilha. Eles estão lá como guardas da fortaleza e foram erigidas novamente e assim conseguimos conciliar. Podem não estar nas praças, porque os povos têm os seus ídolos, os seus heróis, mas fazendo parte da nossa história tinham que estar de pé. Esta fortaleza foi mandada construir pelo rei D. Sebastião no séc.XVII, com material vindo de Portugal e com apoio dos populares santomenses.
Este país tem que ser sempre um entreposto e ele perdeu a sua caracterização. O meu partido e alguns do MLSTP (no governo em que estivemos juntos) vimos que era necessário fazer de São Tomé e Príncipe um centro de exportação de serviços, porque foi sempre esse o papel que teve na história e São Tomé precisa de se reencontrar com a História. Estamos de bem com o petróleo, é certo, mas seria importante sermos um interposto aqui com os países de fronte, do Golfo da Guiné, e nós somos a bissectriz. Seria uma questão estratégica para o desenvolvimento do país.
Portanto, o século XVII foi o século do auge, do apogeu, da criação da diocese em 1534, e a criação da cidade de São Tomé em 1535 - que é uma das cidades mais antigas. Nesta questão, tenho tido muitas discussões com os Cabo-verdianos devido à Cidade Velha, hoje património da UNESCO. Porque os santomenses nunca viram importância nisso, não houve um trabalho sistematizado de imposição, nem a tentativa de ter os apoios de Portugal e Espanha. E isto está ligado a uma velha questão, a Macronésia (Açores, Madeira, ilhas Canárias e ilhas de Cabo-Verde) e no imaginário de alguns políticos portugueses era necessário recuperar essa ideia, como um prolongamento da Europa. O certo é que Cabo Verde conseguiu que a Cidade Velha, com uma diocese criada em 1533 com Angra do Heroísmo.
Os portugueses criavam a diocese e no ano seguinte a cidade, que era antecedido por um documento que oficializava a sua criação. Era uma carta régia. Em São Tomé e Príncipe, devido ao incremento da produção da cana de açúcar e a exportação, esta cidade tinha as igrejas da Graça e da Conceição, tinha outras, a da Trindade, de Guadalupe (Água de Lupe do rio que lá corria), todas do séc. XVI. Em 1534, a igreja da Graça foi elevada a Sé Catedral por ser a maior. Em 1535, no ano seguinte, o rei D. João III faz uma carta régia (nós temos este documento e Cabo Verde não tem em relação à Cidade Velha) em que especifica as razões que o levam a considerar a povoação (posson, em crioulo) uma cidade, por estar tão “nobrecida de gente”. Esta carta é datada de 22 de Abril de 1535 e foi escrita em Évora. E este documento nunca apareceu em Cabo Verde, e mais esta cidade nunca deixou de ser cidade, ao contrário da Cidade Velha que deixou de ser cidade durante muito tempo. Só que os cabo-verdianos são muito astutos e viram o potencial que isso tinha e conseguiram recuperar a cidade.
(...)
|0:45:00|
Arlindo Manuel Caldeira a partir da pistas de Dona Simoa Godinho foi descobrindo as mulheres santomenses, e a relação homem/mulher. Depois estudou a sociedade, sobretudo duas características: a sociedade marcada pela diversidade devido aos diversos povos de que é constituída, e a conflitualidade, e ele diz que não há zona mais conflituosa no mundo como esta aqui. Toda a história que nós tivemos, mesmo na 2ª República, os governos sucessivos, nós tivemos 14 Primeiros Ministros e Cabo Verde teve 2. Mas como é que a História se refaz e como é que o país continua a viver nessa conflitualidade? Nós temos que encontrar um antídoto. Assim como pelo desprezo que temos com a nossa própria cultura.
Quando se compara São Tomé e Cabo Verde, dois territórios arquipelágicos, como é que podem ser tão diferentes na sua configuração sócio-cultural quando tiveram o mesmo colonizador? Nós fomos sempre uma terra de acolhimento...
(...)
|1:05:35|
Continuando acerca dos locais de interesse, existe apenas um resquício de engenhos de açúcar do séc. XVI, na Praia Melão, onde agora foi amarrado o cabo submarino.
Há uma outra igreja importante, a Madre de Deus, aqui perto. Há uma carta do Bispo de são Tomé em finais do séc. XVIII a lamentar-se perante el-rei do ataque dos Holandeses e da forma como o governador cedeu ao ultimato dos Holandeses e traiu a população.
O bispo organizou uma reunião com a população na igreja da Madre de Deus, antes da chegada dos invasores, porque foram avisados. Isto tem muito significado para mim porque eu vivi lá ao pé e jogava a bola no adro da igreja quando era miúdo e saber que foi ali que se fez uma reunião patriótica de preparação contra o invasor.
A fortaleza de S. Sebastião é, de facto um sítio célebre porque historicamente era um dos pontos chave da defesa da cidade. Havia 4 pontos que defendiam a cidade em cadeia. Havia um forte de S. José em Oque del Rei, depois o de S. Sebastião, depois o de S. Jerónimo, onde está o hotel Pestana e havia um forte de Santana, que já não se vê. Eram os 4 fortes que defendiam a baía, com fogo cruzado. Eles tiveram um papel muito importante porque a cidade nos séculos XVII e XVII foi alvo de muitos ataques e depois, no séc. XVII com a queda da soberania portuguesa e a submissão a Espanha, os Holandeses aproveitaram e os próprios Filipes, franceses. Os Holandeses chegaram a estar aqui 9 anos. A indústria do óleo da baleia chegou a estar em Neves muito tempo com Holandeses.
Mas muita coisa desapareceu, até na época colonial... perdeu-se muito património. Mas houve um homem, o governador Silva Sebastião, ele chegou nos anos 60, eu ainda era estudante de liceu. Ele chegou em 63 e eu parti em 64 para Portugal. Do ponto de vista da cultura era uma coisa curiosa. Ele compreendeu que a melhor forma de entrar em contacto com um povo era conhecendo a sua cultura.
Depois da independência eu fiz um programa de rádio com um médico amigo, Amadeu Espírito Santo, nós fazíamos critica musical e entrevistamos todos os grupos musicais, agrupamentos culturais, o programa era semanal. Uma vez fomos entrevistar um senhor da Ússua do Cruzeiro, na Trindade, a ússua era uma dança dos moradores da cidade da classe alta, era uma dança de salão, com traje de chapéu de palha e sapatos de polimento. Então nós entrámos num quintal popular, o Sr. chamava-se “Avelino, que os pés não comem o quintal” (em crioulo), nós apresentamos-nos e ele disse-nos assim: “vocês já não vão ver aquilo que havia antes, os homens foram-se embora e tudo acabou”. O que ele me estava a dizer era que com a saída dos colonos tudo tinha acabado e eu perguntei-me como é que isso era possível se a função do colono era exactamente apagar as culturas nativas. Ele então contou-me uma história. Um dia estavam a ensaiar à noite e apareceu um senhor sem se apresentar para assistir ao ensaio e só no dia a seguir, depois de terem sido convidados a ir ao palácio é que descobriram que era o governador Silva Sebastião. Ele então financiou traje para os 60 elementos, nas melhores empresas comerciais da cidade. E depois de ele se ir embora tudo acabou.
Mas quanto a mim a prioridade são as línguas nacionais. No Príncipe é mesmo minoritário, falado por muito pouca gente. Está agora a ser ensinado, apesar que de forma artesanal, de todo o modo foi introduzido o ensino da língua. O angolar, a língua é falada a sul, e cantada por alguns cantores também.
A UNEAS (União Nacional de Escritores e Artistas Santomenses), de que eu sou o secretário-geral, a Dna. Alda era a presidente, nós fazemos todos os anos, uma tradição que a D.ª Alda alimentou sempre, o Paço fiá
Glêza, que é a construção de pequenos passos onde teria nascido Jesus Cristo, uma representação simbólica.
Fazemos em todos os distritos e depois fazemos um concurso. No dia 27 de Dezembro vamos fazer a exposição dos Passos, na sede da UNEAS, são 21, 3 por distrito. Depois saem os 3 vencedores nacionais.
VIII. Conversa com Carlos Espírito Santo, realizada no Centro Cultural Português - Instituto Camões, no dia