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não seria um factor que indicasse pouco poder económico se existir um número elevado de peças importadas, o que não é o caso do Convento de Jesus, onde, como já foi mencionado anteriormente, o número de peças exógenas parece não ultrapassar as duas dezenas. Atendendo às senhoras da elite local que ingressaram na comunidade monástica, põe-se a questão de este despojamento material se tratar de opção. Até porque verificamos que o consumo de faiança declina por volta do início do século XVIII, altura de recuperação económica em Setúbal.

Novamente, as crónicas explicam esta quebra no consumo. Em 1725 é eleita para abadessa uma freira que encabeçava um movimento, no interior do convento, que pretendia regressar à pureza inicial da regra. Este processo visava um regime de trabalho, oração e pobreza material como o único modo de alcançar a salvação.

Com efeito, o discurso da pobreza, para além de um genuíno desejo de salvação, acabava por ser uma das formas do convento se proteger economicamente. A aura de santidade granjeada pelos milagres efectuados e pela castidade das suas freiras garantia esmolas ao convento. Note-se a preocupação em esconder a prova da brecha dessa castidade, a carta de amor de uma freira ao seu amante, que só tão recentemente veio a público. Nem o autor mais crítico aos comportamentos das freiras, Almeida Carvalho (1969) ousou escrever uma linha sobre esse assunto. A pobreza funcionava, no Convento de Jesus de Setúbal, quase como um meio de propaganda destinada a garantir a subsistência da comunidade.

Continuando com a análise do gráfico, verificamos uma nova quebra, muito acentuada por volta de 1755, certamente relacionada com o terramoto do dia 1 de Novembro desse ano. Sabemos que o convento não sofreu danos estruturais mas diversos espaços necessitaram de obras. O custo das campanhas de obras, apesar das esmolas extraordinárias que foram recebidas, constituiu um rude golpe na frágil economia conventual e levou a uma contracção dos bens adquiridos. O expectável após um evento natural que produz danos materiais como aqueles provocados pelo terramoto de 1755, seria um aumento no consumo cerâmico. Por certo muito, se não mesmo a maioria, do espólio cerâmico terá sido destruído, o que gera uma procura de novas peças a curto prazo. As economias afectadas por este tipo de catástrofe têm tendência a uma recuperação rápida, muito devido à procura que se gera no esforço da reconstrução (SERRÃO, 2007: 148).

O expectável seria, até um aumento do consumo logo após o terramoto. Atendendo a que o gráfico mostra a probabilidade uniformemente distribuída no tempo, pelo que as peças cuja cronologia aponta para datas posteriores a 1755 apresentam a mesma distribuição. Outro factor a ter em conta é que as cronologias para esse período são pouco afinadas e as peças atribuídas ao século XVIII podem ter um consumo um pouco mais antigo, bem como um pouco mais recente. Posto isto, e, se de facto, tiver existido um pico de compra de produtos logo a seguir ao terramoto para repor as peças destruídas, o consumo de faiança na segunda metade do século XVIII deverá ter sido muito menor que o mostrado no gráfico.

A restante distribuição de peças pelo século XIX manteve-se uniforme até ao fim oficial do convento em 1882. Mas o panorama nacional para com as ordens religiosas era tenso desde 1822 quando as primeiras cortes constituintes proibiram a admissão de noviços. Esta medida foi revogada no ano seguinte mas já se tinha iniciado o processo que levaria à Extinção das ordens religiosas masculinas em 1834. Quanto às ordens femininas, depois de intenso debate, apenas em 1862 se acordou que não seriam permitidas novas admissões mas que as freiras poderiam continuar nos seus conventos enquanto vivessem, sendo contempladas uma série de casos em que as religiosas podem optar por sair voluntariamente ou seriam compelidas a faze-lo (ANTT 559/3).

Uma das questões a que nos propusermos responder com esta dissertação era a da insalubridade do convento. Como já referimos, as religiosas apenas se começaram a queixar, oficialmente, de inundações e da humidade a partir de princípios do século XVIII. Se a questão fosse apenas de condicionantes do terreno, por ter sido uma área de sapal arroteado, as queixas teriam começado muito mais cedo, não apenas duzentos anos depois. Vieira da Silva indica que esta situação se prende com a construção de um baluarte junto ao convento, por ordem do Marquês de Marialva, que fez com que as águas inundassem espaços conventuais e obrigou a que se alteassem os pavimentos de várias dependências (SILVA, 1987: 41). Esta explicação parece-nos demasiado simplista, pois não tem em conta um factor muito importante, normalmente ignorado pelos historiadores, o tratamento dos lixos. Em Setúbal, está atestado arqueologicamente que os lixos, especialmente quando relacionados com os terramotos de 1531 e 1755, eram despejados em aterros longe do local de proveniência (NETO, 2011: 28). No entanto, para o Convento de Jesus os lixos domésticos parecem ter sido despejados no interior da cerca, alteando o solo fora dos espaços habitacionais. Parece-

nos que este factor, coadjuvado pela construção do baluarte, seja a chave para as inundações que começaram a afligir o convento no século XVIII.

Um dos problemas que já aqui abordámos, com o qual se deparam todos os investigadores de cerâmica, é a questão da datação. A investigação em faiança portuguesa está em desenvolvimento, sendo que foram desenvolvidos esquemas evolutivos baseados na decoração e na estratigrafia. No entanto não foram usados métodos de datação absoluta, se bem que estas análises podem oferecer intervalos temporais demasiado largos para que se consigam afinar tipologias decorativas ou formais. Apesar disso achamos ser necessário trazer os métodos absolutos para a arqueologia moderna. As datações obtidas por meio de análises químicas são especialmente úteis quando se trata de contextos de produção de modo a que se possam cruzar as datas de produção com as de descarte, para que se possa calcular com mais certeza a vida útil das peças.

Um outro tipo de análises absolutas seria especialmente interessante para se realizar nas peças do Convento de Jesus de Setúbal. Análises de pastas de forma a dissipar dúvidas na origem de algumas peças. Este conhecimento permite cruzar os dados com as crónicas que dizem que nalguns períodos a abadessa provia ao enxoval de cada religiosa – alturas em que apenas é expectável encontrar faianças de produção lisboeta – e períodos em que cada freira era compelida a trazer os objectos do quotidiano – períodos em que, atendendo à dispersão geográfica das freiras, é expectável encontrar peças de outros centros produtores.

Longe de ser um trabalho terminado, o estudo do espólio desde convento é apenas uma primeira abordagem. Apresentamos apenas uma pequena parte do acervo de material arqueológico recolhido no Convento de Jesus. Desse modo é importante ter em conta que as conclusões tiradas sobre o comportamento económico do convento não podem deixar de ser parciais. De modo a obter conclusões mais completas, é imperativo estudar o espólio de forma integral, é necessário um trabalho exaustivo de estudo não só das classes materiais que não abordámos, mas também dos espólios de todas as intervenções efectuadas no espaço interior e exterior do Convento de Jesus. Só um estudo monográfico desta natureza pode conduzir a uma visão integral do quotidiano das religiosas do Convento de Jesus de Setúbal, até porque a totalidade do espólio pode oferecer um panorama distinto daquele que apresentamos, que obrigue a outras reflexões.

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