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A partir desse momento, no qual a pesquisadora entra em contato com o mundo vivido pelos fiéis do candomblé e busca dar conta da compreensão do significado das experiências de morte/vida pelos rituais de iniciação e, principalmente, de morte, os textos serão registrados na primeira pessoa do singular, a fim de melhor retratar sua relação de proximidade/distanciamento com o objeto pesquisado.

Durante o desenvolvimento desse trabalho, o Terreiro palco da pesquisa, Axé Baraleji, experienciou a morte de sua Ialaxé, Verinha de Oxum – Oxum Omin Lade, segunda pessoa em importância na hierarquia do Terreiro. A ela foram dedicados todos os rituais de morte, conforme a tradição do candomblé.

Ainda no período de realização do trabalho, a pesquisadora submeteu-se ao ritual de iniciação, cuja descrição compõe os instrumentos desse estudo.

A fala dos participantes da pesquisa, todos iniciados no candomblé, busca, justamente, a compreensão de suas vivências nesses importantes momentos dentro da comunidade de santo e de sua experiência individual: a iniciação (ritual de renascimento) e o axexê (ritual de morte).

O texto a seguir descreve a vivência de todo o período transcorrido entre o diagnóstico da doença da Ialaxé e sua morte, em dois anos de relacionamento dos filhos de santo com a perspectiva da morte e, por fim, com sua concretude.

Quando sobre nossas cabeças, O sol a pino, que revela todos os segredos, Expulsar as sombras e o frio E os tambores chamarem o Dono do Mundo, O senhor que traz nas botas a poeira de todos os caminhos E na bagagem, ossos de todas as refeições, pediremos:

Exu, pai que nos inventou únicos e diferentes de cada um, Estamos prontos pra nos enxergarmos iguais a todo outro. (Alexandre Dante)

O Axé Baraleji é um terreiro de candomblé localizado na cidade de Santo Antônio do Descoberto, estado de Goiás, a 45 km de Brasília. De origem Ketu, sob a liderança do Babalorixá Tito de Omolu, essa casa de santo segue as tradições do Axé Opo Afonjá, de Salvador/BA, comandado pela mãe Stella de Oxossi, de quem Tito de Omolu é filho de santo.

O Axé Baraleji é uma casa completa, com todos os espaços destinados ao sagrado e ao urbano, e conta, atualmente, com oitenta filhos de santo. Entre seus filhos estão pessoas de todas as raças e classes sociais. Entre os filhos com curso superior, a casa conta com um médico, dois advogados, um economista, duas jornalistas, dois publicitários, um fisioterapeuta, uma psicóloga, uma profissional de educação física e três professores. São pessoas com formação em várias áreas do conhecimento, ligados no Axé por um objetivo comum: o culto aos Orixás. Essa posição privilegiada na vida social e profissional dessas pessoas não é, na casa de santo, garantia de privilégios. Todos eles têm que passar pelos rituais de iniciação e respeitar a posição angariada pelos demais por antiguidade no culto. É comum que essas pessoas, com formação superior, sejam inferiores, hierarquicamente, a muitos outros filhos de santo sem

nenhuma formação acadêmica. Também é comum que muitas dessas pessoas, de idade mais avançada, tomem a benção de outros, mais jovens na faixa etária, mas mais “velhos de santo”.

Não é de admirar que tantas pessoas que ingressam nas casas de santo não se adaptem. É preciso deixar do lado de fora do muro todas as posições e os papéis desempenhados na vida social e se integrar na comunidade, com regras muito distintas das praticadas lá fora. É uma prática de humildade, um abrir mão de confortos conquistados, um aprendizado de um tipo diferente de relacionamento, no qual o que vale é o tempo, contado em anos, de dedicação ao orixá.

Mas isso, obviamente, não é fácil e essas relações não se dão sem conflitos. Na contramão dos filhos de santo com boas condições financeiras e bom nível educacional, que têm que se submeterem aos “mais velhos de santo” – às vezes sem formação e de nível social mais baixo – esses, por sua vez, se valem de sua “antiguidade” para dirigir um tratamento hostil aos “privilegiados” no mundo “lá fora”, cabendo ao pai de santo administrar esses conflitos e procurar manter a comunidade em harmonia. É comum também observar que alguns filhos de santo “bem situados” recusam-se a ocupar a posição inferior que às vezes lhe cabe, geralmente resultando em seu abandono da casa de santo e outros que, investidos de altos cargos, não se furtam de utilizar sua posição para exercer um poder, às vezes, tirânico. Segundo Prandi (2005), “as contendas dentro dos terreiros e entre eles não somente são vividas, mas são apontadas como inteiramente esperadas” (p.149), uma vez que o mundo é um território competitivo e conflituoso. Para Capone (2004), os conflitos internos no candomblé, sempre manifestados através de fuxicos, desempenham um papel de reordenador interno, como mecanismo de reduzir as tensões e reorganizar as relações de poder dentro do grupo, porque, segundo a autora, “contestar a legitimidade de outro permite afirmar sua própria legitimidade. Em contrapartida, as acusações internas visando a pessoas que ocupam posições hierárquicas distintas questionam a organização do terreiro”, e a

autora continua dizendo que com o fuxico-de-santo, como é conhecido pelos adeptos da religião, “o grupo de culto reproduz a lógica interna da sociedade brasileira, altamente hierarquizada e estratificada” (p.151/152).

Durante quinze anos freqüentei essa casa de santo como assistente, comparecendo apenas nas festas de santo. Há sete anos, submeti-me ao primeiro ritual de iniciação, com a realização de um bori (obrigação dada à cabeça), e assentamento dos meus Orixás. Mais recentemente, fiz a obrigação de iaô, ou “fiz o santo”, como se diz no candomblé. São no total, mais de vinte anos de observação e convívio com os membros da casa, hoje, irmãos de santo.

Durante os anos de 2003 e 2004, a casa vivenciou a doença da Ialaxé Verinha de Oxum, esposa do Babalorixá Tito de Omolu. Acometida por um câncer de rápida progressão, ela veio a falecer, no final do ano de 2004.

Nesses dois anos, entre o diagnóstico da doença e seu falecimento, a casa como um todo vivenciou o que Kübler Ross (1969), caracterizou como os cinco estágios do processo diante da morte: negação e isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação.

Alguns filhos de santo abandonaram o processo no caminho, deixando a casa. É possível que esses filhos acreditassem que a religião poderia mantê-los afastados de todo infortúnio, comuns à existência humana. Ancorados, não na compreensão da totalidade da religião, mas buscando a garantia de que, pertencendo ao mundo do orixá, tornavam-se inatingíveis pelas coisas da vida, não puderam suportar a perda da fantasia de que, uma vez pertencendo a uma comunidade de santo, estariam protegidos de todo mal. O mundo do candomblé, que opera com forças e rituais que fogem à racionalidade, não raro transmite a seus adeptos a idéia de onipotência. Muitos são os que buscam a religião como forma de solução de problemas onde todos os outros recursos falharam e, acreditando nessa redoma de proteção, quando ela se trinca, os questionamentos tendem a ressurgir.

Os que permaneceram na casa de santo vivenciaram o estágio da negação, quando se buscou acreditar que os primeiros sintomas estavam associados a outros tipos de doenças, sem gravidade. Na confirmação do diagnóstico ainda se procurou negar que esse tipo de mal poderia ser uma sentença de morte, uma vez que se tratava de uma Ialaxé, e que isso seria superado. Acreditou-se mesmo que ela estava curada, após um tratamento rigoroso em São Paulo. Ocorre que, apesar de jovem para morrer – ela tinha apenas 53 anos – e ser discurso corrente no candomblé de que os iniciados na religião têm vida longa, por viverem em harmonia física e espiritualmente, a família carnal da Ialaxé trazia um longo histórico da doença, já tendo perdido vários de seus membros para o câncer.

Morrer aos 53 anos pode ser considerado precoce, tanto na cultura ocidental moderna, na qual a expectativa de vida em nosso país já rompeu a barreira dos 70 anos, e mais ainda para o candomblé, onde, a princípio, espera-se vida longa para os iniciados investidos de altos cargos.

Pais e mães de santo costumavam, facilmente, ultrapassar os 100 anos de vida, resguardados em seus terreiros, vivendo harmonicamente com a natureza e sendo-lhes dispensado todo o cuidado por parte da comunidade de santo. Nos dias de hoje, onde o terreiro está integrado na sociedade como um todo e seus membros convivem em ambos os espaços, não há mais a proteção e o isolamento dos tempos passados. Os perigos modernos, como novas doenças, violência urbana e acidentes, alcançam o povo de santo tanto quanto o cidadão moderno. O mundo moderno invadiu o candomblé e a religião sofreu adaptações ao longo dos séculos; não é uma aldeia fechada em seus princípios, mas uma ilha cercada pela modernidade e, embora os fiéis pratiquem rituais muito antigos, são todos filhos de um mundo que insiste em transpor os muros do terreiro.

Quando a doença se impôs como realidade, alguns filhos de santo deixaram a casa. Quebrada a ilusão da infalibilidade, não puderam acompanhar e suportar o

processo de perda. Caído o manto da proteção absoluta, a religião perdia, para esses, o valor e o significado. Os demais procuravam ignorar a situação e viviam como se essa fosse uma realidade que pudesse não se confirmar, na esperança de que viesse o milagre. Mas ele não veio.

O estágio da raiva seguiu-se logo depois, quando uma irritação tomou conta do grupo. Era nítida a falta de paciência de uns para com os outros e uma apreensão com o que estava por vir. Nessa fase, a Ialaxé ainda freqüentava a casa e, com ela mesma atravessando esses estágios, deixava transparecer em seu comportamento a expressão dessa raiva, dirigida aos filhos de santo. Foi o momento em que mais alguns desses filhos deixaram a casa. Aqui, parece ter falhado os laços de parentesco espiritual que o candomblé pretende fortes.

Atravessamos o estágio da barganha na realização de diversas obrigações aos orixás para que ela pudesse se recuperar. Esse estágio foi longo, tendo consumido vários meses de luta e expectativa.

Na verdade, foi possível perceber que o estágio da barganha, da troca como se costuma dizer no candomblé, teve início antes mesmo desse terceiro estágio. As trocas permearam todas as fases do processo, atravessando a negação e a raiva e estendendo- se até os estágios da depressão e aceitação.

Como o sistema de crenças do candomblé está ancorado no eterno movimento da troca, do dar e receber, não causa espanto o fato das trocas estarem inseridas em todos os momentos, já que para o candomblé assim é, desde sempre. A partir daí, nenhum filho de santo deixou mais a casa, todos permaneceram unidos, numa batalha que se mostrou, mais uma vez, perdida.

O quarto estágio afastou de nosso convívio a presença física da Ialaxé. Debilitada, ela se recolheu em sua casa na cidade e deixou de freqüentar a casa de santo. Mas, paralelamente à depressão que ela experimentava, vivenciamos uma depressão coletiva, onde deixou de ser agradável participar dos rituais da casa. Caiu

uma tristeza sobre o terreiro e esse sentimento pôde ser percebido, e vivido, por todos aqueles que percorreram os estágios anteriores. É importante ressaltar que, embora a maioria dos membros da casa tenha percorrido esse caminho, alguns ficaram fixados no primeiro estágio, procurando negar a realidade, apesar de todas as evidências.

A aceitação chegou ao final de sua doença; sabíamos do pouco tempo que lhe restava e passamos a aguardar o término de sua agonia, já esperando que viesse rápido, para que ela, e na verdade o próprio grupo, deixasse de sofrer. Esse estágio traduziu-se em uma suspensão do tempo para o grupo e teve duração de, aproximadamente, oito meses. Comparecíamos aos rituais normais da casa e esperávamos. Embora as atividades no Terreiro continuassem a ser realizadas, com o comparecimento mensal dos filhos de santo para a realização do osé (limpeza das casas de santo), havia uma expectativa silenciosa, como se nada mais, na casa de santo, pudesse se definir antes da partida da Ialaxé. E assim foi, realmente, que as coisas transcorreram: um tempo de espera, uma espera final.

A notícia da morte da Ialaxé nos chegou ao final da tarde de uma quinta-feira, em seis de outubro de 2004.

A descrição desse período, entre o diagnóstico da doença e a morte da Ialaxé, deve-se ao fato de ter julgado importante observar os estágios da morte, não pelo lado da pessoa que a está vivenciando, mas pelo lado do outro, daquele que olha. Pelo que pude observar, e vivenciar, o outro é atingido de forma violenta e, no caso de uma comunidade unida por laços espirituais fortes, onde as relações são consideradas familiares – a família de santo não difere muito de um núcleo familiar comum, proporcionando a oportunidade de se verificar diversos comportamentos e reações diante da realidade da morte.

Foi possível observar os filhos que preferiram negar a morte da mãe e, recusando-se a vivenciar a perda, abandonaram a casa de santo. Aqueles que permaneceram e participaram de todas as fases da doença, e aqueles que, em menor

número, permaneceram na casa, retidos em uma ou outra fase entre os estágios da negação e depressão. Conforme mencionado anteriormente, foi a expressão da vivência coletiva dos cinco estágios da morte de Kübler Ross (1969).

É enriquecedor, aqui, trazer a vivência e os conflitos de um filho de santo em especial, por traduzir de forma clara, e emocionante, a luta entre a cultura ocidental moderna e a cultura milenar do candomblé. Esse filho de santo, iniciado na religião desde a infância é, também, filho carnal da Ialaxé falecida. Para agravar sua batalha entre duas culturas tão distintas, esse filho, formado em medicina, desempenhou um duplo papel: lutar até às últimas forças contra a doença da mãe e, ao mesmo tempo, buscar aceitar a morte como uma contingência natural da vida, segundo o candomblé. Ninguém sofreu mais do que ele, embora ela tivesse outros parentes de sangue, também integrantes da casa de santo. Ninguém negou mais, sentiu mais raiva, se dedicou tanto às barganhas e se deprimiu tanto quanto ele.

Até à hora da morte dessa dupla mãe, ele desempenhou o papel que dele era esperado pela cultura moderna, mas, quando ela se foi, ele se despiu desse papel e, participando de todos os rituais, foi buscar a aceitação da morte na religião, porque essa aceitação, no papel de médico, ele foi incapaz de praticar, até o momento final.

A Ialaxé permaneceu em casa até os últimos momentos de sua vida – em contraposição à cultura moderna do afastamento do doente e seu isolamento nas unidades de terapia intensiva – sendo conduzida ao hospital, após uma parada cardíaca e vindo a falecer poucas horas depois. Após sua morte, foi levada de volta à casa e deitada em sua cama. Ali permaneceu, como se dormisse, vestida com suas roupas de Ialaxé, até o dia seguinte, quando foi velada à tarde, na capela do crematório.

Até onde se sabe, a cremação é uma prática recente incorporada pelo candomblé. Em Brasília esse é o segundo caso do qual se tem notícia, sendo o primeiro o do Babalorixá conhecido como Pai Paiva. No caso da Ialaxé Verinha de Oxum, foram realizados determinados ritos para que a cremação fosse possível e suas cinzas foram

depositadas na terra, como manda a tradição. A modernidade se faz mais uma vez presente nessa antiga cultura, alterando-lhe o curso e a história.

O pai de santo saiu do hospital direto para o Terreiro, indo cumprir o primeiro ritual: descer os assentamentos dos santos da Ialaxé e esvaziar as quartinhas com água. De volta à casa na cidade, quando os assentamentos já estavam no chão e as quartinhas vazias, o pai de santo realizou o segundo procedimento ritualístico, retirando da cabeça da Ialaxé os fundamentos colocados por ocasião de sua feitura de santo, vinte e três anos atrás.

Durante o velório, na capela do crematório, cantaram-se cantigas em ioruba e, quando o sol se pôs, iniciou-se o ritual do Sirrum; o sol caía como se tivesse sido feito para aquele momento, em que a Ialaxé também se despedia. O caixão foi carregado, aberto, nos ombros de seis filhos de santo, todos homens. Os demais seguiram atrás, como em procissão, vestidos de branco – a cor do luto no candomblé. Os quinhentos metros que separavam a capela do local de cremação foram transpostos com uma cantiga em ioruba, acompanhada por todos, e o ritmo dos passos eram marcados: três passos para frente e um para trás. Esse ritual, levando a Ialaxé no seu último caminho, representa o significado do caminho da vida. Caminhar e recuar, caminhar e recuar, até os últimos passos da vida, representado pela morte.

3.1. O ritual do axexê – retorno às origens

A morte na sociedade moderna é vazia de sentido porque a coletividade não tem mais participação nela; banalizou-se porque o indivíduo está banalizado, a célula familiar está banalizada; deixou de ser luto e celebração coletiva, compartilhada. Cada família enterra seus mortos.

O candomblé não enxerga a morte dessa forma; toda a morte é social, coletiva, devendo ser absorvida pelo grupo por meio de determinados ritos. Esses ritos são permutados acima da cabeça do morto, “a morte é jogada e é conquistada simbolicamente – o morto ganha aí o seu estatuto, e o grupo se enriquece com a incorporação de um parceiro” (Baudrillard, 1976, p.221).

Foi dessa forma, para essa troca simbólica, que dois dias após a morte da Ialaxé, reunimo-nos todos na casa de santo, para a continuidade dos rituais de morte. As cinzas foram enterradas sob uma árvore sagrada do terreiro, cumprindo-se assim o seu retorno à terra.

Os pertences pessoais da Ialaxé e seus assentamentos de santo foram dispostos no chão do barracão, sendo determinado pelo jogo de búzios o destino desses pertences. Os assentamentos de santos permaneceram na casa, por determinação do jogo. Sendo a Ialaxé fundadora dessa casa de candomblé, ao lado do pai de santo, ficaram para serem cuidados pela comunidade, não mais como assentamentos daquela Ialaxé a quem pertenceram, mas como assentamentos de santos da casa. O assentamento representando a cabeça da Ialaxé foi despachado, juntamente com outros objetos de culto e de uso pessoal.

Após essa primeira cerimônia, foi marcada a continuidade dos rituais do axexê, para dentro de dez dias, aguardando-se a chegada de uma Ebomi do Axé Opo Afanjá, e de dois Ojés (sacerdotes do culto aos ancestrais), que viriam de Salvador para realizar o restante do ritual: sete dias seguidos de celebração à Ialaxé falecida.

O 1º dia de cerimônia

Antes do início do axexê, as Iabás preparam na cozinha as comidas que serão utilizadas no ritual, para o Padê de Exu e para a Ialaxé falecida, que será homenageada.

Os Ojés realizam uma cerimônia secreta na casa dos Eguns. Ali não se sabe o que se passa. Podemos apenas inferir pela literatura e por relatos que, nesse espaço, onde poucas pessoas têm autorização para entrar, serão acumulados os materiais de todos os dias das cerimônias e onde serão realizados os sacrifícios necessários, compondo o carrego, sendo tudo despachado no último dia do axexê.

Após esses preparativos, inicia-se o primeiro dia do axexê, que começa pontualmente às 21h. Todos os participantes, vestidos de branco e com os pés descalços, entram no barracão de cerimônia e ficam sob esteiras no lado direito do barracão. As pessoas pertencentes à família carnal da falecida são dispostas no lado esquerdo do barracão, ficando separadas das demais. As roupas dos participantes devem ser simples e as mulheres mantêm o peito coberto com o pano da costa, e a cabeça com o ojá, durante toda a cerimônia. Sabe-se que essa providência busca uma “camuflagem”: cobrindo os seios e os cabelos, as mulheres se passam por homens aos olhos dos Eguns que virão participar da cerimônia.

No centro do barracão já estão dispostas as comidas que serão despachadas no Padê de Exu, primeiro a ser homenageado, a quem se busca pedir licença para a realização do ritual e garantir que ele levará ao Orum as oferendas e os pedidos em relação à Ialaxé falecida.

Enquanto o ritual do Padê se desenvolve no centro do barracão, todos os