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4. METODE OG FORSKNINGSDESIGN

4.2 Oversikt over avhandlingens empiriske materiale (artikkel 1 og 2)

Usualmente definidas como elementos léxico-gramaticais invariáveis, ou seja, que não re-

cebem desinências (p. ex., de gênero, número, modo, tempo), as preposições relacionam

um complemento nominal(16)ou um complemento verbal(17)a outro elemento da frase,

estabelecendo, assim, uma relação de dependência entre ambos.

(16)

Vendi

a

casa

de

Maria.

complemento nominal

(17)

Estou

livre

para

viajar hoje.

complemento oracional

Como se observa, as preposições são formas prepostas ao seu complemento,

que fazem parte da classe gramatical mais geral das adposições, juntamente com as

circumposições (quando se trata de uma forma que emoldura o seu complemento) e as

posposições (quando se trata de formas que são pospostas ao seu complemento), ambas

inexistentes no português, mas ilustradas em

(18)

e(19)

(KURZON,2008).

(18) A circumposição kə...bəfit (ATRÁS, no amárico1) emoldura o seu comple-

mento “and səat”(uma hora), no sintagma preposicional “ke and səat bə-

fit”(uma hora atrás) (p. 217),

(19) A posposição lo (de, em coreano), posposta ao seu complemento “ssal”(ar-

roz), no sintagma preposional “saal-lo”(de arroz) (p. 149).

Ainda que sejam fundamentais para a compreensão correta das sentenças,

o grau de polissemia que as preposições possuem dificulta prever suas realizações lin-

guísticas e identificar regularidades entre línguas diferentes, principalmente para falantes

não-nativos (CHODOROW; TETREAULT; HAN,

2007).

Para ilustrar essa dificuldade, enquanto uma mesma preposição (em) é

usada nas sentenças em português

(20),

(21)

e

(22)2, os sentidos correspondentes são

instanciados por três preposições distintas no inglês (in, on e at), conforme as sentenças

(23),(24),(25)

(TAYLOR,

1995, p. 109).

(20) Você mora no (em+o) campo.

1

Língua semítica oficial da Etiópia.

2

Os exemplos(20),(21)e(22)são traduções para o português daqueles encontrados em Taylor (1995,

Capítulo 3. A semântica das preposições

50

(21) Você conhece pessoas na (em+a) festa.

(22) Você entra em férias.

(23) You live in the country.

(24) You meet people at the party.

(25) You go on vacation.

Como se não bastasse a polissemia das poucas preposições simples do por-

tuguês, isto é, a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para,

perante, por, sem, sob, sobre e trás, existe um número extenso de grupos de pala-

vras cujo sentido pode equivaler a uma única preposição. Essa é a definição de locução

prepositiva.

No português, da mesma forma que se podem encontrar locuções adjetivas

(ex: de leite, de ferro), adverbiais (ex: em silêncio, de mão em mão), substantivas (ex:

trem de ferro, lata de oléo) ou verbais (ex: tem que fazer, haver de fazer), encontram-se

também as locuções prepositivas, como ao redor de, em cima de, ao lado de etc.

Entretanto, não se pode afirmar que a simples presença de uma preposição

em uma locução a caracterize como prepositiva (da mesma forma que a presença de um

substantivo não caracteriza uma locução substantiva, por exemplo). O que especifica uma

locução prepositiva é a função sintática e semântica que ela desempenha, que deve ser

equivalente à de uma preposição.

Seguindo um viés puramente linguístico, esta seção apresenta como três

gramáticas normativas do português (ROCHA LIMA,

1999;

CUNHA; CINTRA,

2001;

BECHARA,2009) descrevem a classe gramatical das preposições, principalmente no que

se refere à carga semântica desses itens. Em seguida, comparam-se essas descrições e

apontam-se algumas insuficiências desse tratamento tradicional.

A começar pela Gramática Normativa da Língua Portuguesa,

Rocha Lima

(1999) vislumbra uma caracterização semântica das preposições quando as separa em

fortes e fracas:

As primeiras (contra, entre, sobre) guardam certa significação em si

mesmas; as outras (a, com, de) não têm sentido nenhum, expressando

tão-somente, em estado potencial e de forma indeterminada, um senti-

mento de relação. No contexto é que se concretiza o valor significativo

das várias relações que elas têm aptidão para exprimir. (ROCHA LIMA,

1999, p.355-356)

Em outras palavras, a ideia defendida pelo autor é a de que algumas prepo-

sições são mais lexicais (“fortes”, porque carregam algum conteúdo semântico) e outras

preposições são mais gramaticais (“fracas”, porque exercem apenas uma função relacio-

nal na sentença). No caso das relacionais, é o contexto da oração que determinaria seu

significado.

Capítulo 3. A semântica das preposições

51

Já na Nova Gramática do Português Contemporâneo,Cunha e Cintra(2001)

definem as preposições ressaltando sua função relacional:

(...) palavras invariáveis que relacionam dois termos de uma oração,

de tal modo que o sentido do primeiro (antecedente) é explicado ou

completado pelo segundo (consequente). (CUNHA; CINTRA,

2001, p.

569)

Esses autores, diferentemente de Rocha Lima, afirmam que as preposições

são dotadas de um sentido primordial. Com base nos estudos estruturalistas de

Pottier

(1976), Cunha e Cintra afirmam que, embora as preposições apresentem grande variedade

de usos, é possível estabelecer para cada uma delas um sentido fundamental, marcado pela

expressão de movimento ou de situação (repouso), aplicável a três campos – espacial,

temporal e nocional (posse ou autoria).

Para ilustrar, a noção de movimento está presente nos exemplos

(26)

e

(27), a de situação instancia-se nos exemplos(28) (29)

e

(30). Quanto aos três campos

relacionais, a preposição de exemplifica uma relação espacial em

(31), temporal em

(32)

e nocional, em(33)e(34). Todas as frases foram tiradas de

Cunha e Cintra

(2001,

p.570-571).

(26) Vou a Roma.

(27) Todos saíram de casa.

(28) Chegaram a tempo.

(29) Chorava de dor.

(30) Estive com Pedro.

(31) Todos saíram de casa.

(32) Trabalha de 8 às 8 todos os dias.

(33) Livro de Pedro.

(34) Chorava de dor.

Entretanto, ao compararem os exemplos

(35)

e

(36), os autores observam

que a preposição com exprime fundamentalmente a noção de associação/companhia,

e que essa noção básica é muito mais facilmente reconhecível em

(35)

do que em

(36).

Dessa forma, Cunha e Cintra também defendem a ideia de esvaziamento semântico, em

contextos cuja construção já foi fixada pelo idioma. Nesses casos, o sentido da preposição

seria desprezado, tornando-a um simples elo sintático.

(35) Viajei com Pedro.

(36) Concordo com você.

Capítulo 3. A semântica das preposições

52

Por fim, na Moderna Gramática Portuguesa,Bechara(2009) traz a descrição

mais opaca. Segundo essa definição,

Chama-se preposição a uma unidade linguística desprovida de indepen-

dência – isto é, não aparece sozinha no discurso, salvo por hipertaxe

– e, em geral, átona, que se junta a substantivos, adjetivos, verbos e

advérbios para marcar as relações gramaticais que elas desempenham

no discurso, quer nos grupos unitários nominais, quer nas orações. Não

exerce nenhum outro papel que não seja ser índice da função

gramatical do termo que ela introduz. (BECHARA,

2009, p.296,

grifo nosso)

a semântica das preposições é excluída pelo autor, ao reduzi-las ao papel de índice da

função gramatical de outro termo. Como explica o autor, na frase “Aldenora gosta de

Belo Horizonte”, a preposição de aparece por “servidão gramatical”, isto é, ao relacio-

nar o verbo gosta ao seu complemento Belo Horizonte, a preposição passa a indicar a

função gramatical preposicionada denominada complemento relativo. Ou ainda, em

“homem de coragem”, a preposição de permite que o substantivo coragem exerça o papel

de adjunto adnominal do substantivo homem, função normalmente desempenhada por

adjetivos. Nesses casos, a preposição recebe o nome de transpositor, por se tratar de um

elemento gramatical que habilita uma determinada unidade linguística a exercer um pa-

pel gramatical diferente daquele que normalmente exerce. Nesses exemplos, o substantivo

próprio Belo Horizonte é transposto para complemento relativo e o substantivo comum

coragem, para adjunto adnominal.

Porém, em outro momento da gramática, Bechara resgata o valor semântico

das preposições, ao afirmar que:

(...) tudo na língua é semântico, isto é, tudo tem um significado, que

varia conforme o papel léxico ou puramente gramatical que as unidades

linguísticas desempenham nos grupos nominais unitários e nas orações.

As preposições não fazem exceção a isto: “Nós trabalhamos com ele, e

não contra ele.” (BECHARA,2009, p. 297)

Para o autor, assim, cada preposição possui um sentido unitário, primário,

que se desdobra em sentidos diversos modulados pelo contexto e pela situação de uso.

Para melhor explicar, destacam-se exemplos da preposição com.

(37) Dancei com Marlit. (companhia)

(38) Estudei com prazer. (modo)

(39) Cortei o pão com a faca. (instrumento)

(40) Fugiu com medo do ladrão. (causa)

(41) Lutou com o ladrão. (oposição)

Segundo Bechara, a língua portuguesa só atribui a com o sentido de co-

presença e os demais significados geralmente atribuídos a essa preposição seriam de-

Capítulo 3. A semântica das preposições

53

preendidos da interpretação que se faz das outras palavras da sentença. Por exemplo, em

(39), sabemos os sentidos individuais de cortar, de pão e de faca, e que uma faca não só

esteve presente no ato de cortar o pão, mas que também foi o instrumento utilizado

para a realização dessa ação. Já em(37), depois do sentido de copresença é que emerge

o sentido de companhia, pois dançar exige a presença de outro alguém, nesse contexto.

(BECHARA,2009, p. 298-299).

Em síntese, apesar de trazerem descrições diferentes, os autores das três

gramáticas defendem uma significação primordial, que se desdobra em outros sentidos - a

depender do contexto -, e a ideia do esvaziamento semântico - também propiciado pelo

contexto.

Ao final dos capítulos, os autores ainda listam uma série de significados

atribuídos às preposições, apresentados com frases-exemplo retiradas da literatura clás-

sica. E é nesse momento que a dissonância entre as classificações se torna aparente, pois

o número de tipos e rótulos atribuídos a cada sentido das preposições são tão diferentes

que acabam contribuindo para a impressão de descrições ad hoc. Para ilustrar essa afir-

mação, no

Quadro 1, comparam-se os sentidos apontados para a preposição a descritos

em

Bechara(2009) e

Rocha Lima

(1999).

Quadro 1 – Comparativo entre os valores semânticos atribuídos à preposição a

Bechara (2009)

Rocha Lima (1999)

movimento ou extensão

1

movimento, extensão

1

tempo em que uma coisa sucede

2

transcurso de tempo

2

fim ou destino

3

proximidade, contiguidade

3

meio, instrumento e modo

4

posição, situação

4

lugar, aproximação, contiguidade

5

direção

5

exposição a um agente físico

6

tempo

6

semelhança, conformidade

7

concessão

7

distribuição proporcional, gradação 8

conformidade

8

preço

9

meio

9

posse

10

causa

10

instrumento

11

quantidade, medida, peso

12

referência

13

condição

14

distância

15

tempo

16

concomitância

17

motivo

18

fim

19

modo

20

Capítulo 3. A semântica das preposições

54

Como se observa, a assimetria numérica existente entre os sentidos que

cada gramática especifica é considerável. Enquanto

Bechara

(2009) aponta dez sentidos

diferentes para a preposição a,Rocha Lima

(1999) apresenta vinte. Além disso, há rótulos

diferentes que designam sentidos equivalentes (ex: “tempo em que uma coisa sucede” e

“transcurso de tempo”).

Essa mesma assimetria também ocorre para as outras preposições. Como

mostrado noQuadro 2, as gramáticas apontam números diferentes de sentidos para todas

as preposições. Dessa forma, constata-se que essa diferença é decorrente de um posici-

onamento centrado na dimensão sintática desses itens, que inevitavelmente sugere que

sentidos distintos associados a um item lexical estariam em relação de homonímia, ou

seja, que sentidos tão plurais não estariam relacionados entre si de modo algum.

Quadro 2 – Diferença de valores semânticos atribuídos às outras preposições

Valores semânticos

Preposições

Bechara (2009)

Rocha Lima (1999)

a

10

20

até

1

1

com

10

6

de

16

10

para

6

8

por

11

9

desde

-

1

contra

3

4

em

10

6

entre

1

1

sem

-

3

sob

-

1

sobre

-

5

Fonte

Dados retirados de Bechara (2009, p.306-318) e Rocha Lima (1999, p. 357-378)

Entretanto, como aponta

Tyler e Evans

(2003), essa visão apresenta uma

série de fraquezas. A primeira delas, que é a de ignorar que exista relação entre os dife-

rentes sentidos associados a uma única forma linguística, vai de encontro a uma grupo

crescente de trabalhos que demonstram que existem relações sistemáticas governadas por

regras no léxico (BRUGMAN; LAKOFF,

1988;

JACKENDOFF,

1997;

LAKOFF,

1990;

LANGACKER,

1987;PUSTEJOVSKY,1995). A segunda é a de se pautar em uma visão

sincrônica da linguagem, que

(...) falha em representar a linguagem como um sistema evolutivo, cujas

mudanças ao longo do tempo são amplamente restringidas de forma mo-

tivada e baseada em princípios. A rede semântica sincrônica associada a

um item léxico é um produto histórico. Ao assumir que significados dis-

tintos dentro de uma rede semântica são arbitrariamente relacionados,

Capítulo 3. A semântica das preposições

55

a abordagem da homonímia faz a afirmação implícita de que o processo

de extensão do significado é arbitrário, levando à conclusão insatisfató-

ria de que a mudança de linguagem é ad hoc, sem motivação. (TYLER;

EVANS,2003, p.18, tradução nossa)

3

Por sistema evolutivo, entende-se a língua como estando sujeita a restri-

ções lexicais feitas pelos falantes cujo objetivo é comunicar. Um falante não usaria uma

forma lexical com um significado único, pré-estabelecido e convencionalizado, se quisesse

comunicar outra mensagem, a não ser que soubesse que seu ouvinte poderia facilmente

interpretar o novo uso. Para que isso aconteça, a extensão dos sentidos deve ser de alguma

forma restrita e sistemática, o que sugere que, quando o falante usa uma forma com um

significado estabelecido para indicar algo diferente do significado convencional, a escolha

é motivada. E, se isso acontece, deve haver algo sobre o significado convencional associ-

ado ao item lexical que leva o falante a escolher um ao invés de outro (TYLER; EVANS,

2003).

A abordagem tradicional dificulta, assim, um tratamento abrangente para

cada uma das preposições que não se traduza em uma enumeração interminável dos sen-

tidos que a preposição assume em seus diferentes usos e contextos (como fazem as três

gramáticas). As afirmações que resultam desse tipo de tratamento não são propriamente

incorretas, mas tendem a transferir para a preposição elementos de sentido que, de fato,

são dados por outras expressões presentes no contexto (ILARI et al.,

2008).

Logo, devido ao posicionamento inconsistente das gramáticas tradicionais

quanto à semântica das preposições e o modo assistemático com que elas apresentam seus

diferentes sentidos, apresenta-se a seguir o tratamento dado às preposições pela Linguística

Cognitiva que, segundo a análise apresentada em

Garcia

(2013), é o arcabouço teórico

mais adequado para uma descrição mais robusta desses itens, pois reúne princípios que

lidam com a pluralidade de sentidos que cada preposição assume em diferentes contextos,

não mais na perspectiva da ruptura (homonímia), mas na perspectiva da continuidade

(polissemia).

3

Do original: (...) fails to represent language as an evolving system whose changes over time are largely

constrained in a motivated, principled manner. The synchronic semantic network associated with a

lexical item is a historical product. In assuming that distinct meanings within a semantic network

are arbitrarily related, the homonymy approach makes the implicit claim that the process of meaning

extension itself is arbitrary, leading to the unsatisfactory conclusion that language change is ad hoc,

lacking motivation.

Capítulo 3. A semântica das preposições

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