O estabelecimento de prioridades na saúde implica escolhas e opções onde a população desempenha um papel fundamental para a construção, definição e implementação das mesmas. Estas escolhas e opções individuais implicam diferentes fatores e características associadas à pessoa que são influenciadas por questões relacionadas com a procura de cuidados de saúde. O modelo proposto por Grossman é um dos modelos teóricos de referência para o enquadramento e compreensão da procura em saúde. No capítulo inicial deste trabalho já detalhamos alguns elementos associados à compreensão deste modelo, contudo, é importante nesta fase enquadrar as dimensões teóricas deste modelo, no seguimento do exposto anteriormente sobre a natureza das escolhas e opções individuais para o estabelecimento de prioridades em saúde.
Grossman (1972) considera que a procura de cuidados de saúde é um produto intermédio de um processo produtivo pela pessoa/indivíduo para adquirir saúde. Os principais fundamentos associados a este modelo teórico estão relacionados com o facto de este considerar que que a saúde é um stock, e que esta resulta de um processo de produção que engloba o indivíduo e a forma como este utiliza e rentabiliza o seu tempo e consume/utiliza os cuidados de saúde. A procura de cuidados de saúde manifesta-se quando um indivíduo considera ter uma necessidade e deseja receber tratamento. A utilização relaciona-se com o consumo efetivo de cuidados de saúde (Souza e Botazzo, 2013). Assim, podemos estabelecer três abordagens fundamentais na procura de saúde. Por um lado, a utilização de cuidados de saúde e a influência de fatores como o tempo, a educação e a idade no processo produtivo para gerar saúde. Por outro lado, a interpretação da saúde como um stock, sujeito a uma taxa de depreciação, variável em cada indivíduo e sujeito a uma natureza aleatória de incerteza por danos agudos e externalidades diversas. Por último, a interpretação da saúde como um bem de consumo e de investimento. Como bem de consumo importa a sua melhor gestão no sentido da utilidade/satisfação, e um investimento porque melhores stocks potenciam incomes para a pessoa diversos, quer associados a melhores índices de produtividade, como inerentemente, melhores e maiores rendimentos. Assim quanto melhores os inputs no stock individual melhores outputs, dias saudáveis, para potenciar melhores rendimentos. O modelo pressupõe ainda que a limitação do tempo é importante devido às escolhas individuais associadas á produção de saúde na otimização das estratégias para melhores outputs.
Neste enquadramento devemos interpretar as escolhas do individuo que afetam a procura de cuidados de saúde não como o modelo tradicional de mercado, que assume o consumo como um bem económico influenciado pela procura, preço, rendimento e preferências do consumidor, mas como um modelo de procura de saúde. Assim, esta procura de saúde é influenciada por múltiplos fatores, e resulta de um processo individual em que as opções e escolhas dos bens e serviços adquiridos no mercado afetam a sua produção.
Porém das várias dimensões descritas do modelo, o foco teórico com maior relevância para a construção de prioridades em saúde está muito associado à abordagem relacionada com a utilização de cuidados de saúde descrita anteriormente. Andersen (1995), desenvolveu um modelo comportamental que complementa o modelo de Grossman na identificação de variáveis associadas ao processo de utilização de cuidados de saúde. O modelo de Andersen, classifica então os determinantes da utilização de serviços de saúde em três grupos de variáveis/fatores: predisposição; capacitação; necessidade; serviços de saúde.
As variáveis/fatores de predisposição estão relacionadas com a idade, o género, situação profissional, estado civil, educação e fatores ambientais e sociais (Grossman, 1972; Pires, 2010; Nishijima et al., 2011; Barros, 2013).
A idade já anteriormente mencionada, afeta utilização pois diferentes idades implicam maior capacidade de produção de saúde, e maior ou menor utilização. A evolução etária de uma sociedade pode determinar enormemente a utilização de cuidados de saúde. No que se refere ao género as mulheres utilizam com maior frequência os cuidados de saúde, associado a questões relacionadas com interpretação do seu custo oportunidade, ou por terem uma maior preocupação com a sua saúde. Os indivíduos com uma situação profissional menos satisfatória utilizam também com maior frequência os cuidados de saúde que pode estar relacionado com a sua perceção da deterioração do seu estado de saúde. No que se refere ao estado civil está descrito que num casal quando existe menor utilização pelo apoio e pelo papel de cuidador assumido por um dos conjugues. A educação já foi também descrita anteriormente e a literatura reforça que um maior nível de habilitações é sugestivo de menor utilização de cuidados pela qualidade da interpretação da informação de saúde. Os fatores ambientais e sociais condicionam a utilização de cuidados na medida em que o ambiente e o contexto podem potenciar comportamentos e determinantes epidemiológicos específicos.
As variáveis/fatores de capacitação estão relacionadas com o rendimento e com os seguros de saúde (Grossman, 1972; Pires, 2010; Barros, 2013).
O rendimento é uma variável influenciadora da utilização de cuidados, já descrita anteriormente, na medida em que um aumento está quase sempre relacionado com uma maior utilização. Qualquer estado de depreciação da saúde justifica a utilização. Os seguros de saúde são uma garantia de utilização e consumo, mesmo em situações pouco graves e mesmo desnecessárias. Existe, contudo, um risco moral associado à sua existência pela segmentação imposta a quem só financeiramente os consegue suportar. As variáveis/fatores de necessidade estão relacionadas com a perceção do risco, e o estado de saúde (Grossman, 1972; Barros, 2013). A perceção do risco e o estado de saúde têm uma relação linear com a utilização de cuidados de saúde. A perceção da deterioração da minha saúde ou de um potencial risco por um comportamento inadequado justifica a utilização. Da mesma forma o meu estado de saúde condiciona a utilização. O modelo Grossman implica este estado como variável da procura e da utilização. O processo de adaptação à doença em situações crónicas pode, contudo, mediar esta utilização.
As variáveis/fatores de relacionados com os serviços de saúde podem implicar a utilização pela disponibilidade da oferta de cuidados de saúde que existe, e também pelo preço associado à sua utilização. O preço e a quantidade de produto que queremos têm uma relação inversa o que neste aspeto em particular assume a utilização na mesma linha do consumo tradicional de bens e serviços.
A compreensão deste modelo teórico é fundamental para o desenvolvimento de qualquer tentativa de metodologia de estabelecimento de prioridades, pois a implicação das variáveis descritas tem que ser tida em consideração nesse mesmo desenho metodológico ou estratégia de implicação, quando pretendemos analisar as opções e escolhas do individuo/população.