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Overall research data interpretation of key findings

4. Survey data results

4.4 Analyzing qualitative data results (Appendix C3)

4.4.2 Overall research data interpretation of key findings

A música praticada no Brasil de fins do século XIX atendia a uma clara estratificação social, na qual os instrumentos de teclado eram reservados às pessoas mais abastadas. Na capital federal, e em outras cidades de porte maior, grupos de choro costumavam reunir trabalhadores de classes sociais mais baixas, funcionários públicos e trabalhadores do

comércio. Nesses grupos imperavam os instrumentos melódicos de sopro como a flauta, o oficleide e a clarineta que, muitas vezes, eram tocados por músicos de bandas militares. O acompanhamento harmônico era mais comumente feito por instrumentos de cordas dedilhadas e era ainda bastante comum o uso de instrumentos pequenos de percussão, nomeadamente o pandeiro.

Gedeon Freire de Alencar, em uma pesquisa histórica a respeito da Assembleia de Deus no Brasil, buscando explicar os motivos pelos quais aquela denominação trazia forte apelo popular na época de seu início na década de 1910 e, posteriormente, no seu período de grande expansão a partir de 1940, argumenta que, em muitos casos, para o brasileiro simples e iletrado das regiões norte e nordeste, o contato com a música das denominações mais tradicionais devia causar estranheza devido ao uso do piano ou órgão e à presença de estruturas musicais mais complexas do que aquelas a que se estava acostumado. Para exemplificar a afirmação, Alencar faz o seguinte comentário:

Há algumas histórias de ex-batistas e ex-presbiterianos que se tornaram assembleianos por causa da música. Tiveram dificuldade de se adaptar à “fineza” dos corais e cânticos com órgãos dos clássicos do protestantismo histórico. (ALENCAR, 2000:129)

A Assembleia de Deus no Brasil, na verdade, usou o mesmo repertório das igrejas protestantes históricas, o que pode ser atestado pela enorme coincidência de hinos entre o Salmos e Hinos e a Harpa Cristã. A diferença não estava no repertório, mas no jeito de realizá-lo. Essa denominação, bem como as demais igrejas pentecostais que se seguiram, se caracterizou por uma linguagem e estruturação altamente informais que, segundo José Rubens Lima Jardilino, foi eficaz para a integração do migrante no momento dos movimentos migratórios que marcaram os meados do século XX no Brasil. Sobre a Assembleia de Deus, ele afirma que

É importante lembrar que, neste momento, esse grupo religioso apresenta aspectos de muita informalidade, dispõe de pouca estruturação organizacional e está centrado na figura do líder carismático. O pastor é o elemento que domina todos os aspectos da vida da comunidade local. A nível [sic] nacional, apresenta também um precário sistema organizacional. A exemplo disso, podemos destacar seu status de pessoa jurídica, que vai acontecer somente em outubro de 1946. (JARDILINO, 1993:90)

Jardilino acredita que essa estrutura informal se constituiu “numa ponte rural para a sociedade urbana” fazendo com que os migrantes achassem, em meio ao caos das grandes cidades, algumas ilhas de conforto, onde ele podia se encontrar com seus pares em ambientes semelhantes aos de sua origem. Essa importância da Assembleia de Deus como

porta de entrada do homem rural no ambiente urbano é também atestada por Edilson Savioli que destaca o fato de que

Nenhuma denominação evangélica experimentou um crescimento tão rápido e tão grande como as Assembleias de Deus. Foi a partir de 1950, que o movimento pentecostal conhece uma ascensão irresistível, que avança por todo o território brasileiro em busca de uma clientela desprezada e excluída do contexto religioso da época. A igreja Assembleia investiu nas camadas sociais mais pobres e necessitadas, sendo a evangelização o grande elemento para a consolidação da igreja. (SAVIOLI, 2004:25)

O ambiente musical das Assembleias de Deus ainda apresenta outro aspecto interessante de caráter mais popular, que poderíamos chamar de cantigas24, e que sobrevivem até hoje no discurso cotidiano dos fiéis. Seus poemas são pequenas quadrinhas e as melodias são simples ou às vezes inexistentes, transformadas somente em recitações rítmicas. Não tivemos acesso a essa informação em fontes bibliográficas, mas reproduzimos um exemplo memorizado em nossa vivência religiosa: “Crente que guarda a Bíblia na gaveta, / Vai pro inferno bater papo com o capeta.”

Esta simplicidade haveria de atrair a juventude das igrejas históricas, iniciando uma série de conflitos que, em poucos anos, começaria a questionar a hegemonia da música coral. Embora possam ser verificadas práticas eventuais de canto de um repertório ligado ao estilo dos corinhos, a sua presença maciça viria a se caracterizar definitivamente a partir da década de 1950. Ele estava, então, intimamente relacionado às atividades da juventude como acampamentos, congressos, classes de escola dominical e reuniões. Sua entrada no espaço litúrgico do culto não era bem-vinda, mas, após algum tempo, passou a ser tolerada – e, até mesmo, estimulada – em cultos especiais, principalmente no dia da juventude. Em muitas comunidades, no domingo dedicado à juventude, a mocidade era convidada a conduzir a liturgia, dirigir os cânticos e, até mesmo, a escolher um de seus representantes para ministrar o sermão.

O nome de corinhos não deixa de carregar um ar pejorativo, já que essas canções pequenas, curtas, repetitivas e simples não se igualavam à beleza e grandiosidade dos coros. Apesar disso, o nome foi encampado pelos jovens com unanimidade. Luiz Carlos Ramos destaca esse uso do diminutivo no Brasil como um sinal de afetividade íntima, ressaltando que “o brasileiro busca a intimidade e, somente nela, se sente à vontade” (Ramos; 1996:40).

24 Esta manifestação cultural é mais comumente designadas como cânticos ou corinhos, mas preferimos

não usar esses termos devido ao fato de eles serem largamente utilizados, no meio evangélico brasileiro, para músicas de natureza completamente distinta daquela indicada aqui.

O projeto que marcou o universo dos corinhos a partir da década de 1950 foi a criação da Palavra da Vida Brasil, em 1957, através da atuação dos missionários Harry Bolback e Harold Reimer, ambos ligados à World of Life dos EUA. Eles construíram um acampamento em Atibaia (SP) que, a partir de sua abertura em 1958, se tornaria uma referência nos trabalhos de evangelização para a juventude no país. O projeto desenvolveu um cancioneiro chamado Cânticos Palavra da Vida que incluía canções norte-americanas traduzidas para o português que se tornaram emblemáticas no repertório dos corinhos como, por exemplo, Santo Espírito e Satisfação.

Ramos defende que as restrições políticas sentidas no Brasil a partir do Ato Institucional n˚ 5, em 1968, ao torturarem, exilarem ou matarem grande parte da liderança das igrejas protestantes históricas, esvaziaram o conteúdo crítico dos movimentos de juventude, principalmente daqueles que buscavam valorizar repertórios musicais e temas mais ligados à cultura e à realidade social do Brasil. Ele diz que

Sem os referenciais de uma liderança autóctone, a juventude não teve alternativa senão embarcar na xerocada linha melódica do gênero “satisfação é ter a Cristo”, diretamente vindo do movimento evangelical dos Estados Unidos, que apresentava, quanto ao seu

conteúdo, praticamente as mesmas característica dos hinos trazidos pelos missionários (com pequenas variações): pietismo, individualismo, a-historicismo, trans-historicismo, o

que pode ser traduzido na expressão ni-hilismo-histórico-teológico. (RAMOS,

1996:42)25

Capa do primeiro LP dos Vencedores por Cristo - 1968

Portanto, sem lideranças autóctones e sem discurso de contestação política, o quadro de preponderância de uma renovada influência norte-americana sobre a música cantada na

25 As partes em itálico do trecho citado são referências esparsas no texto de Ramos ao artigo ALVES,

Carlos Alberto Rodrigues. Igreja comunidade litúrgica. In Reflexões no Caminho. Campinas, Centro Evangélico Brasileiro de Estudos Pastorais (Cebep), n˚3, 1992, p. 13.

igrejas brasileiras se desenvolveria através da formação de bandas de estilo pop ou rock que marcaram os anos 1970 e 1980. Entre elas, merecem ser citadas a pioneira Novo Alvorecer (1966), nascida na Igreja Presbiteriana Independente da Quarta Parada, em São Paulo, e as não menos importantes Vencedores por Cristo (1968) e Jovens da Verdade (1968), esta última nascida dentro do Instituto José Manuel da Conceição, em Jandira (SP) a partir da adaptação, voltada para um repertório popular voltada à juventude, da Caravana Evangélica Musical analisada no capítulo anterior.

Uma das canções do Novo Alvorecer, por exemplo, questionavam Jimmy Hendrix a respeito de suas escolhas que o levaram à morte prematura. A canção dizia: “Ah, se Jimmy tivesse me ouvido, não correria tão grande perigo, / não exporia sua mente assim, às formas que afastam do Pai.”. Outro exemplo de discurso contextualizado vem de uma das mais famosas canções do grupo cujo texto dizia “eu sou um jovem despertando no ano 2000 / no meio de toda ciência momento / meu mestre é um computador / mas aqui dentro de mim só existe o Senhor.”

Capa do primeiro LP do Novo Alvorecer:

“Nôvo Alvorecer – Conjunto Vocal de Instrumental” (1969)

Com o tempo, alguns grupos usariam vários elementos musicais brasileiros, principalmente vindos da Música Popular Brasileira. Mas, mesmo nos casos em que as composições se inclinavam para aspectos musicais brasileiros, os elementos culturais não assumiam aspectos críticos. Esses ensaios do uso da brasilidade no repertório dos corinhos seria uma antecipação do quadro estabelecido posteriormente pela cultura gospel, onde quaisquer ritmos e instrumentos musicais serão bem-vindos num cenário musical multicultural, mas politicamente acrítico. A visão de Luis Carlos Ramos de que os protestantes mais ligados ao pentecostalismo se afastam de discussões político-sociais e, muitas vezes, se aproximam de posturas ideológicas alienadas é compartilhada por Ricardo

Mariano (1999) que, discutindo o quadro da diminuição das igrejas protestantes no instigante artigo O futuro não será protestante, aponta possíveis rumos dessa aculturação a que se submetem as igrejas protestantes:

O pentecostalismo, responsável pela expansão evangélica na América do Sul, à medida que passa a formar sincretismos, a se autonomizar em relação à influência das matrizes religiosas norte-americanas, a promover sucessivas acomodações sociais, a abandonar práticas ascéticas e sectárias, a penetrar em novos e inusitados espaços sociais, a assumir o status de uma grande minoria religiosa e a almejar prestígio e reconhecimento social, cada vez menos tende a representar uma ruptura com a cultura ambiente. Pelo contrário, tende a mostrar-se menos distintivo, mais aculturado, mais vulnerável à antropofagia brasileira e, conseqüentemente, cada vez menos capaz de modificar a cultura que o acolheu e na qual vem, aceleradamente, se acomodando. (MARIANO, 1999:90)

Os corinhos e suas bandas, mesmo assumindo características musicais distantes do repertório dos hinos ou dos coros, não deixariam de manter suas referências teológicas no campo de uma religiosidade pietista. No entanto, haveria uma veia crítica se desenvolvendo juntamente com os corinhos e ela se posicionaria num espaço mais próximo à Teologia da Libertação, como veremos a seguir.