3 Theory
3.7 Value-centric Innovation
3.7.9 Digital Marketing and digital branding for B2B/Business apps
Para muitos exegetas alguns textos bíblicos fazem referências à Montanha mitológica cananeia, localizada na região norte, na Fenícia. Gerstenberger diz que esta frase que
208 Cf. Craigie, 1983, p. 67, 68. 209 Cf. Olmo Lete, 1981, p. 76.
aparece no Sl 48.3, obviamente utiliza conceitos cananeus ao identificar o Monte Sião com o Monte Safon211. Para Alonso-Schokel212, Weiser213, A. González214 e Bortolini215 o salmo se refere à presença e proteção de Javé à cidade de Jerusalém, nos momentos de ameaça das nações inimigas. O fato é que o salmo 48 apresenta uma teologia que louva Jerusalém/Sião, enaltecendo-a como a cidade onde Javé habita, a cidade de Deus. Vejamos.
A frase começa com a denominação §ÙCyicY&rah Monte Sião. Aqui o salmista coloca o nome do Monte do qual ele já estava fazendo referencias desde o v.1. O objeto do louvor da comunidade é agora chamado pelo nome, Monte Sião.
A expressão §Ù°pAc ZyEt¸–kËr¬y (yarketey safon), “extremidade do Safon”, ocorre em Is 14.13 e em Ez 38.6. Em Is 14.13 o contexto fala da queda do rei de Babilônia. No v.13 o rei de Babilônia pronuncia estas palavras:
“Subirei ao céu;
acima das estrelas de ’el exaltarei o meu trono,
e no Monte da Congregação me assentarei, na extremidade do Safon”.
O vocábulo Safon também pode se traduzido por “norte” (tanto em hebraico quanto em ugarítico), e em ocorre em torno de 38 vezes nos textos da Bíblia Hebraica.
Mas o que é o Monte Safon?
Até o séc. XX não havia muitas informações a respeito da religião cananeia, mas em meados da primeira metade do séc. XX foram encontradas milhares de tabletes com diversas inscrições e informações. Foram encontrados textos míticos sobre a ascensão de Ba’al ao Monte Safon, textos muito parecidos, em certos aspectos, com alguns salmos bíblicos, como o salmo 48216.
211 Cf. Gerstenberger, Psalms, Part 1, 1987, p. 200. 212 Cf. Alonso-Schökel, Salmos I, p. 653-663. 213 Cf. Artur Weiser, Os Salmos, p. 280-283.
214 Cf. A. González, El libro de los Salmos, p. 227-231. 215 Cf. José Bortolini, Conhecer e rezar os Salmos, p. 201-204.
216 DAHOOD, Mitchel. Psalms I – 1-50. The Anchor Bible. Vol. 16. New York: Doubleday & Company,
De acordo com a religião cananeia o Monte Safon é a morada de ’el, onde ocorre o concílio dos deuses. O Monte Safon tem em torno de 1700 metros de altura e está localizado na região siro-fenícia, junto ao mar, em Ugarit.
Segundo a mitologia cananeia, Ba’al conquista o Monte Sapanu (Safon), com a ajuda de sua irmã ‘Anat. Ba’al luta contra Yamu (o deus do mar) e contra Mut (o deus da morte), nesta luta Ba’al sai vencedor e conquista uma alta posição, somente abaixo de ’el, o deus supremo217.
Ba’al então sobe ao topo do Monte Safon, e junto com ‘Anat constrói um palácio, um santuário. Ba’al é chamado cavaleiro das nuvens, talvez porque o topo do Safon geralmente fica coberto de nuvens. (Aprofundaremos a questão no Capítulo 3).
No Egito havia uma cidade portuária chamada Baal-Zefon (Ba’al do Safon). Nesta cidade os marinheiros fenícios quando carregavam seus navios no Egito, faziam suas orações ao ba’al do Safon, para protegê-los na viagem de retorno. Afinal, Ba’al venceu o deus do mar Yammu.
É necessário entendermos como funciona a dinâmica da mitologia cananeia relacionada ao Monte Safon. Antes de tudo, precisamos entender o mito assim como ele era entendido nas sociedades arcaicas, como um relato verdadeiro, e desvencilharmos do conceito moderno de mito como sendo uma fábula, uma mentira.
Conforme Eliade o mito deve ser compreendido como um relato fundante numa cultura. Ele explica as origens e busca dar sentido à realidade humana218. Vamos ver a seguir um texto mítico que faz referência a Ba’al e ao Monte Safon.
Texto Um Palácio para Ba’al:219
217 Cf. OLMO LETE, Gregorio del. Mitos y leyendas de Canaan: Segun la tradicion de Ugarit. Madri:
Ediciones Cristandad, 1981; Idem. Interpretación de la Mitología Cananea: Estudios de semântica ugarítica. Valencia: Instituición San Jerónimo, 1984; DE VAUX, Roland. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003, p. 317,318.
218 Cf. Eliade, 2007, Debates, p. 7,8,41-52.
219 Tradução baseada na de Renatus Porath, em Estudos de Religião 31, 2006, p. 23,24; Olmo Lete, 1981, p.
Um Palácio para Ba‘al
Mensagem de Ba‘lu para ‘Anatu [KTU 1.3 III] Transliteração Tradução
26 abn.brq.dl.td‘.smm 26 Eu quero construir um palácio (raio?), como não o conhecem os céus,
27 rgm.ltd‘.nsm Algo que os humanos não conhecem, w.ltbn. 28 bmlt.ars E nem (o) entendem as multidões da
terra.
atm.wank. 29 ibgyh. Vem e eu to revelarei
btk.gry.il.spn Em minha montanha divina, Tsapanu (Safon),
30 bqds.bgr.nhlty Em (meu) santuário, no monte de minha possessão
31 bn‘m.bgb‘.tliyt Em uma região agradável, na colina do triunfo.
Reação de ‘Anatu
32 hlm.‘nt.tph.ilm. 32 E eis, quando ‘Anat enxergou os dois deuses,
bh.p‘nm 33 ttt. a ela as pernas tremeram, b‘dn.ksl.ttbr Seus lombos se lhe dobraram, 34 ln.pnh.td‘. Seu rosto cobriu-se de suor,
tgs.pnt 35 kslh. Contraíram-se as juntas de seus lombos, ans.dt.zrh. Os músculos de suas costas.
tsu. 36 gh.w.tsh. Ele alçou sua voz e exclamou: ik.mgy.gpn.wugr “Por que chegaram Gapanu Ugaru? 37 mn.ib.yp‘.lb‘l. Que inimigo tem se apresentado a Ba’alu, srt 38 lrkh.‘rpt. Uma inimizade, ao cavaleiro das núvens? lmhst.mdd 39 il ym Não despedacei eu o amado de El,
Yammu,
lklt.nhr.il.rbm Não acabei eu com Naharu, o grande Deus?
40 listbm.tnn.istm.[ ]-h Sim, eu amordacei a Tannanu, fechei sua boca,
41 mhst.btn.‘qltn Despedacei a serpente tortuosa, 42 slyt.d.sb‘t.rasm A poderosa de sete cabeças
43 mhst.mdd ilm.ars Esmagou o Amado de Ilu, Arsu, 44 smt.‘gl.il.‘tk Foi aniquilado pela divina ‘Ataku; 45 mhst.k.lbt.ilm.ist Esmagou o divino Isatu,
46 klt.bt.il.dbb. Acabei com a filha de Ilu, Dububu. tmths.ksp 47 iltrt.hrs Pelejarei (pela) prata e me apossarei do
ouro daquele,
[KTU 1.3 IV]
trd.b‘l 1 bmrym.spn Que quer expulsar Ba’alu das alturas de Tsapanu (Zafon),
msss.k.‘sr 2 udnh. Que quer agarrar suas orelhas como um pássaro,
grsh.lksi.mlkh Quer arrojá-lo do trono de seu reinado, 3 lnht.lkht.drkth Do divã, do assento de seu poder!
4 mnm.ib.yp‘lb‘l Que inimigo tem se apresentado a Ba’alu, srt.lrkb.‘rpt Uma inimizade, ao cavaleiro das núvens?
Este é um dos poemas míticos que narram a vitória de Ba’alu sobre Yammu (deus do mar). O que temos aqui é somente um trecho do poema que tem por título “A luta entre Ba’alu e Yammu”.
A luta era para ver quem subiria ao trono abaixo de El, o deus supremo cananeu. Nesta batalha Ba’alu juntamente com Anatu vencem Yammu e Motu. Yammu é o deus do mar e Motu o deus da morte.
Ba’alu sai vencedor desta batalha e conquista o Monte Safanu (Safon). No cume deste Monte ele constrói seu castelo e seu santuário. O Safanu é um alto e belo monte220.
Vejamos alguns apontamentos neste texto que são importantes: 1. Ba’alu vence os deuses Yammu e Motu (o mar e a morte); 2. Ba’alu conquista a Montanha Sagrada “Safanu”;
3. Ba’alu quer construir um palácio, como nenhum humano já viu. Ele quer construí- lo em sua montanha divina, Safanu (Safon);
4. Ba’alu diz que seu santuário está no monte de sua possessão, na colina do triunfo; 5. Ba’alu é chamado de cavaleiro das nuvens;
6. Ba’alu está nas alturas do Tsapanu (Safon);
7. O trono do reinado de Ba’alu, seu divã, o assento de seu poder está nas alturas do Safon.
Na saga de Ba’alu quando alguns deuses vêm contra ele para impedi-lo de conquistar o trono, ele luta junto com sua irmã Anatu (Anat) contra esses deuses, e os vence. Com a sua vitória ele conquista a Montanha Sagrada, o Monte Safon (Safanu).
Nesta Montanha Sagrada ele ergue um palácio e um santuário. Este monte passa a ser chamado de “colina do triunfo”. Com sua habitação no cume do monte, Ba’al passa a ser conhecido como “Cavaleiro das nuvens”. O assento do seu trono está nas alturas do Safanu.