Os dados aqui apresentados são decorrentes daquilo que foi obtido ao longo da pesquisa54, a partir das entrevistas com os psicólogos. Também alguns outros profissionais que não foram entrevistados ofereceram informações, sobretudo em relação à atuação em hospitais psiquiátricos, já que foram as instituições sobre que tive mais dificuldades de obter dados, devido à grande rotatividade de psicólogos e à dificuldade de os hospitais localizarem registros sobre sua contratação.
Portanto, dentro do que se tem conhecimento, no início da década de 1980 tivemos os primeiros psicólogos atuando em hospitais de Sergipe, inicialmente em dois hospitais psiquiátricos da rede pública, um dos quais não existe mais, e, logo depois, nas duas clínicas psiquiátricas particulares da capital. Em 1982, em um hospital geral particular, foram proferidas palestras sobre as possíveis atuações da psicologia em hospital, por uma psicóloga que já atuava em hospital psiquiátrico.
Em hospital geral, foi somente na década seguinte, no ano de 1991, que a psicologia fez sua inserção, época em que o curso de graduação em Psicologia da Universidade Federal de Sergipe completava seu primeiro ano e era lançado, em São Paulo, o primeiro volume da Revista de Psicologia Hospitalar, tendo Mathilde Neder como presidente do corpo editorial.
Simone Lima55 foi a primeira psicóloga a atuar em hospital geral56 de Sergipe. Ela é sergipana, mas fez seu curso na Universidade Federal de Pernambuco, de 1985 a 1990, “já que aqui, na época, não havia curso de psicologia ”. Durante sua graduação, cursou um semestre de disciplina específica de Psicologia Hospitalar e teve a oportunidade de fazer estágio em hospital, ainda que extracurricular. O trabalho iniciado por ela, e que continua até hoje, é feito na área de cardiologia, e foi formalizado somente no ano seguinte, com muita dificuldade quanto ao contrato a ser firmado, uma vez que o hospital não encontrou parâmetros, na cidade, para que se estabelecessem alguns pontos, tais como o salário e a carga horária. Por fim, esta foi definida de 20 horas, tal como a do médico, e aquele foi equivalente ao salário da enfermeira que, entretanto, trabalhava 30 horas.
54 Os dados referentes às instituições foram obtidos de diferentes formas: fala dos entrevistados, alguns sites das
instituições ou das Secretarias de Saúde, ou a partir de dados de meu próprio conhecimento. O objetivo da pequena descrição de cada instituição é somente oferecer ao leitor uma melhor caracterização.
55 Somente serão identificadas, com seu consentimento, as quatro primeiras psicólogas a atuar em hospital geral,
por serem consideradas as pioneiras na área. Quanto aos hospitais psiquiátricos, não obtive informações precisas sobre a primeira atuação e, desse modo, preferi não citar nomes.
56 Esse hospital é um dos mais antigos hospitais gerais do Estado, tendo 79 anos de existência, e que atende
prioritariamente, pacientes do SUS (90% dos atendimentos), sendo uma instituição beneficente sem fins lucrativos.
Já se pode perceber, nesses termos do contrato, a posição de destaque do médico, pelo menos no que se refere à questão financeira, grande representante de poder. Nesse caso, no que diz respeito à carga horária, trabalha mais quem ganha menos. E o psicólogo, também, em outros momentos, coloca-se em um lugar superior aos outros profissionais da equipe, como aparece na fala de um dos entrevistados: “não tratam a gente como deveríamos ser tratados a
nível de salário profissional. Como médico, como... A gente é equiparado com a enfermagem, a nutrição!” (E6). São comparações que nos levam a pensar na constante disputa de poder que existe entre os diferentes profissionais de saúde, sobretudo entre aqueles que atuam no mesmo local de trabalho. E chamou-me a atenção, nessa fala, a necessidade de explicitar a comparação com o médico, ou seja, a questão não era somente haver uma baixa remuneração, mas que esta era baixa comparativamente à recebida pelo médico.
Seguindo nossa cronologia, mais ou menos nessa época, início da década de 1990, a psicóloga Célia Limeira, a convite de um amigo, inicia um trabalho voluntário semanal com pacientes assistidos por uma Associação de voluntários ligados à área de oncologia, nesse mesmo hospital onde Simone atuava na cardiologia.
Em 1994, 50 anos após o início dos trabalhos da psicologia em hospital geral do Brasil, a psicóloga Sílvia Grangeon começou um trabalho, também voltado para a cardiologia, em um hospital particular57 que, nesse ano, completava 25 anos de fundação. Sílvia é paulista e iniciou seu trabalho por busca própria, permanecendo nele até hoje, sem nunca ter sido contratada: oferece trabalho como prestadora de serviços por meio de uma cooperativa. Começou a freqüentar o serviço sem qualquer vínculo, após consentimento de uma cardiologista do hospital, acompanhando alguns trabalhos, para somente após um período de “persistência”, chegando a passar 14 horas por dia no interior do hospital, participando das atividades diárias, ser reconhecida como integrante da equipe,.
Atualmente, ela considera que os médicos “já se habituaram” com sua presença, o que levou a um aumento do número de solicitações, também de outras áreas que não a cardiologia, além de convites para eventos científicos.
Ainda nesse ano de 1994, volta ao Estado Marileide Maciel Carvalho, uma psicóloga alagoana, formada em São Paulo, que inicia atuação em uma clínica psiquiátrica particular58,
57 Na verdade, o hospital foi inaugurado em 1978, mas considera-se sua fundação no ano 1969, quando foi
construída uma clínica ambulatorial que deu início à instituição. Com seu crescimento, foram se instalando novas formas de atendimento, como o serviço de urgência e o internamento.
58 Nessa clínica, atendem-se pacientes do SUS, além de ter uma ala de oito apartamentos para pacientes de
convênio e particulares. Os atendimentos do SUS representam 90% dos pacientes, que ficam internados, em média, um mês. Essa clínica recebe pacientes psicóticos em crise ou não e dependentes químicos. Atualmente,
a convite de seu proprietário, onde permanece durante dois anos. Sua saída deu-se por iniciativa própria, por a psiquiatria não ser uma especialidade com que gosta de trabalhar.
No ano seguinte, Simone entra no Hospital Universitário Federal (HU) 59, por meio de
um concurso público cuja vaga, inicialmente, não era destinada à saúde, mas à área da educação. No HU, nunca havia sido admitido psicólogo e, pela primeira vez, foram oferecidas duas vagas. Como houvera, mais ou menos um ano antes, um concur so para Escola Técnica Federal, com vaga para psicólogo, o MEC decidiu não fazer nova prova, e utilizar os aprovados nesse concurso para o Hospital Universitário, já que ainda não tinham assumido o cargo. Dessa forma, os profissionais foram convocados, por ordem de classificação, a fim de que escolhessem o local de trabalho (HU ou Escola Técnica). Como essa psicóloga obteve a primeira colocação, logo pôde optar pelo hospital como local de atuação, já que “era sua área”. Contudo, apesar de haver duas vagas, a outra profissional selecionada não ficou no hospital, pois foi requisitada para atuar na universidade, como supervisora de estágio na área de Saúde. Sendo assim, o HU permaneceu com uma única psicóloga por praticamente dez anos, quando, em 2004, abriu uma nova vaga, mediante concurso público específico para o hospital. Atualmente, portanto, há dois psicólogos, e eles comentaram estar sistematizando novo modo de atuação, planejando, no futuro, a formação de um Serviço de Psicologia do hospital.
Em 1996, Célia Limeira, ainda voluntária, implantou o Serviço de Psicologia no centro de oncologia de um hospital público estadual60, após a Associação de voluntários a quem estava ligada assumir a direção desse centro. Também estiveram como voluntários, nessa instituição, Marileide e um outro psicólogo que passou alguns meses e foi morar em outro Estado. Após um período, Célia foi contratada, passando a ser a psicóloga da Associação. Ela permaneceu atuando nesse hospital durante quatro anos, quando a Associação
em Aracaju, há um pronto-socorro para emergências psiquiátricas, a partir do qual os pacientes são encaminhados, quando necessário, para internamento nas clínicas. Atualmente, conta com três psicólogas contratadas.
59 O HU foi fundado no ano de 1982, e é administrado pela Universidade Federal de Sergipe. Os funcionários
efetivos são mantidos pelo MEC, e os contratados em modo celetista, com recursos advindos do SUS. É referência estadual para diversas especialidades médicas.
60 Hospital geral de grande porte de Estado, funciona desde o ano de 1987. Atualmente oferece um atendimento
médio a 17 mil pacientes por mês, além de ter o maior Pronto-Socorro Público de Estado, atendendo praticamente todos os municípios de Sergipe, chegando a receber pacientes de estados vizinhos. O centro de oncologia é referência no tratamento do câncer, oferecendo tratamento desde o atendimento clínico, ambulatorial, ao internamento.
deixou a diretoria, por razões políticas ligadas à Secretaria de Saúde61. A partir de então,
passou a trabalhar na clínica de oncologia montada pela própria Associação e, depois de um tempo, deixou esse trabalho, por ter começado a divergir em algumas idéias, em algumas
questões. Em 2003, foi convidada a atuar na Central de Transplantes, onde ficou alguns meses, já que seu contrato não pôde continuar pois era feito a partir de um convênio com outra instituição, que foi cancelado.
Apesar de não estar, atualmente, atuando diretamente na área, Célia afirma não ter se afastado completamente. Talvez por ter poucos psicólogos na área, ou pelos relacionamentos que ela construiu ao longo do tempo de trabalho, ainda é convidada para participar de jornadas ou congressos na área de saúde, como palestrante, ou para aplicar alguma dinâmica de grupo com os participantes. Interessante que ela volta a assumir o status de voluntária, como no início. Atualmente, continua como professora na Escola Técnica Federal (desde 1987) e atende em consultório particular.
Em 1997, ano seguinte ao início da implantação do Serviço de Psicologia no Centro de Oncologia do hospital estadual, Marileide Maciel Carvalho inicia um trabalho voluntário no setor de oncologia do hospital beneficente62, por meio de uma associação de voluntários. No entanto, Marileide não entrou no hospital via a Associação, mas já atendia no ambulatório, por intermédio de Simone, e foi contratada pela o hospital, no final desse mesmo ano de 1997, para o setor de oncologia, onde continua até hoje.
Em 1998, uma psicóloga pernambucana começou a trabalhar em uma clínica psiquiátrica particular63, após já ter feito vários trabalhos em consultórios e hospitais gerais,
em seu Estado. O início do trabalho em Aracaju se deu a convite, após ter passado a morar nesta cidade. Ela atua na mesma clínica até hoje, exercendo atividade paralela em consultório.
No final de 1999, após um período de treinamento em hospitais dos Estados Unidos, um psicólogo sergipano, mas formado em São Paulo, iniciou seus trabalhos no hospital particular, passando por atividades em diferentes áreas, como a cardiologia, nefrologia e cirurgia bariátrica. Atualmente, ele coordena o grupo de profissionais responsáveis por
61 Esse dado não foi obtido com a pesquisa, mas já era do meu conhecimento, pois foi um fato tornado público
na cidade, apesar de os reais motivos que levaram ao desentendimento não terem ficado totalmente claros, na época.
62 Ver nota nº. 56.
63 Essa clínica, fundada em 1964, trabalha praticamente nos mesmos moldes daquela citada na nota nº. 54. Não
consegui obter dados quanto à contratação do primeiro profissional de psicologia, mas atualmente, conta com três psicólogas contratadas.
“atividades de humanização”, em que são feitos trabalhos em grupo com pacientes, acompanhantes e também equipe.
A partir do ano de 2000, quando do estabelecimento do título de especialista em Psicologia Hospitalar pelo Conselho Federal de Psicologia, parece ter se iniciado uma nova fase para a atuação dos psicólogos em hospitais de Sergipe, uma vez que, a partir daí, a cada ano aumenta o número desses profissionais.
Em 2001, uma psicóloga formada na UFS começou a trabalhar em clínica psiquiátrica particular64, onde atua até hoje. E o ano de 2002 representa um importante marco na atuação da psicologia em hospitais no Estado, pois, com a realização de um concurso público da Secretaria de Estado da Saúde, foram escalados sete psicólogos para o hospital estadual65. Além desses, logo em seguida veio, por transferência, mais um, que havia sido escalado a princípio para “Saúde Mental” e, em 2004, outras duas, por desvio de função, pois já eram funcionárias públicas nesse hospital, apesar de antes não atuarem como psicólogas (atualmente, por determinação superior, elas tiveram que sair do desvio de função: uma das psicólogas saiu do hospital, e a outra voltou à sua função anterior). Ainda por meio desse concurso, uma psicóloga foi escalada para atuar em uma maternidade66, e uma outra, em hospital psiquiátrico67.
Nesse ano, também, uma psicóloga iniciou a prestação de serviços em um Pronto- Socorro geral68, em que fica disponível, em regime de sobreaviso, para atender eventuais emergências na própria instituição, ou fazer acompanhamento psicológico domiciliar.
No ano seguinte, mais quatro psicólogas começaram seus trabalhos em diferentes instituições: uma em hospital psiquiátrico particular69, onde havia feito um estágio no tempo de graduação, outra em clínica especializada em nefrologia70, onde havia atuado como
64 Ver nota nº. 58. 65 Ver nota nº. 60.
66 Fundada em 1970, atualmente é administrada pela Universidade Federal, sendo uma maternidade-escola. É
referência estadual e também de Estados vizinhos para o atendimento à gestante e recém-nascido de alto risco.
67 Hospital Psiquiátrico Estadual, ligado à Secretaria de Saúde, foi fundado em 1979. Abrigou pacientes crônicos
durante muitos anos e, atualmente, passa por uma fase de transição, aderindo à Política de Saúde Mental do governo federal, que visa à desospitalização. Gradativamente, os pacientes estão sendo transferidos para “residências terapêuticas” montadas em diferentes municípios especificamente para esse fim, ou retornando à casa, junto aos familiares (nesse caso, o governo dá uma bolsa de R$ 240,00). O local para onde os pacientes são transferidos é decidido juntamente com a família. O objetivo é desativar o hospital após a transferência de todos os pacientes.
68 Serviço particular de Urgência, que também oferece alguns outros atendimentos mais simples, que não
necessitem de estrutura hospitalar mais específica, e serviço de home care.
69 Ver nota nº. 63. 70 Ver nota nº. 50.
supervisora de estágio em Psicologia Institucional, na área de Psicologia Hospitalar, enquanto professora substituta na UFS. Essas duas psicólogas ainda atuam nesses locais, apesar de esse trabalho não ser a única fonte de renda. A terceira, por sua vez, realizou trabalho voluntário, durante um ano, por meio do projeto “profissional voluntário” do Hospital Universitário, ao retornar para Sergipe, após conclusão de dois anos de especialização em Psicologia Hospitalar na cidade de São Paulo. Atualmente ela não atua na área hospitalar, apesar de ter interesse, mas é funcionária pública em uma cidade no interior do Estado, atuando em CAPs, além de ter consultório particular. Um outro serviço que também incluiu o psicólogo entre seus profissionais, em 2003, foi um serviço para atendimento de portadores de fissura labiopalatina71, ligado à Secretaria de Estado da Saúde, mas locado em um hospital vinculado à Secretaria de Segurança.
Em 2004, a UTI do hospital beneficente da capital72 contratou uma psicóloga e houve
o concurso para o Hospital Universitário, como já comentado, tendo sido contratado mais um psicólogo. Além desses, também uma outra psicóloga assumiu os trabalhos já iniciados no serviço para portadores de fissura labiopalatina.
Por fim, no ano de 2005, mais duas profissionais iniciaram suas atividades em hospitais, ambas em maternidade pública73, onde já havia uma psicóloga contratada via o concurso público realizado em 2002. Ambas haviam feito estágio curricular nessa instituição e foram convidadas, após graduadas, a continuarem seus trabalhos, sendo contratadas por uma empresa que terceiriza os serviços.
Dessa forma, após essa retomada cronológica da inserção de psicólogos em hospitais de Sergipe, pode-se perceber que, nos primeiros anos de 2000, portanto após o estabelecimento do título de especialista em Psicologia Hospitalar, pelo Conselho Federal de Psicologia, o Estado vivenciou um grande crescimento nesse campo de atuação, embora não tenha sido acompanhado por uma clareza quanto ao papel que deve desempenhar um psicólogo na instituição hospitalar, assunto a ser discutido no tópico seguinte.
71 Trata-se de um serviço especializado no atendimento de portadores de fissura labiopalatina, formado por uma
equipe multiprofissional (enfermagem, serviço social, fonoaudiologia, odontologia, ortodontia, cirurgia buco- maxilo-facial, anestesia, cirurgia plástica e psicologia). À época da entrevista, eles estavam passando por sérios problemas políticos e financeiros, com possibilidade de ter que ser fechado, contra o que a equipe lutava, chegando a trabalhar sem remuneração, para não parar o atendimento. Como a primeira psicóloga que atuou nesse serviço não mora mais em Sergipe, somente pudemos conversar com a atual psicóloga, que substituiu a primeira.
72 Ver nota nº. 56. 73 Ver nota nº. 66.