Neste momento, gostaria de fazer uma discussão dos dados apresentados anteriormente, também por meio da comparação destes com aqueles obtidos em estudos realizados em outros Estados, ou até a nível nacional52. Para tal, vou me utilizar somente dos dados fornecidos pelos profissionais que estão atuando hoje em hospitais de Sergipe, no total de 24, excluindo dessa comparação aqueles que foram entrevistados, mas que, no momento, não estão atuando na área, uma vez que os estudos com os quais vou fazer as correlações dizem respeito a psicólogos que estavam trabalhando em hospitais na época da pesquisa. Devemos levar em conta, também, a diferença de tempo entre os estudos, podendo os dados aqui apresentados ter sofrido mudanças, o que, entretanto, não invalida a possibilidade de
52 Os estudos utilizados aqui foram o de Marcon, Luna & Lisbôa (2004), realizado no ano de 1999, na Grande
Florianópolis; Yamamoto, Trindade e Oliveira (2002), no Rio Grande do Norte; Seidl e Costa (1999), no Distrito Federal; Lamosa (1987), a nível nacional; e a pesquisa do Ibope (2004) com 2000 psicólogos inscritos no Conselho Federal de Psicologia.
discussão entre eles, já que o objetivo maior é utilizar os dados como ponto de partida para as discussões, e não apresentar interpretações conclusivas.
Esclarecidos esses pontos, inicio a apresentação preliminar das pesquisas. Em Sergipe, foram 12 as instituições com a presença de psicólogos, sendo que aqui serão consideradas dez, devido ao fato de que duas delas somente cediam ou alugavam sala para consultório particular. Essas dez instituições representam 25% dos hospitais do Estado, e 46,4% daqueles localizados na capital, Aracaju. O total de psicólogos que atua nessas instituições, atualmente, são 27, mas só foram entrevistados 24, perfazendo o total de 88,9% dos profissionais. No estudo realizado por Marcon, Luna e Lisbôa (2004), foram levantadas 17 instituições na Grande Florianópolis, sendo que em dez delas (58,8%) havia 30 psicólogos atuando, enquanto que, no Rio Grande do Norte, somente 19% dos hospitais não-psiquiátricos do Estado contavam com a presença do psicólogo (Yamamoto, Trindade e Oliveira, 2002), com um total de 42 profissionais.
O levantamento feito no Distrito Federal apresenta uma particularidade em relação aos demais, pois tinha como campo de estudo a rede pública de saúde, não se restringindo a hospitais, nem incluindo instituições particulares. Entretanto, uma vez que 78,2% dos psicólogos entrevistados atuavam em hospitais, acredito que os dados encontrados por eles podem contribuir para o enriquecimento de nossas discussões. Além disso, nos outros estudos, incluindo a presente pesquisa, era nas instituições públicas onde a maioria dos psicólogos atuava.
Levando-se em consideração os profissionais que participaram das pesquisas, Sergipe foi o local que apresentou a menor porcentagem de mulheres, apesar de estas representarem a maioria em todos eles, o que parece ser característica da própria profissão, no Brasil: na última pesquisa realizada, havia 91% de mulheres entre os inscritos no Conselho Federal de Psicologia (Ibope, 2004), e naquela de 2000 (Who, 2000), esse percentual era de 92,2%, ou seja, não houve grandes mudanças.
Tabela 11 – Presença de mulheres entre os psicólogos que atuam em instituições de saúde
Local da pesquisa Porcentagem
Distrito Federal 95% Grande Florianópolis 90% Rio Grande do Norte 80% Sergipe 75%
No que diz respeito à idade, pode-se perceber que, à época dos estudos aqui apontados, sempre havia predominância de profissionais jovens, em geral com menos de 35 anos de idade, o que é concorde com os profissionais de Sergipe. Em 1987, escreve Lamosa na sua tese de doutorado, considerada como o primeiro levantamento dos psicólogos que atuam em hospitais no Brasil: “o psicólogo clínico que trabalha em hospitais no Brasil caracteriza-se por ser: do sexo feminino, jovem profissionalmente, isto é, recém-formado e de menos de 35 anos de idade. Tem pouca ou nenhuma mobilidade geográfica, ou seja, onde nasce, trabalha”. (Lamosa, 1987, p. 86)
E foi exatamente isso o encontrado nos estudos realizados em 1999, em Santa Catarina e Brasília; em 2002, no Rio Grande do Norte; e em 2005, em Sergipe. Interessante essa constatação. Seria a Psicologia Hospitalar uma área eminentemente de jovens profissionais, egressos de instituições de ensino no próprio Estado onde trabalham? Para respondermos esses questionamentos seriam precisos novos estudos que atualizassem os dados obtidos até então, uma vez que, tanto o trabalho do Distrito Federal quanto o de Santa Catarina, por exemplo, têm mais de cinco anos, e não sabemos se os profissionais continuam atuando em hospital, ou saíram e novamente assumiram seus lugares psicólogos mais jove ns.
Quanto à graduação, neste nosso estudo, 70,8% dos profissionais a cursaram em faculdades no próprio Estado, a maioria na Universidade Federal. Também no estudo de Yamamoto, Trindade e Oliveira (2002), a maioria dos profissionais (76%) tinha estudado na universidade federal do local, no caso a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, – nessa época, única do Estado com curso de psicologia – mais uma vez indo ao encontro dos dados obtidos por Lamosa, em 1987.
O tempo de formação varia, concentrando-se nos primeiros dez anos, reduzindo de forma acentuada a quantidade de profissionais cuja graduação ocorreu há mais de dez anos. No Distrito Federal, esse quadro fica um pouco mais equilibrado, com praticamente metade dos profissionais tendo graduação há menos de uma década. Talvez esse resultado decorra do fato de que as instituições incluídas nessa pesquisa eram púb licas e, portanto, deviam oferecer uma maior estabilidade do emprego, tendo funcionários com mais tempo de atuação, além de participarem, desse estudo, centros de saúde, que também incluem o atendimento à área de psiquiatria, em que o psicólogo está inserido há mais tempo do que em hospitais gerais.
Considero esse dado um ponto interessante, levando-nos a pensar em algumas possibilidades: para o recém-formado, trabalhar em hospital seria a oportunidade de um trabalho com remuneração fixa, além de o concurso púb lico, muito presente na área de saúde, trazer a estabilidade no emprego. Além disso, talvez um profissional que já se tenha
estabelecido na área não queira mais submeter-se a um baixo salário, questão que apareceu com muita freqüência nos aspectos negativos dessa área de atuação. Romano (1999) fala que, muitas vezes, o exercício profissional do psicólogo na área de saúde é visto como um “mal necessário” para o recém-formado adquirir experiência, e ainda traz a visão de um outro autor: “Gianotti (1993) afirma que só os recém-formados concordam em sobreviver com os salários pagos pelas instituições, que os mais experientes voltam-se para o exercício liberal” (Romano, 1999, p.87). No seu estudo, contudo, Romano (1999, p.111) verificou que tem havido uma “continuidade do exercício profissional” dos psicólogos em hospitais, que buscam “formas complementares de proventos”, para suprir os baixos salários.
Realmente, a atuação em hospital não era a única atividade profissional para a maioria dos psicólogos que partic iparam dos estudos aqui comentados. Somente no Distrito Federal houve um resultado inferior a 50%, mas esse estudo incluiu também psicólogos que atuam em centros de saúde, como já dito. Na Grande Florianópolis, 80% dos profissionais exerciam uma outra atividade paralela ; em Sergipe, 75% e, no Rio Grande do Norte, 64%
O consultório particular é a atividade mais desempenhada paralelamente à atuação no hospital, e de forma bem parecida nos diferentes locais. Em Sergipe, encontramos o percentual de 42,7% dos profissionais; no Distrito Federal e no Rio Grande do Norte, 43,5% e 44% respectivamente. Diante disso, parece-nos, como nos diz Seidl e Costa Jr. (1999, p. 34), que “a psicologia da saúde vem sendo construída, prioritariamente, por profissionais com experiência em clínica e/ou egressos da psicologia clínica”. Em Sergipe, 50% dos entrevistados começaram sua atuação profissional em consultório particular, e 25% teve o hospital como primeira área de atuação. No Rio Grande do Norte, encontramos um maior número de profissionais (48%) que teve o hospital como primeiro local de emprego. Estudo do CFP de 1994 (Achcar, 1994) também aponta o movimento da Clínica para a Saúde, destacando a preocupação, por parte dos psicólogos, com atuações que levem em conta o contexto social.
Na pesquisa realizada pelo Ibope (2004), 55% dos psicólogos têm o atendimento clínico individual ou em grupo como principal área de atuação na psicologia, sendo que 41% dos entrevistados exercem sua principal função em consultório, enquanto somente 4% a exercem em hospital.
Voltando para o período de graduação, dos psicólogos entrevistados em Florianópolis, 50% havia feito estágio em hospital, contra 20,8% em Sergipe e 36% no Rio Grande do Norte, o que sinaliza um começo do interesse pela área, saindo da tradicional escolha entre Clínica, Escola ou Organização.
Somente pouco mais da metade dos entrevistados continuaram seus estudos após a graduação, incluindo aqueles que estão estudando atualmente e também aqueles que fizeram ou estão fazendo formação em alguma linha de psicoterapia (42,85% daqueles que têm alguma pós-graduação). Esse resultado não difere muito daquele obtido com a pesquisa realizada pelo Ibope (2004) sobre o perfil do psicólogo brasileiro, em que se encontrou a porcentagem de 42% psicólogos sem cursos de pós-graduação, de uma amostra de 2000 psicólogos, representantes dos inscritos no Conselho Federal de Psicologia, o que já demonstra uma redução, já que em 1987 (Lamosa), 57,78% era a proporção de psicólogos somente com a graduação. Esse índice ainda caiu para 20%, no estudo feito no Rio Grande do Norte.
Gostaria de destacar que, dos 11 profissionais que possuem cursos de pós-graduação em Sergipe, somente cinco desses cursos são relacionados com a área de saúde: uma profissional tem especialização em Psicologia Hospitalar; outro fez mestrado, está cursando doutorado com tema voltado à área de saúde, e especialização em Psicologia Hospitalar; e as outras três não fizeram cursos, mas têm o título de especialista pelo CFP, conseguido devido ao tempo de trabalho na área.
A falta de capacitação dos profissionais para atuarem na área hospitalar é uma questão muito levantada pelos autores. Lamosa (1987, p.86) já apontava para a necessidade de “subsídios teóricos e práticos para o desempenho na área hospitalar”, afirmando que essa constatação levaria “o psicólogo clínico que atua em hospitais a matricular-se em programas de pós-graduação, a fim de suprir suas deficiências acadêmicas”.
Todos os estudos chegaram à conclusão de que a maioria dos profissionais que atua em hospitais não havia recebido formação específica na área de saúde. No estudo de Marcon, Luna e Lisbôa (2004), por exemplo, apresentou-se que as faculdades da Grande Florianópolis somente há pouco tempo incluíram disciplinas específicas, mesmo já havendo oferta de estágios por alguns hospitais.
Seidl e Costa Jr. (1999, p.28) apontam que, apesar da crescente inserção do psicólogo nos serviços de saúde no Brasil, ainda há “grande defasagem entre as necessidades e as demandas da população e os serviços oferecidos por estes profissionais”, também decorrente da falta de capacitação destes para uma atuação eficaz no sistema de saúde. Yamamoto, Oliveira e Trindade (2002) também consideram que “a formação proporcionada pela universidade é deficiente e que uma complementação nas diversas formas de estudos pós- graduados e supervisões é necessária”. (p.240)
E essa falta de formação específica parece ser sentida pelos profissionais. Na pesquisa de Romano (1997), os psicólogos defendiam a importância “de um corpo de conhecimentos específicos (complementares ao saber psicológico) para a atuação na área – fundamentais para esta particularização de atividades (...), além de integrá-lo ao grupo da saúde através de conhecimentos e linguagem comuns”. (p.125)
Seidl e Costa Jr. (1999, p.32) também comentam que todos os profissionais que participaram de sua pesquisa no Distrito Federal afirmam sentir necessidade de “treinamento específico com objetivo de proporcionar o aperfeiçoamento de sua atuação profissional”, demonstrando “interesse por estudar diferentes temas da psicologia aplicados à saúde”.
No Rio Grande do Norte, de maneira geral, os profissionais consideraram sua formação falha durante a graduação, não sendo suficiente para atuar no hospital. Os autores comentam o “caráter maciçamente ‘teórico’ da graduação e [as] ênfases curriculares que refletiriam formações generalistas versus especializadas” (p.224). Em Sergipe, o quadro não é diferente: a maioria dos psicólogos também concorda com a necessidade de se ter formação específica após a graduação, ou paralelamente a esta, já que ela não oferece subsídios para a atuação do psicólogo em hospital. Há também, embora minoria, aqueles que defendem que o estudo da psicologia, de forma generalista, seria suficiente para que se pudesse atuar em qualquer local, e que as várias especializações contribuiriam para uma fragmentação da área, indo ao encontro de autores como Yamamoto, Oliveira e Trindade (2002) e Starling (2002), que, como já apresentado, tecem críticas às especializações, comentando o perigo de as especialidades “fragmentarem”, “pulverizarem” ou “desarticularem” o conhecimento na psicologia.
Podemos nos questionar: se não há a formação necessária, nem se tem muito contato com a área durante a graduação, o que levaria os profissionais a optarem por esse campo de trabalho? De fato, o interesse intrínseco pelo trabalho em si não é o que leva a maioria dos psicólogos a trabalhar em hospital. É interessante perceber que, de forma geral, tanto em Sergipe quanto no Rio Grande do Norte, praticamente 50 % dos profissionais ingressaram na área pelo que Yamamoto, Trindade e Oliveira (2002) chamam de “circunstâncias fortuitas”, como a possibilidade de emprego via concurso público, indicação de amigos ou convite. As porcentagens encontradas em Sergipe e Rio Grande do Norte dos profissionais que optaram pela área por esses motivos são, respectivamente, 45,83% e 48%. A área em si era de interesse específico de 41,67% dos profissionais de Sergipe e 44% daqueles do Rio Grande do Norte, portanto um quadro muito semelhante.
No Distrito Federal, já se encontra uma outra situação, pois 80,4 % dos profissionais afirmam que se interessavam pela Saúde desde a graduação, mas não especificam se seria o hospital o local de preferência para atua rem. Entretanto, somente 47,8% não concordam que “a escolha pela atuação em saúde decorreu das facilidades do mercado de trabalho”. (Seidl e Costa Jr., 1999, p.32)
Quanto ao tempo de atuação no hospital, é interessante perceber que, na época em que foi feito cada estudo, mais uma vez os números a que se chegaram foram muito parecidos, tanto em Sergipe, quanto Florianópolis, Rio Grande do Norte e Distrito Federal, em que a inserção da maioria dos psicólogos em hospitais se tinha dado há menos de seis anos.
Marcon, Luna e Lisbôa (2004) acreditam que essa inserção recente do psicólogo em hospitais da grande Florianópolis demonstra “o processo de construção em que se encontra a Psicologia nos hospitais da região” (p. 34). Yamamoto, Trindade e Oliveira (2002) comentam que “a absorção dos profissionais pelos hospitais potiguares tem uma tendência ascendente” (p.229). Essa impressão também foi obtida neste estudo, pois, como será apresentado na cronologia traçada, a cada ano, a partir de 2000, cresce o número de psicólogos atuando em hospitais de Sergipe.
Entrando na especificidade da atuação dentro dos hospitais, temos algumas possibilidades como constituindo o foco de atenção: paciente, família/acompanhante, equipe e instituição. Em Sergipe, constatou-se que o foco principal da atuação sempre é o paciente, mesmo naqueles que procuram enfatizar que o lado assistencial não é a única atuação do psicólogo no hospital. Contudo, de maneira geral, os demais focos de atuação, seja a instituição (humanização, instigar reflexão, melhorar relações interpessoais), a equipe (orientação, trabalhar relacionamentos interpessoais, promover reflexões acerca da atuação...) ou a família (orientação, apoio...), visam, em última instância, ao paciente, a fim de minimizar seu sofrimento durante o período de tratamento/hospitalização. Mais ou menos um terço dos entrevistados restringiu-se a especificar a atuação com o paciente, apesar de dizer que não é esta a única população atendida, e somente dois entrevistados também falaram da equipe, além do paciente. Os demais incluíram paciente e família na descrição de sua atuação.
Tabela 12:Alvos do trabalho do psicólogo nos hospitais do Rio Grande do Norte e em Sergipe
Local Paciente Família Equipe Instituição
Rio Grande do Norte 96% 72% 64% 36% Sergipe 100% 75% 41,67% 4,16%
Seidl e Costa Jr. (1999) dividem em dois os modelos de atuação: o “modelo clínico”, em que o psicólogo delimita o espaço físico para sua atuação, geralmente ocorrendo em sala do Serviço de Psicologia, com pouca interação com a equipe. Nesse modelo, o foco da atuação ocorre exclusivamente com o paciente e há uma ênfase na intervenção psicoterápica, individual ou em grupo. O outro modelo seria o “biopsicossocial” ou “de atenção integral à saúde”, com atuação em diversos espaços: o psicólogo estaria “presente onde a atuação fosse necessária” (p.31). Há trabalho em conjunto com a equipe, as intervenções ocorrem tanto com o paciente quanto com a família e a instituição/comunidade, e as ações seriam bem diversificadas: aconselhamento, orientação, preparação pré e pós-cirúrgica, atividades educativas, intervenção breve, visitas domiciliares...
Nessa classificação, 67,4% dos profissionais do Distrito Federal atuam baseados no modelo biopsicossocial. Seidl e Costa Jr. (1999) encontraram relação entre esse grupo e um maior envolvimento com pesquisa, apresentação de trabalhos em eventos, formação em nível de pós-graduação e um caráter interdisciplinar da equipe: “os psicólogos que pautam sua prática neste modelo parecem estar indo além da atuação profissional, buscando contribuir para a consolidação de um corpo teórico-prático da psicologia aplicada à saúde”. (p.34)
Apesar de não ter realizado um estudo quantitativo, procurei transpor essa classificação para esta pesquisa, a fim de tentar localizar os profissionais em um ou outro modelo. Dessa forma, no que diz respeito ao local de atuação, todos os entrevistados atuam em diferentes locais, como enfermarias, unidades de terapia intensiva, ou a própria casa de pacientes. Os tipos de intervenção também se encaixam no modelo biopsicossocial, pois incluem orientações, preparações para cirurgias, aconselhamento, visitas domiciliares, entre outros. O foco de atuação varia, mas, em geral, inclui pacientes e orientações ou apoio à família, e a ênfase na instituição é feita por somente um profissional. Entretanto, a interação com a equipe ainda precisa ser intensificada, pois geralmente limita-se a encontros esporádicos nos corredores, praticamente não havendo trabalho interdisciplinar. Diante disso, pode-se considerar a existência de uma maior inclinação para o modelo biopsicossocial, apesar de coexistirem, ainda, vários traços do modelo clínico. Na Grande Florianópolis, os autores consideravam haver uma predominância do modelo clínico de atuação, já apontando, entretanto, para uma transição para o biopsicossocial (Marcon, Luna e Lisbôa, 2004).
Essa passagem para um modelo de atenção integral à saúde é algo extremamente positivo, uma vez que já se sabe que a simples transposição do modelo clínico para o hospital não oferece meios para o profissional oferecer um bom trabalho. Yamamoto, Oliveira e Trindade (2002) apontam para a necessidade de desenvolvimento de “novas modalidades de
ação”, além do cuidado que os profissionais devem tomar, quando da “transposição de recursos clínicos tradicionais para a realidade dos hospitais” (p.242). Diante disso, Seidl e Costa Jr. (1999) consideram o resultado encontrado entre os psicólogos de Brasília como “surpreendente e promissor” (p.34), por o hospital ser visto como um novo contexto, com novos desafios, não podendo, portanto, ser usado o modelo de consultório. Uma questão importante a ser levada em conta, também, é que “aspectos organizacionais parecem facilitar ou dificultar o modo de atuação do psicólogo” (Seidl e Costa Jr., 1999, p.34), o que nos lembra que nem sempre o profissional consegue atuar da maneira como considera mais adequada.
Uma outra divisão das atividades foi feita por Yamamoto, Oliveira e Trindade (2002), que agruparam as diversas atuações em três blocos: atividades psicoterápicas, de orientação/aconselhamento e avaliação psicológica53. Dos psicólogos que participaram da
pesquisa, realizam atividades psicoterápicas com pacientes 96% no Rio Grande do Norte e 87,5% em Sergipe; orientação e aconselhamento para pacientes, 60% no Rio Grande do Norte e 62,5% em Sergipe. A avaliação psicológica é uma atividade menos desempenhada pelos psicólogos em Sergipe (29,17%) que por aqueles no Rio Grande do Norte (aproximadamente 50%). Segundo os autores da pesquisa no Rio Grande do Norte, os dados obtidos por eles indicam a “utilização de recursos tradicionais para enfrentar situações pouco usuais na prática clínica convencional” (Yamamoto, Oliveira e Trindade, 2002, p.232), o que nos leva a pensar que os psicólogos desse Estado também têm ações pautadas mais no modelo clínico que no biopsicossocial, o que é reforçado pelo referencial teórico, que também aponta para essa ênfase no modelo clínico: aquele mais utilizado entre os profissionais da Grande Florianópolis e do Rio Grande do Norte foi a psicanálise. Em Sergipe, por sua vez, a Psicanálise, a Gestalt e o Psicodrama tiveram proporções iguais (16,6%) entre os profissionais, e juntos congregam