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Antes de continuar, por que Sergipe? A escolha por Sergipe se deu primeiro por ser meu Estado de origem, onde comecei a graduação e, sobretudo, porque, ao longo da minha formação, notei que em vários locais do Brasil pouco se conhecia sobre o que era feito pela psicologia nesse Estado. Ao se falar do nordeste, tinham-se informações da Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, mas quase nada de Sergipe.

Além disso, se queremos pensar em uma história da psicologia no Brasil, não podemos restringir-nos a determinadas regiões, mas devemos levar em conta todas as informações obtidas das várias regiões que compõem este país.

Sendo assim, apresento Sergipe:

3.2.1. Aspectos históricos e econômicos

Emancipado da Bahia em 8 de julho de 1820, Sergipe ainda apresenta marcas da cultura, economia e religião baianos. Inicialmente, teve sua capital estabelecida em São Cristóvão, a quarta cidade mais antiga do Brasil, para, em 1855, ser transferida para Aracaju, devido à proximidade do porto, possibilitando, assim, o melhor escoamento da produção do açúcar, tão importante para a economia sergipana. Diferente das outras cidades do Estado,

Aracaju

Sergipe é o menor Estado do Brasil, contando com uma população de 1.784.475 habitantes, segundo o censo demográfico de 2000 (IBGE, 2005), menos de um quinto da população da cidade de São Paulo (10.434.252 habitantes). Possui 75 municípios, e sua capital, Aracaju, tem uma população de 461.500 habitantes (Cruz e França, 2002), representando 25,4% de todos os habitantes do Estado.

Aracaju foi toda planejada, tendo seu terreno dividido praticamente como “um tabuleiro de xadrez”. (Oliva e Santos, 2002, p.30)

Apesar de ter mais de 70% de sua população na área urbana, a agropecuária ainda é a base da economia sergipana, tendo como principal produto a cana-de-açúcar, além da laranja, cujo suco é exportado para os Estados Unidos e Europa. Ocorre em Sergipe, ainda, grande extração de petróleo, fazendo do Estado um dos maiores produtores do país (Mendonça e Silva, 2002).

À época do início das atividades dos psicólogos nos hospitais do Brasil, ou seja, em meados da década de 50, Sergipe e todo o nordeste passavam por sérias dificuldades, sobretudo relacionadas ao período de seca prolongada e devastadora. Diante dessa situação, foi criada a SUDENE (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste), em 1958, com o “propósito de criar condições para a industrialização do Nordeste”. (Oliva e Santos, 2002, p.34)

No período época dos governos militares (1964-1984), houve um surto de industrialização em todo o Brasil, aumentando o consumo de petróleo. À época, Sergipe recebeu muitos investimentos da Petrobrás, acentuando a exploração do petróleo no Estado, constituindo hoje uma das maiores produções do Brasil. Ainda nessa época, em 1967, foi aberta a Universidade Federal de Sergipe (UFS), em São Cristóvão, unificando as faculdades já existentes, desde o final da década de 1940 (Economia, Química, Direito, Filosofia, Serviço Social e Medicina). Até então, somente seguiam estudos universitários as pessoas advindas de famílias mais abastadas, já que tinham que ir para grandes centros, como Salvador, Recife ou Rio de Janeiro (Capital Federal na época).

Os anos de 1960 representam um período de grande crescimento do Estado, acima da média nacional e, a partir da década seguinte, houve um aumento no êxodo rural, fazendo com que a população urbana se tornasse prevalente, sobretudo em Aracaju, o que também foi influenciado pela vinda de técnicos e funcionários da Petrobrás (Oliva e Santos, 2002).

3.2.2. Sergipanos com destaque nacional

Entre os sergipanos, encontram-se, também, nomes de destaque nacional, em diferentes áreas, desde o Direito à Literatura. A seguir, gostaria de apresentar alguns desses nomes.

Manoel Bomfim43 (1868 - 1932): Médico, pedagogo e historiador aracajuano. Iniciou o curso de medicina em Salvador e o concluiu no Rio de Janeiro, em 1890. Tem um importante papel na história da psicologia do Brasil, pois organizou e dirigiu aquele que provavelmente foi o primeiro Laboratório de Psicologia Experimental do país, em 1906, no “Pedagogium” (M. Antunes, 2003). Conhecido nacionalmente por obras de caráter nacionalista, em que também se preocupava em “analisar e interpretar o passado brasileiro à luz de novos instrumentos, entre os quais o marxismo”, o grande mérito de sua obra, segundo Gilfrancisco (2005), foi “encarar o preconceito racial e a caracterização psicológica inferiorizante do homem tropical como traços colonialistas herdados pelas elites brasileiras”, defendendo a “superação, pela educação e pela transformação social, do atraso nacional como condição para o plano florescimento do homem brasileiro”.

Gilberto Amado44 (1887 – 1969): “Político, ensaísta, memorialista e diplomata”, formou-se pela faculdade de Direito de Recife, onde também foi “catedrático de Direito Penal”. Em 1910, passou a morar no Rio de Janeiro, onde trabalho u na imprensa, foi deputado federal e senador por Sergipe. Também tem um papel muito importante nas relações internacionais:consultor juríd ico do Ministério das Relações Exteriores; embaixador; membro da

Comissão de DireitoInternacional da ONU (durante 28 anos); delegado do Brasil a todas as sessões ordinárias da Assembléia Geral da ONU. É o quinto ocupante da Cadeira 26 da Academia Brasileira de Letras. (Academia Brasileira de Letras, 2006)

43 Entre suas obras, encontram-se: América Latina: estudo do parasitismo social (1905); Pensar e dizer: estudos

do símbolo no pensamento e na linguagem (1923); O Brasil na América (1929); O Brasil Nação: realidade da soberania brasileira, 2 vol. (1930); O Brasil na História: deturpação das tradições. degradação política (1931) (Gilfrancisco, 2005).

44 Algumas obras: A chave de Salomão e outros escritos (1914), ensaios; Grão de areia (1919), ensaio;

Aparências e realidades (1922), ensaio; Espírito do nosso tempo (1933), ensaio; Dias e horas de vibração (1933), crônicas; Inocentes e culpados (1941), romance. MEMÓRIAS: História da minha infância (1954); Minha formação no Recife (1955); Mocidade no Rio e primeira viagem à Europa (1956); Presença na política (1958); Depois da política (1960) (Academia Brasileira de Letras, 2006).

Sílvio Romero45 (1851 – 1914): “crítico, ensaísta, folclorista, polemista, professor e historiador da literatura brasileira”. Formou-se na Faculdade de Direito de Recife e participou, junto com Tobias Barreto da “Escola de Recife”. Em 1875 foi para o Rio de Janeiro, onde foi professor de Direito e trabalhou na Imprensa, tornando-se “literariamente poderoso”. “Pesquisador bibliográfico sério e minucioso, (...) preocupou-se, sobretudo, com o levantamento sociológico em torno de autor e obra. Sua força estava nas idéias de âmbito geral e no profundo sentido de brasilidade que imprimia em tudo que escrevia”. Fundou a Cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras, quando de sua instalação, em 1897. (Academia Brasileira de Letras, 2006)

Tobias Barreto46 (1839 – 1889): Poeta, crítico, filósofo, jornalista, advogado e professor da faculdade de Direito de Recife, onde fez sua graduação. Liderou o movimento intelectual poético, crítico, filosófico, sociológico, folclórico e jurídico denominado “Escola do Recife”, ao lado de outros sergipanos, como Sílvio Romero e Fausto Cardoso. Patrono da Cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras. (Academia Brasileira de Letras, 2006)

3.2.3. A psicologia em Sergipe

O primeiro curso de graduação em psicologia, no Estado, foi instalado na Universidade Federal de Sergipe no ano de 1990, no Centro de Educação e Ciências Humanas, tendo sido reconhecido pelo MEC em 2000. Segundo informações obtidas no

45 Algumas obras: A filosofia no Brasil (1878); Interpretação filosófica dos fatos históricos (1880); Introdução à

história da literatura brasileira (1882); Contos populares do Brasil (1885); Etnografia brasileira (1888); A filosofia e o ensino secundário (1889); A história do Brasil ensinada pela biografia de seus heróis (1890); Ensaios de Filosofia do Direito (1895); Ensaios de sociologia e literatura (1901); Parnaso sergipano, 2 vols.: 1500-1900 e 1899-1904 (1904); Evolução da literatura brasileira (1905); Provocações e debates (1910) (Academia Brasileira de Letras, 2006).

46 “Suas Obras Completas, editadas pelo Instituto Nacional do Livro em 1926/27, incluem os seguintes títulos:

Ensaios e Estudos de Filosofia e Crítica, Brasilien, wie es ist, Ensaio de pré-história da literatura alemã, Filosofia e Crítica, Estudos Alemães, Dias e Noites, Polêmicas, Discursos, Menores e Loucos, Questões vigentes , Vários escritos, Polêmicas”. (Academia Brasileira de Letras, 2006).

próprio site da universidade (UFS, 2006), no programa do curso de psicologia são as seguintes as disciplinas específicas para a área de saúde: como matérias obrigatórias, Psicologia e Práticas de Saúde (8º. Período), e Psicopatologia I e II (5º. e 6º. períodos). Entre as optativas, há Psicologia Hospitalar, Antropologia da Saúde e Tópicos especiais em psicopatologia, que nem sempre são ofertadas, segundo informações dos entrevistados que fizeram formação nessa instituição.

Até o ano de 1996, esse era o único curso de psicologia do Estado, quando foi iniciado o segundo curso, na Universidade Tiradentes (reconhecido pelo MEC em 2002), sendo seguido pelo curso da Universidade Pio Décimo, em 1999 (ainda em processo de reconhecimento), ambas universidades particulares.

A grade curricular do curso da Universidade Tiradentes apresenta um pouco mais de opções no que diz respeito às matérias relacionadas à saúde: Psicopatologia I e II (5º. e 6º. períodos), Psicologia da Saúde (6º. período), Estágio básico I e II – Promoção de Saúde (7º. e 8º. períodos). A partir do oitavo período, o aluno opta por uma área de ênfase, que pode ser “Psicologia e práticas educativas” ou “Psicologia e promoção de saúde”. Nesta última, as disciplinas específicas oferecidas são: “Saúde coletiva”, “Psicologia e instituições de saúde” e uma optativa: “Aspectos psicossociais das doenças crônicas”. (UNIT, 2005)

Em relação à universidade Pio-Décimo, a coordenação da Faculdade de Psicologia disponibilizou a grade curricular do curso, na qual há as seguintes disciplinas relacionadas com a saúde: “Psicopatologia Geral I e II” (5º. e 6º. Períodos), “Psicologia Hospitalar” (9º. período) – obrigatórias –, e “Psicossomática” – optativa .

Podemos perceber, portanto, que desde o reconhecimento da psicologia, como profissão, no Brasil, e a abertura do primeiro curso de psicologia em Sergipe, passaram-se quase 30 anos. Dessa forma, os psicólogos que atuavam no Estado até dez anos atrás fizeram sua formação necessariamente em outros Estados.

Obtive também alguns dados junto ao Conselho Regional de Psicologia – 3ª região (CRP/03), que inclui Bahia e Sergipe: atualmente há 542 psicólogos inscritos no Estado de Sergipe, desde 1975, um ano após a instituição desse Conselho, perfazendo 15,88% do total de inscritos no CRP/03. Incluindo os dois Estados, temos 262 psicólogos que obtiveram o título de especialista junto ao Conselho, em diversas áreas: Jurídica, Trânsito, Psicomotricidade, Neuropsicologia, Psicologia Escolar, Psicopedagogia, Social, Esporte, Hospitalar, Organizacional e Clínica. Dentre essas, há 19 psicólogos especialistas em Psicologia Hospitalar nos dois Estados, três deles em Sergipe.

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