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Figura 2.11 – Adelídio.

A – (...) Para baixar a pressão, você está com pressão alta, põe na água e toma e baixa a pressão... Minha mãe era descendente de índio e ela era parteira, ela tinha muita experiência com os remédios do cerrado, para fazer garrafada para mulher; ela foi passando o conhecimento. Às vezes ela ia arrancar os remédios, e ia falando, isso serve para isso, serve para aquilo; aí agora eu arranco. Eu fui aprendendo, porque eu sabia que no mato, a gente tem que saber das ervas, para dar para pessoa da família, um amigo, um colega, então a gente vai buscando as ervas para chegar no socorro. Mãe falava: “vamos meninos no mato arrancar remédio”, ela falava assim.

A - Puaia é bom para tirar febre, você está com uma febre assim, está muito forte, assim por dentro do intestino, aí a febre vem, e o intestino é que infecciona, usa a puaia e a papaconha, faz um chá, ou para fazer um purgante...

R - E aquela bonita lá Adelídio, qual é? A - É a sucupira branca.

R - Roxinha daquele jeito lá, é branca? A - É branca.

R - É branca por causa do caule.

A - É, por causa do caule. Essa aqui chama amarelinha... os bichinhos já comeram tudo. R - E que planta é essa aí...

A - Chama amarelinha, ela é docinha... é bom para bílis, a raiz dela, arranca, faz o chá e toma; a raiz dela é amarga.

A - Aqui é uma espécie, ali já é outra espécie. Aqui tem um cerrado típico, cerrado aberto, então tem um cerrado aberto, seco, tem umas plantas aqui, e lá são outras.

A - Pimenta de macaco... é bom para botar na comida, na carne, dá um tempero gostoso, para colocar no feijão, no arroz. Bananeira do campo: é para diarréia, serve para um bicho,

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Adelídio Ferreira de Almeida. É apresentado aqui o trecho de uma trilha realizada com Adelídio, em 2004, no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, como parte do trabalho de campo do Projeto Oreádes. A representa a fala de Adelídio e o R Regina.

qualquer criação que tiver com diarréia, serve também, para gente... a tiririca, capim de tiririca... é bom para garganta inflamada.

R - Mas você já procurou e não achou alguma planta?

A - Lá fora do Parque não encontrei... está vendo... barba de bode, está desenvolvendo, ela é para queda de cabelo, pode bater no liquidificar junto com a mutamba, e lavar o cabelo para tirar a queda de cabelo. Baratinha...

R - Essa tem alguma utilidade medicinal?

A - Não tem não, só enfeite mesmo. Todas essas plantas são remédios, só que a gente ainda não descobriu, não é. Olha aqui, até o capim é remédio, porque o cachorro, quando ele está sentindo dor de barriga ele come o capim. Tinha um rapaz aí que ele era curador, era o único médico que nós tínhamos, a gente chamava ele Luiz curador. Ele tratava com erva medicinal, ele fazia o remédio, colocava o nome dos remédios nos vidros, aí a pessoa chegava lá e procurava por ele; falava os sintomas que a pessoa sentia, aquilo que pessoa estava sentido, ele indicava o remédio, ele indicava o remédio certinho; eu mesmo fui tratado com ele. Ele já teve ter morrido, porque ele era bem velhinho. Morava em Alto Paraíso, veio na época do garimpo. Agora tem um aí em Alto Paraíso, é o Tom das Ervas, está no lugar do Luiz, tem o remédio medicinal natural também. Ele vê você e dá o remédio, tudo do cerrado. Todo mundo o conhece lá (...) Esse é aqui é o murici, é bom para fazer suco. É uma frutinha pequena, para fazer suco, bom também para botar na pinga, para fazer pinga de murici.

R - Esse camdobá aqui serve para quê?

A – Camdobá, ele formava fogo, pega fogo sozinho. Inclusive nesse tempo agora [tempo de seca] você vê que provoca um incêndio, aí a pessoa pensa que foi gente que pôs, não... foi o candombá, o reflexo desse óleo que ele tem, ele desce nas folhas, aí vai refletindo o sol, aí vai esquentando, aí vai pegando fogo... Olha aqui o chapéu de couro...

R - Para que serve chapéu de couro?

A - Esse aqui é para dor nos rins. Tira até pedra dos rins. Esse é muito vendido.

R - Adelídio, lá perto da Vila, onde é que tem que vocês podem coletar se vocês precisarem de alguma coisa...

A - Lá perto da Vila, a gente pode tirar, se a gente quiser tirar algum remédio pode tirar, fora do Parque, eles autorizam a gente a tirar...

R - Mas lá perto da Vila tem?

A - Tem... todos esses tipos de remédios têm. Inclusive a gente está querendo levar esses remédios lá para nossa Associação, para a sede da ACVCV. Nós só temos assim no cerrado, mas a gente quer fazer em amostras em vidros, nós vamos fazer ainda. Eu vou coletar e vou

fazer e vou colocar os nomes para registrar esse trabalho, vou pedir para o menino registrar para mim...

R - E como é que você faz com seus filhos, você conversa ...

A - Eu converso, mostro para eles, e mostro como é que é. Porque eu dou aula. Já dei umas duas aulas para os guias mais novos; eu tinha um disquete, eu passava no computador, eu ia falando e mostrando. Mostrando as ervas, mostrando as plantas. Aí depois nós íamos para a prática, aqui no cerrado. Aí eu ia para o cerrado, e mostrava aquelas plantas que passei no computador, ia mostrar para eles no cerrado, pra que serve, tudo ao vivo. Muitos aprenderam, muitos mesmo.

R - Para quais guias você ensinou, tanto guia daqui como de fora. A - É...olha aqui o camdobá escorrendo.

R - Incrível...

A - Isso aqui é para bicho não assentar, para não comer a semente. R - E esse trabalho de dar aula para os guias, você ainda está fazendo?

A - De vez em quando em dou. Mas agora deu uma parada, porque eles estão treinando. Quando eles andam comigo, aí vou falando, repetindo para eles o nome das plantas, aí eles vão pegando de novo. Cada um tem que fazer vários estágios comigo. Aí vou informando sobre as plantas.

R - E seus filhos?

A - Eu ando com eles, ensino, falo. Tenho um menino mais novo que já é guia, eu tenho dois meninos que já são guia; falam bem, falam muito das plantas, qual o nome, para que serve, o que é manso, o que é brabo, o que é para tomar, o que é para passar; tudo eu explico para eles; não pode misturar, o que é para passar, é para passar... o que é para tomar, é para tomar. Eles vão aprendendo devagarzinho, mas vão...

R - Eles vão aprendendo a distinguir...

A - Canela-de-ema. Você passa a mão assim, olha, não tem nada, só que para cima, só para cima. Agora se você arrepiar aqui você se estrepa todinha.

R - É.

A - Assim você pode passar a mão nela toda. Assim estrepa... chama canela-de-ema. R - Essa daqui é qual?

A - Essa aqui chama tatarema... R - Ela tem alguma utilidade? A - Esse é o sarsafraz... R - Sarsafraz...

A - Esse aqui é bom para colocar em candeeiro, pega fogo direitinho. E a tatarema para colocar no fogo para espantar barata.

R - Este frutinho aqui, é o quê? A - Essa é a mangaba.

R - Mangaba, certo. São muitas, não é Adelídio! É planta demais. A - É planta demais, é planta mesmo.

R - Essa aqui é qual?

CAPÍTULO 3

TEMPO, LUGAR E SABERES DE

GARIMPEIROS, LAVRADORES E FAZENDEIROS

O povo antigo para trás caprichou, hoje não. Hoje o povo não quer nada, não quer produzir nada, não quer nada que presta só coisa errada, então não serve para labutar comigo. O povo de hoje não quer aprender nada. Não querem saber de nada sobre o prestígio das plantas, a gente tem que explicar, tem que pôr num livro explicando tudo, essas coisas das plantas é coisa de prestígio. Seu Domingos.

Neste capítulo são apresentados, na trilha da história, momentos da ocupação da Chapada dos Veadeiros, onde se constituiu o espaço da tradição: lugares que foram sendo ocupados, física e culturalmente, pelos moradores nativos da Vila São Jorge e outros; e como nesses lugares estão presentificadas suas experiências no e com o cerrado. Também é o momento onde são revelados, junto com aqueles moradores, saberes e fazeres tradicionais do cerrado, como elementos identitários que marcam a história de vida daqueles homens e mulheres. Essa trilha foi percorrida na intenção de revelar tempos e lugares em que a tradição dos saberes do cerrado se desenvolveu na história de ocupação de uma região, marcada por muitas fronteiras, isto é, por processos e projetos de ocupação diferenciados.

Na condução do entendimento sobre essa ocupação, recortes da história são trazidos para fazer uma apresentação desses tempos e lugares, sem, contudo, obedecer a uma linearidade temporal. Essa opção, sustenta-se nos próprios relatos, que entrecruzavam tempos (passado e presente), “o já-sido com a trama do atual” (MATOS, 2001), em diferentes espaços e contextos sócio-históricos.

As narrativas revelam experiências que têm como referência tempo e espaço, como dimensões constitutivas das lembranças (HALBWACHS, 2004). O tempo é trazido pelas memórias, não na sua expressão cronológica, mas como “tempos sociais” que recebem significados e valores pelo próprio grupo social. “O tempo é real somente à medida que tem um conteúdo, isto é, quando oferece um conteúdo de acontecimentos ao pensamento” (HALBWACHS, op.cit., p.136). Em relação ao espaço, ele é trazido neste estudo, como o lugar que recebe a marca do grupo e vice-versa. “(...) todas as ações do grupo podem se traduzir em termos espaciais, e o lugar ocupado por ele é somente a reunião de todos os termos” (HALBWACHS, op.cit., p.139).