Figura 2.6 – Seu João de Teodora.
Nasci em Alto Paraíso. Não existia carro aqui a não ser de boi. O carro que tinha aqui na fazenda era carro de boi, não existia nada de conforto aqui, nada. Era o que nos tivéssemos na roça, era o que nos tivéssemos na roça era esse. Dizer que ali tem o mercado pra nós irmos comprar, tem uma loja ali para a gente comprar uma roupa para vestir, não, não existia não. Tinha uns fazendeiros aqui da região e tudo tinha tropa, colocava cargueiro nos animal e ia para Formosa comprar as coisas: sal, arame, tecido pra vestir, tudinho era lá. Agora café tinha em muita chácara aqui não precisava não é. A gente mesmo plantava. Mas roupa tinha que buscar em Formosa e, antes de mim, dizem que ia buscar em Barreiras e Catalão. Cavalcante não tinha conforto nenhum também. Alto Paraíso não valia nada, não tinha nada. Eu lembro quando abriu a primeira loja no Alto Paraíso, aí tinha essa loja, tinha uns mascatizinhos por ali e aí que foi modificando.
Depois veio o garimpo da Estiva, aí já começou a melhorar para nós aqui, do garimpo da Estiva pra cá. Quando veio o garimpo da Estiva aí que começou a melhorar para nós. Vinha tudo de carro de boi, de São João da Aliança para cá, de Formosa vinha tudo de carro de boi para o garimpo, mas tinha muita coisa aqui, já comprava, já tinha onde comprar. Aí foi melhorando, quando pouco, apareceu outro garimpo que chamava Baixa, garimpo da Baixa. Aí foi melhorando, as coisas foram melhorando para nós, mas antigamente o que nós tivéssemos na roça era esse. No dia que acabasse era o tempo da colheita de novo para tornar, era vida pesada, era doida aqui.
Dinheiro era difícil demais só quando vendia um gado, muitas vezes não tinha nem o gado para vender, então era no cabo da enxada trabalhando para os fazendeiros para poder viver. Depois já foi melhorando, nós não íamos mais para o cabo da enxada trabalhar, já ia para o garimpo. Já ia para os garimpos no ato de trabalhar para os outros, já ia para os garimpos que fazia mais do que no ato deles, ganhar uma diária de um dia, lá a gente ganhava
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quatro, cinco diárias em um dia só, aí foi melhorando a vida nossa aqui, mas era doida a vida nossa.
Agora você vê, saí daqui para ir em riba dessa serra para trabalhar lá em cima. Era aí em riba dessa serra, tinha que trabalhar lá em cima. Aí tinha mais uns garimpeiros. Tinha uns garimpeiros que ficavam acampados lá na beira no rio, já eu saía acampava lá mais eles e trabalhava lá em cima.
Tinha dia que a gente ia e voltava, mas ficava meio pesado, então a gente acampava pra lá logo. Acampava lá e trabalhava. Lá para o fim da semana levava, vendia, comprava as coisas que precisava, trazia, tornava a voltar para o garimpo. Ate chegar à hora de ir para a roça, porque era a hora que nós escapulíamos da roça que íamos para o garimpo. É porque tinha que plantar para comer e o garimpo para ganhar dinheiro...
É para ganhar dinheiro. Aí nós vivemos, criei esses sete filhos, cinco meu e dois adotivos, ainda nessa luta. E tive a proteção de não morrer nenhum. O remédio era eu mesmo que cuidava quando adoecia; dava um chá, dava alguma coisa, viveu todo mundo, já está todo mundo casado, tem neto, tem bisneto; mas não levei um filho meu no hospital nenhuma vez, porque não tinha. Eu mesmo quando fui no hospital à primeira vez eu estava com cinqüenta e oito anos. Criei tudo aqui nessa roça. Os que interessam sabe, mas os que não interessam, não procuram para aprender não é [refere-se ao conhecimento das plantas].
Eu comecei com a idade de vinte anos. Eu comecei com essas coisas, mas eu acho que isso não era nem por mim não. Acho que isso foi um dote que veio, que Deus deu para mim. Não foi nem por mim, porque eu não tinha influência com essas coisas. A primeira vez que foi descoberto eu com isso, foi quando eu saí daqui e fui pra lá de São Jorge, lá na volta da Serra. Cheguei lá, tinha uma mulher sofrendo para ganhar, estava com oito dias. Aí eu cheguei lá vi ela gemendo e perguntei: O que fulana tem? “Tem oito dias que está sofrendo para ganhar o menino, mas não tem jeito. Já mandei lá em São Jorge buscar”, naquele tempo falava Baixa. “Mandei chamar fulana, mandei chamar beltrana e elas não quiseram vir. E a moça ficou aqui sozinha sofrendo”. Aí eu mais um companheiro meu, nesse tempo nos bebíamos umas pingas, chegamos com a garrafa de pinga e escondemos lá no mato. Aí falei com ele, vai lá pegar aquela pinga lá e trás pra mim. Ele foi e trouxe. Eu saí assim no terreiro, arranquei uma raiz, rapei, tomei da pinga e dei a ela. Aí mudou; quando foi assim lá para as 12 horas da noite o menino nasceu. Aí o povo todo curtindo, foi curtindo comigo com esses negócios. E Deus foi me ajudando e graças a Deus nenhuma pessoa morreu em poder nosso, e eu sempre ajudando as parteiras, nunca morreu uma. A derradeira que eu ajudei a olhar foi a filha de uma cunhada minha. Ela já está moça, foi a derradeira que eu ajudei a olhar.
Não tinha médico, aqui nessa região não tinha médico em lugar nenhum. Aqui se não fosse pelo remédio de raiz. O que o remédio de raiz desse conta, sarava, e o que não desse morria. Morria gente nova, morria menino, tudo, porque não tinha socorro nenhum. Aqui eram os raizeiros, eram aquelas pessoas que sabiam dar o remédio, porque tinha os raizeiros e tinham outros que entendiam, que sabiam dar outro remédio para cortar uma febre era com remédio do mato, tudo que fosse era com o remédio do mato. Na hora que aquele não desse jeito, o remédio era morrer. Por aqui tinha um bocado de raizeiro.
Os raizeiros são aqueles que trabalham de profissão, de raizeiro. E tinham as pessoas entendidas que às vezes compreendiam um remédio para fazer um chá, para fazer um remédio caseiro, assim eram os entendidos, que sabiam dar o remédio. Aquelas mulheres parteiras eram entendidas, quando uma mulher estava com problema assim, aquela mulher parteira era entendida naquele encontro da mulher e dava o remédio; e tinha os raizeiros de profissão mesmo, que chamava de curador. Eu faço alguns benzimentos.
Curador era pouco, não tinha muito não. Às vezes vinham uns de fora, entrava pra cá. Agora aqui nesse vão tinha uns dois, tinha uns três ali da Capela. Esses três de lá, já morreram todos os três. Geraldão, Salviano, Juliano, Martinzão, João Viola. Tudo era raizeiro. Aí com cada um desses, eu pegava uma instruçãozinha.
Tinha raiz que eles davam o sintoma da rama e não me mostravam; às vezes não tinha tempo de me mostrar. Eles davam o sintoma da rama e eu ia estudando, no campo, olhava, olhava... Que jeito é a raiz, que jeito é a folha, aí eles falavam, pois eu batia até pegar. Uma vez teve um raizeiro do Silêncio que passou para mim uma tal de batata de sucupira. Ela é boa para inflamação. É para coluna também, qualquer tipo de inflamação. Diz que cura até bico de papagaio.
Os remédios eu vou catar no mato. Para mulher é roseta, tem um ramo que uns chamam ele de bureré, mineiro chama ele mama-cadela. Tem a batatinha do campo, tem o algodãozinho, tem a salsa barriga, tem o pé de perdiz. Eu conheço a batatinha de perdiz também. Eu mesmo preparo os remédios só com coisa do cerrado. Só do cerrado. Não tem outros preparos de jeito nenhum. E só do cerrado.
Ali aonde nós nos encontramos tem um bocado de ramo que eu posso te mostrar [indica a entrada de suas terras]. É só eu ir vendo os ramos que eu vou lembrando. Eu vou lembrado e não dou conta deles tudo, para lembrar tudo assim... Mas quando eu vou vendo eu vou lembrando.
Neste pasto aí tem um bocado de tipo de raiz que eu posso te mostrar e te explicar para que serve: batata de sucupira, ela é uma ervança assim, ela dá umas raizinhas assim... Ela
não dá uma árvore grande, não. Ela dá na mata. Às vezes a gente está trabalhado na roça assim e a gente arranja uma batata dura parecendo um coco.
Aqui se uma pessoa chega procurando por um remédio, eu já sei onde é que tem, e vou buscar. Às vezes se eu não estou agüentando ir, eu falo assim: vai a tal lugar assim, assim e arranca tal remédio lá assim, assim e trás pra mim.
Esses dias, atacou uma dor nesse pé que eu não andava. Aí minha filha chegou aqui e falou: “pai, vamos para Colinas”. Chegou lá passaram um remédio pra mim que piorou, porque atacou a dor no estômago. Aí cheguei, falei para o meu irmão que estava aqui: vai lá na beira da grota, em tal lugar assim, assim, arranca um japecão que tem lá, que ela tem um espigão grosso assim, você arranca lá e trás pra mim. Ele foi lá arrancou trouxe. Aí eu arrumei a garrafada tomei, sarou. Eu melhorei mesmo foi das raizadas.
Esse remédio é bom para verme, para gripe, para febre, corta qualquer tipo de febre. É de beira de casa mesmo. Essa mulher minha sofreu uma febre hepatite uma vez, que estava eu e ela na beira do rio Preto e as crianças. Aí ela deu a febre hepatite. Eu fui dando a ela esse remédio, fedegozão com a batata de saracura e raiz de bicão, dei pra ela, até que ela foi paliando, paliando, cortou a febre, até que ficou ela e outro cara que mora lá nas Lages, só esses dois que escapou dessa febre, dessa vez que eu que dei o remédio. Esse fedegozão corta qualquer tipo de febre, é para verme também. Para verme arranca a raiz dele e faz o chá.
Essa é a marmelada, esse aqui é remédio para inflamação de urina. Marmelada grande, tem uma que chama marmelada de gado. A pessoa que tem inflamação de urina, problema no rim, pode pegar essa fruta aqui, machucar ela, por para ferver, fazer o chá e tomar. Pode tomar o chá até com doce mesmo não tem problema nenhum. Para inflamação de urina não tem melhor.
Esse aqui chama sangue de Cristo, quando dá inflamação na pele, a pessoa fica com a pele toda empolada, ferve essa folha, dá um banho ou em criança, gente grande, seja o que for, dá banho, toma um pouco do chá também. Não existe remédio para curar inflamação de pele melhor do que esse.
Esse aqui é gervão. É remédio para os rins também, inflamação de rins, arranca a raiz dele, amassa e ferve, assim para tomar por infusão. Essa aqui chama erva lagarta, uns conhecem por arueirinha. Bom para tosse e problema de inflamação também. Aqui é o pé de perdiz. Aqui é o bureré que eu trato, que o povo chama de mama-cadela.
Aqui a canela de saracura, que eu estava te dizendo, é para inflamação também. Esse aqui chama pau santo, para veneno de cobra, para inflamação. Mulher assim com corrimento. Ele é bom pra corrimento.
Esse aqui é caroba: é remédio para sífilis, depurativo de sangue. Esse aqui é o pau terra: cura gastrite, úlcera e fígado. Essa aqui é a negra-mina: bom para reumatismo e constipação. Sucupira branca, boa para diabete. Congonha de Bugre: para o rim, para bexiga, para chagas de coração.
Tem os lugares certos de achar? Tem remédio que tem aqui que lá do outro lado do rio não tem. Tem remédio que tem lá e aqui não tem.
Esse raminho aqui chama Garapiá, serve para febre, para gripe. Esse aqui a pessoa está com um tumor e não que furar, arranca a batata dele e racha, põe no tumor em num instante fura. Uns conhecem ela como parreira, outros como pé-de-galinha.
Licuri, é bom para pressão alta. Pata de vaca, bom para diabete. Esse é o amoroso ou carrapicho, para prisão de urina. Às vezes está preso não quer soltar, faz um chá desse capim, desse carrapicho e toma que solta. É carrapicho de carneiro; esse aqui nós chamamos de carrapicho barra de saía, barra de calça, ele prega e não saí mais (...)