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Figura 2.10 – Edson e Camila, neta de Dona Maria Chefe.

(...) Tem o gervão, que ele é bom para infecção, também para a pessoa tomar, faz um chá, tanto faz da folha como da raiz, tira o sumo. Só que esse não é do cerrado, ele dá mais é caseiro, mas só que ele é pé nativo. Tem o mastruz; se você levar uma pancada que junta o sangue num lugar, toma e ele esvanece aquele sangue. Você pode tomar o sumo. É uma beleza o mastruz. Tem o picão, também ele é nativo da terra, é também o remédio que se você está com infecção é bom. A pessoa toma, limpa o organismo; é bom para os rins. Isso foi através do pessoal mais velho, falava “eu vou rançar esse mato aqui para fazer um remédio para você” e a gente vai conhecendo.

Nós somos nativos aqui do lugar, e tem um remédio no cerrado que é uma beleza, aí aquela pessoa vai com a gente; chega lá, a gente tira, aí aquela pessoa já passa a saber. Assim, se eu preciso, eu vou até o cerrado procuro, até eu encontrar. Igual a essa quininha mesmo. Esses dias eu precisei, aí eu vou no mato tiro as raízes. Ela é para abrir o apetite. Aí passa a usar; pode ser no biotônico; amassa ela bem, coloca dentro ou então no vinho branco, amassa bem amassado, coloca dentro e passa a tomar duas, três vezes por dia. Ela é muito boa para essa parte. Aqui tem fumo-bravo com que a gente se trata também. Às vezes a pessoa está com dor de dente que dá aqueles inchaços, aí bochecha com ele, é uma beleza, vai desinflamando e quando vem a cura. Ele é mais do caseiro também. É um remédio muito bom.

Aqui tem as mulheres que vão para os matos para arrancar os remédios. A gente trazia lá do mato para a gente manter em casa. Nós usávamos o sabão; e a coisa que a gente usava para fazer é o coco, porque naquele tempo, a situação era meio difícil: nós não tínhamos gordura em casa e pegava o coco, quebrava e torrava. O coco indaíá; ele é da beira do rio. Ele tem uma castanha dentro, a gente quebrava, torrava e ia para o pilão, socava e tirava, porque ele dá o óleo. O óleo dele é uma beleza. Fazia o óleo para temperar a comida,

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botava no arroz, feijão, porque às vezes a situação estava muito difícil, porque não tinha concorrência de muito dinheiro, não. Então a gente usava em casa, trazendo do mato.

A gente fazia bolo, porque é a mesma gordura, porque dá um óleo fininho que é uma beleza, um óleo alvinho. Tem que machucar, pegar o coco, torrar um pouco no forno, vai para o pilão, soca bem socado, aí coloca no fogo, vai soltando a gordura, vai ficando por cima, vai tirando com uma concha.

Lembro demais a gente usando. Eu mesmo ia pegar no mato. E tem o baru, que dá a castanha também, só que o paladar do baru já é diferente. Ele dá mais aqui na parte do vão. O baru, a castanha dele, também dá óleo, a gente amassa faz igual ao coco. Pois é, nós quebrávamos o baru e fazíamos esses preparos, preparava comida, e comia também o baru. Ele também serve para remédio. Ele dá mais em cerrado, ele não dá em mato, ele gosta do cerrado.

A mata é muito escura e muito fechada e as árvores são sempre bem altas, e o cerrado é baixo e ralo, aí está a diferença. E tem a diferença dos remédios, das coisas que a gente encontra na mata, e que só encontra no cerrado. Tem essa diferença: tem remédio que tem na mata, não tem no cerrado; às vezes tem remédio que tem no cerrado, não tem na mata, igual o jatobá de duas qualidades: tem ele da mata e tem ele do campo. O da mata, por exemplo, só serve para tirar o vinho dele; você fura a árvore e você tira o vinho do jatobá; e o do cerrado, a fruta dele, serve para você tirar a massa para fazer o bolo, que é uma beleza.

Essas explicações que eu estou falando, é porque a gente já nasceu e criou convivendo com os pais da gente, já nasceu igual. A gente nasceu e criou aqui nesse interior do Goiás na beira do rio São Miguel. Então a gente cresceu naquilo, o pai da gente ensinava as coisas da mata e do cerrado, aí a gente vai crescendo, outras pessoas mais velhas que nós convivíamos juntos, a gente foi crescendo e foi aprendendo. Outra hora, precisava de qualquer remédio, aí a gente já estava sabendo qual era o que podia dar: uma casca de pau para sua mãe, vai lá e arranca; um pedaço de pau para fazer um chá para seu irmão, então a gente cresceu nisso.

Olha, quando o turismo veio para cá o que acontece é que essa parte antiga que usava, aí a gente foi deixando para trás, foi deixando, deixando, deixando. Então é igual a antigamente, o serviço que a gente mais tinha, que era o garimpo cortaram a gente.

O que acontece hoje é que muitas pessoas já esqueceram certo tipo de remédio. A gente hoje em dia não ensina quase para os filhos, devido ao local onde se mora. Antigamente a gente morava na roça, aí a gente já sabia onde tinha aquele pé de árvore, onde tinha aquilo, porque às vezes era perto de onde a gente morava. Tem remédio que tem aqui em cima, que

não tem nesse cerrado aqui dentro de São Jorge. Então fica difícil para a gente ensinar outra hora os filho, que está estudando. Eles já começaram a incutir na cultura do estudo, aí, ele já vai para Brasília, outros vão para Goiânia, aí fica aquela história... fica difícil para a gente explicar. Os filhos crescem e às vezes não sabem o que o pai sabe, às vezes não sabem quase nada, não é? Os filhos da gente estudam, e a gente não sabe nada numa parte, às vezes a gente é mais do que eles por causa dessa parte das plantas do cerrado, não é? Porque às vezes eu tenho um filho, ele chegou a um ponto que aqui não tem escola para ele; ele passa a estudar em Brasília ou Goiânia. Ele chega aqui não vai conhecer uma árvore dessa que eu conheço. Às vezes ele é mais do que eu no estudo, mas nessa parte assim da medicina para conhecer um mato, eu conheço mais do que ele que é mais estudado, e às vezes até formado. A gente tem um conhecimento ele tem outro (...).