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The output gap as a useful indicator of inflation

In document Norges Bank Watch 2004 (sider 57-63)

Foi mencionado pelo entrevistado que os conflitos conjugais entre ele e Rita se iniciaram com o nascimento de Marcos. Como motivos desses problemas, Antônio citou que, com a gravidez, ocorreu uma diminuição na autoestima de Rita, que passou a se sentir insegura no casamento e a apresentar acentuado ciúme. Aliado a isso, o entrevistado considera que contribuíram para o incremento dos ciúmes da então esposa o fato de ele ter mantido contato, por certo período, com uma mulher com quem estabeleceu um relacionamento durante a fase em que estava se aproximando de Rita, e um email trocado por ele e uma ex-namorada, que teria sido visto pela então esposa.

Explicou que buscava amenizar tais sentimentos de Rita sendo carinhoso, tecendo elogios a ela e não deixando de buscar relacionamento sexual com ela durante a gravidez, levando-nos a observar que, para ele, esses comportamentos se constituíram como uma forma de deixar a esposa mais segura e de evitar conflitos com essa senhora. Contudo, Antônio menciona que essas atitudes não foram suficientes para dirimir tais

sensações, tendo em vista que Rita teria passado a demonstrar maior desconfiança quanto à fidelidade conjugal e a controlar a vida dele, monitorando seus horários, gastos e telefonemas.

“[...] Ai depois que o Marcos nasceu que começou [sic] as confusões...”.

“Nossos conflitos... depois do primeiro ano de casamento, né?! Ai o Marcos nasceu [...] Começou assim [...] Ela era muito ciumenta... eu não podia chegar naquele horário... [...] Pra mim [sic] sair, tinha que sair com passcard, e não podia sair com dinheiro, com cartão de crédito, nada...”.

Indicou também que a então esposa teria desenvolvido depressão pós-parto, tornando-se bastante agressiva, e que apresentava alterações constantes de humor, tornando a convivência difícil.

“Ai depois que o Marcos nasceu começou [sic] também as, começou assim a... ela ficou depressiva, sabe?! Foi depressão pós-parto, ai disso tudo, a depressão dela, ai teve [sic] as crises, no meio dos anos, começou [sic] as crises dela...”.

“Sempre buscando um defeito, sabe? E nunca tá [sic] perfeito, nunca tá [sic] bom, nunca tá [sic] bom. E mudança de humor repentina, sabe?! Ai... isso me... e eu ficando cada dia mais sufocado com aquilo, né?! Nunca tava [sic] bom, nunca tava [sic] perfeito, né?! Nunca dizia uma coisa boa e sabe... e os conflitos era [sic] assim: de uma hora pra outra ela tava bom [sic] e de uma hora pra outra, ela mudava o ambiente, mudava o humor dela. [...] Porque eu gostava dela, gostava do jeito dela, mas não suportava o mau humor dela, as mudanças de humor...”.

Assim como Rita, Antônio associa o início dos conflitos conjugais ao nascimento do primeiro filho. Entretanto, trazem explicações um pouco diferentes em relação a essa mudança. Rita considera que o principal intuito de Antônio com o casamento era ter um filho e que, quando esse senhor alcançou seu objetivo, teria mudado de postura e de estilo de vida. Enquanto para essa senhora o marido se tornara uma pessoa mais grosseira, passara a chegar mais tarde em casa e a trai-la; para ele, a esposa teria se tornado mais insegura e ciumenta, o que passou a gerar conflitos. Apesar de estritamente relacionadas, essas diferenças de percepção podem provocar intensos desacordos nos relacionamento, assim como é o caso aqui referido.

Vale apontar que o nascimento de um filho acarreta inúmeras mudanças na vida de um casal, com o surgimento de situações novas e demandas diferentes, com as quais os cônjuges terão que aprender a lidar. A chegada de uma criança provoca também o nascimento de novos personagens na identidade dos sujeitos, que deixam de ocupar o lugar unicamente de filhos para se tornarem pais e mães. Junto a isso, as

diferenças de valores e opiniões nos cuidados e na educação dos descendentes poderão contribuir para a emergência e o acirramento dos conflitos conjugais.

Segundo Antônio, o relacionamento dele com os filhos do primeiro casamento de Rita também se constituiu como uma das causas dos problemas conjugais entre eles, visto que buscou exercer a função de pai, mas que não houve aceitação por parte dos adolescentes, gerando conflitos. Além disso, nosso entrevistado considera que os jovens sentiam ciúmes da mãe, por essa senhora dirigir sua atenção à ele e ao filho recém-nascido.

A experiência de um recasamento traz características diferentes em relação às vivências de um primeiro matrimônio, principalmente quando existem filhos oriundos do primeiro relacionamento. Após uma separação, a família vivencia um processo de (re) organização, (re) construindo seus próprios valores, rotinas e formas de relacionamento, desenvolvendo modos singulares de lidar com as dificuldades, com os problemas que surgem em seu cotidiano e, independente de com quem as crianças permaneçam morando, a chegada de um (a) novo (a) companheiro (a) irá alterar a dinâmica da família. Além dos valores dos ex-cônjuges, os pais, na condução da educação dos filhos, adiciona-se, nessa realidade, a cultura de um terceiro (e as vezes um quarto): os (as) novos (as) companheiros (as).

A chegada de um novo marido, uma nova esposa provoca a entrada em cena de um novo mundo, que irá se confrontar com o mundo dos filhos oriundos do relacionamento anterior e com o do pai/mãe que se torna cônjuge pela segunda, terceira... vez. Quando o pai ou mãe se envolvem em um novo relacionamento, os filhos podem se sentir postos de lado ou negligenciados pela atenção direcionada ao novo cônjuge (WALLERSTEIN; BLAKESLEE, 1991).

As tentativas de nosso entrevistado de contribuir com a educação dos filhos de sua então esposa não foram bem recebidas pelos adolescentes, que, segundo informado, passaram a interferir no relacionamento entre o (ex) casal. Seu mundo, com seus valores, chocou-se com o mundo dos jovens, contribuindo para o acirramento dos conflitos conjugais.

Diante desse contexto, algumas perguntas se fazem importantes: qual o lugar do novo companheiro na educação dos filhos, principalmente quando o genitor não guardião não se faz presente? Como pai e mãe poderão mediar as necessidades e o relacionamento entre os filhos e o (a) novo (a) esposo (a)? E como mediar a relação

entre o atual e o ex-cônjuge? São algumas das questões que podem surgir no cotidiano das famílias que vivenciam um recasamento.

Um novo casamento “[...] adiciona novos problemas e novas tensões, juntamente com satisfações e estabilidades.” (WALLERSTEIN; BLAKESLEE, 1991, p. 292). Isto é, uma nova relação conjugal, apesar de poder propiciar conforto para as pessoas que vivenciaram uma separação, poderá também trazer novos conflitos, novos desafios a serem enfrentados e superados. No caso em tela, parece-nos que a família teve dificuldade de lidar com esse novo contexto, com as diferenças de valores introduzidas pelo novo membro, o que acentuou os conflitos entre o entrevistado e Rita.

Outra queixa referida por Antônio era a constante comparação, realizada por Rita, entre ele e o primeiro marido dela, Rodolfo. Segundo informado, a comparação era tamanha que essa senhora às vezes se dirigia ao então esposo pelo nome do anterior.

“Interessante, tudo que ela [...] falava era em relação ao outro casamento dela... ela sempre comparava... ‘ah, o outro casamento foi assim, ele fazia desse jeito...’, sabe?! Às vezes na discussão, chegava e chamava o nome do outro. Me chamava de Rodolfo”.

Essa fala nos sugere que o primeiro casamento deixou marcas em Rita, as quais eram atualizadas, revividas na relação com o segundo esposo. A história vivida em um relacionamento, o encontro íntimo com o mundo do outro traz muitos aprendizados, incluindo ai alegrias, sofrimentos, frustrações, decepções, os quais, não raro, influenciam a (s) relação (ões) seguinte (s). Muitas vezes as experiências anteriores podem trazer consigo elementos que contribuem para o desenvolvimento dos relacionamentos, porém, outras podem trazer prejuízos, desconfianças, ressentimento, dificultando o estabelecimento de vínculos autênticos e profundos.

Pela fala de Antônio, é como se Rita não distinguisse satisfatoriamente a vivência do primeiro e do segundo relacionamento, atualizando as experiências do passado no presente e relacionando-se com o ex e o atual marido, em certa medida, de forma indiferenciada, como se tivessem a mesma postura, como se fossem a mesma pessoa.

Antônio explica também que, em uma das separações entre ele e Rita, procurou conversar com Rodolfo, para que ele fosse sua testemunha e para tentar compreender melhor a esposa, bem como a dinâmica do primeiro casamento, mas que essa senhora tomou conhecimento disso e não gostou.

“[...] ela falava uma coisa, só que a vivência era diferente, sabe?! Ai eu fui, fui com ele, no dia que eu tava [sic] me separando, me separei, né?! Que eu tava [sic] querendo a guarda dos

meus filhos, eu queria testemunha, ai fui falar com ele. [...] Então, eu [...] procurei ele pra saber como é que era conviver, porque, o quê que não deu certo o casamento deles. A verdade foi essa”.

Nesse contexto, mais uma vez apontou sua percepção sobre a atitude da esposa, de misturar as experiências dos dois relacionamentos:

“Ela achava que eu, [...] nós dois [Antônio e Rodolfo] tamos [sic] [...] comunados [sic] [mancomunados] contra ela [...] quer dizer... a figura [...] que ela tinha do, que era o mal, né, das história [sic] toda, era eu, ai então... [...] se plenificou. É... posso dizer assim, é... a personalidade se petrificou, entendeu?! Era uma pessoa só, ela achava que eu era parecido com ele, então, os dois são a mesma pessoa”.

Rita também citou essa aproximação em sua narrativa. Contudo, para ela, o objetivo dessa união era provocar a sua destruição, enquanto nosso entrevistado explica que seu principal intento era conhecer melhor a história da esposa, além de conseguir uma testemunha favorável ao seu pedido de guarda dos filhos. Considerando que o modo como interpretamos a realidade interfere diretamente em nossa atuação sobre ela, não é de estranhar que essa leitura de Rita tenha influenciado suas ações posteriores no relacionamento com o então marido, no sentido de se proteger, por estar se sentindo ameaçada, o que, por certo, contribuiu para o acirramento dos conflitos.

Foi mencionado ainda por Antônio que os conflitos conjugais eram presenciados pelos filhos, tendo em vista que Rita não se preocupava em preservar as crianças, e que Marcos costumava chorar nessas situações. Acrescentou que essa senhora falava em elevado tom de voz, que não ponderava as palavras a serem usadas e que já o agredira fisicamente. Explicou que buscava manter a calma e que esse seu comportamento irritava ainda mais a companheira.

“[...] tivemos uma briga com a mãe dos meus filhos, ela já bateu em mim na frente do meu filho, entendeu? E quando ela discute, discutia na, com a criança, ela discutia na frente dos meninos. Então, eu nunca vi isso, eu nunca, sabe?! Tentava poupar meus filhos. Foi por isso que eu também não aguentei ficar dentro de casa... num [sic] aguentei tá [sic] naquela casa”. “Ela não media as palavras... falava o que falava... e... pode ser na frente de qualquer um. [...] na frente dos meninos pequenos também... do Marcos principalmente. Ai o Marcos começava a chorar, né?! [...] Eu sempre na minha calma, né?! [...] e ela ficava com mais raiva ainda porque eu não me alterava, né?! E eu nunca dei motivo a ela, pra ele gritar... [...] os conflitos dela era assim, por besteira brigava... por besteira brigava...”.

Antônio afirmou preocupação com o fato de os filhos presenciarem conflitos entre ele e Rita, revelando a compreensão de que é necessário preservá-los

dessas situações, por considerá-las danosas para o desenvolvimento deles. A literatura especializada nessa temática aponta que os conflitos conjugais interferem no desenvolvimento infantil, mas que seus efeitos sobre a prole dependem de inúmeros aspectos, como as características dos filhos, o nível dos conflitos e o modo como o casal lida com essa situação. Dependendo disso, esse contexto poderá gerar consequências negativas ou positivas para as crianças (RAPOSO et al, 2010).

O entrevistado referiu que, após conhecer mais sobre o mundo da esposa, buscou participar, junto com ela, de um grupo de casais, organizado pela Igreja que frequentavam, com o intuito de aprenderem a se relacionar melhor e a lidar de forma mais adequada com os conflitos entre eles.

“No grupo de casais, era bom porque todo mundo conversava [...] [os seus] problemas...”. “[...] era encontro de casais, né?! Ai tinha os encontros semanais né?! [...] ai tinha um espaço que a gente sentava pra conversar, pra, pra tentar [...] conciliar o conflito, né?!”.

Era um espaço em que podiam falar sobre seus problemas e ao mesmo tempo ouvir as experiências de outras pessoas que vivenciavam dificuldades conjugais. Contudo, segundo informado, o então casal não deu continuidade ao processo grupal, pois Rita teria sentido-se afrontada por um dos integrantes do grupo.

A partir dessas experiências, o entrevistado relatou ter começado a perceber que os problemas não estavam localizados somente nele, mas que a esposa também apresentava dificuldades.

“Ai eu tentando descobrir o porquê e me culpava: o problema tava [sic] comigo, sabe?!”. “Ai eu fui vendo que [...] o problema de tudo, antes de eu descobrir, eu pensava que o problema tava [sic] em mim, né?! Só que a gente não casa só. A gente casa, precisa de outra pessoa pra casar, pras coisas se darem bem, né? Se dependesse de mim, tava [sic] ótimo”.

Antônio afirmou ter se sentido culpado por bastante tempo pelos problemas conjugais e pelos conflitos pós divórcio, somente conseguindo se desvencilhar dessa lógica ao vivenciar um processo de análise, depois da separação.

“Eu me culpava às vezes... será que é comigo? [...] o que tá [sic] errado em mim, sabe? [...] Eu me culpava [...] ai, eu fazendo análise [...], eu vi que tirasse a culpa de cima de mim, sabe?”.

Em nosso cotidiano profissional, percebemos que a busca por culpados na separação é bastante recorrente. Uma vez localizando-se o responsável, este deve ser punido, o que geralmente ocorre por meio do relacionamento com os filhos, que passa a ser prejudicado.

Esse modelo foi estimulado até bastante recentemente por nosso ordenamento jurídico, ao ser determinado que a guarda dos filhos deveria ser concedida ao cônjuge não culpado pela dissolução conjugal, o que aconteceu até o Código Civil de 2002, levando-nos a perceber que as normas anteriores contribuíram para o estabelecimento e a perpetuação dessa lógica por tanto tempo em nossa sociedade.

Nosso entrevistado asseverou que Rita ainda nutria sentimentos pelo ex- cônjuge, Rodolfo, e que somente quis casar-se para provar ao ex-marido que estava bem, com um novo relacionamento. Por outro lado, Rita traz em sua fala a percepção de que Antônio somente quis casar-se com ela para ter um filho. Cada um traz uma explicação, baseada em suas próprias interpretações acerca das atitudes do outro e toma esse argumento como verdade.

Antônio explicou ainda que propôs que eles mudassem de residência e de bairro, por considerar que Rita ainda estava muito ligada ao ex-cônjuge, como forma de propiciar outras vivências à esposa, e por considerar que a casa onde viviam não era apropriada para o filho recém nascido. Inicialmente foram residir na casa da mãe dele e posteriormente alugaram outra casa, perto de onde essa senhora morava. Para Rita, essa atitude do então esposo consistiu-se em uma tentativa de lhe tomar o filho, pois, ao ficar perto da mãe, teria o apoio dessa senhora.

In document Norges Bank Watch 2004 (sider 57-63)