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4.3.1 METODOLOGIA

Para esta etapa da pesquisa, foram seguidos os seguintes passos metodológicos, apresentados nos itens que descrevem a coleta de dados e amostragem, materiais e instrumentos utilizados, planejamento e desenvolvimento das oficinas, montagem da tabela de categorias de consciência linguística, e os resultados da primeira etapa da pesquisa.

4.3.1.1 Coleta de dados e amostragem

Os dados da primeira etapa da pesquisa foram obtidos a partir de gravação de áudio-vídeo de nove oficinas de poesia e consciência fonológica, ministradas pela pesquisadora, realizadas de junho a novembro de 2013, na turma composta por vinte crianças do primeiro ano do Ensino Fundamental do Colégio de Aplicação (Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS). Este grupo era formado por onze meninos e nove meninas. Esta amostra possui características heterogêneas, pois os alunos do Colégio de Aplicação (UFRGS) ingressam na escola através de sorteio público e provêm de contextos sociais e econômicos bastante variados, desde uma condição de classe média até níveis de pobreza significativos. Isto influencia sua vivência familiar e cultural, e gera reflexos no seu desenvolvimento afetivo, cognitivo e linguístico, bem como nos seus padrões de letramento.

Os responsáveis dos ingressantes na escola preenchem, no momento da matrícula, um Requerimento de Matrícula e um Termo de Autorização para a participação em pesquisas e uso de imagens, com preservação da identidade, já que os Colégios de Aplicação se caracterizam pela pesquisa e o desenvolvimento de novas tecnologias de ensino, estando vinculados a Universidades Federais. Para a utilização destes dados foi preenchido o Termo de Responsabilidade sobre Utilização de Dados pela pesquisadora e por sua orientadora, bem como encaminhada à Direção do colégio uma Carta de Conhecimento e Autorização da Pesquisa. Também os responsáveis pelos alunos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (APÊNDICE E).

Em função desta ser uma pesquisa-ação, e envolver atividades sistemáticas em sala de aula, é importante referir que este tipo de oficina já vinha sendo realizada por esta autora desde 2010 nessa instituição, e costuma estar presente nas atividades pedagógicas dos alunos, tendo boa aceitação e incentivo por parte das professoras que atendem essa faixa etária. Outro aspecto relevante para o desenvolvimento desta pesquisa é que, como parte da equipe escolar, a pesquisadora é uma profissional com quem as crianças se acostumam a transitar na escola, o que facilita a aproximação com o grupo, mesmo que neste caso esta relação seja recente, pois se trata do primeiro ano destes alunos no Colégio.

4.3.1.2 Materiais e instrumentos utilizados

Para a realização das oficinas, foram utilizados livros de poesias infantis que reúnem autores clássicos, sendo o poema escolhido para cada oficina digitado em folha de ofício colada a um papel cartaz colorido, para fácil visualização das crianças. O conjunto de poesias trabalhadas em sala de aula também foi distribuído por escrito a cada criança, após já terem sido apresentadas a elas. Materiais como bolinha macia, papéis coloridos, cola, glitter, canetas coloridas, entre outros, foram utilizados de acordo com o teor de cada encontro e a atividade prática que este envolvia.

O registro audiovisual das oficinas foi de responsabilidade de aluna do último ano do Curso de Fonoaudiologia, em Projeto de Extensão no Colégio de Aplicação (projeto cadastrado no Portal de Extensão da UFRGS sob o número 22936 - Documentação e Desenvolvimento da Fonoaudiologia Escolar no Colégio de Aplicação da UFRGS), utilizando prioritariamente a câmera filmadora Panasonic modelo SDR-T51 e, quando necessária a complementação de imagens, tanto de vídeo quanto fotográficas, a câmera Sony modelo DSC-H2. Estas câmeras pertenciam à pesquisadora.

É importante salientar a necessidade do preparo de quem realiza este tipo de gravação, especialmente com relação ao tipo de atividade de linguagem proposta e aos seus objetivos, a fim de que seu olhar direcione e selecione fatos linguísticos relevantes da mesma.

As transcrições das gravações foram realizadas pela pesquisadora, pois estas requeriam análise minuciosa de imagens e de falas que pudessem ser selecionadas a partir de sua pertinência à temática e afinadas aos referenciais teóricos propostos, e que poderiam passar despercebidas por alguém que não dominasse as questões que estavam em jogo no processo de linguagem enfocado.

A transcrição teve os seguintes critérios e formas de realização dos registros:

- as falas da ministrante foram identificadas como “Cla”, as da extensionista como “Tâmis”, e as das professoras presentes como “profe” (nome);

- o registro de cada fala foi precedido pelas iniciais/nome reduzido do interlocutor; quando não identificável, por ficar fora do ângulo de gravação, foi nomeado como “aluno”;

- foram registrados movimentos não verbais significativos no contexto, como: aproximações e afastamentos das crianças da situação principal de comunicação, gestos utilizados junto com sua fala, expressões faciais como movimentos da boca, risadas, movimentos rítmicos com o corpo, entre outros;

- a transcrição foi realizada com a maior fidelidade possível ao que estava sendo dito (registros na maioria das vezes não são fonéticos, mas com a escrita identiicando a forma de falar), incluindo o registro de pausas (/- curta; //- longa), entonações (descrita entre parênteses), ênfases (sublinhado), prolongamento de vogais ou consoantes com a repetição dos grafemas;

- reações da turma ou de alunos específicos foram registradas entre parênteses, após a fala descrita, como risadas, agitação do grupo, entre outras;

- os trechos ininteligíveis na gravação foram marcados com (???);

- as oficinas com atividades de escrita em duplas ou grupos foram registradas acompanhando momentos aleatórios dos grupos, a fim de focalizar falas, buscando registrar um momento significativo completo de diálogo antes de deslocar-se para outro grupo de trabalho.

Estes procedimentos possibilitaram a identificação de reflexões externadas pelas crianças em sua forma espontânea e original, permitindo detectar dados pertinentes para a análise da pesquisa e relacioná-los aos conceitos teóricos desenvolvidos no corpo do trabalho.

Foi digitado um total de 243 páginas em fonte arial 12, resultando uma média de 27 páginas de registro de cada oficina. Era feito também um relato do desenvolvimento da oficina tipo “diário de campo”, com os fatos principais e contextuais daquele dia de atividade (exemplo: no dia em que foi trabalhada a poesia dos Pintinhos, eles tinham acabado de acompanhar pela vista de sua janela os filhotinhos de quero-quero se alimentando com minhocas, tema que é tratado no poema também). Os poemas escritos pelas crianças foram transcritos ou

digitalizados para documentação. Uma amostra de transcrição de oficina pode ser encontrada no apêndice A (oficina 1 – Coisas Esquisitas).

4.3.1.3 Planejamento e desenvolvimento das oficinas

As oficinas ocorreram numa frequência aproximada de uma vez por semana, em sala de aula, com duração de cerca de 50-60 minutos, envolvendo todo o grupo de crianças presentes. No início deste projeto, as crianças foram informadas de que iriam trabalhar com poesias nas oficinas e também sobre o dia dos encontros.

As atividades foram desenvolvidas com as crianças sentadas em rodinha, no chão, ou nas suas classes, dependendo do tipo de texto trabalhado, da disposição da turma no dia da oficina, e do tipo de atividade proposta a partir dos textos. Os poemas foram escolhidos pela ministrante, a partir de autores e de obras consagradas destinadas ao universo infantil: Coisas Esquisitas – Elias José; O Leão – Marina Colasanti; As borboletas – Vinícius de Moraes; O Pato – Elias José; Os Pintinhos – Tatiana Belinky.

Estes textos têm a rima como marca predominante em sua estrutura fonológica, e um deles, O Pato, o seu contraponto, a aliteração. Este aspecto foi proposto como forma de comparação do processamento realizado a partir das rimas com relação a outro recurso sonoro. A aliteração, que marca principalmente o início das palavras, costuma ser de mais fácil domínio pelas crianças enquanto forma de escrita e de leitura, porém nem sempre enquanto produção de versos com palavras relacionadas uma a outra por seus segmentos iniciais.

A responsável pela gravação foi apresentada à turma, e explicada a razão da filmagem, como forma de registro completo do que era dito durante a atividade. Sua circulação foi discreta nas oficinas. A professora e/ou a estagiária de docência permanecia em sala durante a atividade, e participava com intervenções quando necessário, em especial para apaziguar o grupo quando isso se fazia necessário, em momentos de muita agitação.

Para o desenvolvimento das oficinas, são aqui destacados aspectos metodológicos seguidos rotineiramente na sua execução:

- o texto poético sempre é apresentado por escrito, além de ser lido e interpretado oralmente, sendo deixado à disposição das crianças durante ou logo após sua leitura, e no mural da sala de aula depois da oficina. Cópia impressa de cada poema lido foi providenciada para ser colada no caderno de cada criança. Como a fase escolar é de alfabetização, é importante que a criança possa confrontar aquilo que ouve com o que está escrito no texto;

- o texto tem sua primeira leitura sem interrupções, objetivando que as crianças experimentem a sonoridade, o ritmo e os sentidos gerados por este na sua totalidade;

- termos que possam causar estranheza ou falta de entendimento podem e devem ser trabalhados e esclarecidos antes ou depois da apresentação do mesmo. Antes, em especial, se o título é determinante para o entendimento do texto e associações de ideias a partir deste; e depois, se percebermos que durante a leitura uma ou mais palavras podem não ter sido bem entendidas, causando estranheza ou dificuldade de compreensão nas crianças durante a exploração das ideias desenvolvidas no texto;

- é objetivo deste tipo de oficina que as crianças tenham o maior domínio possível do texto oralmente, podendo “ir e voltar” nele sem maior dificuldade, e possibilitando que usufruam de sua sonoridade e sentido. Em função disso, este é repetido pelo menos mais duas vezes após a leitura inicial, com brincadeiras sobre as palavras e sons, em especial com as rimas, buscando convocar o grupo a participar na repetição do texto inteiro. Por exemplo: fazer eco nas rimas (buraco: aco-aco-aco); bater palmas quando duas palavras rimam; completar com a última palavra do verso; retirar a última sílaba ou modificar determinado tipo de sufixo; entre outras propostas lúdicas;

- após a leitura do texto, é trabalhada e examinada a compreensão do mesmo em seu jogo de palavras, explorando os sentidos do que foi lido. A partir disso, são propostas brincadeiras com palavras e/ou frases do texto, em especial com sua sonoridade e sentidos, com o objetivo de gerar reflexões linguísticas. Para isso

podem ser utilizados materiais específicos, como recorte, pintura, bolinha, fichas, entre outros;

- a etapa final do processo de exploração do texto é marcada pela proposta de uma produção escrita pelas crianças, que pode partir da escrita de palavras, dentro de um determinado contexto, até a produção de novos textos poéticos, individualmente ou em pequenos grupos. A produção escrita intensifica a reflexão linguística e permite o registro de como as crianças estão desenvolvendo o processamento desta. Além disso, permite analisar como o desenvolvimento das estruturas linguísticas na escrita pode estar sendo favorecido a partir do trabalho realizado com este gênero textual e as propostas de intervenção linguística realizadas;

- normalmente, a oficina com um mesmo texto é dividida em duas etapas, a fim de não sobrecarregar o grupo com o esforço cognitivo que essa atividade exige.

A sequência de textos trabalhados e o planejamento de atividades estão disponíveis no apêndice B desta pesquisa.

4.3.1.4 Montagem da tabela de categorias de consciência linguística

A partir das transcrições de todas as oficinas desenvolvidas, foram montadas tabelas com os fatos evidenciados de consciência fonológica e de suas relações com os demais níveis de consciência linguística, organizadas da seguinte forma:

- identificação do evento de consciência linguística observado;

- evidências (seleção de trechos dialógicos transcritos das oficinas);

- registro da data e nome da oficina realizada, para facilitar a localização do evento;

- observações feitas a partir da evidência destacada.

Os nomes das crianças não são referidos diretamente (salvo em algum caso muito particular quando o nome é imprescindível para o entendimento da informação observada), colocando-se iniciais ou formas reduzidas, a fim de preservar-se a identidade das mesmas.

A partir dos dados transcritos nas oficinas foi realizada análise criteriosa de elementos presentes nos diálogos que pudessem identificar situações relacionadas ao processo de consciência fonológica e linguística destacados teoricamente, salientando sua interação.

Dessa forma, as tabelas de análise de categorias de consciência linguística identificadas foram sendo geradas com o seguinte formato:

- título geral: identificação do nível de consciência identificado (fonológica, morfológica, sintática, semântica, textual, pragmática)

Quadro 1 – modelo de categorização de comportamentos de consciência linguística

Categoria Evidência Data/oficina Observações

Identificação do comportamento de consciência linguística manifestado pela criança.

Trecho transcrito destacado na oficina que mostra/sugere este comportamento identificado. Data, nome da oficina e página da transcrição onde está registrado o dado encontrado. Análise de aspectos destacados nas evidências, identificando as razões deste dado ter sido evidenciado.

As categorias e comportamentos de consciência linguística levantados nessas tabelas (APÊNDICE C) serviram de base para a montagem de um instrumento de avaliação da consciência fonológica integrado aos demais níveis de consciência linguística, bem como para a indicação de parâmetros psicolinguísticos de trabalho com poemas em sala de aula, favorecendo o desenvolvimento dos níveis de consciência linguística na alfabetização.

Também foram destacadas evidências de compreensão ou não de poemas pelas crianças, favorecendo a identificação de aspectos que mostram os caminhos percorridos por elas na compreensão deste tipo de texto, com características bastante diferentes de uma narrativa convencional nas questões de progressão temporal e de construção de sentidos. Estes dados não foram incluídos nas tabelas categoriais em si, que enfocavam apenas os eventos de consciência linguística, possuindo um caráter complementar à presente investigação.

4.3.2 RESULTADOS DA PRIMEIRA ETAPA DA PESQUISA

Na primeira fase da pesquisa foram analisadas as gravações de áudio-vídeo das oficinas de poesia e consciência fonológica ministradas a um grupo de crianças do primeiro ano do ensino fundamental do Colégio de Aplicação – UFRGS. A partir da análise do conteúdo das oficinas, com base nos referenciais teóricos sobre desenvolvimento dos níveis de consciência linguística, foram sendo evidenciados comportamentos de desenvolvimento de consciência fonológica em si, e destes de forma integrada aos demais níveis de consciência linguística, a partir da vivência com o texto poético. Estes comportamentos formaram categorias de análise, organizadas em tabelas correspondentes a cada nível de consciência linguística (as tabelas apresentadas integralmente encontram-se no apêndice C deste trabalho).

Importante salientar que esses comportamentos identificados não existiam como itens prévios à pesquisa; eles foram sendo detectados e nomeados durante as transcrições e sua leitura, agrupando-se evidências semelhantes em torno de um mesmo item, o que foi fornecendo “corpo” a tal comportamento. Evidentemente as nomeações de alguns itens foram sendo reformuladas ou algum comportamento identificado foi realocado na tabela no curso da pesquisa, conforme as revisões feitas, diante de outras possibilidades e comparações que foram sendo realizadas entre os itens.

Destes comportamentos, foram selecionados os mais significativos, não apenas pela frequência de aparição, mas principalmente pela sua pertinência e importância em apontar o desenvolvimento do processamento linguístico realizado pela criança com relação aos níveis de consciência linguística investigados.

Assim, a partir da reflexão proporcionada pelos textos poéticos, tendo a rima como elemento básico gerador de reflexão linguística entre as palavras, foram selecionados os seguintes comportamentos de consciência linguística, exemplificados como segue:

 CONSCIÊNCIA FONOLÓGICA: - consciência fonológica de rima: