Apesar de constatada a importância de um currículo interdisciplinar, as IES nem sempre conseguem fazer com que os cursos tenham essa característica. E isso não ocorre porque não há disciplinas variadas nas grades curriculares dos cursos. Na maioria das vezes, os cursos têm uma grade curricular diversificada em termos de diferentes áreas do conhecimento justamente porque é necessário que o futuro profissional de determinadas áreas tenham uma formação pautada nessa diversidade. A dificuldade das instituições, nesses casos, é de outra ordem: fazer com que disciplinas de diferentes áreas do conhecimento se inter-relacionem no curso a tal ponto de o currículo ser considerado verdadeiramente interdisciplinar.
Parece, entretanto, não existir uma só forma de relacionamento entre as diferentes disciplinas, antes é possível que elas se relacionem em até cinco níveis diferentes, contando a interdisciplinaridade. Sem considerá-la, existem ainda níveis mais altos e mais baixos, sendo que a multidisciplinaridade, a pluridisciplinaridade e a disciplinaridade cruzada referem-se a níveis menos elevados de inter- relacionamento entre as disciplinas, e a transdisciplinaridade refere-se a um nível mais elevado de inter-relacionamento em relação à interdisciplinaridade. Rech et al. (2007), caracterizam esses níveis como demonstrado a seguir:
Multidisciplinaridade: trata-se da variedade de disciplinas que são oferecidas num determinado curso, sem que se ressaltem as relações possíveis entre elas.
Pluridisciplinaridade: trata-se da justaposição de diferentes disciplinas que estão num mesmo nível hierárquico e que foram agrupadas de modo que apareçam as relações existentes entre elas.
Disciplinaridade cruzada: trata-se da imposição dos recursos metodológicos de uma disciplina a outras de mesmo nível hierárquico.
Transdisciplinaridade: é o caso em que o grau de relacionamento entre as disciplinas supera o da interdisciplinaridade, pois, neste caso, não há limite entre as
disciplinas e o grau de interação entre elas é tão alto que pode desencadear o surgimento de outra disciplina.
A pesquisa dos citados autores que investigou “a presença de características interdisciplinares a partir da análise do grau de relacionamento entre as disciplinas” (RECH et al., 2007, p.32) é de significativa importância para que se verifique como um agrupamento de disciplinas pode ser visto de maneira mais ou menos integrada, já que eles se voltaram para a análise do grau de inter- relacionamento existente entre elas para justamente pontuar o quão inter- relacionadas as disciplinas podem estar numa organização de grade curricular.
Como os pesquisadores estudaram especificamente os cursos de Ciências Contábeis de instituições que oferecem cursos de mestrado em Contabilidade, todo o trabalho foi voltado para essa área, sendo que eles verificaram desde a importância da interdisciplinaridade no ensino da contabilidade até a comparação das grades curriculares de diferentes IES no intuito de verificar como estavam agrupadas as disciplinas, passando também pela definição e caracterização da interdisciplinaridade até as variadas formas de relacionamento entre as disciplinas, como visto anteriormente. Os autores pontuaram, por exemplo, que, nos casos estudados, observa-se uma característica multidisciplinar na grade curricular dos cursos de Ciências Contábeis no primeiro semestre, e isso ocorre porque há uma carga de disciplinas de áreas que têm influência sobre a contabilidade, justamente por ela ser uma ciência aplicada à área de humanidades. Como se trata do início do curso é ainda muito cedo para que se estabeleçam relações entre tais disciplinas, sendo esse o motivo da classificação em multidisciplinares.
Após a divulgação dos resultados da pesquisa, quando Rech et al. (2007) detalham, semestre a semestre, como a se dá a organização da grade curricular dos cursos de Ciências Contábeis, os autores concluem que não encontraram casos com alto grau de relacionamento entre as disciplinas, havendo indícios, portanto, de que as IES encontram dificuldades em fazer com que disciplinas se inter-relacionem num grau que possa demonstrar que há interdisciplinaridade. O que há, nos casos estudados, são currículos com características multidisciplinares, pluridisciplinares e de disciplinaridade cruzada.
O desafio de fazer com que esse grau seja elevado pode ser superado se a IES se comprometer a fazer um trabalho completo. Assim, se ela oferecer aos egressos o acesso à pesquisa por meio de programas de Iniciação Científica, de modo que eles venham a se interessar pelos cursos de pós-graduação strictu sensu (mestrado e doutorado), a interdisciplinaridade no currículo será quase uma consequência, uma vez que ela terá em quadro de funcionários professores que são formados e desenvolvem estudos em diferentes áreas de pesquisa. Tais professores, orientadores dos alunos que ingressarão nos cursos de pós-graduação, certamente cooperarão para que o currículo da instituição seja interdisciplinar, mas isso não se deverá simplesmente ao fato de estes desenvolverem pesquisas em diferentes áreas do conhecimento e estarem trabalhando no mesmo local. Entendemos ser fundamental que, mesmo tendo uma situação favorável como nesse contexto, haja um trabalho, por parte da direção da IES, que objetive promover a integração. A diversidade presente, no entanto, pode ser um grande passo na organização de cursos com currículos interdisciplinares.
Vale ressaltar, porém, que a instauração de cursos de pós-graduação strictu sensu como uma forma de cooperar para a formulação de um currículo interdisciplinar na graduação terá mais chances de ser bem sucedida se os professores que atuarão na IES também tiverem conhecimentos amplificados em sua formação e se tal formação for diversificada em diferentes áreas. Se os alunos são incentivados a fazer pesquisa e pós-graduação somente em uma área de atuação, não há porque ter um quadro de professores formados em diversas áreas do conhecimento, uma vez que um professor bastaria para orientar alunos de uma mesma área de conhecimento (dependendo da demanda, é claro). Assim, acreditamos que os próprios estudantes de graduação precisam ser incentivados a se lançarem em pesquisas de áreas diferentes e diversificadas, pois só então haverá na IES professores com diversidade de formação e alunos estudando diversas áreas.
Não basta, inclusive, ter um curso de graduação com uma grade curricular diversificada. Para que verdadeiramente haja interdisciplinaridade é necessário que essas disciplinas „conversem‟ entre si e tenham um alto grau de relacionamento, formando um sentido no curso como um todo. E, na verdade, esse é o maior desafio para a instauração de um currículo interdisciplinar. Um curso com disciplinas
variadas não é algo tão difícil de montar numa grade curricular, o desafio é fazer com que, no curso, elas estejam integradas umas às outras formando um todo.
1.3.4. A Importância de uma Matriz Curricular Interdisciplinar no Curso de