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Segundo SELLTIZ et al (1965) e CLOVER & BALSLEY, H. (1974) apud SBRAGIA (1977), ocorrem três métodos clássicos de coleta de dados: observação, levantamento e experimento. Tendo em vista a natureza não-experimental da pesquisa, os métodos de observação e levantamento foram os aplicados.

O método de observação foi aplicado porque a variável de interesse foi observada dentro do ambiente em que ela ocorre, isto é, através da coleta de dados de contratos e transações efetivamente realizadas, principalmente pela análise documental existente.

Embora vários autores mencionem como limitação do método o fato de que não é possível a seleção de valores mais adequados para a variável explicativa, ele encontra aplicação não apenas para pesquisas exploratórias, mas também para alguns casos de estudos cujos objetivos são a verificação de hipóteses causais. Neste último caso, torna-se necessário o desenvolvimento de testes visando a verificação da eficácia das observações obtidas, para efeito de generalização dos resultados (NETER et al, 1996).

Já o método de levantamento foi útil por englobar uma série de técnicas tais como entrevista, questionário e exame de registros, que foram necessários para a obtenção de informações que estavam “fora do contrato” de fornecimento de gás, a partir das experiências a que estiveram expostos os diretores e gerentes comerciais das distribuidoras (SELLTIZ et al., 1965). As entrevistas foram realizadas com base em parâmetros qualitativos e quantitativos pré- definidos, de forma a complementar as informações do instrumento de coleta de dados utilizado, e que não podiam ser encontradas na análise documental.

Como vantagem deste processo, pode-se mencionar que foram observados diversos elementos qualitativos sobre as transações que em muito auxiliaram no tratamento dos dados coletados, e mesmo na ratificação da potencial validade das hipóteses levantadas. O instrumental básico de coleta de dados encontra-se exemplificado nos Apêndices de 3 a 7. Este instrumento de coleta permitiu a tabulação de todas as variáveis estabelecidas no planejamento da coleta de dados e incluiu também outras informações adicionais, que serviram para complementar e criticar os resultados, bem como para subsidiar o desenvolvimento de futuras pesquisas sobre o assunto.

A amostragem englobou transações de 6 distribuidoras de gás natural, dispostas em dois grupos de 3, referentes a duas regiões com características distintas de depreciação dos investimentos de produção e transporte do produto. Na Região R1, a maturidade do mercado de gás natural e a depreciação dos investimentos para fornecimento de gás são maiores, visto que ele foi iniciado antes de 1995, a data mais antiga em que existiam dados disponíveis. Já na Região R2, o desenvolvimento do mercado e a instalação da infra-estrutura para fornecimento, foram iniciados somente após 1999. Portanto, espera-se que esta região apresente características de transação mais relacionadas com alta especificidade dos ativos, uma vez que estes se encontram apenas no início de sua depreciação.

Devido às várias segmentações da amostra necessárias para os testes das Hipóteses IA, IB e II, ou seja, por região, por tipo de atividade industrial e por tipo de energético que o gás natural substituiu, foi necessária a amostragem completa de todos os contratos disponíveis nas distribuidoras visitadas. Deste universo de contratos ainda foi preciso selecionar um subconjunto válido para a análise de cada distribuidora:

1. Que considerasse apenas as amostras cujos contratos representassem clientes consumindo gás atualmente ou que, caso tivessem deixado de consumir, apresentassem pelo menos 6 meses de consumo após a assinatura inicial do contrato.

2. Que considerasse apenas amostras cujos contratos não representassem transações inválidas em Setembro de 2002 (consumidores que não tinham contratos com vigência válida) ou que eram do tipo interruptível, isto é, sem garantia de fornecimento por parte do fornecedor.

3. Que considerasse os aditivos contratuais como novos contratos ou novas amostras, uma vez que eles espelham uma repactuação em um momento diferente do tempo. Esta repactuação pode ser reflexo da ocorrência do poder de barganha por parte do consumidor.

Todos os contratos que atenderam aos critérios acima foram considerados na amostra. Através deste procedimento, o universo de 396 transações observadas resultou em uma amostragem válida, cujo tamanho e segmentação são apresentados nas Tabelas 3 e 4.

Tabela 3 Tamanho da Amostra por Segmento - Tipo de Combustível Substituído -

R1 9 19 177 24 229

R2 14 80 39 20 153

Total 23 99 216 44 382

Região EnergiaElétrica GLP CombustívelÓleo Outros Total

Tabela 4 Tamanho da Amostra por Segmento - Tipo de Segmento Industrial -

R1 48 26 61 16 31 47 229

R2 15 37 6 32 19 44 153

Total 63 63 67 48 50 91 382

Região Alimentos Metalúrgico Químico Cerâmico Têxtil Outros Total

De forma a se obter confiabilidade para as conclusões dos testes estatísticos a serem realizados, apenas tamanhos de amostras acima de 30 serão considerados para a interpretação dos resultados.

Para o teste das Hipóteses IA e IB a segmentação mais relevante é aquela que controla os dados por região, como proxy para o grau de desenvolvimento de mercado.

Contudo, pode-se esperar que as distribuidoras estejam mais expostas ao poder de barganha do consumidor, sendo forçadas a flexibilizar mais os contratos, nos casos de transações envolvendo energéticos substitutos cujo preço seja mais próximo ao do gás natural, ou para indústrias onde o gás natural agregue menor valor. Desta forma, a amostra foi também segmentada pelo tipo de combustível substituído e tipo de indústria.

No caso da Hipótese II, as segmentações quanto ao tipo de combustível substituído e tipo de indústria são pertinentes devido ao diferente valor do produto gás natural para o consumidor. Conforme esta hipótese, o valor intrínseco do gás natural para o consumidor também afeta o prêmio da opção, e estas segmentações controlam este fato.

Já as segmentações da amostra, em diferentes regiões e por distribuidora de gás natural, são adequadas para o teste da Hipótese II, porque, conforme a teoria desenvolvida na Seção 2.3.3, a distribuidora de gás natural também tem valor de opção associado aos investimentos específicos realizados para instalar uma capacidade de fornecimento de gás natural. Desta forma, esta segmentação visa controlar comportamentos diferentes do fornecedor entre estas regiões, devido às diferentes condições de depreciação da infra-estrutura de transporte e produção do gás natural.

Adicionalmente, o controle da amostra para o tamanho do consumidor, segundo o volume de gás consumido, é importante para a Hipótese II porque a variável dependente envolve o preço do gás natural para o consumidor final. Este preço, por sua vez, é correlacionado com as quantidades efetivamente consumidas conforme já mencionado na Seção 3.3.2.

Pode ser observado na Figura 18 e Tabela 5 que existe correlação entre os volumes contratados pelos industriais e o volume médio efetivamente consumido, de acordo com os dados de julho de 2002. O coeficiente de regressão linear, indicando a inclinação da reta ajustada para os valores observados, é próximo da unidade e, conforme a estatística t calculada, ele é estatisticamente maior do que zero ao nível de confiança de 95%.

A variação estatística em torno da reta de ajuste da regressão indica que, enquanto alguns consumidores contratam mais do que o necessário, eventualmente para ajustar uma perspectiva de volatilidade na demanda (e ficando sujeito ao pagamento de penalidades de

take-or-pay mais elevadas), outros contratam menos do que necessitam, eventualmente para se proteger do pagamento de take-or-pay, fazendo uso das cláusulas de excesso de demanda para ajustar suas necessidades de consumo. Entretanto, na média de todas as distribuidoras, os consumidores contratam os volumes equivalentes às suas necessidades de consumo.

Volume Contratado vs Volume Consumido Julho 2002 (m3/dia)

- 25,000 50,000 75,000 100,000 - 25,000 50,000 75,000 100,000

Volume Consumido - Julho 2002

Q D C M éd io In d u st ri al

Figura 18 Relação entre volume contratado (QDC) e volume consumido em Julho/2002

Tabela 5 Estatística da Regressão Linear Simples (OLS) entre o volume industrial contratado e o volume médio efetivamente consumido (Julho 2002)

Coeficientes do Modelo de Regressão Erro padrão do Coeficiente Estatística t Calculada na Amostra Estatística t para nível de confiança 95% unicaudal Nível Confiança Calc. (Valor-P unicaudal) Limite Inferior Intervalo de Confiança - 90% bicaudal Limite Superior Intervalo de Confiança - 90% bicaudal Interseção 2,264.21 1,540.21 1.47007 0.92866 (277.32) 53,507.08 Volume Consumido - Julho 2002 0.96972 0.02915 33.27 1.65041 1.00000 0.92162 1.01782

Pelas mesmas razões expostas no Anexo E, caso a volatilidade da demanda e a demanda contratada estejam correlacionadas, a consideração do preço unitário na construção da variável dependente (TOP_Ind_Pr) exigiria a utilização de um modelo de regressão linear múltiplo, onde a volatilidade da demanda (Sigma(Var_Demanda)) e a quantidade contratada (QDC) seriam variáveis explicativas.

No Capítulo 4 esta premissa será testada e controlada segmentando-se a amostra para níveis de demanda que evitem a correlação entre a QDC e volatilidade da demanda.