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As cartas da época do casamento de Machado de Assis revelam dificuldades financeiras passadas pelo romancista. Ainda não estava ele empregado na Secretaria que tanto lhe acumulou trabalhos. A partir de 1867, o autor já estava inserido no cenário jornalístico, mas nem por isso deixou de passar por momentos de dificuldades financeiras. As referências a estas dificuldades cessam nas cartas a Francisco Ramos Paz, dos anos de 1869 e 1870. A partir de 1873, o cenário profissional de Machado de Assis começa a mudar com o emprego na Secretaria da Agricultura, onde, com o passar do tempo, ele vai galgar certas ascensões.

Como está assentado na crítica e na história literária brasileira e também mencionado aqui neste trabalho, as cartas machadianas não chegam a revelar muitas confidências. Mas a construção do grande autor ou do consagrado presidente da Academia Brasileira de Letras, como um homem que não se expôs sequer em cartas particulares, não se fez desde sempre, ou seja, em determinada parte de sua vida, por volta dos 30 anos, por exemplo, essa imagem, naturalmente, ainda não estava produzida. É por isso que ainda se vê, em cartas até 1870, a temática ―problemas financeiros‖. Um tema bem particular, bem pessoal, que o tempo e o emprego público, de alguma forma, afastarão das outras epístolas.

Em 1870, Machado completava 31 anos de idade e era casado há pouco menos de um ano, mais especificamente em 12 de novembro de 1869. O casamento trouxe responsabilidades maiores e dificuldades financeiras certamente até então desconhecidas.

Quatro cartas destinadas ao amigo Francisco Ramos Paz tematizam essa problemática. Paz, como era chamado por Machado, era um português que morou com o autor de Quincas

Borba entre 1860 e 1869, segundo nota de rodapé da epistolografia machadiana (ASSIS,

1986, p. 1.030). Bibliófilo, tornou-se proprietário de uma das mais requisitadas bibliotecas do país, sendo bastante mencionado na correspondência de Capistrano de Abreu (AMED, 2006).

A primeira carta destinada a Francisco Ramos Paz é de 19 de novembro de 1869, sete dias após o casamento de Machado, cuja transcrição é a seguinte:

Meu caro Paz. / Estimo muito e muito as tuas melhoras, e sinto deveras não ter podido ir ver-te antes da tua partida para a Tijuca. Agradeço-te as felicitações pelo meu casamento. Aqui estamos na Rua dos Andradas, onde serás recebido como um amigo verdadeiro e desejado. / Infelizmente ainda não te posso mandar nada da continuação do drama. Na tua carta de 8 deste-me parte da tua moléstia e pediste-me que preparasse a cousa para a segunda-feira próxima. Não reparaste certamente na impossibilidade disto. Eu contava com aquele adiantamento e a tua carta anulou todas as minhas esperanças. Não imaginas o que me foi preciso fazer desde segunda-

feira à noite até sexta-feira de manhã. De ordinário é sempre de rosas o período que antecede o noivado; para mim foi de espinhos. Felizmente o meu esforço esteve na altura de minha responsabilidade e eu pude obter por outros meios os recursos necessários na ocasião. Ainda assim não pude ir além disso; de maneira que, agora mesmo, estou trabalhando para as necessidades do dia visto que só do começo do mês em diante poderei regularizar a minha vida. / Tais são as cousas pelas quais não pude continuar o nosso trabalho; continuá-lo-ei desde que tiver folga para isso. Ele me será necessário, e tu sabes que eu não poupo esforços. Espero porém que me desculpes se neste momento estou curando da solução de dificuldades que eu não previa nem esperava. / Se a Tijuca não fosse tão longe iria ver-te. Apenas vieres para casa, avisa-me a fim de te fazer a competente visita e conversarmos acerca da conclusão da obra. / Teu / MACHADO DE ASSIS. (ASSIS, 1986, p. 1.030-1) (grifos nossos)

É consenso entre os biógrafos machadianos que o autor das Crisálidas, nos primeiros dias de casado, solicitou empréstimo ao amigo Paz, como atesta a própria epistolografia. Para Lúcia Miguel Pereira (1988, p. 116-8) e para Magalhães Júnior (1981, V. 2, p. 53-4), o

Memorial de Aires, sendo um livro de caráter autobiográfico, recuperou esse tempo de agruras

financeiras. Para eles, o casal Aguiar e D. Carmo pode ser lido como Machado e Carolina nos primeiros dias de casados:

A pobreza foi o lote dos primeiros tempos de casados. Aguiar dava-se a trabalhos diversos para acudir com suprimentos à escassez dos vencimentos. D. Carmo guiava o serviço doméstico ajudando o pessoal deste e dando aos arranjos da casa o conforto que não poderia vir por dinheiro. Sabia conservar o bastante e o simples; mas tão ordenadas as cousas, tão completadas pelo trabalho das mãos da dona que captavam os olhos ao marido e às visitas. Todas elas traziam uma alma, e esta era nada menos que a mesma, repartida sem quebra e com alinho raro, unindo o gracioso ao preciso. Tapetes de mesa e de pés, cortinas de janelas e outros mais trabalhos que vieram com os anos, tudo trazia a marca da sua fábrica, a nota íntima da sua pessoa. Teria inventado, se fosse preciso, a pobreza elegante. (ASSIS, 1997, p. 15)

Lúcia Miguel Pereira (1988, p. 118) chega a afirmar categoricamente: ―Leia-se Carolina e Machado onde há Carmo e Aguiar, e ter-se-á a descrição do lar de Machado de Assis, desde a primeira casa, na rua dos Andradas, até a última, no Cosme Velho‖.

A sequência de cartas a Paz, provavelmente de 1869 e 1870, sugere um remetente envolto em necessidades:

Paz. / Procurei-te ontem e anteontem em casa, e não te achei. Hoje, se te não encontrar, deixarei esta carta, pedindo-te que me esperes amanhã de manhã para conversarmos sobre aquilo. Sei que tens andado ocupado, e temo importunar-te com estes pedidos; mas, como te disse, não tenho outro recurso, e desejava concluir o negócio o mas cedo que fosse possível. Não insisto. Não insisto sobre a importância capital do serviço que me estás prestando; tu bem o compreendes, e sabes além disso qual é a minha situação. Não pude arranjar a cousa só por mim, vê se consegues isso, e repara que os dias vão correndo. Ajuda-me, Paz; eu não tenho ninguém que o faça. Conselhos, sim; serviços, nada./ Espera-me amanhã, domingo; irei аs dez horas

e meia para dar-te tempo de concluir o sono que por ser domingo, creio que irá até mais tarde./Teu / MACHADO DE ASSIS. (ASSIS, 1986, p. 1.031) (grifos nossos) Paz ami.º /Ainda preciso daquilo de que te falei. Vê se me arranjas, e deixo ao teu parecer as condições, que conto serão razoáveis, favoráveis para mim / Todo teu / M. d'ASSIS. (ASSIS, 1986, p. 1.031) (grifo nosso)

As cartas sobre dificuldades econômicas terminam em 1870. Para Lúcia Miguel Pereira, a situação financeira do casal, tão precária inicialmente, vai gradativamente melhorando. Isso, naturalmente, é a razão para a não presença do tema nas demais cartas. Machado vai se firmando como funcionário público:

Em janeiro de 71, criado o Conservatório Dramático sob a presidência de José de Alencar, foi Machado nomeado um dos seus membros; não diz o decreto se o cargo era honorífico, mas é provável que sim.

Logo no ano seguinte, em abril de 72, foi designado para amanuense da comissão do

Dicionário Tecnológico da Marinha, com a gratificação de cinquenta mil réis

mensais. Substituía a César Muzzio, falecido nesse ano. Foi breve a sua permanência na Comissão, que deixou em 73, quando, na reforma da Secretaria da Agricultura, foi nomeado primeiro oficial. É de 31 de dezembro de 1873 o decreto de nomeação, e a 6 de janeiro de 1874 deixou ele o lugar do Diário Oficial.

O sossego material estava assegurado, entrava para um cargo estável, e de acesso: ganhava 4:000$000 anuais, o que representava bons vencimentos para a época. (PEREIRA, 1988, p. 121)

Acrescente-se, ainda, que o autor assumia cada vez mais colaborações em periódicos e iniciava a publicação de suas obras com o livreiro Garnier, já em 1869.