• No results found

Parece ser consenso nos estudos críticos que Machado de Assis foi mais profícuo como crítico teatral do que como autor dramático. A biografia e as cartas, de alguma forma, vão mostrar que Machado se envolveu com o teatro muito mais ou exclusivamente na década de 1860, quando foram publicadas traduções ou peças originais do autor: Queda que as

mulheres têm pelos tolos (tradução, 1861); Desencantos (fantasia dramática, 1861); O protocolo e O caminho da porta (1863); Quase ministro (1864); e Os deuses de casaca

(1866). Outro trabalho dramático só sairia em 1881 (Tu só, tu, puro amor).

Considerando o Epistolário de Machado de Assis (1986), organizado por Afrânio Coutinho, apenas seis cartas do autor sobreviveram na década de 1860. Duas foram destinadas

a Carolina. Três destas cartas revelam o autor envolvido com a escrita de textos para o teatro: uma solicitando conselhos a Quintino Bocaiúva; um bilhete para o Conservatório Dramático com a remessa de uma comédia e a terceira, uma espécie de inquietação por não ter terminado um drama prometido a Francisco Ramos Paz.

A principal delas é a destinada a Quintino Bocaiúva, que já foi transcrita neste trabalho, por ocasião da análise dos elementos da ars dictaminis. Entretanto, a transcrição é novamente necessária, em virtude do enfoque distinto que vai ser dado:

Meu amigo. / Vou publicar as minhas duas comédias de estréia e não quero fazê-lo sem o conselho de tua competência. / Já uma crítica benévola e carinhosa, em que tomaste parte, consagrou a estas duas composições palavras de louvor e animação. / Sou imensamente reconhecido, por tal, aos meus colegas da imprensa. / Mas o que recebeu na cena o batismo do aplauso pode sem inconveniente, ser trasladado para o papel? A diferença entre os dous meios de publicação não modifica o juízo, não altera o valor da obra? / É para a solução destas dúvidas que recorro à tua autoridade literária. / O juízo da imprensa via nestas duas comédias – simples tentativas de autor tímido e receoso. Se a minha afirmação não envolve suspeitas de vaidade disfarçada e mal cabida, declaro que nenhuma outra ambição levo nesses trabalhos. Tenho o teatro por coisa mais séria e as minhas forças por coisa muito insuficiente; penso que as qualidades necessárias ao autor dramático desenvolvem- se e apuram-se com o trabalho: cuido que é melhor tatear para achar; é o que procurei e procuro fazer. / Caminhar destes simples grupos de cenas à comédia de maior alcance, onde o estudo dos caracteres seja consciencioso e acurado, onde a observação da sociedade se case ao conhecimento prático das condições do gênero – eis uma ambição própria de ânimo juvenil e que eu tenho a imodéstia de confessar. E tão certo estou da magnitude da conquista que me não dissimulo o longo estádio que há percorrer para alcançá-la. E mais. Tão difícil me parece este gênero literário que, sob as dificuldades aparentes, se me afigura que outras haverá, menos superáveis e tão sutis, que ainda as não posso ver. / Até onde vai a ilusão dos meus desejos? Confio demasiado na minha perseverança? Eis o que quero saber de ti. / E dirijo-me a ti, entre outras razões, por mais duas, que me parecem excelentes: razões de estima literária e razão de estima pessoal. Em respeito à tua modéstia, calo o que te devo de admiração e reconhecimento. / O que nos honra, a mim e a ti, é o que a tua imparcialidade suspeita. Serás justo dócil; terás ainda por isso o meu reconhecimento; e eu escapo a esta terrível sentença de um escritor: Les amitiés, qui

ne résistent pas à la franchise, valent-elles un regret? / Teu amigo e colega /

MACHADO DE ASSIS. (ASSIS, 1986, p. 1.028) (grifos nossos)

Esta carta nos revela um Machado de Assis ―engatinhando‖ em busca de projeção como autor de texto teatral. Nesta época, Machado já era redator, tinha sido crítico teatral e iniciava sua produção dramática. Tinha 23 ou 24 anos, quando solicitou a Quintino Bocaiúva, então com 26 ou 27 anos, conselhos. Bocaiúva foi poeta, teatrólogo, jornalista e, na época, já com alguma inserção na cultura carioca. Era, como Machado, redator do Diário do Rio de

Janeiro, além de diretor da Biblioteca Brasileira. Se correta a suposição de que a carta foi

escrita em 1862 ou 1863, Bocaiúva já tinha escrito algumas peças. Por essa razão, Machado entendia o amigo como uma referência para o teatro ou para sua produção.

Apesar de já trabalhar na imprensa como redator e já ter sido crítico de teatro, Machado pede conselhos a Bocaiúva sobre as duas comédias de estréia. O autor queria saber se ―o que recebeu na cena o batismo do aplauso pode sem inconveniente ser trasladado para o papel‖, ou seja, se a peça já encenada sofre mudanças quando transposta para a publicação escrita, no que diz respeito ao valor da obra ou aos juízos dos críticos. Confirma Machado a sua intenção: ―A diferença entre os dous meios de publicação não modifica o juízo, não altera o valor da obra? / É para a solução destas dúvidas que recorro à tua autoridade literária‖.

Sabendo que Bocaiúva havia feito considerações elogiosas sobre suas peças quando da encenação, Machado pede orientações para a publicação do texto. Segundo nota de rodapé presente nas edições Jackson e mantida por Afrânio Coutinho na Obra Completa (1986), as duas peças eram: ―O caminho da porta‖ e ―O protocolo‖, publicadas em 1863.

As peças de Machado de Assis foram recebidas pela crítica como ―simples tentativas de autor tímido e receoso‖, segundo a carta. Com certa humildade retórica, Machado reconhece forças insuficientes para uma peça mais densa, mas promete esforçar-se para vôos mais altos. Machado precisava de uma orientação literária para alcançar o beneplácito da crítica e a consistência de um autor de escritos teatrais: ―Até onde vai a ilusão dos meus desejos? Confio demasiado na minha perseverança? Eis o que quero saber de ti.‖. Machado se preocupava com a mudança do suporte e, consequentemente, com a possível mudança do público: havia diferença entre o público que lia o texto dramático e aquele que assistia às peças?

A segunda carta, uma espécie de bilhete, é destinada a Domingos Jaci Monteiro, então secretário do Conservatório Dramático, em 18 de março de 1864. Na época, para as encenações, as peças precisavam passar pelo crivo do censor, cargo que Machado também ocupou:

Ilmo Sr. Dr. Domingos Jaci Mont.ro / Dig.º Secret.º Conservat.º Dramático

Brasileiro. / Tenho a honra de remeter a V. S.ª a minha comédia em 3 atos intitulada: O Pomo da Discórdia para ser sujeita ao parecer Conservatório Dramático Brasileiro. / Deus g.e a V. S.ª / MACHADO DE ASSIS. (ASSIS, 1986,

p. 1.028)

Em carta de 19 de novembro de 1869, destinada a Francisco Ramos Paz, Machado fala sobre um drama que está escrevendo, mas que não pode enviar a continuação ainda, devido a prováveis problemas financeiros, como visto em tópico anterior.

A epistolografia machadiana revela o não êxito na área teatral quando apenas sete delas fazem alguma referência à temática. Transcorridos mais de quinze anos, após as cartas

da década de 1860, aparece uma carta de 1895 falando de teatro, mas tão somente para enviar uma cópia de uma antiga peça para o arquivo do Gabinete Português de Leitura.

Em carta de 1897, endereçada a Salvador de Mendonça, outra vaga citação: um agradecimento ao destinatário por ter feito referência a uma peça na dedicatória de um livro recebido. Em 1904, há uma felicitação ao amigo Salvador por um discurso em que este saudava o ator João Caetano. E em 1908, comenta com Veríssimo sobre a republicação de suas peças. As cartas pessoais de Machado parecem contribuir para a ideia de que o Machado de Assis do teatro não foi o mesmo profícuo autor de romances e contos.