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2.1 Fluid Flow

2.1.1 General Hydraulic Principle Applied on Flow in a Pipe

As saudações nas cartas do autor de Quincas Borba podem ser classificadas relativamente dentro da tradição medieval da ars dictaminis (com sua formalidade típica ao dirigir-se a autoridades, por exemplo) e dentro da tradição humanística (mais simples e direta). Diríamos que há a conservação inevitável da salutatio, como parte indispensável de

qualquer epístola, associada à linguagem mais direta preconizada pelos humanistas. Poucas são as variações. A fórmula mais recorrente é ―Meu caro‖, seguida do nome do destinatário.

A salutatio machadiana revela uma espécie de percurso afetivo e/ou profissional, demonstrando, em alguns aspectos, a posição do escritor no cenário jornalístico e literário do país com a passagem do tempo. O Machado de Assis velho é mais paternal, sobretudo com os jovens Mário de Alencar e Magalhães de Azeredo. Na correspondência com Joaquim Nabuco, a partir de 1882, em nenhuma das 32 cartas enviadas por Machado, a salutatio contém os dois nomes do remetente. Está sempre presente o ―caro Nabuco‖ ou ―querido Nabuco‖. A exceção se dá uma única vez em que Machado o chama ―Meu caro Embaixador‖, mas não com as formalidades que o título podia impor e, sim, como agrado afetivo, em razão da nomeação de Nabuco para assumir a recém-criada embaixada do Brasil em Washington.

Em outras palavras, a posição de Machado de Assis já com o nome estabelecido no jornalismo carioca e a amizade entre os interlocutores permitiam esse tratamento não formal, mesmo sendo Joaquim Nabuco uma respeitável autoridade brasileira. Outros destinatários, tendo também grande aproximação, muitas vezes, foram saudados pelos seus dois nomes, como José Veríssimo e Salvador de Mendonça.

As duas cartas endereçadas à esposa Carolina, quando ainda não eram casados, certamente são as mais íntimas do autor que restaram publicadas. Elas têm as seguintes saudações: ―Minha querida C.‖ e ―Minha Carola‖. Naturalmente, o grau de intimidade entre os dois impõe a abreviatura do nome ou o uso de apelido. As saudações, como preconiza a ars

dictaminis, devem adequar-se às hierarquias ou aos graus de aproximação entre os

correspondentes.

Se fôssemos considerar apenas amigos íntimos de Machado de Assis aqueles que foram saudados com a expressão ―Meu querido‖ ou ―Meu querido amigo‖5, o rol se

restringiria a Salvador e Lúcio de Mendonça, Joaquim Nabuco e, sobretudo, Mário de Alencar e Magalhães de Azeredo. Exatamente cinco dos maiores destinatários das cartas de Machado.6

As cartas enviadas a Azeredo e a Alencar apresentam uma espécie de figura paternal do autor, constatação já observada por Josué Montello em O presidente Machado de Assis (s/d). Os dois destinatários nasceram no mesmo ano, em 1872, e eram 33 anos mais novos que o mestre. Nabuco, os irmãos Salvador e Lúcio de Mendonça, bem como José Veríssimo e

5 Estamos considerando, nesse instante, a presença dessas expressões apenas na salutatio e, não, no corpo ou

desfecho das cartas.

6 Há ainda uma carta a Luís Guimarães Filho em que a expressão ―Meu querido‖ está presente, constituindo uma

espécie de exceção em relação aos destinatários citados. Mesmo assim, o teor da carta não acentua qualquer intimidade entre os interlocutores, tratando apenas de uma tradução do romance Memórias póstumas de Brás

Graça Aranha são referenciados pelos biógrafos machadianos como amigos próximos do autor do Memorial de Aires.

A primeira referência na salutatio à expressão ―querido‖ é de 2 de fevereiro de 1895, em carta a Magalhães de Azeredo, cujo início é ―Meu querido amigo‖. Para este destinatário, em um universo de 52 cartas enviadas por Machado, apenas quatro não contêm, na saudação, o termo ―querido‖. Era comum Machado tratá-lo de ―querido amigo e poeta‖. Para a configuração da salutatio nos moldes da ars dictaminis e seus resquícios, é emblemático o exórdio da carta endereçada a Azeredo, de sete de dezembro de 1897, transcrito abaixo (mantida a grafia original):

Meu querido amigo,

e não amigo e poeta, como usava até aqui, porque é tempo e mais que tempo de affirmar, pela exclusão de um só termo, o seu talento de prosador também, que se aperfeiçoa de dia para dia. Amigo só, sem mais nada, abrange tudo, não só o poeta das Procellarias, como o narrador de contos e de viagens. Não fallo tambem do critico, porque seria suspeito, depois do artigo, que publicou a meu respeito no ultimo numero da Revista Moderna. (ASSIS, 1969, p. 129)

Certamente, a expressão ―amigo‖ não era apenas empregada para abranger os ofícios de poeta, prosador e crítico de Magalhães de Azeredo, como dito no texto. Uma amizade se firmava, se não no âmbito da presença física efetiva e constante, visto que a vida de Azeredo foi quase toda no exterior, no mínimo, no sentido de certas trocas de gentilezas entre os interlocutores, através de artigos de críticas literárias. Machado, por sua vez, desde o início da carreira literária do pupilo havia sido procurado para intermediar publicações, como se verifica na extensa troca de correspondência entre os dois. As cartas a Azeredo foram publicadas em edição separada das obras completas, organizada por Carmelo Virgillo, em 1969.

Já no epistolário da edição completa organizada por Afrânio Coutinho, a expressão ―meu querido‖ (na salutatio) aparece primeiramente em carta a Mário de Alencar, de 1º de janeiro de 1898, reaparecendo em duas cartas escritas por Machado no ano de 1900, em três missivas de 1901 e assim por diante, porém tornando-se mais constante nos dois últimos anos de vida do autor, quando, assolado pela solidão e pela velhice, certamente mostrava-se mais subjetivo.

Um dos destinatários mais acionados foi José Veríssimo, contudo não há, na salutatio das cartas lhe enviadas, nenhuma menção mais íntima do que a expressão ―Caro amigo‖. A primeira carta, aliás, enviada em 19 de abril de 1883, inicia-se com o formal ―Ilmo. Exmo. Sr. José Veríssimo‖. A segunda correspondência, datada de 2 de dezembro de 1895, apresenta

―Ilmo. am.º e colega‖ e só a partir de dezembro de 1897 o tratamento passa a ser ―Meu caro José Veríssimo‖ ou ―Caro Veríssimo‖ com pouquíssimas variações. Essa suposta distância também foi percebida por Hélio Guimarães e Vladimir Sacchetta (2008, p. 33-4):

São raros os momentos em que Machado, avesso a derramamentos emocionais e ao tom confessional, nos deixa entrever sua intimidade. Mas é possível distinguir, nas formas de tratamento que utiliza, os diferentes níveis de afeição que tinha por seus interlocutores. Ao crítico José Veríssimo dirigiu-se sempre com um distante e respeitoso ―Meu caro Veríssimo‖. Com Joaquim Nabuco, o tratamento oscilou bastante ao longo dos anos, entre o ―meu caro Embaixador‖ e o ―meu querido Nabuco‖.

Sempre querido foi Salvador de Mendonça, com quem se correspondeu por mais de trinta anos.

As posições dos interlocutores são determinantes nas formas de tratamento. Tanto Machado quanto seus destinatários foram tratados convenientemente de acordo com a idade ou com o cargo, como preconizava a ars dictaminis. Magalhães de Azeredo, por exemplo, um jovem embaixador e escritor, invariavelmente, chamava Machado de Assis de ―Mestre e amigo‖. É visível a posição do autor de Dom Casmurro, na correspondência com Azeredo, como alguém mais velho, como se fosse um pai, e, sobretudo, como uma autoridade já consagrada das letras, ou prestes a ser, no cenário cultural estabelecido pela Academia Brasileira de Letras.

Um dos amigos mais próximos de Machado de Assis foi Francisco Ramos Paz, com quem dividiu moradia na juventude. As cartas endereçadas a ele, algumas delas bilhetes, dispensam qualquer formalidade, naturalmente. O tratamento, muitas vezes, se resume ao nome ―Paz‖ no início da carta. Por sua vez, quando escreve a Rui Barbosa, Machado não dispensa o ―Ilmo. Sr. Dr.‖ ou o ―Exmo. Sr. Senador‖. O Barão do Rio Branco é o ―ilustre‖ ou o ―eminente amigo‖.

Nas cartas inseridas na seção de Crítica e na Miscelânea, conforme organização de Afrânio Coutinho na Obra completa (1986), a salutatio não apresenta significativas variações, até porque, algumas delas, foram escritas a particulares e só depois os destinatários a fizeram públicas, como é o caso de Lúcio de Mendonça, que tornou a carta de Machado de Assis versando sobre o livro Névoas matutinas prefácio da própria obra (cf. BARBOSA, 2007, p. 60). Além disso, Machado tinha plena consciência de que as cartas invariavelmente eram passíveis de publicação:

A carta é privada, mas o assunto é público, ou de interesse geral, como o foram as cartas publicadas nos jornais e periódicos. Machado de Assis, assim como todos aqueles que publicaram nos periódicos brasileiros, tem consciência de que seus

escritos estarão sempre destinados a um público amplo, seja por meio da leitura oral, própria àquele século, seja pela cópia daquele original – outra prática que o jornal absorveu com muita naturalidade. (BARBOSA, 2007, p. 62)

Em resposta a José de Alencar, a respeito da recomendação do jovem poeta Castro Alves, Machado de Assis dirige-se com o respeitoso ―Exmo. Sr.‖ e, ainda no exórdio, com a expressão ―V. Ex.ª‖, deixando transparecer retoricamente a posição já consagrada do autor de

Iracema. Na mencionada carta a Lúcio de Mendonça, a expressão usada foi ―Meu caro poeta‖, fórmula que vai se repetir nas outras duas cartas-prefácio: uma destinada a Francisco de Castro, para o livro Harmonias Errantes, outra endereçada a Enéias Galvão, para o livro

Miragens.