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3. METHODOLOGY

3.2 P ORTFOLIO SORTING

A narrativa do conto “Mary Benedita” acontece na ocasião em que a narradora principal está hospedada na cidade fictícia Manhãs Azuis, quando a protagonista que dá nome ao conto a procura para contar sua história. Mary é uma pintora poliglota que, logo após tal encontro, assume a narração, contando como foi sua trajetória até ali. Ela tem urgência de relatar: “My sister, quem tem os olhos fundos começa a chorar cedo e madruga antes do sol para secar sozinha as lágrimas. Por isso minha urgência em deixar o meu relato” (EVARISTO, 2011, p. 60). Mary começa falando de como vivia correndo quando criança: corria indo para a escola, para a igreja, pelo chão do sítio onde vivia. A única coisa que a freava era a contemplação do mapa mundi. Ela tivera uma infância humilde, porém nutria

83 sonhos de viajar, conhecer o mundo. Além disso, gostaria de aprender artes, como a pintura e a música e aprender outras línguas.

Tais desejos fazem com que ela crie uma estratégia de fuga de sua cidadezinha, pois sabia que ali ficaria parada no tempo. Finge então uma doença, cujos sintomas eram a imobilidade e o cansaço, tão opostos a sua vida comum de menina que sempre tinha pressa. Mary tinha uma tia solteira e independente que morava na capital. Os pais, preocupados com sua doença, decidem mandar Mary para junto dela, devido às facilidades de uma metrópole, mais especificamente facilidades relacionadas a tratamentos médicos, disponibilidade de hospitais e acesso a medicamentos.

Feita a viagem, Mary é desmascarada e conta para sua tia Aurora o real motivo de sua presença: queria ter acesso aos estudos; queria, depois disso, conhecer o mundo. Após a discordância da família, que não via com bons olhos o fato de a filha morar com uma tia solteira, Mary finalmente consegue o que desejava: seus pais consentem, a contragosto, e ela vai morar com a tia. A protagonista aprende música e pintura, torna-se uma artista de fama internacional e concretiza seu sonho de viajar pelo mundo e aprender novos idiomas.

A violência simbólica nesse conto é extremamente sutil. Ela aparece nas vezes em que a família da Mary, na melhor das intenções, tenta impedi-la de realizar seu sonho, por questões relacionadas a costumes patriarcais disseminados pela moral religiosa. Note-se que a religiosidade está entranhada na vida familiar: “correndo, entrava esbaforida pela igreja adentro, assustando o padre e envergonhando a família” (EVARISTO, 2011, p. 61); “não foi preciso outras encenações nem choro, logo surgiram velas. Rezas de minha mãe e de minha madrinha, junto ao altar de Senhora das Graças, para que a força dos movimentos se apossasse novamente de mim” (p.61); “minha família entendeu que eu estava doente. Nada que pudesse ser curado com chazinhos, benzeções, rezas e promessas” (EVARISTO, 2011, p. 62); “vovó Andiá rezava alto o terço, duas vezes por dia, em minha intenção” (EVARISTO, 2011, p. 62).

Tal religiosidade repercute na educação feminina. Como se sabe, as mulheres, segundo a educação católica, devem se espelhar na figura da Virgem Maria, que vivenciou os papéis femininos aceitos pelos homens: o de esposa e mãe

84 ou o de virgem em busca da santidade. Dentro dessa perspectiva, são apenas dois os possíveis destinos reservados às mulheres: o casamento, visando a constituição da família, cuidado com o marido e a criação dos filhos ou a consagração à vida religiosa no interior dos conventos.

Por isso, quando a menina Mary Benedita revela suas reais intenções, tia Aurora já imagina qual será a reação do irmão e da cunhada, sobre a possibilidade da partida definitiva da menina para a capital.

E foi com essa aflição instalada no peito que pedi à minha tia Aurora que contasse toda a verdade e que também suplicasse aos meus pais que me deixassem morar com ela. A resposta foi que, talvez, os meus pais pensassem que ela seria a pessoa menos indicada para cuidar de uma mocinha. Não entendi. Na minha inocência, eu nem imaginava qual conceito a família tinha dessa minha tia, uma mulher solteira, estudada, que morava sozinha na capital (EVARISTO, 2011, p. 63).

Tia Aurora é, portanto, a rasura do molde patriarcal, que o discurso da Igreja reforça e louva. Por isso o receio da família de Mary. Por isso as diversas tentativas do pai e da mãe de buscá-la de volta. Mas o percurso traçado pela menina imita o caminho da tia e ela não sucumbe à imposição do destino.

A presença do mapa mundi na narrativa metaforiza a possibilidade de inventar rotas alternativas, escapar de um destino imposto, no caso, a uma humilde menina do interior. Sobre mapas como metáforas, assim escrevem Gilles Deleuze e Félix Guattari:

O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social. Pode-se desenhá-lo numa parede, concebê-lo como obra de arte, constituí-lo como uma ação política ou como uma meditação (DELEUZE e GUATTARI, 2002, p. 42).

O que faz Mary Benedita, senão rasgar um mapa antigo que o patriarcado havia desenhado para ela? Mary fez o trabalho da reversão, do desmonte, da modificação. Para explorar o mapa do mundo e atravessar as fronteiras de sua condição precisava desenhar seu próprio mapa, inventar atalhos. “E me quedava, durante horas inteiras, com atlas nas mãos, imaginando percursos sobre infinitos caminhos” (EVARISTO, 2011, p. 61.) Logo, diante de uma “ordem” de existência

85 imposta e que é vista pela oprimida como desordem, se estabelece o conflito trágico, com desfecho positivo.

Outros temas são também abordados no conto, como o drama da representação e a retomada do contra discurso da menstruação positivada. O drama da representação surge na narrativa em uma cena em que Mary vê a tia chorar ao tocar violino. Ela revela, não sem angústia: “um dia, hei de retomar essa imagem em uma pintura... mas, como pintar a concretude da solidão de uma mulher?” (EVARISTO, 2011, p. 66).

O tema aparece no inquietante clímax, quando a protagonista conta à “colhedora de histórias” que seu sangue é também matéria prima de suas obras de pintura:

Crio as minhas próprias tintas de maneira bem artesanal. Aprendi com as mulheres de minha família a extrair o sumo das plantas; cresci vendo minha mãe macerar folhas para tingir nossas roupas. [...] Entretanto há uma pintura que nasce de mim inteira, a tintura também. Pinto e tinjo com meu próprio corpo. Um prazer táctil imenso. Uso os dedos e o corpo; abdico do pincel. Tinjo em sangue. Navalho-me. Valho-me como matéria-prima. Tinta do meu rosto, das minhas mãos e do meu íntimo sangue. Do mais íntimo sangue, o menstrual. Colho de mim. Bordo com meu sangue-útero a tela (EVARISTO, 2011, p. 68).

Pintar com o corpo, com o próprio sangue. Navalhar-se. Tentativas dramáticas extremas de imprimir a concretude da própria solidão na tela, de representá-la em linguagem.

O tema da positivação da menstruação como contradiscurso (frente ao discurso dominante sobre a menstruação como ocorrência debilitante e, por isso, negativa) está presente na história de Mary Benedita. Quando a menina vai morar com a tia, esta lhe explica tudo sobre o sangue menstrual, que ela passa a aguardar com alegria.

Quando sangra pela primeira vez, as consequências são todas positivas, Mary sente prazer de ser mulher e isso provoca nela a vontade de pintar: “quando meu sangue jorrou de mim, fui tomada pelo prazer intenso de ser mulher e queria fazer algo que traduzisse aquele momento. Resolvi pintar, fazer algo” (EVARISTO, 2011, p. 67). Logo, a menstruação, ao contrário de ser debilitante como quer o discurso misógino do patriarcado é, para Mary Benedita, motivo de celebração e ação.

86 Em suma: em “Mary Benedita”, a violência simbólica se manifesta sutilmente, a partir do discurso moral religioso refletido na educação familiar, baseada, muitas vezes, em preconceitos em relação a determinados tipos de comportamento feminino, como o de tia Aurora, mulher solteira, independente, intelectualizada e urbana. O texto também nos leva a refletir sobre a necessidade de rasgar, desmontar e inverter mapas, para que as mulheres possam seguir seus próprios roteiros e não se submeter à cartografia trágica do patriarcado.