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4. DATA

4.2 S AMPLE S TRUCTURING

“Isaltina Campo Belo” é um dos contos de Insubmissas lágrimas de mulheres onde violência física e violência simbólica coexistem, sendo uma consequência da outra. A narrativa tem início com a chegada da “colhedora de histórias” à casa de Campo Belo: “e quando os nossos sorrisos serenaram, ela me agradeceu pelo fato de eu ter passado pela casa dela, para colher a sua história” (EVARISTO, 2011, p. 48-49).

Como em grande parte dos contos do livro, a narradora principal (colhedora de histórias) introduz o relato para depois passar a palavra à protagonista. Campo Belo narra com a fotografia da filha de 35 anos nas mãos. Recupera então parte da memória ancestral para justificar uma infância financeiramente feliz, diferente da de muitos afrodescendentes como ela.

Nossa família, desde os avós maternos de minha mãe, se encontrava estabelecida na cidade. Eles tinham chegado ali como negros livres, nos meados do século XIX, com uma parca economia. Minha mãe, orgulhosamente nos contava a luta de seus antecedentes pela compra da carta de alforria (EVARISTO, 2011, p. 50).

O pai de Isaltina também teve acesso aos estudos, pois os pais dele, depois de muito trabalharem para fazendeiros, puderam economizar e iniciar o próprio negócio. Não obstante a ausência de dificuldades financeiras na infância, Campo Belo se sentia incomodada, pois tinha a impressão de ser um menino e não uma menina. Pensava que os adultos não haviam percebido isso, que estavam errados.

87 Na verdade, Campo Belo não era um menino em um “corpo errado”, como são os transexuais e as transexuais. Era uma menina homossexual, cuja identidade de gênero permaneceu confusa por muito tempo, devido à violência simbólica imposta pela heteronormatividade, um dos braços do patriarcado. Por isso, como se sentia errada no mundo, deslocada, acabou por “amarrar” seu desejo, contendo-o e fugindo dos pretensos namorados, recusando-os.

O sentimento de deslocamento de Campo Belo começa na infância, quando a mãe reproduzia as lições sobre o comportamento adequado a meninos e meninas, oriundas do patriarcado. “Mamãe veio ralhando comigo contra meu escândalo e ordenando que descêssemos da árvore (aliás, ela não gostava que subíssemos em árvores, só o meu irmão podia).” (EVARISTO, 2011, p. 53).

Na adolescência, tal sentimento é intensificado a partir da ampliação do repertório de conhecimento sobre a sexualidade humana, adquirido tanto em livros, quanto nas ruas, que, em ambos os casos, se tratava de uma visão heteronormativa. Provavelmente, em tais manuais, a palavra “lésbica” era proibida. Daí a confusão da protagonista ao se identificar como um menino, pois não conhecia o nome verdadeiro que a nomearia.

Em pouco tempo, sem que a mamãe-enfermeira soubesse, descobrimos, na rua e nos livros, tudo sobre o corpo da mulher e do homem. Sobre beijos e afagos dos homens para com as mulheres. Lembro-me que fui invadida por certo sentimento, que não sei explicar até hoje, uma sensação de estar fora de lugar. Eu via e sentia meu corpo parecer com o de minha irmã e se diferenciar do porte de meu irmão (EVARISTO, 2011, p. 53).

Logo, os responsáveis pela reprodução do habitus androcêntrico e de seu matiz heteronormativo são a família (mais uma vez), representada pela figura da mãe, o discurso do senso comum, oriundo das ruas e o discurso científico contido nos livros sobre sexualidade lidos por Campo Belo na adolescência.

A violência física acontece como consequência da simbólica, que fazia com que a protagonista se sentisse cada vez mais “estranha no ninho em que os pares são formados por um homem e uma mulher” (EVARISTO, 2011, p. 54). Após muita pressão familiar e tergiversações sobre sua vida amorosa, a jovem Campo Belo decide sair de casa, mudar de cidade, em busca de “um mundo que a coubesse” (EVARISTO, 2011, p. 54).

88 Na faculdade conhece um rapaz que conquista sua confiança e com quem inicia um “namoro sem jeito”. A relação, obviamente, não logra êxito e Campo Belo revela ao amigo seus verdadeiros desejos. A reação do rapaz evidencia a prepotência do macho em relação ao desejo feminino:

Ele, sorrindo, dizia não acreditar e apostava que a razão de tudo deveria ser algum medo que eu trazia escondido no inconsciente. Afirmava que eu deveria gostar muito e muito de homem, apenas não sabia. Se eu ficasse com ele, qualquer dúvida que eu pudesse ter sobre sexo entre um homem e uma mulher acabaria. Ele iria me ensinar, me despertar, me fazer mulher (EVARISTO, 2011, p. 55).

Tal prepotência impede o entendimento da sexualidade feminina independente do homem e prescindindo dele. Para o pensamento heteronormativo, o prazer feminino vem em segundo plano e é inadmissível se for experimentado sem que o homem esteja presente como agente ativo. Nessa perspectiva, o macho é o tutor sexual, o que faz o desejo despertar, o que faz uma mulher ser uma mulher, como está claro no discurso do rapaz.

Apesar da recusa de Campo Belo, ela e o rapaz continuam amigos. Até o momento em que é convidada para a festa de aniversário dele e é estuprada por ele e por mais cinco homens desconhecidos.

Nunca podia imaginar o que me esperava. Ele e mais cinco homens, todos desconhecidos. Não bebo. Um guaraná me foi oferecido. Aceitei. Bastou. Cinco homens deflorando a inexperiência e a solidão de meu corpo. Diziam, entre eles, que estavam me ensinado a ser mulher (EVARISTO, 2011, p. 56).

Diante da recusa de Isaltina Campo Belo de se enquadrar no modelo heteronormativo dominante, o homem rejeitado sexualmente reage com violência e covardia, pois não admite que seu discurso seja contrariado e que sua potência seja desmerecida.

A história de Campo Belo não termina aqui. Logo depois vem a gravidez, que ela só percebe no sétimo mês de gestação, devido ao impacto psicológico que a violência tivera em sua vida. Nasce sua filha, a quem dá o nome de Walquíria. Com o bebê, retorna para a casa dos pais. Quando Walquíria já estava em idade escolar, as duas se mudam novamente.

89 Numa reunião da escola infantil onde a filha fora matriculada, Campo Belo se apaixona por Miríades, a professora da menina. Só então descobre sua identidade de gênero, como se experimenta um epifania:

Naquele momento, sob o olhar daquela moça, me dei permissão pela primeira vez. Sim, eu podia me encantar por alguém e esse alguém podia ser uma mulher. Eu podia desejar a minha semelhante, tanto quanto outras semelhantes minhas desejavam o homem. E foi então que eu me entendi mulher, igual a todas e diferente de todas que ali estavam (EVARISTO, 2011, p. 57-58).

O conto termina apresentando uma família em que o homem não está presente, pois não é necessário. O grupo familiar composto por três mulheres (duas mães e uma filha) rasura a família patriarcal tradicional, orientada pela heteronormatividade.