Como já explicado, após a fase de capacitação de rádio nas escolas, cada instituição de ensino tem 20 dias para produzir a reportagem de dois minutos e meio sobre o projeto social. Depois dessa etapa, um aluno da escola irá gravar o texto produzido por ele e seus colegas, daí a necessidade de estabelecer uma estreita relação entre escrita e fala.
Como se diz informalmente nas redações de rádio, escreve-se para quem vai ler. O estudante-redator, que prepara o texto para o aluno-locutor estará atento à ―virtude expansiva das palavras‖ (Artaud apud Zumthor, 1993, p. 244) para redigir textos sobre um tema a ser apresentado. Assim, ele incentivará o colega locutor a ler de forma interpretada e não semelhante àquela que se vê em sala de aula tradicional, como se está acostumado em muitas escolas, e sim uma leitura que seja mais interativa e menos monológica, como a descrita assim por Martín-Barbero:
―O rendimento escolar se mede por idades e pacotes de informações aprendidos. E é a esse modelo mecânico unidirecional que responde a leitura passiva que a escola fomenta, prolongando a relação do fiel com a sagrada escritura que a igreja instaura. Assim como ao clero se atribuía o poder da única leitura autêntica da Bíblia, os professores detêm o saber de uma leitura unívoca, isto é, aquela em que a leitura do aluno é puro eco‖ (MARTÍN- BARBERO, 2004, p. 336).
O maior desafio está, parece, em se voltar a motivar a leitura em voz alta em sala de aula. A título de exemplo, o regulamento do Prêmio prevê um período de quatro horas para a gravação da reportagem e, na maioria dos casos, o espaço é inteiramente preenchido.
Os jovens apresentam sérias dificuldades de leitura, afinal não é fácil ler com clareza. A escola de hoje parece desestimular a leitura à moda antiga, o que pode estar contribuindo para um silêncio exagerado de jovens que poderiam se expressar de forma ainda melhor.
Na capacitação, um mês antes da fase de gravação da reportagem, o aluno é orientado a se preparar para a locução. Entre os aspectos abordados, discute-se em sala a importância de o aluno a ser escolhido para fazer locução da reportagem se envolver com a produção do trabalho bem como conhecer o assunto sobre o qual fará a narração. O debate sobre o conteúdo da Figura 5 tem a finalidade de fazer o estudante compreender que a facilidade em narrar algum fato tem estreita ligação com o conhecimento que se tem dele e, mais do que isso, a boa narração é fundamental para de fato gerar conhecimento naquele que ouve.
Figura 5. Discussão sobre a relação entre o desempenho na narração e o
conhecimento prévio sobre o assunto, na apostila do curso de radiojornalismo.
A relação entre performance ao narrar e conhecimento do tema, em destaque na citação da professora Jerusa na figura, mostra a importância de o aluno notar que, quanto maior o conhecimento sobre qualquer tema, melhor será seu desempenho ao tratar deste, especialmente de forma oral. Não é fácil para qualquer um de nós nos expressarmos de forma convincente e criativa, como forma de prender a atenção de quem nos ouve. Os estudantes devem, portanto, treinar a fala, observar a sonoridade das palavras, saber o momento de inflexões e pausas, e seguir em frente. Diz o professor Norval Baitello que:
―A voz, a sua produção e a produção da fala são uma atividade de extrema complexidade neurológica, com operações de sincronizações musculares de milésimos de segundo. Operações de precisa coordenação motora de músculos do aparelho fonador que requerem um aparato neurológico de refinado desenvolvimento‖ (BAITELLO, 2005, p. 103).
Um dos momentos mais importantes da fase de gravação da reportagem, vivenciado por um único aluno, é aquele em que ele necessita ser convencido de que o gesto, a expressão corporal e ou qualquer tipo de movimento terá resultado diretamente ligado ao som produzido por ele. Nesse sentido, Norval Baitello afirma que
―os ritmos que a compõem são de uma natureza diversa dos ritmos que compõem os movimentos das mãos ou do corpo. Enquanto as mãos tinham (e têm) como principal componente de sua linguagem o espaço no qual se movem, a fala, produzida por movimentos minimalistas dos órgãos fonadores, tem como matéria-prima os ritmos, ou seja, o tempo‖ (BAITELLO, 2005, p. 104).
O aluno locutor tem, portanto, de ter especial atenção à forma de leitura e, principalmente, ao ritmo dessa leitura.
É de se notar que o papel de locutor desempenhado por aquele que se encontra em estúdio é carregado de gesto, expressão facial e produção de som que estão na base da comunicação. Em um exercício escolar, proposta mestre deste trabalho, um caminho possível é descrito por Flusser, ao tratar do gesto de escrever e do gesto de falar (Figura 6): ―As palavras são unidades, que vibram e têm sua própria vida: têm seu ritmo, sua harmonia, suas melodias (...) as palavras projetam todo um parâmetro de conotações‖ (FLUSSER, 1994, p. 35).
Figura 6. Demonstração da importância do gesto durante a locução em aula do
Em seguida, Flusser, observa que não se pode escolher qualquer palavra no gesto de escrever; ―primeiro, é preciso escutá-la‖ (FLUSSER, 1994, p. 35), ou seja, é importante ouvir que diz o texto. Neste instante, é estabelecida uma importante relação entre o aluno no papel de redator de notícias de uma emissora de rádio e a preocupação que deve ter ao escolher as palavras que vai escrever. Deve ser este estudante também um locutor que, como propõe Flusser, consiga
―atrapalhar a palavra no momento em que ela saísse da boca, e tentasse mastigá-la antes de ser expulsa (isso significaria, com efeito, compreender o gesto de falar), logo perceberia que esta chega com um segundo de atraso (...) situando-nos, pois, atrás das cordas vocais e antes do momento da pronúncia, para atrapalhar o gesto de falar, se vê o fulgor da palavra (...) e por isso, curiosamente, o falar conduz primeiro à questão do calar (...) o gesto que retém a palavra antes que ela chegue na boca. Calar significa que a palavra chega a falar em vez de chegar até a boca. Se se quer compreender o gesto de falar, é necessário primeiro considerar o gesto do silêncio, pois em silêncio a palavra chega a falar e resplandecer. ‗Para compreender o gesto de falar, primeiro deve-se aprender a calar‘‖ (FLUSSER, 1994, p. 42).
Esta etapa está a cargo do aluno redator. Ao se calar, tenderá a buscar a melhor palavra para que se constitua o bom texto de rádio e a consequente boa imagem. Deve-se buscar a palavra que seja o som da imagem, conforme o pensamento de Giordano Bruno ao destacar que ―toda palavra tem por iminência uma imagem, a qual serve como fundação; toda a imagem tem por iminência uma palavra, que lhe serve como ressonância‖ (BRUNO, 2012, p. 11).
Além disso, o aluno-redator também deve ouvir o que escreve. O estudante precisa ouvir o som da palavra que estiver prestes a pronunciar, daí a necessidade de conhecê-la, de buscar seu significado e aprender. Ler de forma frequente em voz alta é algo que deve ser estimulado pelos pais inclusive. O aluno pode aprender ao ler sobre o que se está estudando, ao ser o locutor do conteúdo da disciplina e ao se preocupar em transmitir a mensagem – a notícia de Geografia, de Química, de História – de forma clara. Trata-se de perceber os equívocos e dar destaque às sonoridades de um choro, um riso... antes de enviar o texto ao aluno- locutor, conforme lhes é ensinado na fase de capacitação (Figura 7).
Figura 7. O uso de outras sonoridades além da locução é possível por meio da
edição da reportagem, conforme explicado na apostila de radiojornalismo.
O gesto e as mudanças de expressão facial quando se trabalha em rádio são fundamentais nesse caso e o locutor possui tais características; de abrir os braços quando fala de um enorme quadro, de falar pausado e dar passos com a cabeça quando fala de etapas, de sorrir quando noticia algo alegre, de, como pontua Amálio Pinheiro (2013, p. 42), ―inscrever a voz nas reentrâncias das coisas‖. A sonoridade característica de cada reportagem também tem destaque; o autor Joachim-Ernst Berendt, ao explanar sobre jazz, (1975, p. 114), diz que ―cada músico criava seu próprio som, sua própria técnica vocal, sua própria forma de expressão, em função de sua experiência vital e emocional‖. Especialmente os estudantes narradores das produções de rádio podem ser avaliados a partir de tal realidade. De acordo com Murray Schafer (1991, p. 207),
―os pesquisadores têm observado que há muito mais modulação colorida nas vozes dos povos primitivos do que nas nossas. Mesmo na Idade Média, a voz era um instrumento vital. A leitura, nessa época, era feita em voz alta; sentia- se a forma das palavras com a língua‖ (SCHAFER, 1991, p. 207).
Na mesma linha, Joachim-Ernst Berendt afirma que:
―toda a ciência ocultista, todas as práticas místicas fundamentam-se na ciência da palavra ou do som... Há palavras que ecoam no coração; e há outras que ressoam na cabeça. E há outras ainda que exercem um poder sobre o corpo‖ (BERENDT, 1983, p. 47).
O aluno deve, conforme propõe Schafer (1991, p. 208) ―hipnotizar-se com o som da própria voz. Imaginar o som rolando para fora de sua boca‖.
Até os mais tímidos em sala de aula, os quais não conseguem seguir de forma natural as atividades tradicionais de leitura ou de exposição de trabalhos, podem se sentir estimulados a se comunicar no espaço do rádio na escola. O gesto gera ―o discurso sem palavras dos amantes tímidos em demasia para falar que fazem passar seus sentimentos em gestos, sinais ou mímica‖ (Boncompagno apud Zumthor, 1993, p. 244). O desempenho do aluno locutor tem a função precípua de fazer o aluno ouvinte ―compreender a notícia‖ e, portanto, entender a matéria. Zumthor afirma que:
―a partir de outras premissas, e na perspectiva da performance, Brecht criou para si mesmo a noção de gestus, envolvendo, com o jogo físico do ator, certa maneira de dizer o texto e uma atitude crítica do locutor quanto às frases que ele enuncia. Na fronteira de dois domínios semióticos, o gestus dá conta do fato de que uma atitude corporal encontra seu equivalente numa inflexão de voz e vice-versa, continuamente. Donde a capacidade que tem o gesto de simbolizar‖ (ZUMTHOR, 1993, p. 244).
Amálio Pinheiro (2013, p. 27) define a razão de um texto bem escrito pelo aluno-redator como forma de tornar o desempenho do aluno-locutor fundamental para a compreensão da notícia por parte do aluno-ouvinte, ao ressaltar que ―em qualquer escritura bem situada, há uma voz que recupera os metais e matizes do coral da cultura reticulado pela natureza‖. Isto é, o texto bem redigido a partir do qual se demonstre conhecimento por parte do estudante terá como resultado uma performance oral de outro aluno que buscará, em sua memória visual, uma capacidade de descrever e criar imagens sonoras suficientemente bem elaboradas para serem compreendidas por colegas de classe (Figura 8).
Figura 8. A importância da leitura e do texto bem redigido, conforme demonstrado
na apostila do curso de radiojornalismo.
A produção realizada pelo aluno tímido, que não quer ser o locutor ou repórter, tem de ser tão eficiente quanto a voz que articula por meio da locução da notícia ―as sonoridades significantes‖ (Zumthor, 1993, p. 21) dos temas em estudo e que são transformados em notícia. Uma etapa depende da outra e impõe, ao mesmo tempo, o ―caráter delimitado‖ da semiosfera apresentado por Lotman (1996, p. 24), porque apenas em um ambiente de rádio se pode estabelecer a comunicação, neste caso específico.
Se considerarmos a voz que vem do rádio como um dos destaques desse contexto, terá destaque o aluno responsável pela apresentação do programete produzido pelos estudantes. A esse jovem caberá dar o toque final no trabalho do grupo para comunicar, com eficácia, o que está ―no ar‖.
Segundo Paul Zumthor,
―Não obstante, o que deve nos chamar a atenção é a importante função da voz, da qual a palavra constitui a manifestação mais evidente, mas não a única nem a mais vital: em suma, o exercício de seu poder fisiológico, sua capacidade de produzir fonia e de organizar a substância (...). Por índice de oralidade entendo tudo o que, no interior de um texto, informa-nos sobre a intervenção da voz humana em sua publicação — quer dizer, na mutação pela qual o texto passou, uma ou mais vezes, de um estado virtual à atualidade e existiu na atenção e na memória de certo número de indivíduos‖ (ZUMTHOR, 1993, p. 21).
Mais adiante, diz Zumthor (1993, p. 55) que ―o texto é só uma oportunidade de gesto vocal‖.
É fundamental, na proposta deste trabalho, que a compreensão dos textos esteja relacionada aos locais em que estes são produzidos, às pessoas envolvidas, professores, alunos e até os pais, e às épocas de produção, o que deve ser considerado pelo coordenador de um projeto de rádio nos moldes aqui propostos. Paul Zumthor observa que
―O que se encontra profundamente posto em questão é a relação tríplice estabelecida a partir e a propósito do texto — entre este e seu autor, seu intérprete e aqueles que o recebem. Conforme os lugares, as épocas, as pessoas implicadas, o texto depende às vezes de uma oralidade que funciona em zona de escritura, às vezes (...) de uma escritura que funciona em oralidade‖ (ZUMTHOR, 1993, p. 98).
O aluno — ao ser estimulado a escrever para o rádio — tem uma ampla gama de desafios de descrição que vão desde descrever a textura de uma superfície até provocar no colega de sala, no papel de ouvinte, a lembrança da leveza de uma pena ou as características da pipeta volumétrica. Ainda assim, é básico reiterar a função da voz e do gesto na boa comunicação. O que se propõe é que o aluno perceba a função desses dois elementos para a compreensão de uma notícia de rádio que, neste caso, é o conteúdo disciplinar. Paul Zumthor diz que:
―Um laço funcional liga de fato à voz o gesto: como a voz, ele projeta o corpo no espaço da performance e visa conquista-lo, saturá-lo de seu movimento. A palavra pronunciada não existe (como o faz a palavra escrita) num contexto puramente verbal: ela participa necessariamente de um processo mais amplo, operando sobre uma situação existencial que altera de algum modo e cuja totalidade engaja os corpos dos participantes‖ (ZUMTHOR, 1993, p. 243).
Ao citar o ―engajamento dos corpos dos participantes‖, destaca-se a noção de vínculo entre os alunos, apresentada, a sua maneira, por Zumthor. Tanto o aluno-locutor quanto o aluno-ouvinte estabelecem uma relação de apresentação e compreensão da matéria em questão. Significa que o desempenho do aluno locutor das reportagens produzidas pelas escolas é de suma importância para a transmissão da realidade do projeto de ação social de cada instituição de ensino, da mesma forma que o será em um ambiente a ser criado em sala de aula.
O aluno locutor narra algo sobre o que tem conhecimento – seja o projeto social, seja um tópico aprendido em sala de aula.Para tal, deve buscar apresentar imagens por meio do rádio e forma criativa, demonstrando, acima de tudo, que tem o assunto em questão assimilado.
Ao apresentar o tema para os colegas de classe em forma de locução, buscará no gesto seu melhor auxílio para formar imagens. A professora Elisabeth Romero diz que:
―o gesto nasce de uma necessidade interior de expressão, de comunicação — é a primeira e a mais rica linguagem do corpo. O gesto materializa no espaço sua forma, que, mesmo efêmera, fica impressa na memória corporal. Um gesto da mão na mídia primária é sentido pelo outro corpo, é visto ou é ouvido. Ou seja, um gesto torna-se uma imagem visual, ou uma imagem auditiva, ou uma imagem olfativa‖ (ROMERO, 2009, p. 174).
Elisabeth Romero (2009, p. 67) destaca ainda que ―há um diálogo entre o texto e o auditório, o sujeito e sua cultura‖, isto é, entre alunos redatores, locutores e ouvintes existe um ambiente de comunicação que torna, especialmente, a figura do aluno-ouvinte como ativa e preparada para o diálogo ou compreensão do que se apresenta no ―programa de rádio‖.
Aqui, destaco a contribuição de Amálio Pinheiro que aproxima a escrita da oralidade:
―Dizer ‘pororoca‘, por exemplo, em função dessa sequência aliterante de sílabas e vogais abertas, é trazer o ambiente sonoro do encontro do rio com o mar para dentro da boca (...) a escrita não descreve a paisagem; é esta que entra dentro das palavras; não é o sujeito o senhor da escritura, pois esta já se reveste do rumor dos bichos e coisas‖ (PINHEIRO, 2013, p. 144).
No exemplo acima, aparentemente simples, está um suporte teórico bastante rico ao educador e ao estudante sobre como aproximar o dia a dia do rádio àquele da comunicação. Embora na maior parte do tempo, o rádio nos servirá de apoio, é fundamental enxergar as oportunidades que este meio nos dá sem que dele necessitemos. Ao relacionar o ―encontro do rio‖ e o ―rumor‖ dos bichos com a escrita e, antes, com a oralidade, Amálio Pinheiro aponta, de forma certeira, para o resultado esperado: o som do que se diz, daquilo que se quer comunicar. E o aluno deve ser dessa forma estimulado, isto é, a se comunicar e, acima de tudo, ouvir o que diz. Antes, ainda: ouvir a palavra antes que esta saia da boca. Há, de forma concreta, uma espécie de manual de etapas a serem observadas pelos jovens.
A produção de programetes de rádio por parte dos próprios jovens estimula o conhecimento, a troca de informações. Seja em sala de aula ou em qualquer local da escola, o programa de rádio tem um papel que vai muito além de ―se fazer rádio na escola‖: significa uma forma de motivar o aluno a comunicar e se deixar comunicar, a falar e ouvir.
Finalizamos com trecho de recente crítica, publicada no O Estado de São Paulo, do jornalista Luiz Zanin Oricchio sobre um DVD de leituras de poemas de Fernando Pessoa pela cantora Maria Bethania e a professora emérita da PUC-Rio, Cleonice Berardinelli:
―Há, no dispositivo, um desafio, ao qual as duas se aplicam em enfrentar. Reviver, pela voz, o que está no papel. Reviver? Melhor seria falar: fazer viver, pois, como alguém já disse, a grande poesia aspira a ser dita em voz alta. Se existe prazer inegável em tê-la impressa na folha, na intimidade do pensamento, é na voz humana que ganha em emoção. O verso impresso é como a partitura da música, que pode ser apreciada na pauta pelos conhecedores, mas só se torna audível quando executada pelos instrumentos. As cordas vocais humanas são o instrumento da poesia‖ (ZANIN, 2014).
Se existe prazer inegável no texto de rádio, o bom texto deve ser dito em voz alta, e essa execução deve ser realizada de forma poética pelo aluno.